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terça-feira, 19 de março de 2019

Último credo

A morte é a ausência da falta.
O augusto império do nada.

A vida que se desperdiça
por inépcia, volúpia
ou desejo de sobre os outros triunfar
não se resgata no além.

Os mortos não têm alma,
têm só a profunda calma
do desejo exaurido.

Ninguém precisa acreditar
em outro mundo para se tornar melhor
(nem sempre os que vão à igreja
são as melhores pessoas).

O justo salva-se aqui.
O injusto aqui se dana.
O mais é se distrair
sonhando o que nos engana.
                              

segunda-feira, 18 de março de 2019

Não foi só bullying


A primeira explicação para a chacina que ocorreu em Suzano é que os atiradores foram vítimas de bullying. Não se descarta essa hipótese, mas a ela devem se associar outras.
A escola é um desafio para poucos. Demanda estudo, disciplina, obediência a superiores, enfim, uma série de tarefas que exigem esforço e compenetração. Nem todos têm a energia e o estímulo necessários para lidar com essa empreitada. Nem todos têm em casa pais e mães que os façam ver a importância dos estudos e os obriguem a frequentar as aulas.
Na origem da atitude dos assassinos devia estar também a raiva dos que se dispunham a encarar o desafio de ser estudantes. O estudo cria oportunidades para o futuro, e foi justamente o futuro dos colegas que eles trataram de suprimir (não fosse a chegada da polícia, teriam matado muito mais gente).   
Impressionou-me o arsenal que eles portavam – além do revólver, machados e uma balestra.  As duas últimas armas não se usam mais.  Evocam os combates do homem primitivo. Se a escola representa o progresso, que é produto do conhecimento, os artefatos bélicos dos atiradores evocam o primitivismo e a barbárie. Simbolizam a irracionalidade e o furor animal de que estavam possuídos.
Sei que essa interpretação talvez ignore fatores ligados às pressões do momento. Houve atentados semelhantes no exterior (os dois buscaram, segundo se diz, reproduzir a mortandade de Columbine) e mesmo entre nós. Por inspiração governamental o Brasil tem sido encorajado a se armar, e a gente sabe a força que esse tipo de apelo tem nos jovens. Tais fatores, contudo, não invalidam a hipótese de que um dos estopins para aquela orgia de pólvora foi o ressentimento. O ressentimento e a impotência ante a impossibilidade de encarar o futuro.
Foi essa impotência que os fez alimentar uma falsa ideia sobre o que é obter reconhecimento social. Para eles, o nome na mídia seria um meio de adquirir fama e “passar para a História”. A internet vem potencializando esse tipo de distorção. Ela concorre para que se confunda a fama, que é passageira, com a glória, que sela positivamente um nome na lembrança do mundo. Vi a postagem de um colega dos assassinos (frequentava inclusive a mesma lan house) exaltando-os como heróis.
Que heroísmo pode haver em matar sem razão pessoas desprevenidas e inocentes? O heroísmo tem uma causa, respalda-se num valor, implica sacrifício e desejo de justiça. Talvez o colega tenha considerado heroico o gesto final de tirarem a própria vida. Ora, essa atitude só consagrou a covardia. Eles escolheram se matar por medo de assumir as consequências e enfrentar a Lei.

