domingo, 24 de maio de 2020

Notas sobre a pandemia (23)


Houve quem “parabenizasse a natureza” pelo aparecimento do coronavírus, e nada é mais inoportuno (para não dizer desumano) do que uma atitude como essa. Primeiro, por demonstrar insensibilidade com as mortes que a covid-19 vem causando (já basta a indiferença de quem hoje nos governa). Segundo, pela falácia do argumento apresentado. A atual pandemia não veio demonstrar que é imprescindível fortalecer o papel do Estado para evitar a recorrência de tragédias semelhantes. A quantidade de mortes que o Leviatã estatal já provocou, em regimes totalitários, é muito superior à que se deve ao coronavírus. Nada impede que em países capitalistas o Estado se comprometa com a assistência à saúde dos menos favorecidos. O importante é que ele se compenetre do seu papel, deixando de servir aos maus políticos e aos empresários inescrupulosos. A cumplicidade entre esses dois grupos, que alimenta a corrupção, é pior para a saúde do País do que o mais letal dos vírus. Se o vírus ganha terreno (e multiplica as covas), é porque se vêm superpondo as rivalidades políticas à preocupação com a vida das pessoas.


terça-feira, 19 de maio de 2020

Notas sobre a pandemia (22)


      “Morrer só se torna alarmante quando as mortes se multiplicam, uma guerra, uma epidemia, por exemplo, Isto é, quando saem da rotina”. Deparo-me com essa passagem em “As intermitências da morte”, de José Saramago, que comecei a ler. Pelo critério do narrador, morrer se tornou alarmante para nós, brasileiros, pois no País as mortes vêm se multiplicando; o número de mortos em 24 horas ultrapassou mil e cem. O irônico em relação ao trecho do romancista é que elas, as mortes, começaram a entrar na rotina (e não dela sair). Isso explica as mudanças que têm ocorrido em nosso ânimo. No início da quarentena até se fazia humor com a situação. Agora são raros os gracejos e os jogos de palavras, que longe de subestimar a gravidade da pandemia constituem um desafogo, uma catarse, e concorrem para que se preserve o equilíbrio mental. Há risos de dor, como há lágrimas de alegria. Preocupa-me o cansaço que sobre nós vem se abatendo e que pode nos tornar menos sensíveis ao padecimento dos doentes e de suas famílias. Não por indiferença (ninguém quer ter o presidente como espelho), mas por tédio. Ainda não chegamos a esse ponto, mas é urgente que o número de mortes comece a baixar.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Lembrando Celso Cunha



Tive a sorte de por um breve tempo conviver com ele. Nosso primeiro encontro se deu em João Pessoa, onde Celso viera participar de um congresso. Deparei-me com uma figura branda, afável e bem-humorada. Sabendo da sua admiração por José Lins do Rego, convidei-o para conhecer no Pilar o Engenho Corredor.

Fomos em meu carro, numa manhã de sol, contemplando à beira da estrada as plantações de cana e conversando sobre assuntos vários (apesar do ar discreto, ele era um grande conversador). Fez elogios ao autor de “Menino de Engenho” e “Fogo Morto”, que considerava o mais denso e vigoroso de nossos regionalistas pela dimensão trágica da obra.

O segundo encontro ocorreu quando fiz o Mestrado no Rio de Janeiro. Nosso contato dessa vez foi mais extenso, e cheguei a ir algumas vezes à sua casa em Humaitá. Fiquei impressionado com a enorme biblioteca, que transbordava do escritório e se prolongava por outros cômodos. Chamá-lo de bibliófilo é pouco; Celso era um bibliólatra, tal a adoração que tinha pelos livros. As obras eram encadernadas com esmero e cuidadosamente dispostas em ambientes livres de ácaros ou traças.

Numa das visitas que lhe fiz, ele chegou a me indicar mais de um título fundamental para entender a evolução da língua e da literatura portuguesa (e, por extensão, brasileira). Um deles, lembro-me bem, foi “Literatura Europeia e Idade Média Latina”, de Ernst Robert Curtius, que adquiri pouco depois.  

 Certa vez o encontrei com a sua simpática esposa, Dona Cinira, num dos elevadores da Universidade Federal Fluminense, onde eu fora inscrever Denise no Mestrado em Língua Portuguesa. Nesse encontro, fomos convidados para a festa do seu 70º aniversário. Nela ocorreria o “Pagode do Celso”, um evento promovido por alunos, amigos e colegas – todos, como ele, adeptos do samba.   

Poucos sabiam que o erudito professor, sempre nas aulas de terno e gravata, era fã desse ritmo popular e tão brasileiro. Vi-o cantando ao lado de Nei Lopes e de outros membros da Velha Guarda da Portela, que levou a festa pela madrugada. Tudo isso ao embalo de um bom uísque, que o mestre também apreciava, e da cachacinha que circulava farta entre os pagodeiros (o Zeca não desmente a progênie).     

Encontrar Celso Cunha foi como se deparar com um ídolo que a gente se acostumou a admirar de longe. Encheu de emoção o jovem professor que se iniciara em cursinhos pré-vestibulares e dava os primeiros passos no ensino universitário. Sou grato ao que aprendi sobre o funcionamento e as virtualidades do Português na sua “Gramática do Português Contemporâneo" e nas obras voltadas para o ensino médio, que aliam o conhecimento do idioma à perícia didática.  

