terça-feira, 25 de agosto de 2026

No calor de Roma

                                 

             Poucas vezes senti um calor tão intenso como o que experimentei em Roma na última semana da nossa viagem. Considerando-se o número de igrejas da cidade, cabia perfeitamente à situação a imagem de Nelson Rodrigues; era mesmo um calor “de rachar catedrais”. Isso não impediu que visitássemos alguns templos, pois esse era o propósito maior dos mentores da excursão – ao qual, mesmo sem muita inclinação religiosa, aderi em nome da harmonia familiar.   

Valeu a pena, dado o esplendor dos templos romanos. Enquanto os visitava, eu não podia deixar de pensar o quanto esse esplendor confirma a influência política e econômica que a Igreja adquiriu após o cristianismo receber apoio imperial com a conversão de Constantino. Tal conversão envolveu sobretudo interesses políticos em um contexto de crise e busca por estabilidade no Império. A fim de abastecer seus cofres, a Igreja passou a vender indulgências aos ricos, que as adquiria para ganhar a Salvação. 

O poder e o dinheiro constituíram um poderoso atrativo para grandes artistas, que encontraram na Igreja um vasto campo para exercer sua imaginação criadora. Pintores, escultores, arquitetos e músicos revestiram de Beleza e simbolismo os ideais cristãos, convertendo conceitos como a graça e a redenção em formas sensíveis. O esplendor das catedrais, a grandiosidade das esculturas, a riqueza cromática dos afrescos e a elevação da música sacra transformaram o apelo religioso numa experiência estética capaz de suscitar recolhimento e transcendência.

Não se conhece o verdadeiro semblante histórico de Cristo, nem o de Maria, a não ser pelos traços concebidos por sucessivas gerações de artistas. Tampouco há retratos autênticos dos apóstolos ou de numerosos santos venerados pela tradição. As imagens que atravessaram os séculos são, antes de tudo, construções artísticas e culturais. Nelas, seus autores projetaram um ideal de Beleza que variava conforme os valores estéticos de cada época, ajustando-os ao anseio de espiritualidade que buscavam despertar nos fiéis. Mais do que reproduzir indivíduos históricos, essas obras procuravam tornar visível o invisível: a compaixão no rosto de Cristo, a pureza em Maria, a serenidade nos santos, a majestade no divino – e também, claro, a fealdade no Mal.

Ao ilustrar cenas e personagens da religião, a arte ajudou a criar a maneira como gerações inteiras passaram a imaginá-los e senti-los. Assim, a força do cristianismo decorreu não apenas de sua doutrina ou organização institucional (boa parte herdada da tradição greco-latina), mas também da extraordinária capacidade de seus artistas de converter ideias em imagens memoráveis.

Graças ao engenho de um Michelangelo, um Bernini ou um Bach, a pintura, a escultura e a música produziram representações dotadas de extraordinária força emocional, promovendo o enlevo e o transporte que a imaginação frequentemente associa à esfera mística. Tais manifestações revestem a Palavra de fundas e sutis emoções, que nos predispõem à aceitação de verdades que não precisam ser provadas e ajudam a preservar o dogma (que é o cadafalso da Razão). A Arte e seu correlato fundamental (a Beleza) tornaram-se a linguagem universal da fé, alcançando tanto os eruditos quanto os analfabetos, que podiam apreender narrativas e ensinamentos religiosos por meio das imagens e dos sons.

O curioso, pensava eu enquanto esteticamente me deleitava, é como todo esse fausto se confronta com os ideais de humildade e desprendimento contidos no ideário cristão. Tivessem dividido suas fortunas com os pobres, os ricos medievais não teriam como subvencionar as obras que hoje enchem os nossos olhos e, a despeito do cenário de desigualdade com que comumente nos deparamos, nos confortam com a ilusão da eternidade.

Como tudo tem um “outro lado”, Roma tem o seu, que é Trastevere (literalmente, além do Tibre, o rio que divide a cidade em duas). Como observam os historiadores, na Roma Antiga o Rio Tibre era não apenas um curso d'água, mas uma fronteira social e psicológica. O lado esquerdo concentrava o poder imperial e a monumentalidade; e o direito, os imigrantes, marinheiros e braçais que vinham construir as grandes edificações que ainda hoje maravilham o mundo.

