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sábado, 20 de julho de 2019

Divagando se vai longe (19)

        
          A devoção conforta independentemente do objeto a que se destina. Subtrai-nos à gratuidade, que sempre é motivo de inquietação. A entrega a uma crença, um projeto, uma pessoa dá-nos a sensação de que possuímos a nós mesmos. Peregrino da liberdade, o homem parece que só se tranquiliza quando a ela abdica. Mas é preciso escolher muito bem em prol de quem fazemos isso.
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         O humor comporta alguma dose de sadismo (ri-se de algo ou de alguém). Mas é um sadismo benigno, que aponta falhas e desproporções para corrigi-las, e não para satisfazer a perversão. O sádico inflige dor a outrem visando unicamente ao próprio prazer. O humorista quer que os outros riam.
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 No jogo da nossa vida, chega o dia em que o “tempo regulamentar” esgota e ficamos... por conta do juiz. Só nos resta torcer para que ele vá esquecendo o apito.
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Os livros que nos marcaram são por nós continuamente reinterpretados. Não precisamos relê-los para lhes atribuir novos sentidos. À medida que deles nos distanciamos no tempo, mais os sentimos próximos. A maturidade nos faz descobrir o que não tínhamos percebido em leituras anteriores. Os bons livros são sementes que em nós se multiplicam e nos fazem crescer.
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Falar dos outros é catártico. Quando fazemos isso, nos compensamos do que não conseguimos fazer (e ser). Alguém já se referiu à utilidade psicológica da fofoca, que nem sempre é verdadeira (mas se for, melhor). A fofoca mostra que o ser humano vive em competição com os outros. Saber de um traço negativo deles tem um sabor de triunfo.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Divagando se vai longe (18)

           A Justiça não tem religião, pois independe de crenças. Seu referencial deve ser a verdade, e não o dogma. A consciência de um juiz não pode estar comprometida pelos apelos subjetivos e emocionais implícitos na escolha desta ou daquela religião. Não pode ser toldada por uma visão de mundo particular, que vê com reservas e às vezes com hostilidade outras visões.
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Quando se quer criticar alguém de direita, diz-se que é de “extrema direita”. Quando se quer criticar alguém de esquerda, diz-se que é de “extrema esquerda”. Ser esquerda ou direita, tão-somente, parece que não é problema. O mal ocorre quando se agrega a um desses rótulos o adjetivo “extremo”. Daqui a pouco, para criticar um moderado, vão chamá-lo “extremista de centro”.
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Não acredito em Deus, mas sei que Ele me perdoa por isso. Minha descrença é um modo de afirmá-lo, pois ninguém se dá ao trabalho de negar o que não existe. O problema não é saber se Deus existe ou não, mas sim em que medida a crença ou descrença nele determina o nosso comportamento.
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           Viver é fazer. Não necessariamente para “ficar”, mas para justificar a existência e dar ao tempo um emprego — vale dizer: um sentido. A vida tem sentido para os que, fiéis a si mesmos, empregam seu tempo em realizar aquilo para o qual vieram ao mundo.
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          Sempre que me sento para escrever, me sinto desafiado. Escrever requer muita responsabilidade. Tem um dimensão ética, pois implica respeito pela língua. É preciso senti-la, sondar as suas possibilidades, conhecer e seguir determinadas regras — mas às vezes transgredi-las. A língua tem uma verdade que se expressa por meio de uma retórica. A retórica guia o pensamento (ou melhor, coreografa-o) e disso resultam não só efeitos estéticos, como também novas revelações sobre o homem e o mundo.         

domingo, 23 de junho de 2019

Um salto na capital do forró


O São-João de Campina Grande não seria o que é se não contasse com a entusiástica adesão da cidade. Estivemos lá ontem e, no pouco tempo que passamos, deu para perceber o alegre empenho com que os campinenses promovem e curtem os festejos.
A simbiose entre a eficiência do poder público, o papel do empresariado e o ânimo do povo é sem dúvida uma das razões para o sucesso. Com trios de forró espalhadas em vários lugares, é impossível ao visitante não entrar no clima. Eu assisti a um deles no Calçadão; foi emocionante ouvir o pot-pourri de músicas regionais que o grupo apresentou, evocando Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, Marinês, Jackson do Pandeiro e tantos outros.
Em muitas dessas canções transparece a sofrida experiência do sertanejo, que não raro é obrigado a subir num pau de arara e deixar a sua terra. Esse exílio forçado impregna boa parte das letras, que se carregam de um pungente lirismo. O São-João de Campina é forte por incorporar e manter vivo o legado desses artistas.
Estivemos na Vila do Artesão e no Sítio São João, dois lugares que merecem ser visitados por testemunharem, respectivamente, a riqueza da arte nordestina e a diversidade de atrações (musicais, históricas e gastronômicas) que o evento oferece. De negativo no Sítio apenas o alto preço da entrada; ele poderia ser menor, levando-se em conta que o visitante paga pelo que vai consumir. Mas as bandeirinhas que lá tremulam, estralejando, valem como um emblema sobranceiro da alegria que impera na festa.
Da imensa corte joanina em que o Nordeste se transforma por esta época, não há dúvida de que Campina Grande é a Rainha.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

