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quinta-feira, 14 de junho de 2018

Para Denise, em mais um aniversário

Mais um ano se soma à tua história 
-- um ano, como sempre, partilhado  
entre os que de tua alma generosa
recebem o pronto e essencial cuidado. 

Tudo que te deseje nesta hora      
pouco dirá do que o coração sente,
pois é difícil presentear agora
quem entre nós sempre se fez presente.

Quisera, nesta data tão querida,
em contraste com teu pendor discreto, 
engrandecer-te na justa medida

e assim reafirmar, estando perto
de ti, que nas errâncias desta vida
és o conforto do caminho certo.

domingo, 10 de junho de 2018

Rasteirinhas

Em 2014, o Brasil foi “a Pátria de salto alto”. O time estava mais interessado em posar e dar entrevistas do que em treinar com aplicação.
O resultado foi o ignominioso 7 a 1, que ainda hoje aparece como uma nota derrisória, um estigma vergonhoso, um ferrão em nossa alma de torcedores.
Naquele ano tínhamos um técnico vaidoso e personalista; agora temos um Tite, que não gosta de ti-ti-ti; sua franqueza de “paizão” consquistou a torcida.
Fala-se que falta empolgação popular, e a tal “corrente” ainda não se formou. De fato. O atual momento do Brasil dificulta a conexão dos elos, mas é bom não esquecer que a Seleção sempre foi a antítese da política e do chamado “mundo oficial”.
O Poder costumava capitalizar as glórias das conquistas mas não se confundia com elas. A Seleção era (e esperamos que continue sendo) do povo. Mesmo porque, no atual momento, ninguém da equipe deve se comover com a possibilidade de receber cumprimentos no Planalto. Seria bola fora.
É preciso recuperar a humildade. A Seleção tem que ser “a Pátria de rasteirinhas” para brigar sem empáfia e dar uma rasteira nos gringos. Sem isso não vai conseguir arrebatar o Caneco. Sem isso, a coisa pode ficar ruça.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Zanzoando (12)

        “Rouba, mas faz” (que a gente tem ouvido muito nos últimos tempos) sugere uma resignação cúmplice. O primeiro passo para vencer a corrupção é instituir o “Faz, mas rouba” e dar o maior peso possível à adversativa. Quem faz e rouba acaba desfazendo o que fez.
                                               ****
        A rigor, não existe renúncia. Toda renúncia é troca, e muitas vezes a alternativa ao que renunciamos nos gratifica mais.
                                               ****
       Toda queixa é agressão. O queixoso invoca a própria infelicidade para provocar culpa nos outros. Ao atribuir aos outros a responsabilidade por seu sofrimento, exime-se de resolvê-lo por si. Ele cultiva uma espécie de narcisismo masoquista, que só faz perdurar a aflição. Mas não se importa de sofrer, contanto que torne visível aos outros o espetáculo da sua dor.
                                               ****
        Sei que sou lento e, quando “vou”, os outros já “estão voltando”. É justamente por ver a cara deles que eu não sinto vontade de me apressar.
                                               ****
      A preocupação com o Além não leva a lugar nenhum. Distorce o essencial do problema, que é saber de onde viemos. Só descobrindo isso é que saberemos para onde vamos (se é que vamos a algum lugar). O mistério está na origem, e não no fim. O fim é o que imaginamos que será; o início é o que realmente foi. O homem pode fantasiar hipóteses sobre o final, em função de suas crenças, mas não pode escapar da matriz de que proveio — a natureza e o que a engendrou.
                                               ****
        Você diz que é capaz de dar uma festa e não filmar os convidados? Duvídeo!

quarta-feira, 9 de maio de 2018

"O mundo é uma frase"