Numa passada rápida por lá, deu para verificar o contraste. Ruas estreitas e de calçamento irregular, becos escuros nos quais parecia que o táxi não ia caber. De repente emerge desses corredores suspeitos uma pequena praça, e o silêncio é substituído pelo rumor de copos e risadas. O que ali se vê, ao lado de casais sobretudo jovens, mais parece o complemento de um filme de Fellini ou De Sica. Nada que lembre o compungido fervor das orações.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Visita de aniversário

              


Era o dia do seu aniversário. Ele acordou cedo e foi logo fazer o café da manhã. Não tinha expectativa de comemorar, mas certamente parentes ou amigos ligariam para felicitá-lo. Antes de terminar a refeição, ouviu que batiam na porta. Não podia imaginar quem seria àquela hora. Olhando pelo olho mágico, viu que era um velho de barbas, aparentemente inofensivo, e tratou de abrir.  

– Quem é o senhor?

         – Sou o Tempo.

– O Tempo?!

– Sim, meu filho. Sabendo que hoje você completa anos, vim lhe fazer uma visita.

Um tanto desconcertado, perguntou se o desconhecido queria entrar.

– Não. Estou de passagem. Aliás – ponderou filosoficamente –, estou sempre de passagem. Nunca paro em lugar nenhum. Só findarei na Eternidade, que por sinal desconfio de que não há.   

– Por que veio? Quer me dizer alguma coisa?

– Vim para lhe lembrar que existo. Geralmente as pessoas esquecem essa verdade tão óbvia. Você, por exemplo, não tem dado muita importância à minha existência.

– Como o senhor sabe disso?

– Não posso dizer. Minha sabedoria é um mistério

– Mas por que diz que eu ajo como se o senhor não existisse?

– Porque tem deixado de lado certas obrigações, convivido mal com as pessoas, se omitido em fazer o que deve para um dia encarar bem minha irmã... Somos inseparáveis um do outro. Ela é inflexível e não perdoa quem se esquece de mim.

          – E quem é sua irmã?  

          – A Morte.   

Ouvindo isso, ele sentiu um arrepio. Nunca tinha lhe ocorrido seriamente que o Tempo e a Morte eram irmãos.

– Por que o senhor diz que eu não posso encarar sua irmã?   

          – Porque não fez nem faz o que devia. Veja quantos projetos abandonou, a quantos compromissos faltou, quantas palavras se omitiu de dizer (sobretudo aos que ama!) por indiferença ou letargia. E assim foi deixando de ser você.

Ele se sentiu desconfortável com a repreensão e tentou argumentar:   

– Não vejo como esse comportamento pode interferir na chegada da sua... irmã. Depois que ela vem, nada mais tem importância.  O que fiz ou deixei de fazer se apagará quando eu não mais estiver aqui.

O Tempo o olhou com ar sardônico e esboçou um sorriso:

– Você está enganado. Se acontecesse como diz, seria indiferente fazer ou não fazer; sentir ou não sentir; conhecer ou não conhecer. E todos teriam ante a minha irmã a mesma expressão neutra de quem não viveu. Isso tornaria inútil o trabalho dela.

– Inútil por quê?

– Porque não há sentido em tirar a vida de quem já está morto.  

Ouvindo isso, ele se calou. Sentiu-se irritado com aquele intruso, que vinha incomodá-lo no dia do aniversário.  Merecia visita melhor em data tão especial. 

– Já que disse o que tinha de dizer, Senhor Tempo, pode se retirar. Eu esperava que num dia como hoje me trouxesse um presente...

– Dou-lhe não só presente, como passado e futuro. Você não tem de que reclamar. Ou melhor: se reclamar, não será de mim, mas de você próprio por me aproveitar mal.

Falou tais palavras pregando os olhos nele, como para ressaltar a advertência. Depois completou:

– Vou indo. Tenho muitas visitas a fazer.  

Ele passou o dia meditando nas palavras do visitante, que tinham muito de verdade. Perdera momentos preciosos na vida e muitas vezes deixara de fazer o essencial.

      Ao longo do dia recebeu muito menos ligações do que esperava, mas evitou a decepção ou o ressentimento. Certamente a escassez tinha a ver com o que o Tempo lhe havia dito. 

terça-feira, 14 de abril de 2026

À luz do dia

             

           Recentemente uma aluna minha foi assaltada num dos restaurantes da cidade. O episódio não aconteceu à noite, nem ela estava sozinha; estava com um grupo de amigas. Almoçavam no intervalo de uma dessas bizuradas para concursos, que ocorria no prédio em frente, quando o fato aconteceu.

