segunda-feira, 9 de março de 2026

A bateria


             Semana passada a bateria do meu carro pifou. Como eu estava no subsolo de uma agência bancária, tive que ligar para o seguro a fim de solicitar um mecânico. Uns 30 minutos depois o rapaz veio, examinou o artefato avariado e o condenou.

– Aqui só outra.

         – E agora? Onde posso mandar buscar uma?

– O senhor liga para a loja Tal – e me passou o telefone. Quando eu lhe pedi uma sugestão de marca, ele me perguntou se eu pretendia vender o carro.

– Não. Por quê?

         – Se for vender compre esta, que é mais barata (e me indicou o nome). Agora, se for ficar com o carro por mais um tempo, leve esta (citou outro nome). É um pouco cara, porém bem mais econômica e difícil de quebrar. Duvido que deixe o senhor no prego.

Escolhi a segunda, pois não pretendia tão cedo vender o automóvel. Bateria instalada, voltei para casa pensando na alternativa que o mecânico tinha me apresentado. A escolha fora fácil pois, como disse, o carro ainda iria ficar comigo por um bom tempo. Mas... e se eu fosse me desfazer dele? Qual das marcas teria escolhido?

          Comecei a pensar nisso e senti um arrepio. A pergunta do rapaz tinha implicações profundas; envolvia um dilema moral. Pensei em Kant, que fundamenta sua ética na máxima: “Não faças a outrem o que não queres que te façam.” Se eu escolhesse a bateria mais barata e dispendiosa, que além disso podia quebrar, estaria fazendo a outrem (o eventual comprador do meu carro) o que não queria que me fizessem. 

O curioso foi a maneira objetiva, prática, direta, com que o mecânico me fizera a pergunta. Não havia hesitação nem escrúpulo, como se a proposta fosse muito natural. Ele sempre devia apresentar essa opção aos clientes. Alguns até lhe dariam uma gorjeta pela dica, mesmo que isso reduzisse a vantagem obtida com a escolha do produto ruim. O importante era o pequeno lucro imediato, acrescido do indizível prazer de enganar o outro. Pois esse tipo de escolha não vale só pelo dinheiro; vale também (ou sobretudo) pela sensação de ter sido esperto.  

Já chegando em casa, me dei conta de que a sugestão do rapaz diz muito de nós. No trabalho, no comércio, na política e mesmo nas relações interpessoais, nos comportamos como o sujeito que passa a bateria ruim sem considerar o que isso pode trazer para o outro.

         Tudo fica ótimo até o momento em que somos nós esse outro. E quando nosso carro quebra no meio de uma viagem noturna e ficamos com a família ao relento, protestamos contra o egoísmo do ser humano e lamentamos pertencer a espécie tão mesquinha. Esquecemo-nos de que dela fazemos parte e não raro somos nós a protagonizar a trapaça.      

Talvez seja por isso que este carrão chamado Brasil não anda – ou anda muito desigual. Falta em sua “bateria” a corrente do interesse pelo bem comum. Somos antikantianos por atavismo e convicção, fazendo sempre que possível aos outros o que nunca desejamos para nós.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Mediania

 

           Nasceu às doze horas de um dia temperado. Rigorosamente, nem quente nem frio. O signo era Balança. Veio sem berros, choramingando, e quando a mãe lhe deu o peito ele não exultou. Sentia-se que estava apenas satisfeito.

Houve ligeiro desacordo quanto ao nome que iriam lhe dar. O pai queria José, a mãe simpatizava com Elmano. Ficou Joel – uma fórmula conciliatória.

Na escola tinha comportamento regular; nunca um zero, nunca um dez, nunca uma briga. No máximo umas arengas, que o temperamento de Joel apressava em desfazer. Nos últimos anos do segundo grau, botaram-lhe um apelido: Média Ponderada. Não era em referência ao caráter, mas a uma eventual destreza matemática. Serviria, no entanto, para defini-lo quanto ao espírito – um espírito marcado pela aurea mediocritas.

Com as mulheres Joel não era ousado. Nem tímido. Daí ter logo ficado noivo, situação em que gostaria de ter permanecido pelo resto da vida. Mas como a noiva insistisse e ele não dissesse sim ou não, terminou conduzido à presença do padre. Só que não ia fazer juras; era um expediente muito radical. No máximo, promessas. Ou, antes, disposições. Isso não impediu que saísse da igreja casado e bem-disposto.

