sexta-feira, 27 de março de 2020

Notas sobre a pandemia (6)

        
         
        Historicamente, os períodos de privação ensinam mais do que os de bonança. Que lição a crise provocada pelo coronavírus vai nos dar? Não falo das atitudes generosas que os governos são obrigados a tomar agora para que a economia não entre em colapso e milhões não morram de fome. Refiro-me a ações estruturais, profundas, que preparem os países para não ser pegos desprevenidos em flagelos semelhantes (aos quais sempre estamos suscetíveis). Uma crise como a do coronavírus revela o quanto há de falho num sistema que se baseia na avidez do lucro e na iníqua distribuição de renda. Todos ajudam agora, pois o sistema não pode entrar em pane. Mas quantos manterão a ajuda quando o pesadelo com a Covid-19 se desfizer e outras pragas menores continuarem, normalmente, a espezinhar ou destruir os fracos e desassistidos? Enfim, amanhã vai ser outro dia ou continuaremos imersos na mesma noite?

quinta-feira, 26 de março de 2020

Notas sobre a pandemia (5)


      O coronavírus é uma ameaça letal, por isso causa estranheza que em meio às discussões sobre a melhor forma de combatê-lo prevaleçam os interesses políticos. Interesses mesquinhos, que pouco têm a ver com o bem-estar da coletividade. Ou, se têm, é de forma tangencial. Já se percebeu que o enfrentamento da Covid-19 é um desafio ao bom senso e ao tirocínio administrativo. Quem apresentar melhores propostas para combatê-la contará com um valioso trunfo nas eleições de 2022. Isso tem feito com que a retórica de palanque substitua em alguns o interesse por informações confiáveis, embasadas nos estudos da ciência. Toda essa medíocre querela demonstra que o pior vírus (o de mais deletérios efeitos) é o que instila nos homens a ambição pelo poder.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Notas sobre a pandemia (4)


Pelo que ouvi de médicos infectologistas, as máscaras só deveriam ser usadas por portadores do vírus. Poucos, no entanto,vêm atendendo a essa restrição. O resultado é que têm faltado máscaras para quem de fato delas necessita – como o pessoal da Saúde. Não convém abusar desses higiênicos tapumes, que às vezes também funcionam como um depurador estético; há quem fique menos feio com elas. Nossas autoridades têm considerado a máscara uma espécie de símbolo da seriedade com que estariam tratando a pandemia. Mas é preciso portá-las com dignidade, do contrário o efeito é pior. Máscaras que ficam caindo, são indevidamente manuseadas ou se prendem a uma orelha só indicam oportunismo e improviso. Podem até fazer seus portadores perderem a popularidade.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Notas sobre a pandemia (3)


A longa reclusão em casa começa a gerar preocupação com o estado psicológico das pessoas. Que fazer? Psicólogos têm usado as redes sociais para atender gratuitamente os que precisem de ajuda. Muitos deverão procurá-los alegando sintomas diversos, como depressão e ansiedade. Entende-se esse tipo de reação, mas há um fator que suaviza os efeitos da falta de convivência; é a percepção de que o confinamento é geral. Saber que todos vivem o mesmo drama ajuda a suportar a quarentena. Faz as pessoas perceberem que estão isoladas, mas não sozinhas. A solidariedade é que vai derrotar o coronavírus.

domingo, 22 de março de 2020

Notas sobre a pandemia (2)


O homem faz malabarismos num dos sinais da Epitácio Pessoa. Parece argentino ou venezuelano. Os carros param e apreciam, mesmo sem querer, a arte daquele artista de rua. Terminado o número, ele circula entre os automóveis sorrindo e estendendo o boné. Ninguém baixa os vidros. O motivo certamente é o medo do vírus, que desencoraja qualquer contato humano que implique a possibilidade de contágio. Não se sabe se o homem é portador, mas, por via das dúvidas... Alguns veem essa possibilidade como um pretexto para continuar indiferentes a esse tipo de abordagem. Nunca baixaram os vidros e têm agora uma boa razão para não fazer isso.


Notas sobre a pandemia (1)


Amanhã, segunda, é dia de ficar em casa. Terça, também. E quarta, quinta, sexta, sábado, domingo... A quarentena torna iguais os dias. E nas emissoras de TV o assunto é o mesmo. Os canais mostram a devastadora escalada da Covid-19 no mundo e as estratégias dos governos para debelar a pandemia. Quem resistia a deixar o domicílio vai aos poucos aceitando a ideia de permanecer recluso. Os que não concordarem adoecerão, pois é patológico se insurgir contra aquilo que não tem saída. E a saída, agora e pelos próximos dias, é não sair. Aproveite para conhecer melhor a sua casa e as pessoas que nela moram. Tudo indica (felizmente!) que você não terá outra oportunidade como essa.

sexta-feira, 20 de março de 2020

O vírus e nós


Dizem que a ficção antecipa a realidade, e nada melhor para confirmar isso do que a situação que estamos enfrentando com essa ameaça do coronavírus. As ruas vazias, como se vê em São Paulo e em outras grandes metrópoles mundiais, parecem o cenário de um filme de terror. A diferença é que nos filmes a gente visualiza o inimigo, enquanto que agora ele é microscópico e praticamente invisível. Essa invisibilidade reduz as chances de derrotá-lo, pois dá a muitos a impressão de que ele não existe. Não falta quem considere os alertas das autoridades médicas um exagero a que a mídia, interessada em aumentar a audiência, dá imensa repercussão.
O brasileiro gosta de assumir esse tipo de comportamento. Prefere muitas vezes negar o perigo a enfrentá-lo, pois o enfrentamento exige esforço e sobretudo renúncia a certos prazeres. Um deles é ir à praia, onde o aglomerado de banhistas constitui um ambiente propício à contaminação de vírus, bactérias e outros micro-organismos que podem ameaçar-lhe a vida.
Em outro aspecto a ameaça da Covid-19 lembra uma obra de ficção — o da expectativa quanto ao final. Espera-se que ele seja feliz, claro. O problema é quanto de insanidade teremos que repelir, e quanto de sofrimento suportar, até que o pesadelo acabe.
O vírus vem abalando a economia mundial e ameaça levar os países à recessão. Isso dá medo, pois historicamente as guerras sucedem períodos de grande crise econômica. O ser humano convive mais facilmente com o vazio do sentido do que com o do bolso. Tendo o que comer, ele encontra energia para especular sobre o enigma da existência. De barriga vazia, não há como direcionar o intelecto a elucubrações transcendentes. O imperativo é matar a fome, que no capitalismo se multiplica em outros apetites. Já se vê nos supermercados a ânsia em fazer provisões e garantir o suporte material básico para a sobrevivência.
Somos egoístas, indiferentes ao próximo, ligados primeiro em nosso bem-estar – mas também somos aferrados ao instintual impulso de sobreviver.Tal impulso fica seriamente ameaçado ante a perspectiva de uma guerra de grandes proporções. Essa ideia paradoxalmente (ou nem tanto) me faz otimista. A possibilidade de uma hecatombe universal alerta-nos para o imperativo de preservar a vida na Terra. E não será um vírus, por mais contagioso e “coroado”, que terá a força de mudar isso. Resistiremos, mas para que muitos não caiam pelo caminho é preciso que sejamos solidários. No atual momento, ajudar os outros é ajudar a nós mesmos.

Notas sobre a pandemia (6)