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sábado, 30 de junho de 2012

Apelo junino

Ei, vamos dançar de novo aquela quadrilha? Prometo que agora não vou lhe decepcionar. Da primeira vez me comportei mesmo como um matuto, deixando você sozinha no salão. De nada adiantou o cachimbo, o cornimboque e o bigode com que me adornaram para parecer um cabra da peste. Tudo aquilo era postiço; verdadeiro mesmo só a minha timidez. Agora prometo levar a dança até o fim, mesmo que ainda não tenha muito jeito. Ou jeito nenhum.
Venha, estou lhe dando a minha palavra. Não a palavra daquele rapazinho que um dia fugiu de você, mas a do adulto que aprendeu um pouco a reconhecer seus erros. Um deles foi ter feito você chorar. Ou não chorou? Se não, como explicar a maquiagem desfeita? Percebi a pequena trilha d’água perfurando o excesso de preto e ruge com que tentaram afogar sua beleza. Besuntaram muito, mas esse exagero não desfigurou o rostinho meigo de onde brotava um sorriso cujos reflexos ainda hoje iluminam a minha vida.
Se você vier agora, prometo que não vou fugir para o pátio vizinho ao salão a fim de contemplar os fogos que explodiam na noite. Eu procurava me distrair com as luzes e a fumaça que emanava das fogueiras, e vez por outra notava um balão que se perdia no escuro (naquele tempo, estranhamente, eles eram permitidos). Queria estar num deles, voar para bem longe e afogar nas sombras a lembrança do que acabara de ocorrer. O barulho da festa, com as pessoas rindo, dançando e falando alto, contrastava com o meu silêncio desolado. Deveria ter voltado ao salão e pedido desculpas, mas em vez disso fiquei por ali ruminando o meu fracasso.
Bem que poderíamos tentar outra vez. Você deve estar se perguntando: mas como? onde? Sei que aquele vestidinho colorido de chita não cabe mais em você -- nem a pulseira, nem o colar. Mas você deve ter guardado pelo menos o broche vermelho raiado de branco que estava espetado em seus cabelos. Ou o perfume que eu aspirei em seu pescoço e me deixou um pouco tonto, levando-me mais uma vez a errar o passo. Isso nos fez tropeçar um no outro e quase nos esborrachar no chão. Fiquei sem jeito, olhei-a como quem pede desculpas; você apenas sorriu e continuou firme na dança, com uma perícia bem de mulher. Foi tolice não deixar que você, dali em diante, conduzisse os passos. Por uma soberba tipicamente masculina, preferi fazer isso mal a lhe seguir. E deu no que deu.
Foi quando retornei ao salão que percebi em seu rosto a discreta trilha de lágrimas. Você se recusava a olhar para mim. Parecia amuada, já não sorria. Estava certa, claro, pois eu era o seu par; graças a mim, deve ter tido a primeira noção do que é o abandono.
Houve um momento em que nossos olhos se cruzaram e tive alguma esperança, mas você fez que não me viu. Parecia ter superado o que acontecera e já me haver esquecido. Sei que não esqueceu, por isso agora lhe faço este apelo. De onde estou vejo e ouço os fogos, aspiro a mesma fumaça acre. Com um pouco de esforço, posso até ouvir a música que nos embalava naquela noite remota... O coração bate como há tantos anos. Tenho em mim o cenário, sou o cenário. Só falta você.

domingo, 17 de junho de 2012

Seleção de frases (11)

Ela há vinte e quatro anos lava louça. Está perto de comemorar suas bodas de pratos.
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Quando Machado de Assis disse que é melhor cair das nuvens do que de um terceiro andar, ainda não existia o avião.
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Ninguém é o que diz. Nem diz o que é.
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O que importa é o crente, não a religião.
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Culpar só o capitalismo por tudo que há de ruim é uma forma de ilusão ou má-fé. O ser humano corrompe qualquer sistema.
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O pior ostracismo não é o político. É o familiar.
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A vantagem de falar só é que não se precisa de interlocutor para isso.
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Desabafo de bêbado: viver é dose!
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A linguagem é a nossa essência e o nosso avesso.
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Uma das penas para a prática da monogamia é a prisão domiciliar.

