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domingo, 27 de novembro de 2011

Considerações heterodoxas sobre a paixão

Dizem que a paixão cega, por isso é recomendável antes de se apaixonar fazer um rigoroso exame de vista. Isso não assegura que você vá escolher a pessoa certa, mas pelo menos impede que sua decisão decorra de uma ilusão de ótica. Embora o amor seja algo que “arde sem se ver”, é bom saber em que fogueira está se metendo.
Já se disse que quem se apaixona não vê o outro. Não vê a sua alma (nem poderia, claro, pois o outro ainda não morreu) nem seu corpo. Segundo a psicanálise, nos apaixonamos por metáfora. Ou seja: quem amamos jamais é quem amamos. É a imagem de alguém que se confunde com a figura do pai (no caso da menina) ou da mãe (no caso do menino). Está aí a explicação pela qual os apaixonados sempre acham que conhecem os parceiros “há muito tempo” (alguns até se lembram de haverem levado uma surra deles, o que os leva a desenvolver na relação um componente masoquista).
Quem inventou a paixão foram os trovadores medievais, mas quem a aperfeiçoou foram os românticos. Eles injetaram nela um componente mórbido, e mesmo fúnebre, que acabou transformando-a num macabro roteiro para a morte. Era muito comum na época os amantes se matarem em pactos que ficaram famosos pela violência e a insana deliberação. A lógica que determinava esses acordos era a de que a morte era a única forma de eternizar o que viviam, pois tornava os apaixonados imunes à passagem do tempo. Vem certamente daí a ideia de que o casamento é o túmulo do amor, mas nem todos concordam com isso. Há quem ache que, pela má vontade de certos casais depois de longos anos juntos, o casamento é mesmo o túmulo do humor.
Os ventos do realismo foram aos poucos varrendo as fantasias românticas e mudando a disposição dos apaixonados. Muitas vezes, quando um deles via o outro morto (geralmente por veneno ou por uma adaga espetada no coração), entrava em pânico e saía correndo. Queria viver! Vivia, mas passava o resto da vida com remorsos por haver traído o compromisso. E à noite era assombrado pelo fantasma do parceiro, que vagava nos ermos celestes prometendo um dia se vingar.
Ao contrário do amor, a paixão tem prazo. Segundo Vinicius de Moraes, dura cerca de três anos. Após esse período, um começa a enxergar os defeitos do outro e se perguntar: mas o que foi que eu vi nele (a)? Quando a pessoa real suplanta a pessoa ideal, duas coisas podem acontecer: ou começa a amá-la (pois o amor faz parecer bonito o feio), ou então faz as malas. Rumo a outra paixão, que terá o mesmo desfecho.
A paixão nos leva a fazer loucuras, como gastar demais no shopping para comprar bons presentes (às vezes a relação acaba e a pessoa ainda está devendo as prestações), perder noites de sono compondo poemas rins ou assistir a shows de duplas sertanejas (só para não desagradar o parceiro, que é fã). Um amigo meu chegou a aderir à macrobiótica porque sua namorada era adepta dessa filosofia, mas com o tempo percebeu que estava perdendo o gosto pelas coisas boas da vida (inclusive pela garota). Um dia teve coragem e foi embora. Orgulhoso de si mesmo, comemorou o feito numa pizzaria e, conforme me disse cheio de prosápia, nunca se sentiu tão “massa".

domingo, 20 de novembro de 2011

Fidelidade canina

O casamento deles andava morno. Os dois fingiam não reconhecer isso, mas chegou um momento em que não dava mais para disfarçar. Foi então que uma noite, depois de jantarem, Clodoaldo falou meio sem jeito para Tâmara:
- Acho que devemos dar um tempo.
- Concordo -- disse ela prontamente.
- Amanhã vou dar entrada nos papéis.
- Ótimo. -- E completou, depois de um breve intervalo: -- Não faço questão de muita coisa. Vendemos o apartamento, e você me dá a metade. Fico também com um dos carros, e com Totó.
- Ah, isso não! Totó é meu.
- Seu? Por quê? Fui eu que sempre dei comida, limpei o xixi, cuidei dele quando ficou doente.
- Mas eu fui quem lhe deu o nome.
- Um nome, por sinal, originalíssimo! -- ironizou Tâmara.
- E você queria “Brad Pitt”! “Brad Pitt Bull”! Ridículo... Não entende nada de cães.
- E você não entende nada de mulheres.
Totó, que cochilava perto dos dois, parece ter percebido que era o assunto da conversa. Baixou uma orelha e empinou a outra, como se quisesse escutar melhor.
- Ou levo Totó comigo, ou não me separo! -- sentenciou a mulher.
- O mesmo digo eu. Sem Totó, não há separação!
Ficaram uns dias nisso, chateando-se mutuamente e agora em rixa declarada por causa do cachorro. Então Clodoaldo teve a ideia:
- Vamos deixar que ele decida.
- Ele?! .Como?
- Botamos nossas malas na sala e fingimos que vamos sair de casa. Cada um chama Totó. Vamos ver para quem ele se dirige. O vencedor o ganha para sempre.
Tâmara aprovou. Tinha com o cachorro uma convivência mais íntima do que o marido, que se limitava a levá-lo para passear e fazer as necessidades fora do apartamento. Clodoaldo via nesse encargo seu trunfo; confiava na atração que os machos têm pela liberdade.
Fizeram como planejado. O cão se habituara a vê-los preparar as malas para viajar. Sabia o que ia ocorrer quando as bagagens ficavam na sala por um, dois dias. Dessa vez estranhou, pois cada um dos donos se postou junto a uma mala e começou a chamar por ele. “Aqui, Totó!” “Não, Totó. Aqui!”
Valia tudo -- estalar os dedos, amaciar a voz, dar pancadinhas no chão. Atarantado, o animal não sabia o que fazer. Olhava alternadamente para um e para o outro, ameaçava ir numa direção mas logo recuava.
Repetiram mais de uma vez a experiência, e nada. Como o cachorro não se decidia, o casamento ia se mantendo. A cada nova encenação Totó se mostrava mais firme e equidistante. Parecia ter consciência de que a sua fidelidade aos dois era o que ainda os mantinha juntos.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Seleção de frases (3)

