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sábado, 13 de outubro de 2018

Apelo

Nenhum gosto é exclusivo.
Nada a todo mundo é grato.
Um prefere romantismo;
outro, a crueza do fato.

Se tem pouca luz o “Poste”
e gera obscura zona,
não reclame; vá, se acoste
(não é caso de intentona!).

Se, de outro lado, o “Demo
ergue o punho, atemoriza,
encontrará seu veneno
na voz dos que tiraniza.

Não é com rancor e ódio
que se combate o inimigo,
pois quem quer que chegue ao pódio
terá que mostrar-se digno.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Petelecos eleitorais (2)


Candidato que usa santinho como panfleto não merece salvação.
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Partidários de Dilma, inconformados com a derrota da ex-presidente, estudam entrar na Justiça para contestar o resultado da eleição. A alegação seria de que houve “golpe”. Um golpe dado pela própria democracia. Pela lógica dos militantes, não se concebe que a vontade do povo vá de encontro ao “partido do povo”. Consultado, Dirceu ergueu o punho e disse que em breve se vai desfazer esse paradoxo.
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A bandeira mais desfraldada nestas eleições tem sido a do combate à corrupção. É possível que ela defina a escolha do novo presidente, confirmando assim que as “revelações” têm mais potencial para mudar o quadro político do que as revoluções.
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Há quem veja no primeiro lugar de Bolsonaro a ameaça de o país voltar à Idade da Caserna. Para desfazer essa impressão, o candidato vem procurado melhorar sua imagem. Recentemente, por exemplo, acenou à comunidade LGBT (mas recolheu logo a mão para não dar margem a interpretações maliciosas) e disse que não ia mais detonar (epa!) o feminismo.
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A televisão orientou incansavelmente o eleitor em trânsito sobre como justificar a ausência. O difícil para mim foi justificar a presença.
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Haddad encarregou alguns assessores de vasculhar o comércio em busca de um removedor potente que o ajude a se descolar da imagem de Lula. Caso não encontre o produto, o candidato deve tatuar o corpo com alguns símbolos do capitalismo, como uma garrafa de Coca-Cola ou um par de tênis Adidas (por sinal, alguns eleitores que não conseguem dizer seu nome o têm chamado pelo nome dessa marca). Haddad cogita também de insistir no apoio de Ciro Gomes, que é bem-visto pelo mercado. Seu medo é que nenhuma dessas alternativas dê certo e ele acabe sem Ciro nem tatoo.
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A Lei da Ficha Limpa representou um inestimável progresso na moralidade da nossa prática política. O Brasil não pode, nestas eleições, dar marcha a réu.
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Após a derrota, Marina levantou-se da Rede e foi consolar seus eleitores. Explicou que o motivo do fracasso é que o Partido Verde, ao qual se aliara, ainda não estava maduro para exercer o poder. A candidata chegou a ser chamada de Submarina, mas não se chateou; prometeu fazer jus ao apelido e reemergir daqui a quatro anos. Dessa vez para não afundar mais.
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A democracia é um regime tão eficaz que permite ao eleitor escolher o autoritarismo que o deve governar.
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Não nos esqueçamos de que toda ditadura é um regime fardado ao esquecimento.

Petelecos eleitorais (1)


      Assistindo ao guia eleitoral, a gente pôde perceber que a maior parte dos candidatos costuma dividir os eleitores por faixa otária.
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Os correligionários de Lula estão torcendo para que ele em breve passe do presídio ao “presido”.
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Depois de avaliar bem a cena, concluí que o atentado a Bolsonaro foi mesmo armação: o agressor estava armado.
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Por falar em Bolsonaro, a preocupação dos médicos quando ele deixou o hospital não foi tanto com os efeitos da facada. Foi com a possibilidade de ele sofrer um ataque cardíaco. Por prevenção, instruíram a família a impedir que o candidato ouça qualquer pronunciamento do seu eventual vice. Se não puder impedir, que nessas ocasiões mantenha por perto uma equipe de cardiologistas e um desfibrilador.
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Li que Haddad não oferece riscos por ser um “perfil moderado”. Ele não seria antes um “perfil modelado”?  
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Marina (apesar do nome) não consegue deslanchar nas pesquisas. O motivo, certamente, é que lhe falta o que os franceses chamam physique du rôle (físico do papel).
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É cedo para os candidatos à frente nas pesquisas cantar vitória. Independentemente de alckimias, o Ciro pode sair pela culatra.
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E você, quantos inimigos já fez nas últimas semanas em nome da democracia?