         Os ladrões não apareceram de repente, como se poderia pensar. O grupo percebera o casal bem-vestido que comia a umas poucas mesas de distância. Notaram que o homem olhava muito para elas, e por um momento tiveram pena da mulher. Devia sofrer muito com um parceiro tão enxerido. 

Em dado momento a mulher se levantou e, como que distraidamente, dirigiu-se ao grupo e pegou a bolsa da minha aluna. Quando esta foi reagir, o parceiro se adiantou e apontou-lhe o revólver na cabeça. O grupo ficou estarrecido, paralisado, enquanto o casal calmamente deixava o restaurante e entrava num carro que o esperava a poucos metros.

Narro o episódio para confirmar uma sensação que hoje, mais do que nunca, acomete os habitantes desta cidade. A outrora pacata João Pessoa se transformou num território de insegurança e desrespeito à lei.

Foi-se o tempo em que se procurava a Cidade das Acácias para fugir da violência dos grandes centros urbanos. Agora isso não é mais possível; a violência está aqui, e tem-se exercido de variadas formas. Ora é o crime brutal contra mulheres, que são encontradas seminuas em lugares solitários; ora o assalto seguido de morte a poucas quadras do nosso maior shopping; ora a tentativa de sequestro de empresários em área nobre da praia.     

Os casos acima chocam, mas pelo menos ocorreram na sombra. Seus autores tiveram o cuidado de se encobrir, conscientes de que estavam do “outro lado” da lei e temiam ser justiçados. No roubo da bolsa ninguém foi ferido, mas não se viu da parte dos meliantes o desejo de se esconder. Estavam ali à luz do dia, num ambiente público, como qualquer cidadão de bem que no intervalo do trabalho engole seu justo almoço. Parecia natural que de repente um dos dois se levantasse, pegasse o objeto, e que o parceiro ameaçasse matar a dona caso ela protestasse.  

 Hoje os marginais invadem os espaços rotineiros do homem comum. Já não precisam de capuz nem de sombra para esconder o rosto. Afrontam a lei com acinte e descaro, pois sabem que ninguém os punirá – e nisso João Pessoa já não é diferente das outras cidades. A impunidade, decorrente de uma previsível falha do sistema, entrou no cálculo dos criminosos. Eles sabem que o delito não lhes trará nenhuma consequência grave. O risco é tão só da vítima. 

         O fato é que João Pessoa não é mais o “oásis urbano” que a muitos atraía. Está perdendo a identidade para se assemelhar às caóticas metrópoles que causam pavor a seus habitantes, que se sentem vulneráveis ao transitar em espaços rotineiros; o medo vem alterando a sua relação com a rua e com o outro.

         O roubo da bolsa da aluna foi uma espécie de sobremesa para os bandidos, que saíram sem pagar a conta. Ela pagou a sua graças a uma “vaquinha” das amigas. O episódio abalou-a de tal modo, que desistiu de no dia seguinte fazer o concurso – mesmo porque os larápios lhe subtraíram documentos imprescindíveis para entrar na sala. Quer dizer: ela perdeu não só a bolsa, mas talvez a possibilidade de mudar o seu futuro.

terça-feira, 31 de março de 2026

Entorno da solitude


              Solidão que não se escolhe é abandono – tenho essa verdade como indiscutível há muito tempo.  E a solidão que se escolhe? O melhor nome para ela encontro nos acréscimos que Paul Tillich faz a filósofos como Sêneca, Montaigne e Thoreau: é a solitude. O teólogo e filósofo teuto-americano estabeleceu a diferença de forma sintética e precisa: “A linguagem criou a palavra ‘solidão’ para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra ‘solitude’ para expressar a glória de estar sozinho.”

  Tais vocábulos designam estados opostos, e a distinção entre eles é fundamental para a psicologia e a filosofia modernas. Costuma-se marcar a diferença caracterizando a solidão como um vazio, enquanto que a solitude é plena. Se a primeira sugere isolamento, carência, a segunda remete a paz e autorreflexão.

          Na solidão há desconforto ou medo de ficar só com os próprios pensamentos. Para fugir a isso, tende-se a buscar distrações no mundo exterior (celular, TV, multidões). Na solitude, pelo contrário, o silêncio é bem-vindo pois nele há um propósito; pode ser a leitura, a meditação, a criação de algo, ou simplesmente o descanso mental.