 Ele foi nosso primeiro gramático moderno. Suas abonações da norma traziam passagens de escritores cuja leitura me estimulava a escrever (Rubem Braga, para citar um exemplo). Celso Cunha me incutiu a percepção de que no dinamismo do presente é que a língua testemunha a grandeza do seu passado. 

sábado, 9 de maio de 2020

Notas sobre a pandemia (21)


            O que é mais difícil suportar? A ameaça do coronavírus ou o quiproquó político que se gerou em torno da opção de ficar ou não em casa? Parece fora de dúvida que o isolamento é o melhor caminho para, num tempo breve, debelar-se a ameaça da Covid-19. Esse ponto de vista é defendido por quem tem competência para ditar regras sobre o assunto (médicos e infectologistas). Mas outra linha de pensamento, encampada ostensivamente pelo presidente da República, afirma que se devem minimizar os efeitos da doença e botar o País para funcionar. Em que ela se fundamenta, não se sabe. Enquanto ninguém chega a um consenso (que, pelo visto, jamais será alcançado), o número de doentes vai aumentando. Certamente crescerá muito no cerrado ambiente de disputa que se instalou entre os Poderes. Alguém precisa dizer ao nosso mandatário-maior que não é improvisando comitivas de empresários rumo ao STF que se vai normalizar a situação econômica do País. Um gesto como esse, ladino e vivaz, coloca-nos mais longe da solução do problema. Quem o patrocina se mostra insensível ao silêncio dos mortos, que deve reverberar em nossa consciência.
          

terça-feira, 5 de maio de 2020

Sem caminho

Num dos seus poemas, Manuel Bandeira fala dos suicidas que se matam sem explicação. Esses são os que mais impressionam.  Esconder o motivo pelo qual se chega ao “gesto extremo” aumenta-lhe o enigma e a dramaticidade. Talvez seja a atitude mais coerente, pois não há por que justificar um ato que se explica por si mesmo. Além disso, como acreditar nas razões dos suicidas? Até que ponto eles são capazes de avaliar com lucidez o seu ato? 

Alguns deixam bilhetes ou cartas se desculpando (o que é curioso, pois se o suicida deve pedir desculpas a alguém é a ele próprio). Esses textos são no fundo um tardio pedido de ajuda ou uma forma de incriminação.

Há, contudo, os que se matam para ficar “mais vivos”. Foi o caso de Getúlio Vargas, que antes de atirar no coração deixou uma carta com a frase célebre: “Saio da vida para entrar na História”. Ele tinha consciência de como o seu papel na vida pública foi aos poucos se denegrindo. O único jeito de restabelecer a imagem era com um gesto que representasse um sacrifício extremo. E qual soaria melhor do que tirar a própria vida?

O bilhete deixado por Flávio Migliaccio não contém um pedido de desculpas. Tampouco vale como uma incriminação, pois ele se refere ao caos político do País e não acusa especificamente ninguém. Sua acusação tem como alvo a humanidade, que “não teria dado certo”.

Concordo com que a humanidade não vem se acertando (e nada garante que ela um dia se acerte), mas não sei se há quem se mate por estar desencantado com ela. O desencanto – por decepção, dor ou cansaço – é sobretudo consigo mesmo. Dostoiévski, em “Crime e castigo”, escreve que para viver o homem precisa sentir que vai a algum lugar. O suicida é alguém que chega à dolorosa constatação de que não tem mais para onde ir.

domingo, 3 de maio de 2020

Notas sobre a pandemia (20)



As ocasiões extremas têm o mérito de revelar as fragilidades de uma organização social (seja ela uma nação, uma cidade, uma família). A "normalidade" costuma escamotear as falhas e permitir que o sistema continue, a duras penas, funcionando. Esse pensamento tem me ocorrido a propósito da epidemia que atualmente assola o mundo, revelando as lacunas e distorções da assistência médica em muitos países. Os Estados Unidos são um grande exemplo. Neles pobres e negros (geralmente se identificam) vêm morrendo porque não existe um sistema público de saúde. Esse é um dado vergonhoso para a nação mais rica do mundo. No Brasil, conforme temos visto pela televisão, a saúde pública é indigente. Doentes se amontoam em corredores de hospitais por falta de leitos. Quando há leitos, faltam respiradores nas UTIs. Sabe-se que laboratórios e universidades buscam incansavelmente uma vacina para a Covid-19 e devem em breve alcançar o seu propósito. Mas isso de nada adiantará se a epidemia não nos conduzir a uma forma menos negligente e mais humana de lidar com a saúde do povo.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Notas sobre a pandemia (19)



Conviver entre quatro paredes é duro, e se torna pior quando descuidamos da imagem – deixando, por exemplo, crescerem os cabelos. Nesse caso o equilíbrio familiar fica literalmente por um fio (ou melhor, por fios demais). O fechamento de barbearias e salões de beleza afeta as relações porque constitui um golpe no narcisismo. Diminui a autoestima, e sem ela ninguém pode se relacionar bem com os outros. É fácil acompanhar pela televisão dicas de dança, relaxamento, exercícios físicos, enfim, todo um conjunto de atividades que facilitam o dia a dia na quarentena. Mas como orientar as pessoas sobre a maneira de desbastar a montanha pilosa que se acumula em seu crânio? Além de feia, ela ainda oferece o risco de dar guarida aos piolhos. E que dizer das mulheres, privadas de frequentar os salões de beleza? Tirem-lhes o cinema, o restaurante, os passeios, mas não as impeçam de adentrar essas pequenas catedrais da vaidade. Toda mulher tem a beleza como primeira religião, e privá-las dos salões redunda em neurose e sentimento de culpa. E quando se instala esse pathos, nós homens é que pagamos pato.

Notas sobre a pandemia (23)