Follow by Email

domingo, 5 de agosto de 2018

Zanzoando (14)

      A utopia da igualdade gerou algumas tiranias modernas, como o socialismo stalinista. É raro um ditador que não invoque, para conquistar o poder, o princípio de que todos são iguais. Esse tipo de pensamento justifica a aplicação de uma diretriz única, confundida com a existência de um único partido. Como pode o Estado, identificado com um partido único, comprometer-se com a diversidade do corpo social? Se for de esquerda, vai demonizar os que têm; se for de direita, vai ignorar os que não têm.
                                               ****
O turismo vem tornando o mundo pequeno e previsível. É fácil viajar para muitos lugares desde que se tenha dinheiro. Mas quem não tem não deixa de conhecer aspectos marcantes de outros países, pois sempre existem amigos que viajam e postam imagens na internet. Haverá um momento em que a Terra não nos seduzirá mais, e quem quiser exotismo deverá procurá-lo em outro lugar. Pelo que eu soube, existem milionários (uma gente reconhecidamente entediada) que já cogitam de excursões a outros planetas.
                                              ****
Ansiedade e depressão são como a sístole e a diástole do coração capitalista, cujas batidas repercutem em nós. Ou ele nos apressa até o paroxismo, ou nos retarda até a inação.
                                    ****
          Deus é para mim tão evidente, que não preciso acreditar nele. O que se evidencia não precisa de crença. Ao nos dar inteligência, Deus agiu como um pai que dá ao filho meios para sobreviver e diz: - Agora é com você. Se vire. As consequências do que você fizer serão suas. E trate de não me decepcionar!
                                             ****

        Os empresários investem no que dá dinheiro; o que dá dinheiro é o que as pessoas consomem; o que as pessoas consomem é o que as gratifica sem muito esforço (consumo e prazer são irmãos). Isso explica o largo investimento em produtos que promovem uma satisfação imediata. Explica também por que o mercado é pródigo em futilidades.
   

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Zanzoando (13)


A internet potencializou a fofoca. A fofoca não é novidade, claro; sempre houve pessoas que precisam depreciar os outros para se sentir melhores. Mas antes a vida alheia era objeto de comentários discretos. Havia certo pudor do fuxico. Hoje a maledicência é propaganda sem limites nas redes sociais. E a coisa piora devido ao distanciamento propiciado pelo universo virtual. Na conversa frente a frente é mais difícil deixar de lado o escrúpulo, pois o interlocutor está diante de nós. Mas isso não ocorre quando o outro é uma presença remota, e falta o olho no olho.
                                             ****
Recentemente vi na televisão uma mulher fazer o nome do pai antes de assaltar uma joalheria. Não foi a primeira vez que assisti a cenas desse tipo, envolvendo até crimes mais graves. O indívíduo invoca sinceramente a proteção divina, pois vai correr riscos e pretende sair incólume da aventura. Espera a proteção de Deus mesmo se dispondo a fazer algo errado e prejudicar o outro. O fato é que o apelo dessa pessoa é tão legítimo quanto o de quem reza para fazer o bem (ou afastar o mal). O ser humano molda a crença religiosa aos seus propósitos. O pior dos malfeitores pode se sentir interiormente fortificado por achar que Deus o acompanha e protege. A condição para isso é ter fé.
                                             ****
           O democrata se curva à vontade do povo. O demagogo curva o povo à sua vontade, dando a impressão de que age em prol do bem público. A arma do demagogo é a ideologia, que tem força de religião e lhe confere uma aura de santidade. Nimbado dessa auréola, ele ganha uma espécie de imunidade moral. Pode mentir, roubar, se corromper, que sempre vai encontrar quem o defenda. Afinal, não existe orfandade mais dolorosa do que a do mito, cuja perda deixa os devotos na mais profunda solidão.
                                   ****
          Ornitólogo me propôs um roteiro turístico. Começava com Patos, depois vinha Canárias, por fim Guiné. Ora pombas! É melhor ele recolher as asinhas, pois isso não cabe no meu bico.
                                  ****
Há uma diferença entre ser aborrecido por alguém e aborrecer-se com alguém. No primeiro caso existe uma ação proposital. Somos vítimas de quem voluntariamente quer nos aporrinhar. No segundo, importunamo-nos com o outro sem que ele faça nada para isso. Certos traços do seu comportamento ou da sua maneira de ser nos importunam – e acabou-se. Na segunda situação a culpa é mais nossa do que dele, que não deixa de ser vítima da nossa intolerância.