A moda do f*da-se

           O verbo f*oder entrou na moda, impulsionado pelo best-seller de Mark Manson. O sucesso de “A arte de ligar o f*oda-se” (estou lendo o segundo, “F*deu geral”, que por sinal é muito bom) desencadeou uma série de imitações, geralmente de títulos ligados à autoajuda, à arte de viver melhor, às estratégias de como gerenciar nossas vidas. Nunca temas como esses sensibilizaram o público como hoje. De tanto ser usado, o verbo começou a ser escrito sem nenhum pudor gráfico; suprimiram-lhe mesmo o asterisco, que aparecia como um resquício de decoro. Hoje se estampa o “foda-se” em capas de livros como antes se rabiscava a palavra em paredes de latrinas.
           O que esse verbo quer dizer? O seu sentido nessas obras não é o de fornicar, praticar o ato sexual, mas sim o de mandar os outros àquele canto (espero que, com o tempo, não se acabe nomeando o canto). O “f*oda-se” indica desprezo pelo que as pessoas possam pensar ou dizer de nós. É um grito de repúdio à bisbilhotice alheia e, ao mesmo tempo, uma afirmação de liberdade individual. Não surpreende que tenha ganhado popularidade num tempo em que se exalta a persecução de metas que, para ser atingidas, exigem obstinação e sobretudo foco (outra palavrinha da moda). Enfraquecemos nosso propósito de obter sucesso caso prestemos muita atenção à opinião dos outros. Nunca se convidaram tanto os membros da caravana a ignorar os cães.
           A ênfase nesse verbo confirma que nada é tão molesto ao homem quanto o próprio homem. Vivemos em tensão com os outros (que são o inferno, segundo a famosa frase de Sarrte). Para escapar à vigilância alheia, que pode obstacular nossos passos e reduzir nossa autoestima, só mesmo destinando-lhes um repúdio que só o termo chulo é capaz de dimensionar.
            O curioso é que esse verbo esteja na moda, e faça cada vez mais vender livros, num tempo em que também se reforça a necessidade de cooperação entre as pessoas. Yuval Noah Harari, uma das melhores cabeças da atualidade, considera que chegamos a um limite e precisamos da colaboração de todos se queremos a preservação da humanidade. Caso as pessoas não cooperem, viremos num período não muito longínquo a sucumbir (certamente numa nova e derradeira guerra mundial). Por sinal, já há milionários que não duvidam de que isso seja possível e estão patrocinando pesquisas para excursões a Marte. Nosso dilema no futuro parece que vai ser: “A Marte, ou à morte”.
             Há então dois lados: um que manda os outros se f*derem e outro que faz um convite à tolerância e à colaboração. Por enquanto a coexistência desses lados tem promovido um equilíbrio que, embora precário, garante nossa sobrevivência. O medo é que prevaleça quem tende a rejeitar apelos como o de Harari e, de olho unicamente nas metas pessoais, destine à coletividade o seu desprezo. Nesse caso vai mesmo f*oder geral, e teremos razões para temer o pior.
        

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Seis razões pelas quais as mulheres deverão superar os homens no futebol


 Elas

- “matam” a bola no peito com mais eficiência;  
- têm gingado e por isso fintam melhor;  
- costumam deixar a plateia de olho nos lances;
- sabem mais do que os homens criar barreiras;
- são pouco sujeitas a punições porque evitam xingar (por motivos óbvios) a mãe do juiz;
- falam mais em campo, o que tende a desconcentrar o adversário.