sábado, 16 de março de 2019

Para além da imagem


             Há alguns anos meu pai me destinou uns papéis que escrevera pouco depois de se aposentar. Guardei-os, ou melhor, deixei-os amarelecendo numa pasta onde havia outras lembranças suas (inclusive a letra e música de uma valsinha que ele compôs quando nasci – coisas da emoção do primeiro filho).
           Um dia abri a pasta e li o material. Eram recortes autobiográficos enfocando pessoas da família e eventos que o marcaram. Estavam ali o convívio com os irmãos da mesma faixa de idade (a família era muito numerosa); os perfis do pai e da mãe; a dolorosa lembrança do cerco homossexual a que ele e o irmão Zé Maria foram submetidos por dois “piedosos” amigos da família; o ambiente provinciano com o que tem de estreito e maledicente; a ida precoce para o Seminário, que o marcou sobretudo por lhe haver despertado o gosto pela leitura e pelo latim.
           Depois veio o exercício do magistério em Campina Grande, para onde a família se mudou (vinda de Santa Rita) a fim de trabalhar no Colégio Diocesano Pio XI. A diocese entregara a direção do estabelecimento ao meu tio Emídio Viana, que confiou a parte dos irmãos tarefas docentes e administrativas. Em seguida o “velho” passou a ensinar também no Colégio Estadual da Prata, num tempo em que o ensino público tinha eficiência e visibilidade.
          Nesse ínterim ocorreu a malograda experiência política, que ele refere com algum ressentimento (sobretudo pela ingratidão de algumas pessoas) mas sem desencanto; não era mesmo essa a sua vocação.
          Todo relato autobiográfico é um acerto de contas consigo mesmo, e o dele não foge à regra. Por exemplo: a culpa permeia as confissões sobre um relacionamento que resultou na gravidez da parceira e, posteriormente, na morte da criança. A causa? Gastroenterite e desidratação, agravadas pela “falta de compromisso” do pai. Deve ter sido difícil para ele contar essa história, mas sem o propósito de dizer a verdade não se faz boa literatura (sobretudo confessional). O autor prometeu provar que a culpa pela morte da criança fora menos dele do que da mãe – mas não encontrei as páginas em que isso deveria ser feito. Não sei se extraviaram ou se não chegaram a ser escritas.
           O fato é que certo dia me dispus a digitar aquelas páginas amareladas e inseri-las num blog. Era um dever meu para com ele, embora eu não achasse que seu propósito fosse publicá-las. Ele as escreveu em parte pelo gosto da rememoração, em parte pela necessidade de se libertar de seus fantasmas.
           Mas a par dessa função catártica, que atinge também o leitor, o texto tem qualidades literárias. São visíveis nele a precisão descritiva de lugares e pessoas, o questionamento sobre o valor de práticas religiosas que se resumem aos rituais, a ironia com que investe contra o olhar preconceituoso da sociedade. Tudo num português não apenas correto como também expressivo; e com uma ironia que é a marca do seu estilo.
           Lendo o texto, adquiri algum conhecimento sobre a minha pré-história. O pai, antes de se investir desse papel (e mesmo depois), é um homem com suas fraquezas, temores, pequenas ambições. Conhecê-lo na intimidade não “destrói a imagem” – mesmo porque a imagem tem pouco a ver com o modelo que a inspira. Deparar-se com o homem é a melhor maneira de conhecer (e amar) o pai.

(Você pode ler o blog de João Viana em:
https://memoriasdejoaoviana.wordpress.com/



quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Pelos mortos de Brumadinho


            1        
A lama envolve os cadáveres
e deles não abre mão.
Talvez deixá-los sepultos
fosse a melhor opção.

Fazê-los dormir no barro
— germinante paraíso —
seria prover a lápide
adequada ao sacrifício.

Evitaria que logo
se apagasse da lembrança
a história dessas mortes
— ou melhor: dessa matança.
          
               2
Com tanta lama,
como lavar a alma
de quem chora e clama?

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Quadras da virada


                  1
Uns querem grana, viagens,
festas e mais atrativos.
Do novo ano (confesso)
quero mesmo é sair vivo!

                 2
Que os amigos virtuais  
tenham um ano de alfenim.        
Curtam a vida com doçura
-- mas curtam também a mim!

                3
Você, que espera mudança,
não se iluda muito, irmão.
O ano novo é o velho
com outra numeração.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Poeminha de Natal e algo mais

                                     POEMINHA DE NATAL

  O amor dá frutos
            na árvore da sala.
            Entre rumor e silêncios,
            o coração fala.

                              Pouco importa
                              se é ou não sincero
                              o que ele diz;
                              aquém da porta,
                              a ordem é ser feliz.

                              (Triste de quem, do lado de fora,
                               vaga sem rumo nesta hora).

                                 ****

                   O apreço não se mede
                   pelo preço do presente.
                   Se o amigo é mesmo caro,
                   o que conta no regalo
                   é o “barato” que se sente.
                                ****
                                       Haicais

                                           1
                              Ano-Novo é tempo
                              de muitas promessas:
                              bolhas de champanhe.
                                
                                          2
                    Na canção do tempo
                    falta uma nota só.
                    O tempo não tem dó.

                                3
                   Bom é entrar num novo ano!
                   Ninguém se importa
                   de passar em branco.