Não ambicionava riquezas. Dizia sempre que queria ganhar o suficiente para ter o necessário (não explicava para quê). Desprezava o supérfluo, embora admitisse não rejeitar, aos domingos, uma galinha ao molho pardo. Podia ser branco, para evitar suspeitas do radicalismo politicamente correto.    

Joel às vezes sonhava. Ia ganhar na loto com mais um grupo, formar-se técnico de nível médio, conhecer um museu em Portugal onde se dizia haver reproduções da torre Eiffel, das pirâmides e de Manhattan. Era demais para ele conhecer essas atrações in loco. Além do mais, se isso ocorresse ele deixaria de sonhar.   

Em política, dizia-se um moderado. Não gritava slogans: sussurrava-os. Entre a púrpura comunista e o cinza fascista, preferia o furta-cor centrista. Contra os juízos apocalípticos, não achava que o Brasil estivesse à beira do abismo; o que nos espreitava, segundo ele, era tão só um desfiladeiro – coisa mensurável por qualquer escala métrica idônea. Era enfim pela tolerância com os extremistas e revanchistas, o que o levava a admitir, em ocasiões-limite, a prática de passeatas (com no máximo dez pessoas) e pichações (desde que facilmente removíveis).   

Desconfiava dos idealistas e dos apaixonados; não estavam em si, e duvidava mesmo que estivessem nos outros. Não acreditava no átomo nem no horizonte; eram ficções de espíritos transtornados. E quanto à literatura, sentenciava: não se deve ler o que não represente um instrumento prático imediato. Ultimamente vinha substituindo as obras densas da sua estante por almanaques, folhetos e bulas.

       Teve câncer e morreu pouco depois num hospital de segunda. Não do câncer, é óbvio, mas de uma sequela. O destino lhe deu tempo razoável para se penitenciar dos pecados; livrou-se de alguns, os mais graves, e preservou outros, pois não queria o Céu. Nada de extremos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Esbórnias

                             

Duas histórias de Carnaval. A primeira é a do casal que resolveu “se liberar” durante a festa.  A mulher disse ao marido: “Vá embora e só volte daqui a quatro dias”. Prontamente ele deixou a casa e alugou um flat. Estava solto e só! Como era um tipo respeitável na cidade, resolveu comprar uma fantasia que lhe cobrisse o rosto. Não queria que ninguém testemunhasse seus excessos.

Ocorre que a mulher (Clotilde era o nome dela) também gozava da momentânea alforria. Não ia ficar em casa enquanto o marido pulava com uma odalisca qualquer. Teve também a ideia de comprar uma fantasia e seguir algum desses blocos líricos na aparência e fesceninos na essência, embora seus propósitos fossem virtuosos se comparados com os do marido.

Leandro (o nome dele) estava mesmo a fim de uma esbórnia. Ela queria apenas imaginar que, se lhe desse na telha, poderia viver uma aventura. Só “na telha”, que é um tapume para o mau tempo e as más intenções; não permitira que a ideia adentrasse algum cômodo do seu recatado espírito. Vestiu-se de “Rainha Etrusca”, uma caracterização que imitava a heroína de um filme a que assistira quando era solteira e ainda sonhava. 

         Para encurtar a história: na noite do sábado Leandro viu no meio da multidão aquela mascarada sensual. Ela tinha um jeito familiar, o que freudianamente lhe despertou o desejo.  Acercou-se e começou a paquerá-la. Clotilde deixou que o belo romano se aproximasse e fizesse voltas em torno dela, como um leão das antigas arenas cercando a presa. Fatalmente viria o bote. Leandro pegou-lhe na mão e sussurrou em seu ouvido:

         – Inferno ou paraíso, só vou saber depois que enlaçar o teu corpo.  

          A mulher levou um susto. Já ouvira aquilo, e pela mesma voz. Sacou do rosto a máscara e:

          – Charlatão! Nem sequer foi capaz de mudar as palavras... A mesma cantada que jogou para mim anos atrás!

