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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Pelos mortos de Brumadinho


            1        
A lama envolve os cadáveres
e deles não abre mão.
Talvez deixá-los sepultos
fosse a melhor opção.

Fazê-los dormir no barro
— germinante paraíso —
seria prover a lápide
adequada ao sacrifício.

Evitaria que logo
se apagasse da lembrança
a história dessas mortes
— ou melhor: dessa matança.
          
               2
Com tanta lama,
como lavar a alma
de quem chora e clama?

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Quadras da virada


                  1
Uns querem grana, viagens,
festas e mais atrativos.
Do novo ano (confesso)
quero mesmo é sair vivo!

                 2
Que os amigos virtuais  
tenham um ano de alfenim.        
Curtam a vida com doçura
-- mas curtam também a mim!

                3
Você, que espera mudança,
não se iluda muito, irmão.
O ano novo é o velho
com outra numeração.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Poeminha de Natal e algo mais

                                     POEMINHA DE NATAL

  O amor dá frutos
            na árvore da sala.
            Entre rumor e silêncios,
            o coração fala.

                              Pouco importa
                              se é ou não sincero
                              o que ele diz;
                              aquém da porta,
                              a ordem é ser feliz.

                              (Triste de quem, do lado de fora,
                               vaga sem rumo nesta hora).

                                 ****

                   O apreço não se mede
                   pelo preço do presente.
                   Se o amigo é mesmo caro,
                   o que conta no regalo
                   é o “barato” que se sente.
                                ****
                                       Haicais

                                           1
                              Ano-Novo é tempo
                              de muitas promessas:
                              bolhas de champanhe.
                                
                                          2
                    Na canção do tempo
                    falta uma nota só.
                    O tempo não tem dó.

                                3
                   Bom é entrar num novo ano!
                   Ninguém se importa
                   de passar em branco.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Quadras gramaticais


                  1
Tem gente que não consegue
entender uma ironia.
Já vi mulher dar a bênção 
ao ser chamada de “tia”!

                  2
Usar o diminutivo
nem sempre mostra carinho.   
Quanto não há de desprezo
quando se diz “Pobrezinho...”!

                  3
A crase é o pesadelo
daquele pobre rapaz.                                         
Nunca entendeu como um “a”
pode ser também dois “as”.

                 4
Outra coisa, na gramática,
lhe parece não ter nexo:    
como é que uma palavra
pode ser um “objeto”? 

                 5
Coitado do verbo “ser”!
Tão virginal e pudico,
foi incluído no grupo    
dos verbos “copulativos”.

                 6
Se o que foi deixa saudade    
e nos faz doer o peito,   
como é que pode o pretérito 
ser chamado de “perfeito”?

                 7
Gramática e amor se bicam.   
São como fé e ciência.
Não dá pra dizer “Te gosto”
sem massacrar a regência.

                 8
O verbo é o centro de tudo
(a base da oração),
mas concorda com o sujeito 
mesmo contra a opinião.

                 9
Falar em sujeito oculto
é dar um tiro no pé.  
Se está oculto, por que
sempre se sabe quem é?!

               10
O oximoro nem sempre       
altera a lógica e o siso.   
Alguém pode, endinheirado,
não passar de um pobre rico...

               11
Na gramática da vida
nem tudo é bem arrumado.  
Nela sobram os sujeitos
a quem faltam predicados.

               12
Que diria a interjeição
se a nós ela falasse?
Que a dor e a alegria
filiam-se à mesma classe!

               13
A língua define o “gênero”,
que hoje é vago e incerto.
Ao registrar a criança,
é bom deixá-lo em aberto.

               14
Não dá pra compreender
(a não ser por masoquismo)
que alguém prejudicado
“corra atrás” do prejuízo!

               15
Cabe na polissemia  
esta fatídica trapaça:
quem mais faz graça da vida
é quem nela não vê graça.

               16
Às vezes a homonímia
deixa a gente numa boa.
Coroa minha autoestima
quem me chama de coroa.