 E para não dizerem que sou machista, uma insofismável constatação: Marta é melhor do que Neymar. 


terça-feira, 4 de junho de 2019

Proseando o Português (1) - "eminente" e "iminente"


Depois de um longo tempo, Carlos e Euclides se encontram na praia. Apertam-se calorosamente as mãos, e Carlos convida o amigo a seguir até o fim da orla para botarem a conversa em dia.
- Não dá. Olhe para o céu.
O outro olha: - E daí?
- Não está vendo? A chuva é eminente.
Carlos estranha esse “eminente” e pergunta:
- Como é que você sabe que vem uma chuva superior às outras?
- Não sei se vai ser superior. Sei que é eminente...
Carlos percebera que Euclides trocou os adjetivos; ele queria dizer “iminente”. Tenta com jeito explicar ao amigo a diferença (há pessoas que não gostam de ser corrigidas):
- Eminente é “destacado”, “saliente”. Não tem nada a ver com “iminente”, que significa “prestes a”. Uma coisa iminente está em via de acontecer.
- “Em via”? Eu pensava que era “em vias”...
- Pois aprenda essa também - diz Carlos, rindo. E depois de uma pausa: - Como é, vamos até o fim da calçadinha?
- Não quero arriscar. Mesmo uma chuva fraca pode me fazer mal. Dizem que o chuvisco é até pior... A gente pode se ver depois? 
- Claro. Se você aparecer por aqui toda manhã, estaremos sempre na iminência de nos encontrarmos. 
- Vou lá, então. Já estou sentindo uns pinguinhos... 
- Até a próxima. E saúde! - deseja Carlos, lembrando-se de que já no tempo da escola o amigo demonstrava uma excessiva preocupação com o clima. Cada um com suas manias!

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Gripado

A gripe é sobretudo uma agressão moral. Você sabe que ela não vai lhe matar, mas o estado a que o reduz é lastimável. Não dá para fazer selfie com o nariz vermelho e os olhos injetados. E o pior é o defluxo que dele emana (prefiro o termo “defluxo” ao escatológico “catarro”).
A medicina criou um nome pomposo para designar a gripe – influenza, que vem do italiano. É um termo simpático e que até nos dá vontade de passar pela experiência. Parece haver certa nobreza numa  afecção cujo nome evoca a pátria de Dante e Michelangelo. Mas a empolgação acaba quando vêm os espirros e a febre (ou melhor, a febrícula, com esse sufixo derrisório). Seu moral começa a balançar, e o corpo pede cama.
O bom é que, deitado, você momentaneamente se subtrai à atual confusão político-institucional do Brasil. Esquece por um tempo a reforma da Previdência, o Coaf (a única coisa que lhe evoca essa sigla é o cof-cof da tosse), a disputa entre os três Poderes (bem que os próceres da República mereciam uma gripe bem forte para lhes moderar a vaidade e a ambição. Não dá para gritar “Quem manda sou eu!” com os olhos lacrimejando). O espírito vagueia, mas a influenza não se esquece de continuar o seu trabalho. Inerte e sorumbático, você não passa de um espectro mucoso a passar o lenço (o quarto já) pelo nariz.
Então a mulher vem e lhe oferece um chá. Pergunta se você quer vitamina C (pelo seu gosto, você tomava todo o alfabeto). Um antitérmico também ajuda. É o máximo que se pode fazer contra uma patologia para a qual não há remédio – a não ser humildemente esperar.
A gripe é sobretudo um teste de paciência. Não há como evitá-la, mesmo com as vacinas. Periodicamente um exército de novos vírus ameaça o nosso organismo para demonstrar o quanto somos suscetíveis às agressões do ambiente e à roda das estações. A gripe modera a nossa soberba e, se nos põe na cama, é para que depois nos levantemos humildes e mais compenetrados da nossa humana condição. Se é inevitável adoecer, que seja ela a nos fazer dar o devido valor à saúde.

"Jenifer"

De repente acontece o que não podia nem devia acontecer. Ressentidos e perplexos, falamos do imponderável ou do acaso.
O acaso não tem deliberação; é de alguma forma produto do nosso descaso. A inflexível mão do destino sempre depende de uma mãozinha nossa. Se um avião voa de forma irregular, não se pode esperar que bons ventos o conduzam ao término da viagem.
Eu conhecia pouco Gabriel Diniz, mas admirava-lhe o rock eletrizante e de fácil apelo. “Jenifer”, seu maior sucesso, reflete a energia que ele costumava imprimir a suas interpretações e parece que só poderia ser cantada por ele. Transformá-la num réquiem, como estão fazendo agora, é uma boa maneira de preservar a sua vigorosa imagem.
O nome, Gabriel, induz à tentação literariamente medíocre de dizer que “mais um anjo adentrou os espaços celestiais”. Menos do que o clichê, no entanto, o que desautoriza dizer isso é imaginar que o cantor não gostaria nada da comparação. Anjo, ele, com aquele espírito travesso e o gingado demoníaco que inflamava as meninas?
Digamos apenas que morreu um rapaz alegre e de grande talento artístico. E que os responsáveis por essa morte têm que pagar aqui.