         Desmascarado, só restou a Leandro seguir a mulher, que resolveu por entre tapas e beliscões antecipar-lhe a Quarta-Feira de Cinzas.                                           

                                                   ****

         A segunda história parece um daqueles relatos de João do Rio que têm como cenário o clima mórbido da Belle Époque. Por exemplo: um homem vê uma mulher sozinha numa das esquinas sombrias da cidade. Ela acena para ele com um sorriso enigmático, e terminam indo a um local ermo onde fazem amor. No fim ele descobre que a mulher era o fantasma de alguém que tinha morrido havia décadas... Brrrr!

          Felisberto não passou por essa experiência apavorante, mas chegou perto. Era noite da terça-feira, o último dia para viver o que ainda não fora vivido. Depois disso, aguardava-o mais um ano de repartição, supermercado, macarronada dominical na casa da sogra.    

        A cidade tinha uma louca, Ismênia, que costumava passear altas horas da noite pelas calçadas com seus cabelos desgrenhados e sua boca sem dentes. O leitor já imagina! Felisberto vê perto de um terreno baldio uma mulher solitária. Aproxima-se, lento e arfante, abraça-a por trás. Quando vai deitá-la, a mulher vira o rosto – e sua gargalhada cortante molha em jatos o rosto dele. O homem corre para casa, lamentando o castigo. Tal como em João do Rio, só podia ter sido castigo. Por sinal muito severo, já que a esbórnia só ficara no desejo.

                                  

                                        



sábado, 24 de janeiro de 2026

Aposentado



           Naquele dia Osvaldo abriu os olhos e, por uma espécie de automatismo, levantou-se da cama e foi olhar o relógio. Deu-se então conta de que não precisava mais fazer isso; estava aposentado. Pensou em ainda dormir um pouco, quando percebeu que a mulher já estava sentada à mesa da copa. Depois de escovar os dentes e lavar o rosto, foi até lá e se sentou para o primeiro café em anos sem pressa, sem preocupação com o trânsito, sem medo de chegar tarde e não poder assinar o ponto.

Rosilda notou sua expressão de alívio. O marido bem que merecia o descanso. Esforçara-se muito para criar os filhos do casal – Nestor e Amanda – e a partir de agora tinha direito a outro tipo de rotina. Por sinal, Osvaldo já lhe dissera que um velho amigo, Aníbal, participava de um grupo que costumava jogar gamão à tardinha, num shopping, e lhe fizera o convite. Ele tinha aceitado.

A aposentadoria seria também uma forma de o marido lhe ajudar em algumas tarefas domésticas, como lavar os pratos. O trabalho na repartição nunca havia deixado tempo para isso. Rosilda tocou no assunto e, ao se levantarem da mesa, levou-o até a pia para mostrar como era simples o serviço:

– Você só tem que borrifar detergente numa bucha, esfregar na louça engordurada e remover tudo com a água da torneira. – Ele fez sinal de que entendera e pouco depois, para confirmar que tinha boa vontade, começou a trabalhar. Dispôs-se então a ficar ajudando a mulher nessa tarefa, que não prejudicaria o gamão com os amigos nem outras amenidades a que a sua nova condição lhe daria direito.

No dia seguinte, recebeu a visita de um dos filhos. Mal entrou em casa, Nestor saudou-o com entusiasmo:  

– Viva! Agora temos aqui um aposentado. Dever cumprido, chega enfim o repouso do guerreiro.  

Osvaldo sorriu sem jeito, e ficou mais sem jeito ainda quando o filho acrescentou:

– O descanso é merecido, mas tome cuidado. Aposentadoria não é sinônimo de ociosidade. O pai de um amigo meu se aposentou e ficou sem fazer nada. Resultado: acabou com depressão. Hoje toma remédios, por sinal caríssimos.

Osvaldo ponderou que não ia se tornar um inativo. Além do gamão, pretendia procurar outras distrações...

– Eu tenho uma proposta para o senhor não ficar sedentário – cortou o rapaz. – Três vezes por semana devo providenciar um relatório sobre os gastos da empresa. Coisa simples, mas que me toma o tempo de outros serviços.  O senhor podia me dar uma mão. Nem vai precisar sair de casa, eu trago a papelada pra cá.  

O pai disse que era possível, sim, desde que o trabalho não atrapalhasse os encontros que pretendia ter com as pessoas da sua faixa de idade.