domingo, 29 de julho de 2018

Sucesso e felicidade


        Sucesso é o novo nome da felicidade. É o ideal forjado pela sociedade de consumo para nos levar a cada vez mais adquirir coisas. Antigamente a suprema aspiração humana era ser feliz. Hoje desejamos o sucesso, que é uma felicidade quantificada, rotulada, carimbada com a marca do prestígio e do dinheiro.
         Uma das diferenças é que a felicidade é para dentro, enquanto que o sucesso é para fora. Repetindo um velho chavão – a felicidade é um estado de espírito; o sucesso, muito mais um estado de corpo. Quando as mulheres enchem os seios e os quadris de silicone, não estão à procura da felicidade. Querem parecer boazudas para abafar as outras e, diante dos homens, fazer sucesso.
O silicone é a vitória do artifício sobre a natureza e constitui um recurso extremo para melhorar a imagem; o sucesso vive essencialmente da imagem. Pela aparência é que ele é medido e avaliado. Ninguém tem sucesso sem o ostentar, pois a ostentação é um dos requisitos para se confirmar o sucesso.
A felicidade não precisa de espectadores nem de aplauso. o sucesso se completa com o olhar do outro. A admiração babosa do semelhante é o grande espelho onde o indivíduo contempla o seu triunfo. Sucesso é triunfo, felicidade é satisfação discreta e recôndita. É o aplauso essencial de si mesmo, você diante do espelho que é sua alma.
O sucesso quer holofotes, a felicidade se contenta com luz natural. Felicidade pode ser um passeio na praia e depois uma água de coco. Sucesso exige transatlântico e cruzeiro a Fernando de Noronha, tudo devidamente documentado para sair, depois, na coluna social. O essencial do sucesso não é a vivência, é o registro. Não é a experiência, é a versão, que deve chegar ao maior número de pessoas possível.
Um e outra são difíceis de conseguir e seguem caminhos opostos. O sucesso exige tática, ousadia e sobretudo muitas concessões. À medida que cedemos a elas, mais distantes ficamos da felicidade.       


Do flerte à paquera

            Camões escreveu que “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. O poeta quer dizer com isso que nosso desejo é mutante. O que queremos hoje podemos rejeitar amanhã, e o que agora desprezamos pode no futuro ser objeto do nosso mais ardente empenho.
            Essa verdade vale também para as palavras. Não que elas possam desejar alguma coisa. Palavras não são gente. Mas o prestígio de que desfrutam varia muito, refletindo a nossa forma de sentir o mundo.
            Um passeio pela ficção de Machado de Assis mostra isso. Quem sabe hoje o que é “tílburi”? Era uma espécie de carro de duas rodas puxado por um animal. Tanto servia ao uso particular como ao público, antecipando o táxi dos dias atuais.
            No tempo de Machado, “bocetaera uma caixinha em que se guardavam pequenos objetos ou rapé. Não tinha o sentido “cabeludo” que lhe dão hoje. Machado usa-a mais de uma vez para se referir à caixinha de onde Pandora, a mãe Natureza, retirou as desgraças que atingem os homens.
            O próprio rapé também saiu de moda, pois hoje uma turma pesada prefere cheirar outra coisa. Ninguém cheirava rapé paraviajarou cometer delitos; no máximo essa mistura de tabaco com substâncias aromáticas provocava alguns espirros. Era um estupefaciente descongestionante. 
            Falo da época de Machado, mas não é preciso ir tão longe. Os jovens, que hoje desabusadamente “ficam”, há poucas décadas eram chamados de “brotos”. Com a força da sua explosão vegetal, “broto” é mais inocente do quegato”, “gatinha”, “mina” e outros termos que se usam agora.    
            Também se trocou “flerteporpaquera”, que não à toa se deriva de “paca” (“paqueiro” é o cão adestrado para caçar pacas). O flerte era um exercício estético, tinha a gratuidade da poesia. Não culminava necessariamente no ato sexual.
       Flertava-se para degustar a conquista iminente, e muitos se contentavam com os preâmbulos cheios de promessas. a paquera tem muito de uma operação de caça, cujo objetivo é comer a presa.