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

A peteca


Eu fazia o segundo ano ginasial. Meu colégio não era nenhum modelo de prática pedagógica, mas gozava de prestígio na cidade. Estava longe de ser, como se costuma dizer de certas escolas, “pagou, passou”. Também não impunha aos alunos grandes desafios; estudando razoavelmente, a gente conseguia passar de ano até chegar ao temido vestibular. Isso permitia que eu tivesse um razoável sucesso, pois as peladas e os jogos de botão não me impediam de fazer os deveres e me preparar para as provas.
A turma deixava a desejar quanto à disciplina. Falava-se muito, gritava-se vez por outra. Havia dias em que os professores não conseguiam controlar a classe e tinham que chamar o diretor. Ele vinha, dava uma “lição de moral”, prometia suspender ou mesmo expulsar os rebeldes. Isso nos acalmava um pouco, mas não era suficiente para nos manter concentrados. Bastava um espirro, uma tosse estridente (proposital!) para que começassem os risos, que não raro evoluíam para a algazarra. 
Quem nunca tinha esse tipo de comportamento era Jurandir. Sua mãe enviuvara e vivia de faxinas. Como a família não tinha condições de pagar a escola, ele recebera uma bolsa e procurava corresponder com um comportamento exemplar. Evitava todo tipo de indisciplina e era muito esforçado. Sabia que o bom comportamento e a aplicação eram essenciais para que continuasse como aluno. Evitava, assim, deixar-se levar pelas más disposições de espírito dos colegas, cujos pais podiam pagar não apenas a escola como também o curso de língua estrangeira (além de outros pequenos luxos de classe média).      
Entre nossos professores, havia um que era mais duro. Chamava-se Godofredo (quando ele disse o nome, olhamo-nos com um ar de riso). Godofredo dava aula sentado, com a cabeça baixa. Mandava-nos ler um trecho de Camões, ou de Machado de Assis, e pedia que interpretássemos. Como quase ninguém dizia nada, ele não tinha papas na língua para enfatizar a nossa estupidez. Éramos estúpidos porque não tínhamos interesse em ler, conhecer a nossa literatura, dominar os recursos semânticos e sintáticos para escrever bem...  
Hoje entendo melhor Godofredo. Ele tinha um amor verdadeiro pela língua e queria nos transmitir um pouco disso. Queria que crescêssemos. O que lhe faltava era a habilidade para nos sensibilizar. Preferia o confronto direto, a ilustração de nossas fragilidades. Não suportava indisciplina, e quando a turma se mostrava rebelde ele ameaçava chamar os pais para uma “conversa séria”.  
O que houve numa de suas aulas me marcou para sempre. Foi numa dessas ocasiões em que estava difícil controlar a turma, que na aula anterior praticamente expulsara a professora Gisleide, de História (uma candura de pessoa, mas sem força para impor disciplina). Godofredo entrou na sala sério, sentou-se como fazia habitualmente e abriu a gramática. Nesse momento a peteca irrompeu não sei de onde e passou rente ao seu rosto. O giz não o atingiu diretamente, mas bateu no quadro e foi parar em cima do birô. Ele pegou o pequeno petardo, examinou-o, e em seguida olhou para a turma com ar colérico, como se fosse revidar.
-- Quem foi? 
Silêncio. Godofredo ficou nos encarando por cerca de meio minuto. Repetiu a pergunta:
-- Quem foi?! Quero saber agora!
Como ninguém falasse, ele aliviou o semblante e esboçou um sorriso:  
-- Perguntei por perguntar, pois sei quem jogou a peteca. Eu queria ver se o autor tinha a decência de se revelar.
Depois de dizer isso, apontou para um de nós e falou num tom que não admitia réplica:    
-- “Seu” Jurandir, saia da classe e vá até a diretoria. O senhor está suspenso.
Jurandir ficou branco e começou a tremer. Com voz sumida, tentou negar:  
-- N...não f...fui eu.
Sabíamos que não tinha sido ele, mas Godofredo insistia. Repetiu alto, como se falasse para toda a turma:  
-- Foi, sim! Eu vi. Tenha a dignidade de reconhecer e vá à diretoria.
Jurandir levantou-se, encurvado, com lágrimas nos olhos. Olhamo-nos sem saber o que dizer. Como suportar aquela enorme injustiça? Godofredo parecia convencido e não estava disposto a voltar atrás. Se ao menos tivesse apontado outra pessoa... 
Mas antes de o acusado transpor o umbral da porta, um dos alunos se levantou e disse de um jato:  
-- Não foi ele, professor. Fui eu.
Respiramos aliviados. Não nos surpreendia que tivesse sido Claudionor. Ele era pouco estudioso e costumava fazer baderna. Talvez até gostasse de passar um tempo em casa, vendo televisão e lendo gibis.
Godofredo dirigiu-se então a Jurandir, que havia parado quando ouvira o colega assumir a culpa:  
-- Volte, “seu” Jurandir. Sente-se no seu lugar.
Depois olhou para o responsável pela brincadeira, que continuava em pé enquanto era alvo do olhar da turma:
-- E você, “seu” Claudionor, vá para a diretoria.
Voltou ao birô e pediu que abríssemos o livro de textos. Tentávamos voltar ao normal. Notei que ao longo da aula Jurandir permaneceu intranquilo. Parecia desconcentrado e tinha no rosto um resto de palidez. O que se passava pela sua cabeça? Pensava, talvez, que teria sido vítima de uma injustiça caso o colega não assumisse a culpa.  Quanto a mim, jamais tive dúvida; Godofredo sabia muito bem que não tinha sido ele quem jogara a peteca.
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Blog de Chico Viana
https://chviana.blogspot.com/2018/10/a-peteca.html