            
          Esse é o título do livro em que James Geary, editor na Europa da revista Time, faz um estudo sobre os aforismos ao longo do tempo. Ele mostra a evolução desse gênero desde quando que era praticado por sábios e profetas até os dias de hoje.
          Seu interesse é estabelecer a trilha de uma jornada do espírito em que se revela algo de comum a todos os homens. Segundo ele, “os aforismos nos reafirmam que alguém passou por ali antes”. Como animais filosóficos que somos, de um modo ou de outro sempre participamos dessa viagem – alguns com refinamento, lendo os grandes  autores; outros com o que é possível aproveitar na  literatura miúda que atualmente recheia as estandes das livrarias.  
      Aforismos, como lembra Geary, não se confundem com provérbios. Enquanto estes são genéricos, “batidos”, os aforismos preservam a nota pessoal. Neles se deposita não apenas um saber, mas também um estilo, que traz as marcas de um temperamento e de um caráter. Para mostrar isso, o autor acrescenta à abordagem sobre cada autor um breve comentário biográfico.  E procura mostrar o quanto as características físicas, a condição social, o sucesso ou sobretudo o fracasso na vida determinam a visão de cada um.
         O livro é erudito e ao mesmo tempo leve, graças ao bom humor com que os tópicos são apresentados. A leveza também se deve ao que há nele de autobiográfico, pois de tão “viciado” em aforismos o autor começou, ainda jovem, a produzir os seus. Foi em encontros improvisados na universidade, quando então escrevia frases do tipo: “Não confie em um animal – não importa quantas pernas ele tenha.” Ou: “Há certos erros que apreciamos tanto que estamos sempre desejando repeti-los.” Graças a uma dessas frases ele conheceu aquela que seria sua esposa.
          Em alguns aforistas o forte é o estilo; noutros o que conta é mesmo a engenhosidade dos conceitos. O exagero de uma ou outra tendência, como observa o autor, pode ter efeitos negativos. Joubert, por exemplo, se esmera em “produzir, da grande de verbosidade no mundo, algumas sentenças simples e cintilantes” e talvez por isso nunca tenha publicado um livro; obcecado pela forma ideal, jamais se dava por satisfeito.  Já Nietzsche “pula de pensamento em pensamento, mas cai e pega fogo sempre que chega ao outro lado”.
          Apreciações breves e certeiras como essas não nos deixam largar o livro. Nele aprendemos muito sobre esse gênero de “todas as épocas” e sobre alguns dos autores que nas mais variadas circunstâncias o cultivaram. Se o homem se define pelo saber que produz ao longo do tempo, os aforismos são trilhas privilegiadas para entender esse percurso. São instrumentos pelos quais o ser humano procura, com o farol da razão, desfazer as brumas da ilusão e da ignorância.

domingo, 29 de abril de 2018

Pontuando


        Para escrever bem, evite exagerar nos pontos de exclamação!!Também não é bom se mostrar... hesitante e... abusar das reticências. E por que desenvolver o texto em forma de perguntas? Por que não ser direto?
        Pior é quem (uma espécie de mania) costuma fazer julgamentos entre parênteses. Outro mau hábito é ficar “refém” de aspas impróprias.
Não use o travessão — quando ele não introduzir expressões esclarecedoras ou enfáticas.
       E se for empregar os dois-pontos, esteja certo de uma coisa: muitas vezes eles impõem ao texto vocábulos desnecessários, como as palavras-ônibus, e tornam o ritmo lento.
         Você deve ter notado que eu ainda não falei do ponto e vírgula; pois aí foi ele, para indicar que o período não tinha terminado.

domingo, 22 de abril de 2018

Zanzoando (11)

Muitos tendem a julgar a opinião de quem escreve como “a última palavra”. Acham que ele é um porta-voz da “verdade”. Quem pensa assim esquece que o compromisso do escritor é sobretudo com a linguagem e que  a verdade do discurso não é necessariamente o discurso da verdade.
                                       ****
Tem gente que nos manda convite para um evento e pede para “confirmar a presença”. Confirmar como, se ainda não estivemos lá?
Pior são os que nos pedem para “confirmar a ausência”!
                                       ****
    Há quem diga “tinha chego”. Essa mania de criar particípios irregulares preocupa os que zelam pela língua. Imaginem um dia a gente ouvir, por exemplo, uma mulher dizer que “tinha pinto”... Não ia pegar bem!
                                                ****
        Fala-se muito na beleza ideal, mas pouco se comenta sobre a feiura ideal. Até nesse aspecto, coitados, os feios sofrem preconceito. Deve ser porque diante dos feios levamos o que se convencionou chamar “choque de realidade”. Nesse caso a feiura seria, digamos, mais sincera, enquanto que na beleza haveria muito de miragem. A beleza é uma promessa de felicidade, como diz Flaubert, e promessas nem sempre se cumprem.
                                               ****
Nelson Rodrigues escreveu que não se faz nada de valor sem uma ideia fixa. Com isso ele antecipou em algumas décadas a recomendação de “manter o foco”, que hoje é recorrente nos manuais de aconselhamento para o sucesso.
                                     ****
Todo homem é mais do que “seu” personagem, por isso evite se confundir com o personagem que você é (palhaço, juiz, cínico, piedoso...). Esse tipo de confusão tipifica e estigmatiza. E sobretudo impede que emerjam outros traços da sua personalidade, pois ninguém é uma coisa só.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Haicais (2)

                          I          
            Certeza ou engano?
            Entre eu e mim
            cabe um oceano.

               II
Voam tristezas e alegrias,
vitórias e fracassos.
Tudo na vida pássaro.

                        III
           Chuva de verão.
           Nuvem de mosquitos
           borra a luz do sol.

                        IV
          Ossos do ofício:
          o coveiro faz da morte
          um exercício.

                       V
          Engaiolado no quarto,
          contemplo ao longe
          o voo do pássaro.

                      VI
         Casamento à burguesa.
         Tédio na cama,
         fartura na mesa.

                     VII
         Estrela cadente
         não apaga os sonhos
         que brilham na gente.

                    VIII
         É probido.
         O quê?
         Não posso dizer.