                17
Se um só ponto já basta 
para fechar a sentença,  
como é então que três pontos
indicam uma... reticência?!

                18
O hiato no casamento
daqueles dois é assim:
quando ela hoje diz “ai”, 
ele diz “não estou a-í”.

                19
Não se acentua oxítono
terminado em “i” e “u”.
Só mesmo “tomando uma”
para acentuar “Pitu”.

                20
Nem toda metáfora é nobre.
Quando ele a chama de “anjo”,
quer que ela abra as asinhas
e acolha seus desarranjos.

                21
O melhor do paradoxo
é o que dele está além.  
Vê mais longe quem percebe  
que a multidão é ninguém.

                22
O tal “plural da modéstia”
é conversa pra bocó.
Onde é que se mostra humilde
quem diz “Somos o melhor”?!

                23
“O mundo é dos mais espertos”
-- eita eufemismo dos bons!
O sentido verdadeiro  
é que o mundo é dos ladrões!

               24
Foi pela sinestesia
que ela matou nosso caso: 
o olhar endurecido! 
o sorriso enregelado!

               25
Palavras mudam de classe.   
Mas quem vai reclamar disso  
quando a garota lhe dá 
um “sim” bem “substantivo”?

               26
Tem gíria barra-pesada.  
É o caso de “desova”,
que traz a ideia sinistra       
de fazer do ninho a cova.

               27
Se o professor lhe pergunta
o que é aliteração,
ele tateia, tropeça,  
tremelica – e não diz não!

               28
Por pensar que antonomásia
fosse o nome da inspetora,
ele hoje é conhecido 
como “o Bobo da Escola”.

               29
Um caso de metonímia
é o que ocorre nas bodas.
Pede-se ao pai da moça “a mão”,
e fica-se com ela toda!

               30
Imitar o som do grilo
é só onomatopeia.
Já ouvir alguém cricri
é de torrar a ideia!

               31
Por verbos defectivos 
nem sempre tenho respeito.  
Quando estou “com o cão no couro”,
eu lato, zurro e trovejo!

               32
Na língua se acha o tal,  
porém não passa de um tonto, 
pois decora os coletivos
mas não sabe usar o ponto.

               33
Se a metáfora é um clichê,
perde a beleza e o frescor.
Evite dizer que a moça
de quem gosta é “uma flor”.

               34
Muitos usam da hipérbole
sem temor ao destempero.    
Eu sou o único no mundo
que não suporta exagero!     

               35
Explicando o arcaísmo,
disse-nos o lente, à sorrelfa: 
“Português bom e castiço    
é o que de antanhos se mescla...”.

               36
O quiasmo é a inversão
das palavras em espelho.  
Entendê-lo não é difícil.
Difícil é não entendê-lo.

               37
Reflexão crucial     
que a paronomásia inspira:    
há momentos nesta vida   
em que a gente ou para, ou pira!

               38
A prática do intertexto   
não vai alterar o jogo.  
“Minha terra tem palmeiras”,
mas meu time é o Botafogo.

                39
Só a palavra-centauro
traduz bem a alternância
entre ansiedade e espera
em que me encontro: esperânsia.

                40
Se quer dar ao seu leitor
uma escrita clara e reta,
do hipérbato não abuse.   
Prefira a ordem direta.

                41
Seu desprezo é um pleonasmo
que a mim irrita e maltrata,
pois ela fica em silêncio
e não diz uma palavra!

                42
A imagem do anacoluto  
figura o meu abandono:
a moça, não se lhe dá 
se me faz perder o sono...

               43
         Quando o mestre falou “zeugma”,
quase nos deixou sem voz.  
Não entendemos a ele;
muito menos ele, a nós.



sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Zanzoando (16)