Entrou em Coma Sutra. De tanto fazer sexo.
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Arranjou uma “amizade colorida” para não passar a vida em branco.
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“Vamos dar um tempo” é quase sempre eufemismo para “adeus”.
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De tanto cortar e resumir os textos, vai terminar publicando suas Obras Encolhidas.
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Não falem dos médicos. Quando eles nos matam, não sabem o que estão fazendo.
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A pior traição é a que o indivíduo faz a si mesmo. O eudultério.
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Decidi viver o agora. Só não sei quando.
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Para quem quer permanecer casado e fiel, o inferno são as outras.
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Não tema viver no limite. A borda é de onde melhor se contempla o abismo.
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Eclético é o sujeito que mistura tudo com certa ordem.

domingo, 6 de novembro de 2011

Considerações heterodoxas sobre o tempo

O tempo é um dos maiores enigmas humanos. Muitos já tentaram decifrá-lo mas, ou não tiveram suficientemente tempo para isso, ou desistiram pela complexidade do tema. A hipótese mais viável é a segunda, pois quem se dispõe a meditar sobre a passagem do tempo não está ocupado com outras coisas e pode se dedicar com muita calma a isso (alguém já disse que, sem ócio, não haveria filosofia nem chá-dançante).
O que mais nos angustia no tempo é o seu fluir inexorável. Se você faz alguma coisa errada, não consegue voltar atrás. O ideal seria que retrocedêssemos no relógio e também conseguíssemos apagar o conteúdo existencial a ele associado. Mas a desvantagem disso é que não aprenderíamos com a experiência, pois ela é feita de erros e perda de tempo. No fim, quando você já aprendeu tudo (até a ler manuais de instrução), não há mais como colocar o aprendizado em prática.
Henri Bergson distingue tempo de duração. O primeiro diz respeito à cronologia; o segundo, à percepção subjetiva que temos do fluir cronológico. Isso é o que faz um evento “demorar mais" do que outro, embora ambos tenham a mesma extensão. Essa diferença perceptiva relaciona-se, freudianamente, com a sensação de prazer ou desprazer. O que é bom “passa rápido”; o que é ruim... “custa a passar”.
Suponha que você tenha cinco minutos para assistir a uma aula de trigonometria e os mesmos cinco para estar com a namorada na praia -- os dois sozinhos, sob a lua, estendidos na areia e sem nem um siri para atrapalhar. O que vai passar mais rápido? Estar com a namorada, claro. Se você acha que é a aula, sofre de algum distúrbio psicológico ou tem interesse pelo professor.
Tem gente que insiste em ignorar a passagem do tempo e faz isto cinicamente, rindo, sem nem ter o cuidado de esconder a “dentadura”. Outros pintam o cabelo mesmo que até agora não tenha aparecido um produto que dê ao tingimento uma cor natural. O resultado é aquele preto ou marrom fechado que delata o ingênuo propósito de quem quer parecer mais novo. Não adianta tentar fingir que o tempo não passa, porque o corpo atesta o contrário. Rugas, estrias, gorduras nos braços e no abdômen acabam revelando a idade que se tem.
Isso não impede, claro, que a pessoa seja espiritualmente jovem e até se dê a excessos participando de grupos da terceira idade (uma amiga minha fraturou a bacia tentando aprender a dançar valsa numa das reuniões). O importante é que tais excessos sejam antecedidos de exames médicos e, dentro do possível, acompanhados por um cardiologista. Mas é bom primeiro saber quanto ele vai cobrar, pois a medida poderá surtir o efeito oposto e, ao receber a conta, o paciente morrer do coração.
Uma das nossas angústias é “matar o tempo” (ao redigir esta crônica, por exemplo, não faço outra coisa), e para isso muitos se submetem a atividades humilhantes como jogar porrinha ou assistir mais de dez vezes ao mesmo filme na sessão da tarde. “Matar o tempo” é esquecê-lo, e só se dispõe a isso quem não tem mesmo o que fazer -- daí os livros de autoajuda aconselharem a pessoa a sempre se ocupar com alguma coisa. Você pode seguir esse conselho rasgando  a maioria deles -- o que lhe ocupará um tempo enorme.
Dizem que não suportamos pensar no tempo porque nos sentimos insignificantes diante do infinito. Conversa! No fundo ninguém dá a mínima bola para o infinito, pois sabe que jamais chegará lá. O que nos angustia é mesmo o efêmero, o escoar ininterrupto de tudo, que ao passar nos arrasta com ele. Se digo “ai”, esse “ai” já passou, e se eu quisesse recuperá-lo não conseguiria dizendo “ai” de novo. Este outro tem o mesmo som e as mesmas letras, mas já não é o primeiro -- o que mostra quanto a linguagem pode ser enganosa. Como diz Heráclito: ninguém atravessa duas vezes as águas do mesmo rio, sobretudo se na primeira foi perseguido por um jacaré.