– Beleza, pai. Esse trabalho, o senhor vai ver, fará bem a nós dois – disse e saiu apressado. Precisava trabalhar num dos tais relatórios.

No dia seguinte foi a vez de Amanda. Ela veio com os filhos – um casal – e foi logo pedindo aos dois:

          – Deem os parabéns ao seu avô. Ele agora está aposentado.

– O que é “aposentado”, mamãe? – perguntou Eduardo. 

– Quer dizer que ele vai ficar em casa descansando. 

– Puxa mãe, que bom! – exclamou Carol. – Agora vovô vai ficar mais com a gente.  

– Pois é... – disse Amanda. – Agora ele vai ficar mais com a família.

Pensou um pouco e completou: – Pai, por que não pega os dois na escola pelo menos três dias na semana? É uma forma de o senhor se distrair e me ajudar a ficar mais tempo na loja. Às vezes perco clientes quando tenho que sair mais cedo.  

– Ah, vovô, Faz isso, faz! – reforçaram as crianças quase ao mesmo tempo. – Quero que o senhor conheça minhas colegas – justificou a menina, segurando a mão dele. Como escapar àquela afetuosa intimação?

         – Está bem, vou ver os melhores dias de pegar vocês – prometeu, já pensando em como dividir essa tarefa com as partidas que jogaria com os amigos.

          Osvaldo entrou, assim, na sua rotina de aposentado. Nem sempre podia dormir o quanto queria, pois tinha que ajudar Rosilda nos trabalhos domésticos (além de cuidar dos pratos, lavava agora os banheiros “para manter rija a musculatura”, conforme lhe dissera a mulher). À tarde corrigia os relatórios de Nestor; como nunca fora bom em Português, tinha por vezes que fazer consultas na internet sobre regência, acentuação, colocação pronominal e outros tópicos, o que retardava o trabalho.

Quanto à busca dos netos na escola, era a melhor parte; o problema é que justamente nessa hora os amigos se reuniam, e as duas vezes por semana que sobravam para se encontrar com eles lhe pareciam poucas. Embora sentisse um enorme prazer em abraçar os garotos, conduzi-los ao automóvel e deixá-los no apartamento onde moravam, a lembrança das conversas com a turma (às vezes recheadas de anedotas ou de filosóficas considerações sobre a passagem do tempo) deixava-o um pouco nostálgico.  

         Passaram-se seis meses, e Oswaldo parecia ter se adaptado à nova rotina. Dele se poderia dizer tudo, menos que se tornara “um inútil”. Como uma forma de demonstrar reconhecimento à disposição do marido, que poderia ter se “recolhido aos “aposentos” mas não quisera, Rosilda resolveu fazer um almoço especial em família. Nestor e Amanda acharam muito justo, pois o pai vinha se mostrando uma espécie de “aposentado exemplar”. Era um modelo que desencorajava os que confundiam essa etapa da vida com inação.

          Chegou o domingo do almoço. Família reunida, só faltava o homenageado, que permanecia no quarto enquanto o restante conversava em volta da mesa.

           – Mãe, cadê papai? – estranhou Amanda. – Vá chamar.

           Rosilda não chegou a fazer isso, pois logo se ouviu bater a porta do quarto; pouco depois, Osvaldo aparecia com um papel na mão. Postou-se diante do grupo e falou:

            – Pessoal, tenho uma surpresa para vocês. – Fez uma pausa e completou: – A partir de amanhã vou voltar ao trabalho. Este é o meu documento de readmissão; fui buscar ontem.

           Ficaram todos em silêncio, que foi quebrado por Amanda: – Mas por quê, pai?! Não se adaptou à vida de aposentado?

           – Mais ou menos isso, filha – respondeu, com um sorriso enigmático.

           Em seguida, ante o olhar surpreso e levemente decepcionado do grupo, tratou de ocupar o seu lugar à mesa.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Sobre a amizade



     A amizade é por excelência um sentimento desinteressado. Nela não interferem o sexo nem a cumplicidade. Queremos um amigo pelo prazer de ter alguém perto. Alguém com quem conversar ou ficar em silêncio. Alguém que nos compenetre tão profundamente da ideia do Semelhante, que nos permita partilhar sem reservas a nossa humanidade.