         Para filósofos como Schopenhauer e Nietzsche, a solitude é o selo de um espírito elevado. O primeiro considera que o valor de um homem é medido pelo que ele contém em si mesmo. Quem tem muito por dentro, precisa de pouco fora. Entenda-se esse “fora” como o burburinho da vida social, que exige sacrifício da nossa individualidade para nos nivelarmos aos outros.

         Schopenhauer chega a formular uma parábola sobre o tema, expressa no Dilema dos Porcos-Espinhos. Quando tentam se esquecer no inverno, esses animais se defrontam com um impasse. Se ficam muito longe, sentem frio (solidão); se ficam muito perto, se espetam (conflitos sociais). A solitude é a distância perfeita, pois nela o indivíduo se aquece com o próprio calor e não corre o risco de ser ferido pelos outros. No limite, essa ferida constitui o que hoje se chama de “relacionamento tóxico”. É preciso, como dizem psicólogos, padres e demais terapeutas da alma, fugir dos porcos-espinhos que tentam envenená-la. 

  Nietzsche leva a solitude a um nível mais radical. Segundo ele, para o indivíduo se tonar quem é precisa se afastar do “rebanho”. O autor de “Ecce Homo” acreditava que a opinião pública e a moral rasa eram como poeira que cega; para dela se livrar, o indivíduo precisava ir para as montanhas (uma metáfora a que se associam as noções de distanciamento e altura).

Nietzsche distinguia os que fogem das pessoas por medo (o excesso desse temor podendo chegar ao que hoje se designa como “fobia social”) dos que fazem isso para crescer e, a partir de uma solitude plena, promover o encontro consigo mesmo. Afinal de contas, o indivíduo só pode ser “para o outro” de forma autêntica se primeiro existir para si mesmo.

           A solitude contraria a máxima da canção popular segundo a qual “é impossível ser feliz sozinho”. O verso é de Vinicius de Moraes, que entre paixões e sucessivos casamentos não deixava de se sentir só. Ele tentava compensar com os novos enlaces (e algumas doses de uísque, claro) um vazio que só a poesia era capaz de preencher. As paixões o faziam se sentir motivado a criar; como tinham um exíguo prazo de validade, logo eram substituídas por outras.

        Isso não ocorre na solitude, ou sozinhez, pois nela é possível obter uma satisfação próxima da felicidade. Veja o leitor que acabo de introduzir um novo termo como sinônimo de solitude: sozinhez. O neologismo não é meu, mas do grande Paulo Mendes Campos, e aparece em antológica crônica na qual ele explica a uma garota que acabara de fazer 15 anos a filosofia contida em “Alice no País das Maravilhas”. Escreve o mineiro: “A sozinhez (esquece essa palavra feia que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: ‘Estou tão cansada de estar aqui sozinha!’ O importante é que conseguiu sair de lá, abrindo a porta.”

           Na sozinhez é possível abrir a porta e sair fortificado. Na solidão tende-se a permanecer prisioneiro por inadvertidamente jogar a chave fora ou haver drenado, com a depressão, toda a energia da alma.

           Alice consegue sair “do fundo do poço” porque a sozinhez favorece a introspecção e não raro se constitui num momento de descoberta e autoconhecimento. Torna-nos mais sensíveis à beleza e à poesia. Sobretudo, pode coexistir com a busca de conexão com os outros. Quem a vivencia não usa as outras pessoas como uma tentativa de camuflar seu vazio interior.

           Conciliar a solitude com a alteridade (o ser para o outro) significa entender que esses dois estados não são excludentes, mas complementares. Sem a solitude, a relação com o outro torna-se superficial; sem o outro, a solitude corre o risco de se transformar num solipsismo que não leva a nada. 

segunda-feira, 9 de março de 2026

A bateria


             Semana passada a bateria do meu carro pifou. Como eu estava no subsolo de uma agência bancária, tive que ligar para o seguro a fim de solicitar um mecânico. Uns 30 minutos depois o rapaz veio, examinou o artefato avariado e o condenou.

– Aqui só outra.

         – E agora? Onde posso mandar buscar uma?

– O senhor liga para a loja Tal – e me passou o telefone. Quando eu lhe pedi uma sugestão de marca, ele me perguntou se eu pretendia vender o carro.

– Não. Por quê?

         – Se for vender compre esta, que é mais barata (e me indicou o nome). Agora, se for ficar com o carro por mais um tempo, leve esta (citou outro nome). É um pouco cara, porém bem mais econômica e difícil de quebrar. Duvido que deixe o senhor no prego.