A fé é a convicção que dispensa prova. Atende a uma necessidade subjetiva. Se preciso crer em algo, pouco importa que ele seja ou não verdadeiro. O princípio que impera nesse caso é oposto ao de São Tomé, que queria primeiro ver para só então crer. A lógica (ou antilógica) que preside a fé é o “crer para ver”. Essa visão, claro, limita-se a um indivíduo ou a um grupo que partilha dos mesmos ideais. Não se evidencia para todos, pois não constitui uma realidade objetiva.
                                   ****
O mercado está tão instável que daqui a pouco vão mudar o nome da Moody’s para Modess, já que a agência altera a classificação de risco todo mês em função das novas regras.
                                   ****
      O corpo pode ser tanto objeto de enlevo e prazer sexual quanto instrumento de ofensa e agressão. Cheiros, orifícios, excrementos podem servir de referências grosseiras para depreciar os outros. Nesse caso o corpo anatômico triunfa sobre o corpo pulsional; o erotismo cede à fisiologia. A isso corresponde um vocabulário dito chulo, que mostra sem disfarces o lado feio da nossa anatomia.
                                  ****
Não se pode chamar de acidente uma ocorrência para a qual existem razões objetivas. Uma morte no trânsito provocada por alguém que dirige depois de ingerir bebida alcoólica nada tem de acidental. Foi ocasionada pelos efeitos do álcool e era previsível. Um evento acidental surge do inesperado, do que contraria todos os cuidados e medidas que podem evitá-lo (alguém que normalmente vai ao médico e sofre um infarto ao volante, por exemplo). Não se pode falar em acaso a propósito de eventos para os quais existe a concorrência da ação humana. Acidental, quando alguém bebe e dirige, é ele chegar ao destino sem atropelar ou matar ninguém. A Lei deve levar isso em conta ao julgar quem se alcooliza e comete infração no trânsito. Quem bebe, afinal de contas, sabe o que está tomando e conhece os efeitos que a bebida traz.
                                ****
        Amar é respeitar a solidão do outro. É não considerar o seu silêncio como indiferença ou rejeição. Os diálogos que alguém tem consigo muitas vezes só são possíveis porque existe ao lado uma presença confortadora, que estimula a reflexão e impede que a solidão se transforme em abandono.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Zanzoando (15)


Sem consenso não há concórdia. Deveria ser diferente, e o ser humano bem que poderia “associar o coração” mesmo àqueles que pensam diferente dele. Infelizmente está longe de ser assim. Tendemos a só gostar de quem se alinha conosco em termos de política, religião ou moral. Uma prova disso é o clima de inimizade que se criou nas últimas eleições. Ninguém estava disposto a fazer um julgamento racional. Os argumentos não apareciam para fundamentar a verdade, mas sim para justificar uma visão preconcebida. O resultado foi um cortejo de inimizades. Isso porque o raciocínio que determina os afetos é: não posso gostar de quem não pensa como eu, mesmo que essa pessoa tenha virtudes, seja um grande ser humano. Gostamos das pessoas não pelo que elas são, mas pelo que têm em comum conosco.
                                               ****
Por que se escreve? Porque falta sentido à vida e sobre isso é preciso dizer alguma coisa. A escrita é exercício e aventura. É um jogo sério, pois se faz com palavras, e juntá-las nem sempre conduz ao resultado que se espera. Um jogo de tentativas e muitos erros, mas que nos poucos acertos revela umas tantas verdades sobre nós. O homem não se constrói apenas por obras, constrói-se também por signos; o escritor é o artífice maior dessa construção.
                                    ****
Segundo Kafka, a paciência é uma segunda coragem. Precisamos ser resistentes para suportar as incertezas da espera. Mas a tendência é agirmos com precipitação por medo do que poderá vir. Paciência não é só coragem; é também confiança.
                                             ****
         Há pessoas que acreditam num Ser Superior para não se sentir inferiores (arrogância). Outras adotam essa crença para realçar sua pequenez (humildade). O problema não é se Deus existe ou não. É se somos capazes de admitir Sua existência e, sobretudo, que efeito ela terá em nossas vidas. Infelizmente poucos retribuem o conforto de acreditar nele com um comportamento moralmente digno. Vão à igreja para salvar “suas” almas, como se bastasse acreditar para se redimir.
                                   ****
        As pessoas se assemelham muito nos defeitos e pouco nas virtudes. Certamente porque as virtudes são raras e alcançam um número muito pequeno de indivíduos. Isso explica a identificação promovida pela arte, que enfoca sobretudo as “almas defeituosas”. Encontrar nos personagens as nossas próprias falhas ajuda-nos a conviver com elas.