Enquanto o amor romântico busca a complementariedade, e a parceria visa ao que é útil, a amizade eclode no terreno do desinteresse. Ela é não um meio para um fim, mas (lembrando o que Kant diz sobre a arte), um fim em si mesma. Ao retirar o componente da premência biológica, ou do ganho prático, o que sobra é a transparência do encontro. Ter um amigo é contar com um espelho em que a nossa humanidade se reflete sem julgamentos.

Para se manter, a relação demanda uma boa dose de tolerância, pois não é totalmente imune às fraquezas que todo ser humano tem. Vez por outra elas se evidenciam, ameaçando turvar o clima e testando a intensidade da afeição. Nelson Rodrigues conta nas suas “Confissões” que, sofrendo de “insônias crudelíssimas”, costumava ligar para Otto Lara Resende nas madrugadas. Imagine o que é ser tirado da cama nessa hora para aliviar o tédio de um amigo que não conseguia dormir. Otto se levantava (certamente com cuidado para não acordar a mulher) e conversava por longos minutos com o autor de “Vestido de noiva”. Essas vigílias forçadas nunca comprometeram a amizade dos dois. 

 Dizer que o amigo nos compenetra da ideia do Semelhante é reconhecer que ele é uma espécie de guardião da nossa identidade. É o porto seguro no qual o “eu” se reconhece no “outro” de forma plena. Nesse tipo de relação, deixamos de lado a “persona” social para partilhar o que temos de mais real e cru. Isso envolve não apenas afinidade, mas também a certeza de que, ao lado daquela pessoa, nossa humanidade não precisa ser retocada, escolhida, performada – precisa apenas ser vivida.

No ensaio “Dos amigos”, Montaigne tenta explicar o “inexplicável” que o uniu a Étienne de La Boétie. Chega à conclusão de que, em sua forma mais elevada, a amizade transcende as categorias comuns dos relacionamentos humanos. Quando questionado sobre o motivo de tamanha afeição pelo amigo, Montaigne o resume na célebre frase: “Porque era ele; porque era eu.

Há na amizade, segundo o autor dos “Essais”, uma comunhão de essências. Queremos um amigo pelo que se irradia da sua presença – uma presença que nos acompanha tanto no diálogo exasperado, tortuoso, quanto no silêncio confortador. Ele e Étienne não eram apenas aliados intelectuais; eram os Semelhantes um do outro. Essa relação permitia que suas humanidades fossem partilhadas sem reservas, pois na verdadeira amizade as almas se misturam e se confundem.

Vinicius de Moraes confirma esse modo de ver quando diz que “amigo não se faz; amigo se reconhece”. Tal percepção parece transportar a amizade do campo da construção social para o do destino ou da metafísica. Quando o Poetinha diz que amigo “se reconhece”, sugere que o encontro não é o ponto de partida mas o reencontro de algo que já existia em estado latente.

A ideia de que a amizade é um “reconhecimento” evoca uma sensação de familiaridade ancestral. Nesse processo, o outro personifica uma parte nossa que sempre esteve “lá”, esperando para ser espelhada. Lembra um pouco a paixão, em que os amantes parecem sentir que conhecem um ao outro há muito tempo. Freudianamente, esse tempo pretérito é o da infância, quando se opera a identificação com a figura paterna, ou materna, que vai modelar a futura escolha do objeto amoroso. 

Contudo, no que diz respeito à amizade é mais pertinente citar Jung do que Freud (por sinal, os dois foram durante muito tempo amigos, mas terminaram se afastando por motivos que aqui não vêm ao caso). Carl Jung fala em “sincronicidade” para descrever coincidências significativas que não têm uma causa lógica, mas têm um sentido profundo. Um amigo não aparece na nossa vida por acaso, mas por uma necessidade da alma. O encontro ocorre no momento em que ambos precisam partilhar aquela “humanidade sem reservas”. É como se o universo conspirasse para que dois Semelhantes se cruzassem a fim de promover o recíproco crescimento.