Escolhi a segunda, pois não pretendia tão cedo vender o automóvel. Bateria instalada, voltei para casa pensando na alternativa que o mecânico tinha me apresentado. A escolha fora fácil pois, como disse, o carro ainda iria ficar comigo por um bom tempo. Mas... e se eu fosse me desfazer dele? Qual das marcas teria escolhido?

          Comecei a pensar nisso e senti um arrepio. A pergunta do rapaz tinha implicações profundas; envolvia um dilema moral. Pensei em Kant, que fundamenta sua ética na máxima: “Não faças a outrem o que não queres que te façam.” Se eu escolhesse a bateria mais barata e dispendiosa, que além disso podia quebrar, estaria fazendo a outrem (o eventual comprador do meu carro) o que não queria que me fizessem. 

O curioso foi a maneira objetiva, prática, direta, com que o mecânico me fizera a pergunta. Não havia hesitação nem escrúpulo, como se a proposta fosse muito natural. Ele sempre devia apresentar essa opção aos clientes. Alguns até lhe dariam uma gorjeta pela dica, mesmo que isso reduzisse a vantagem obtida com a escolha do produto ruim. O importante era o pequeno lucro imediato, acrescido do indizível prazer de enganar o outro. Pois esse tipo de escolha não vale só pelo dinheiro; vale também (ou sobretudo) pela sensação de ter sido esperto.  

Já chegando em casa, me dei conta de que a sugestão do rapaz diz muito de nós. No trabalho, no comércio, na política e mesmo nas relações interpessoais, nos comportamos como o sujeito que passa a bateria ruim sem considerar o que isso pode trazer para o outro.

         Tudo fica ótimo até o momento em que somos nós esse outro. E quando nosso carro quebra no meio de uma viagem noturna e ficamos com a família ao relento, protestamos contra o egoísmo do ser humano e lamentamos pertencer a espécie tão mesquinha. Esquecemo-nos de que dela fazemos parte e não raro somos nós a protagonizar a trapaça.      

Talvez seja por isso que este carrão chamado Brasil não anda – ou anda muito desigual. Falta em sua “bateria” a corrente do interesse pelo bem comum. Somos antikantianos por atavismo e convicção, fazendo sempre que possível aos outros o que nunca desejamos para nós.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Mediania

 

           Nasceu às doze horas de um dia temperado. Rigorosamente, nem quente nem frio. O signo era Balança. Veio sem berros, choramingando, e quando a mãe lhe deu o peito ele não exultou. Sentia-se que estava apenas satisfeito.

Houve ligeiro desacordo quanto ao nome que iriam lhe dar. O pai queria José, a mãe simpatizava com Elmano. Ficou Joel – uma fórmula conciliatória.

Na escola tinha comportamento regular; nunca um zero, nunca um dez, nunca uma briga. No máximo umas arengas, que o temperamento de Joel apressava em desfazer. Nos últimos anos do segundo grau, botaram-lhe um apelido: Média Ponderada. Não era em referência ao caráter, mas a uma eventual destreza matemática. Serviria, no entanto, para defini-lo quanto ao espírito – um espírito marcado pela aurea mediocritas.

Com as mulheres Joel não era ousado. Nem tímido. Daí ter logo ficado noivo, situação em que gostaria de ter permanecido pelo resto da vida. Mas como a noiva insistisse e ele não dissesse sim ou não, terminou conduzido à presença do padre. Só que não ia fazer juras; era um expediente muito radical. No máximo, promessas. Ou, antes, disposições. Isso não impediu que saísse da igreja casado e bem-disposto.

Não ambicionava riquezas. Dizia sempre que queria ganhar o suficiente para ter o necessário (não explicava para quê). Desprezava o supérfluo, embora admitisse não rejeitar, aos domingos, uma galinha ao molho pardo. Podia ser branco, para evitar suspeitas do radicalismo politicamente correto.    

Joel às vezes sonhava. Ia ganhar na loto com mais um grupo, formar-se técnico de nível médio, conhecer um museu em Portugal onde se dizia haver reproduções da torre Eiffel, das pirâmides e de Manhattan. Era demais para ele conhecer essas atrações in loco. Além do mais, se isso ocorresse ele deixaria de sonhar.   

Em política, dizia-se um moderado. Não gritava slogans: sussurrava-os. Entre a púrpura comunista e o cinza fascista, preferia o furta-cor centrista. Contra os juízos apocalípticos, não achava que o Brasil estivesse à beira do abismo; o que nos espreitava, segundo ele, era tão só um desfiladeiro – coisa mensurável por qualquer escala métrica idônea. Era enfim pela tolerância com os extremistas e revanchistas, o que o levava a admitir, em ocasiões-limite, a prática de passeatas (com no máximo dez pessoas) e pichações (desde que facilmente removíveis).   