domingo, 8 de julho de 2018

Uma dúvida socrática

         Sócrates é considerado o pai da filosofia. A sua hipótese de que criamos os deuses em vez de sermos criados por eles constituiu um golpe fatal no universo dos mitos. A partir daí, ficou mais fácil para o ser humano guiar-se pela razão.
        Mas Sócrates também ficou famoso por afirmar: “Só sei que nada sei.” Como alguém capaz de percepções tão certeiras sobre a mente humana poderia “nada saber”? Qual era a intenção do filósofo ao dizer isso?
       Certamente era mostrar que a condição básica para o conhecimento é se despojar das falsas certezas e desconfiar das verdades estabelecidas. Para pensar por si mesmo é preciso “partir do nada”, construir o próprio saber e, com ele, a própria visão de mundo. Isso não significa desconhecer a tradição; significa posicionar-se livremente quanto a ela.
         Os homens se distinguem pelos graus de verdade que podem suportar. As ilusões estão ao alcance de todos; a verdade, só de alguns. Cada um deve ter a liberdade e a coragem de construir a sua.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Para Denise, em mais um aniversário

Mais um ano se soma à tua história 
-- um ano, como sempre, partilhado  
entre os que de tua alma generosa
recebem o pronto e essencial cuidado. 

Tudo que te deseje nesta hora      
pouco dirá do que o coração sente,
pois é difícil presentear agora
quem entre nós sempre se fez presente.

Quisera, nesta data tão querida,
em contraste com teu pendor discreto, 
engrandecer-te na justa medida

e assim reafirmar, estando perto
de ti, que nas errâncias desta vida
és o conforto do caminho certo.

domingo, 10 de junho de 2018

Rasteirinhas

Em 2014, o Brasil foi “a Pátria de salto alto”. O time estava mais interessado em posar e dar entrevistas do que em treinar com aplicação.
O resultado foi o ignominioso 7 a 1, que ainda hoje aparece como uma nota derrisória, um estigma vergonhoso, um ferrão em nossa alma de torcedores.
Naquele ano tínhamos um técnico vaidoso e personalista; agora temos um Tite, que não gosta de ti-ti-ti; sua franqueza de “paizão” consquistou a torcida.
Fala-se que falta empolgação popular, e a tal “corrente” ainda não se formou. De fato. O atual momento do Brasil dificulta a conexão dos elos, mas é bom não esquecer que a Seleção sempre foi a antítese da política e do chamado “mundo oficial”.
O Poder costumava capitalizar as glórias das conquistas mas não se confundia com elas. A Seleção era (e esperamos que continue sendo) do povo. Mesmo porque, no atual momento, ninguém da equipe deve se comover com a possibilidade de receber cumprimentos no Planalto. Seria bola fora.
É preciso recuperar a humildade. A Seleção tem que ser “a Pátria de rasteirinhas” para brigar sem empáfia e dar uma rasteira nos gringos. Sem isso não vai conseguir arrebatar o Caneco. Sem isso, a coisa pode ficar ruça.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Zanzoando (12)

        “Rouba, mas faz” (que a gente tem ouvido muito nos últimos tempos) sugere uma resignação cúmplice. O primeiro passo para vencer a corrupção é instituir o “Faz, mas rouba” e dar o maior peso possível à adversativa. Quem faz e rouba acaba desfazendo o que fez.
                                               ****
        A rigor, não existe renúncia. Toda renúncia é troca, e muitas vezes a alternativa ao que renunciamos nos gratifica mais.
                                               ****
       Toda queixa é agressão. O queixoso invoca a própria infelicidade para provocar culpa nos outros. Ao atribuir aos outros a responsabilidade por seu sofrimento, exime-se de resolvê-lo por si. Ele cultiva uma espécie de narcisismo masoquista, que só faz perdurar a aflição. Mas não se importa de sofrer, contanto que torne visível aos outros o espetáculo da sua dor.
                                               ****
        Sei que sou lento e, quando “vou”, os outros já “estão voltando”. É justamente por ver a cara deles que eu não sinto vontade de me apressar.
                                               ****
      A preocupação com o Além não leva a lugar nenhum. Distorce o essencial do problema, que é saber de onde viemos. Só descobrindo isso é que saberemos para onde vamos (se é que vamos a algum lugar). O mistério está na origem, e não no fim. O fim é o que imaginamos que será; o início é o que realmente foi. O homem pode fantasiar hipóteses sobre o final, em função de suas crenças, mas não pode escapar da matriz de que proveio — a natureza e o que a engendrou.
                                               ****
        Você diz que é capaz de dar uma festa e não filmar os convidados? Duvídeo!