          A frase de Vinicius (segundo a qual amigo se reconhece) confirma a experiência de Montaigne. O francês escreveu que, antes mesmo de se conhecerem pessoalmente, ele e La Boétie já se buscavam por meio dos escritos um do outro. Quando finalmente se viram, “encontraram-se tão tomados, tão conhecidos, tão ligados, que nada desde então lhes foi tão próximo”. Não houve um processo de “fazer a amizade”; houve apenas o reconhecimento de que suas almas já estavam misturadas antes mesmo de seus corpos se cruzarem.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O mito Bardot


Cresci ouvindo dizer queBrigitte Bardot era a uma figura pecaminosa, imagem da luxúria e da devassidão. Isso faz muito tempo, claro, e tinha a ver com o propósito de incutir na criança o temor ou mesmo a abominação do sexo.

Cresci mais e, em filmes como “E Deus criou a mulher” (título provocativo por sugerir para a mulher uma matriz divina, e não demoníaca), tive uma mais adequada percepção da figura da atriz.
Bardot inaugura uma nova versão da Femme Fatale. Ela não maltrata nem humilha Michel (personagem de Jean- Louis Trintignant) por querer destruí-lo, como ocorre com as versões tradicionais desse mito, mas por ser extremamente livre para os padrões sociais do lugar onde moram.
É malvada não por cálculo ou estratégia, mas por natureza. Seu comportamento aparece como uma resposta a quem aparentemente tenta domesticá-la por meio do casamento e da submissão às normas sociais.
Daí se dizer que o filme de Roger Vadim (marido da atriz à época) “inventou” o mito Bardot — uma espécie de símbolo da quebra dos valores tradicionais e da liberação sexual dos anos 1950.
Na visão do diretor, que chocou os redutos conservadores, a liberdade física de Bardot aparece como um desafio à moralidade burguesa.
Por extensão, o filme usa a liberdade feminina como uma força que busca desestabilizar a autoridade masculina tradicional
A Igreja Católica e grupos conservadores condenaram o filme, o que concorreu para fixar a imagem da estrela como uma mulher perigosa, mesmo demoníaca — tal como me pintavam quando eu era menino.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O galo e o peru ( uma antifábula natalina)

    


            Véspera de Natal. No quintal de uma família de classe média, estão um galo e um peru. O galo caminha alegre, balançando a crista. Já o peru não sai do canto e mal disfarça a tristeza. Sabe o que o aguarda.

De repente o galo canta. O peru então o interroga com um misto de surpresa e ressentimento:

-- Por que essa alegria?

-- Porque tenho alguma coisa a ver com o que acontece hoje. Um de meus ascendentes saudou o nascimento do Menino. Foi a trombeta auroreal de um novo mundo. Como eu não iria me alegrar?...   E você? Qual a razão dessa cara?

-- Ora... Daqui a pouco vou virar comida para os que vêm festejar o nascimento a que você se refere. Queria que eu estivesse contente?

-- Procure aceitar. Trata-se de uma grande causa. Além do mais, você terá tudo para ser o rei da festa. Muitos o acharão macio, crocante, bem temperado.

-- Isso não vai depender de mim, mas da cozinheira. Esqueceu que estarei morto?

-- Estará sem vida, mas será o centro das atenções. E o mais importante: representará ali a grande nota de realidade. Mais do que a árvore, as músicas, os cumprimentos formais, dará testemunho da natureza do homem.  O sucesso dessa noite vai se medir pelo prazer que der aos convivas.     

-- Tem certeza?

 -- Claro! Você vai saciar-lhes o apetite do corpo, que é mais profundo do que o da alma. Se vir as coisas por esse lado, se convencerá da sua importância.

O Peru parece impressionado com essas palavras. O galo volta a se distanciar, balançando a crista, e canta de novo sem motivo. Ou, quem sabe, devido à alegria de não ser peru. Quando volta de mais um passeio, ouve novo desabafo:

-- Sua retórica não me convence. É fácil elogiar um condenado à morte quando se vai permanecer vivo.  Aposto que está contente por não ocupar o meu lugar.       

-- Não nego... Mas você sabe que meu dia vai chegar. E não terá o mesmo brilho do seu. Vou “reinar” num desses banais almoços de domingo, com música estridente ao fundo e cerveja em vez de champanhe.

Nesse momento a cozinheira vem interromper a conversa dos dois. Tem na mão uma peixeira brilhante. Com o ar decidido, dirige-se ao peru.

A ave não esboça nenhuma reação. Quando é alçada e apertada de encontro à barriga da mulher, ouve ainda o galo cantar. Pela terceira vez.

A bateria