Desconfiava dos idealistas e dos apaixonados; não estavam em si, e duvidava mesmo que estivessem nos outros. Não acreditava no átomo nem no horizonte; eram ficções de espíritos transtornados. E quanto à literatura, sentenciava: não se deve ler o que não represente um instrumento prático imediato. Ultimamente vinha substituindo as obras densas da sua estante por almanaques, folhetos e bulas.

       Teve câncer e morreu pouco depois num hospital de segunda. Não do câncer, é óbvio, mas de uma sequela. O destino lhe deu tempo razoável para se penitenciar dos pecados; livrou-se de alguns, os mais graves, e preservou outros, pois não queria o Céu. Nada de extremos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Esbórnias

                             

Duas histórias de Carnaval. A primeira é a do casal que resolveu “se liberar” durante a festa.  A mulher disse ao marido: “Vá embora e só volte daqui a quatro dias”. Prontamente ele deixou a casa e alugou um flat. Estava solto e só! Como era um tipo respeitável na cidade, resolveu comprar uma fantasia que lhe cobrisse o rosto. Não queria que ninguém testemunhasse seus excessos.

Ocorre que a mulher (Clotilde era o nome dela) também gozava da momentânea alforria. Não ia ficar em casa enquanto o marido pulava com uma odalisca qualquer. Teve também a ideia de comprar uma fantasia e seguir algum desses blocos líricos na aparência e fesceninos na essência, embora seus propósitos fossem virtuosos se comparados com os do marido.

Leandro (o nome dele) estava mesmo a fim de uma esbórnia. Ela queria apenas imaginar que, se lhe desse na telha, poderia viver uma aventura. Só “na telha”, que é um tapume para o mau tempo e as más intenções; não permitira que a ideia adentrasse algum cômodo do seu recatado espírito. Vestiu-se de “Rainha Etrusca”, uma caracterização que imitava a heroína de um filme a que assistira quando era solteira e ainda sonhava. 

         Para encurtar a história: na noite do sábado Leandro viu no meio da multidão aquela mascarada sensual. Ela tinha um jeito familiar, o que freudianamente lhe despertou o desejo.  Acercou-se e começou a paquerá-la. Clotilde deixou que o belo romano se aproximasse e fizesse voltas em torno dela, como um leão das antigas arenas cercando a presa. Fatalmente viria o bote. Leandro pegou-lhe na mão e sussurrou em seu ouvido:

         – Inferno ou paraíso, só vou saber depois que enlaçar o teu corpo.  

          A mulher levou um susto. Já ouvira aquilo, e pela mesma voz. Sacou do rosto a máscara e:

          – Charlatão! Nem sequer foi capaz de mudar as palavras... A mesma cantada que jogou para mim anos atrás!

         Desmascarado, só restou a Leandro seguir a mulher, que resolveu por entre tapas e beliscões antecipar-lhe a Quarta-Feira de Cinzas.                                           

                                                   ****

         A segunda história parece um daqueles relatos de João do Rio que têm como cenário o clima mórbido da Belle Époque. Por exemplo: um homem vê uma mulher sozinha numa das esquinas sombrias da cidade. Ela acena para ele com um sorriso enigmático, e terminam indo a um local ermo onde fazem amor. No fim ele descobre que a mulher era o fantasma de alguém que tinha morrido havia décadas... Brrrr!

          Felisberto não passou por essa experiência apavorante, mas chegou perto. Era noite da terça-feira, o último dia para viver o que ainda não fora vivido. Depois disso, aguardava-o mais um ano de repartição, supermercado, macarronada dominical na casa da sogra.    

        A cidade tinha uma louca, Ismênia, que costumava passear altas horas da noite pelas calçadas com seus cabelos desgrenhados e sua boca sem dentes. O leitor já imagina! Felisberto vê perto de um terreno baldio uma mulher solitária. Aproxima-se, lento e arfante, abraça-a por trás. Quando vai deitá-la, a mulher vira o rosto – e sua gargalhada cortante molha em jatos o rosto dele. O homem corre para casa, lamentando o castigo. Tal como em João do Rio, só podia ter sido castigo. Por sinal muito severo, já que a esbórnia só ficara no desejo.

                                  

                                        



No calor de Roma