terça-feira, 25 de outubro de 2016

A gramática no texto

      Uma questão que hoje se coloca aos professores de português é se vale a pena ensinar gramática. Muitos consideram que não, alegando que no estudo da língua o que interessa é desenvolver habilidades de leitura e produção textual. Quem diz isso esquece que a gramática não é apenas um repositório de normas; também ajuda a disciplinar o raciocínio e estruturar com segurança a frase.  
         A questão não é suprimir a gramática, mas atentar para a forma como ela deve ser ensinada. Não tem sentido, por exemplo, cobrar o mero reconhecimento das classes de palavras; nem limitar a abordagem sintática à apresentação de períodos em que se pede ao aluno que identifique as funções (sujeito, objetos, predicativo etc.). Tampouco se deve confundir o ensino da norma com a apresentação de listas contendo exemplos de certo ou errado.  
           O trabalho com o texto abaixo é uma pequena sugestão de como proceder. A partir das escolhas feitas pelo escritor, comentam-se tópicos de gramática, semântica, pontuação. Sempre destacando o confronto entre a norma e as modificações, supressões, acréscimos que visam à expressividade. Segue o texto com os respectivos comentários:

                                    Confissões de um dependente

                                                                          Adriano Silva 
                                                                                                                                              
             Confesso: sou um dependente da aprovação alheia (1).  Preciso me sentir amado para me sentir bem. E sofro crise de abstinência quando as pessoas ao redor são pouco carinhosas comigo. Sem o aplauso, sem o sorriso cúmplice, sem o ambiente acolhedor, eu não vivo (2). O mero tratamento neutro me soa sempre como agressão, como postura hostil.
Tem muita gente como eu por . Talvez você mesmo seja um de nós. Ainda que não venhamos a nos organizar numa AAA em que os dois últimos “as” signifiquem “aprovação alheia”, uma coisa é certa: precisamos nos tratar. Quem tem essa dependência se coloca refém do humor alheio. Se alguém é áspero com você, você (3) se culpa e se responsabiliza por isso. Se a outra pessoa é rude, você (3) se preocupa, olha desconfiado para a própria conduta, se desestabiliza emocionalmente.
Os dependentes da aprovação alheia se tornam, com o tempo, seres frágeis. Patéticos até (4), em sua hipersensibilidade, em seu melindre crônico. Ao colocarem sua felicidade em mãos alheias, se tornam pessoas facilmente manipuláveis. Ao definir sua tranquilidade em relação a elas mesmas a partir do olhar dos outros, abrem uma brecha enorme em sua autoestima. Não falta no mundo gente que perceba essa porta aberta e a use para jogar com a carência de afeto. Trata-se dos predadores emocionais. É preciso ter cuidado com eles. Gente que faz desse assédio afetivo uma afiada arma de competição, de ascensão social, de exercício de poder sobre o outro.
Por isso admiro quem não dá a mínima (5) para os outros. Quem nasceu blindado contra o poder da opinião alheia, do que possam pensar ou sentir a seu respeito. Pessoas assim se respeitam mais, se preservam mais. Resolvem suas inseguranças de outro modo, sem expor o traseiro nu na janela (6).  Com isso, imagino, sofrem menos. Essas pessoas sabem que no fundo estamos todos sozinhos neste mundo. E que a opinião que realmente conta sobre elas é a delas mesmo. (em Época)
                                                     Comentários

(1) Nessa passagem é válido destacar a elipse da conjunção integrante, indicada pelos dois-pontos. O autor poderia ter escrito, objetivamente: “Confesso que sou um dependente da aprovação alheia”. Mas com isso não faria o mesmo apelo à atenção do leitor; enfatizaria mais o conteúdo da oração seguinte do que a disposição de se confessar. Valorizando essa disposição por meio da pausa, ele não só dá destaque ao que vem a seguir como se mostra envolvido emocionalmente. A elipse dá certo dramatismo à confissão.
(2) Eis um bom momento para mostrar o efeito da prótase (inversão). A sequência de adjuntos antepostos aos termos principais (sujeito e verbo) aumenta a expectativa do leitor. O comum hoje é preferir a ordem direta, mas não há dúvida de que começar a oração por “eu não vivo” diminuiria a tensão do período. O essencial já teria sido dito; e os próprios adjuntos, colocados na sua posição normal (ou seja, depois do verbo), teriam menos destaque.
(3) O uso de “você” é um recurso típico da linguagem oral. Visa a aumentar a comunicação com o leitor, para quem o autor parece falar diretamente. O recurso funciona numa crônica, como é caso do texto de Adriano Silva, mas não se recomenda em produções que demandam certa formalidade. Quem vai redigir no Enem deve evitar o uso coloquial desse pronome sob pena de infringir a Competência 1.
(4) Essa é uma boa passagem para comentar o efeito positivo da fragmentação da frase. O autor poderia ter escrito: “...se tornam seres frágeis, até patéticos, em sua hipersensibilidade crônica...”. O predicativo (patéticos) está coordenado a “frágeis”, da mesma função sintática. Deveria, então, estar ligado a ele por vírgula. Separado por um ponto, ganha uma autonomia que semanticamente o destaca do adjetivo anterior. O professor pode comparar essa passagem com fragmentações negativas, não estilísticas, que aparecem muito nas redações (aquelas em que se separam as orações subordinadas das principais, por exemplo).
(5) Também é próprio da linguagem oral suprimir partes do enunciado. Nesse trecho, está implícito após o adjetivo “mínima” um substantivo como “importância” ou “atenção”. Podem-se mostrar outros casos de supressão, que também aparecem no texto publicitário, e comentar-lhes o efeito expressivo. Por exemplo: “Aquela garota se acha”, “Ele é o cara”, “Hoje não estou a fim”, “Nativa SPA. Você se sente”.
(6) Nessa passagem se deve chamar a atenção para o disfemismo, que é uma intensificação grosseira ou chula do sentido. O que levou o autor a optar por esse tipo de registro, em vez de escrever apenas: “sem expor excessivamente a intimidade”? Esta segunda forma traduz menos envolvimento pessoal; seria própria de quem comentasse sobre os dependentes da opinião alheia mas não se reconhecesse um deles. A versão disfêmica constitui uma escolha raivosa e agressiva, que sugere repúdio, desconforto, insatisfação consigo mesmo. 

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