domingo, 5 de agosto de 2018

Zanzoando (14)

      A utopia da igualdade gerou algumas tiranias modernas, como o socialismo stalinista. É raro um ditador que não invoque, para conquistar o poder, o princípio de que todos são iguais. Esse tipo de pensamento justifica a aplicação de uma diretriz única, confundida com a existência de um único partido. Como pode o Estado, identificado com um partido único, comprometer-se com a diversidade do corpo social? Se for de esquerda, vai demonizar os que têm; se for de direita, vai ignorar os que não têm.
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O turismo vem tornando o mundo pequeno e previsível. É fácil viajar para muitos lugares desde que se tenha dinheiro. Mas quem não tem não deixa de conhecer aspectos marcantes de outros países, pois sempre existem amigos que viajam e postam imagens na internet. Haverá um momento em que a Terra não nos seduzirá mais, e quem quiser exotismo deverá procurá-lo em outro lugar. Pelo que eu soube, existem milionários (uma gente reconhecidamente entediada) que já cogitam de excursões a outros planetas.
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Ansiedade e depressão são como a sístole e a diástole do coração capitalista, cujas batidas repercutem em nós. Ou ele nos apressa até o paroxismo, ou nos retarda até a inação.
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          Deus é para mim tão evidente, que não preciso acreditar nele. O que se evidencia não precisa de crença. Ao nos dar inteligência, Deus agiu como um pai que dá ao filho meios para sobreviver e diz: - Agora é com você. Se vire. As consequências do que você fizer serão suas. E trate de não me decepcionar!
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        Os empresários investem no que dá dinheiro; o que dá dinheiro é o que as pessoas consomem; o que as pessoas consomem é o que as gratifica sem muito esforço (consumo e prazer são irmãos). Isso explica o largo investimento em produtos que promovem uma satisfação imediata. Explica também por que o mercado é pródigo em futilidades.
   

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Zanzoando (13)


A internet potencializou a fofoca. A fofoca não é novidade, claro; sempre houve pessoas que precisam depreciar os outros para se sentir melhores. Mas antes a vida alheia era objeto de comentários discretos. Havia certo pudor do fuxico. Hoje a maledicência é propaganda sem limites nas redes sociais. E a coisa piora devido ao distanciamento propiciado pelo universo virtual. Na conversa frente a frente é mais difícil deixar de lado o escrúpulo, pois o interlocutor está diante de nós. Mas isso não ocorre quando o outro é uma presença remota, e falta o olho no olho.
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Recentemente vi na televisão uma mulher fazer o nome do pai antes de assaltar uma joalheria. Não foi a primeira vez que assisti a cenas desse tipo, envolvendo até crimes mais graves. O indívíduo invoca sinceramente a proteção divina, pois vai correr riscos e pretende sair incólume da aventura. Espera a proteção de Deus mesmo se dispondo a fazer algo errado e prejudicar o outro. O fato é que o apelo dessa pessoa é tão legítimo quanto o de quem reza para fazer o bem (ou afastar o mal). O ser humano molda a crença religiosa aos seus propósitos. O pior dos malfeitores pode se sentir interiormente fortificado por achar que Deus o acompanha e protege. A condição para isso é ter fé.
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           O democrata se curva à vontade do povo. O demagogo curva o povo à sua vontade, dando a impressão de que age em prol do bem público. A arma do demagogo é a ideologia, que tem força de religião e lhe confere uma aura de santidade. Nimbado dessa auréola, ele ganha uma espécie de imunidade moral. Pode mentir, roubar, se corromper, que sempre vai encontrar quem o defenda. Afinal, não existe orfandade mais dolorosa do que a do mito, cuja perda deixa os devotos na mais profunda solidão.
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          Ornitólogo me propôs um roteiro turístico. Começava com Patos, depois vinha Canárias, por fim Guiné. Ora pombas! É melhor ele recolher as asinhas, pois isso não cabe no meu bico.
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Há uma diferença entre ser aborrecido por alguém e aborrecer-se com alguém. No primeiro caso existe uma ação proposital. Somos vítimas de quem voluntariamente quer nos aporrinhar. No segundo, importunamo-nos com o outro sem que ele faça nada para isso. Certos traços do seu comportamento ou da sua maneira de ser nos importunam – e acabou-se. Na segunda situação a culpa é mais nossa do que dele, que não deixa de ser vítima da nossa intolerância.

domingo, 29 de julho de 2018

Sucesso e felicidade


        Sucesso é o novo nome da felicidade. É o ideal forjado pela sociedade de consumo para nos levar a cada vez mais adquirir coisas. Antigamente a suprema aspiração humana era ser feliz. Hoje desejamos o sucesso, que é uma felicidade quantificada, rotulada, carimbada com a marca do prestígio e do dinheiro.
         Uma das diferenças é que a felicidade é para dentro, enquanto que o sucesso é para fora. Repetindo um velho chavão – a felicidade é um estado de espírito; o sucesso, muito mais um estado de corpo. Quando as mulheres enchem os seios e os quadris de silicone, não estão à procura da felicidade. Querem parecer boazudas para abafar as outras e, diante dos homens, fazer sucesso.
O silicone é a vitória do artifício sobre a natureza e constitui um recurso extremo para melhorar a imagem; o sucesso vive essencialmente da imagem. Pela aparência é que ele é medido e avaliado. Ninguém tem sucesso sem o ostentar, pois a ostentação é um dos requisitos para se confirmar o sucesso.
A felicidade não precisa de espectadores nem de aplauso. o sucesso se completa com o olhar do outro. A admiração babosa do semelhante é o grande espelho onde o indivíduo contempla o seu triunfo. Sucesso é triunfo, felicidade é satisfação discreta e recôndita. É o aplauso essencial de si mesmo, você diante do espelho que é sua alma.
O sucesso quer holofotes, a felicidade se contenta com luz natural. Felicidade pode ser um passeio na praia e depois uma água de coco. Sucesso exige transatlântico e cruzeiro a Fernando de Noronha, tudo devidamente documentado para sair, depois, na coluna social. O essencial do sucesso não é a vivência, é o registro. Não é a experiência, é a versão, que deve chegar ao maior número de pessoas possível.
Um e outra são difíceis de conseguir e seguem caminhos opostos. O sucesso exige tática, ousadia e sobretudo muitas concessões. À medida que cedemos a elas, mais distantes ficamos da felicidade.       


Do flerte à paquera

            Camões escreveu que “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. O poeta quer dizer com isso que nosso desejo é mutante. O que queremos hoje podemos rejeitar amanhã, e o que agora desprezamos pode no futuro ser objeto do nosso mais ardente empenho.
            Essa verdade vale também para as palavras. Não que elas possam desejar alguma coisa. Palavras não são gente. Mas o prestígio de que desfrutam varia muito, refletindo a nossa forma de sentir o mundo.
            Um passeio pela ficção de Machado de Assis mostra isso. Quem sabe hoje o que é “tílburi”? Era uma espécie de carro de duas rodas puxado por um animal. Tanto servia ao uso particular como ao público, antecipando o táxi dos dias atuais.
            No tempo de Machado, “bocetaera uma caixinha em que se guardavam pequenos objetos ou rapé. Não tinha o sentido “cabeludo” que lhe dão hoje. Machado usa-a mais de uma vez para se referir à caixinha de onde Pandora, a mãe Natureza, retirou as desgraças que atingem os homens.
            O próprio rapé também saiu de moda, pois hoje uma turma pesada prefere cheirar outra coisa. Ninguém cheirava rapé paraviajarou cometer delitos; no máximo essa mistura de tabaco com substâncias aromáticas provocava alguns espirros. Era um estupefaciente descongestionante. 
            Falo da época de Machado, mas não é preciso ir tão longe. Os jovens, que hoje desabusadamente “ficam”, há poucas décadas eram chamados de “brotos”. Com a força da sua explosão vegetal, “broto” é mais inocente do quegato”, “gatinha”, “mina” e outros termos que se usam agora.    
            Também se trocou “flerteporpaquera”, que não à toa se deriva de “paca” (“paqueiro” é o cão adestrado para caçar pacas). O flerte era um exercício estético, tinha a gratuidade da poesia. Não culminava necessariamente no ato sexual.
       Flertava-se para degustar a conquista iminente, e muitos se contentavam com os preâmbulos cheios de promessas. a paquera tem muito de uma operação de caça, cujo objetivo é comer a presa.


domingo, 8 de julho de 2018

Uma dúvida socrática

         Sócrates é considerado o pai da filosofia. A sua hipótese de que criamos os deuses em vez de sermos criados por eles constituiu um golpe fatal no universo dos mitos. A partir daí, ficou mais fácil para o ser humano guiar-se pela razão.
        Mas Sócrates também ficou famoso por afirmar: “Só sei que nada sei.” Como alguém capaz de percepções tão certeiras sobre a mente humana poderia “nada saber”? Qual era a intenção do filósofo ao dizer isso?
       Certamente era mostrar que a condição básica para o conhecimento é se despojar das falsas certezas e desconfiar das verdades estabelecidas. Para pensar por si mesmo é preciso “partir do nada”, construir o próprio saber e, com ele, a própria visão de mundo. Isso não significa desconhecer a tradição; significa posicionar-se livremente quanto a ela.
         Os homens se distinguem pelos graus de verdade que podem suportar. As ilusões estão ao alcance de todos; a verdade, só de alguns. Cada um deve ter a liberdade e a coragem de construir a sua.