terça-feira, 12 de junho de 2012

A namorada

Nós brigávamos muito. Os amigos nos viam mais afastados do que juntos, e quando encontravam um dos dois a primeira pergunta que faziam era: “Vocês ainda estão namorando?”. O motivo das brigas era banal, irrelevante, mas comumente (coro em o dizer) estava ligado ao meu ciúme.
Eu era um adolescente inseguro. Tinha pouca experiência em namoros e vivia empaturrado de literatura e filosofia mal assimilada. Ela tinha olhos verdes. Além de verdes, inquietos, como aliás era ela toda. Gostava de olhar a rua, os carros, as pessoas, com uma avidez que me parecia suspeita. Ciumento vê ameaça em tudo. Eu queria deter aquela onda magnética, canalizá-la só para mim. Como não conseguia, arranjava pretextos para cobranças e brigas.
Ficávamos um tempo sem nos ver, e nesse período eu lhe mandava cartas. As cartas eram uma tentativa de explicação, um meio de pedir a ela que me perdoasse. Escrevia-as num estilo que eu hoje chamaria “desesperado-incandescente”. Era tudo iluminado com metáforas, amplificado com hipérboles, recheado de citações pretensamente doutas sobre a vida e o amor.
Eu queria com toda essa retórica impressioná-la, e parece que a coisa funcionava. Dias depois nos reconciliávamos por entre beijos tórridos e juras eternas (com todos os adjetivos a que uma paixão adolescente tem direito). Essa alternância entre brigas e cartas durou um bom tempo. Devo ter escrito umas 15 ou 20, sempre caprichando na forma e achando que, quanto melhor escrevesse, mais eu a impressionava e retinha.
Um dia tivemos uma briga mais séria, por um motivo tão bobo que a enfureceu. Afastei-me por uns dias e tratei de providenciar mais uma torturada missiva, na qual arderia de novo o meu coração. Não foi preciso. O fogo dessa vez veio do outro lado, e nada metafórico. Quando liguei para lhe informar que iria levar a carta, ela me disse que isso era inútil; já queimara todas as outras.
Mal acreditei no que tinha ouvido. Cheguei a pensar que era mentira, ela não podia ter sido capaz de tanta maldade. Mas fora, sim. Incinerara os meus sofridos textos. Se eu queria confirmar, que fosse lá ver as cinzas... Não fui, é claro. E naquela noite me revirei na cama cheio de ódio e frustração. Ao mesmo tempo que a amaldiçoava, eu me achava um imbecil. Por que não tinha feito como Sartre (então meu ídolo), que tirava cópia das suas cartas de amor?
Com o tempo avaliei melhor o episódio, que não deixava de conter uma lição -- uma das muitas que eu aprenderia com as mulheres. As cartas nada mais eram do que um monumento à minha vaidade. Querer suprir por meio delas falhas pessoais era um equívoco que só poderia destruir a relação. À namorada não interessava o escritor, e sim o homem, que não precisava ser “inteligente” para se fazer amar. Bastava ser menos complicado, mais confiante e capaz de demonstrar que gostava mesmo dela.
Não guardo mágoas, mas devo confessar que vez por outra penso nas cartas. Bem que eu gostaria de as reler agora e reencontrar nelas o adolescente ansioso, que procurava num estilo trêmulo confessar o seu amor. Talvez -- quem sabe? -- até tivessem algum valor literário... Não sei se perdoei de todo aquela namorada. Às vezes acho que me casei com ela por uma espécie de vingança.

(Em "A idade do bobo", p. 11)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

A volta de Edeltrudes

Edeltrudes reaparece depois de um sumiço de meses. Para quem não sabe, esse é o nome que dei à minha lagartixa de estimação. Durante noites ela cruzou a parede do escritório e ficava me olhando com aquele ar ancestral próprio das lagartixas. Isso aconteceu tantas vezes, que se estabeleceu entre nós uma familiaridade silenciosa, feita de contemplação e mudo espanto.
Ela me fitava e assim permanecia por várias horas, como se quisesse me desvendar. Eu a olhava, voltava a ler ou escrever e depois levantava de novo a vista – lá estava ela de focinho arqueado, balançando quase imperceptivelmente a cabeça. A casa dormindo, a família ressonado, Edeltrudes era naquelas horas a minha única companhia. Imóvel, só se abalava para engolir, num gesto rápido, algum mosquito que aterrissara junto dela. Deglutia-o com um enorme pudor, a mandíbula imóvel, como se fosse feio mostrar que precisava comer.
A presença de Edeltrudes era como um símbolo vivo da imobilidade do tempo, que de noite parece tecido de sombras e medos. O período anterior ao sono é sempre enigmático e assustador. Ver Edeltrudes ali pregada, dizer-lhe boa-noite e apagar a luz era como ter a garantia de que ia haver o dia seguinte.
Depois a lagartixa se cansou de mim e desapareceu. Eu não sabia se ela tinha morrido ou se encontrara outra melhor parede – ou algum “dono” mais interessante, pois lagartixas não são como cães. E de repente vejo-a de novo, brancosa e paciente, como se sempre tivesse estado ali. Que garantia tenho de que a Edeltrudes de agora é a de anos atrás? Não seria esta outra, parecida com a primeira?
Nunca gostei de bicho e, pior, jamais algum bicho gostou de mim. Conforta-me pensar que a lagartixa que ora invade o meu espaço de trabalho é a mesma que um dia me conheceu, foi embora e acabou sentindo saudade. E voltou para me dizer que nunca é tarde para a gente restabelecer uma afeição.
O cão e o gato nos cercam e nos intimam, transformando o relacionamento num eterno saldo a pagar. O primeiro quer mais e mais afagos, o segundo quer mais e mais leite. A exemplo de alguns humanos, acabam nos oprimindo com o seu amor. Edeltrudes nunca latiu, nunca miou, dela jamais ouvi a voz. É de uma ternura quieta e silenciosa.
Além do mais, tem a difícil virtude da conveniência; sabe desaparecer quando é preciso. Durante o dia, vendo-me envolvido com pessoas e coisas, tem a generosidade de não me deixar preocupado com ela. Esqueço que existe, e nem por isso ela se ressente e me abandona. Pelo contrário: mal entro no escritório, vejo-a em sua clássica posição – imóvel, serena e aparentemente eterna. Como se no íntimo dissesse: “não te espantes com a minha fidelidade. Venho de furnas e cavernas imemoriais, e nada exijo daqueles a quem amo”.
Alguns podem achar Edeltrudes asquerosa, mas em matéria de amor de bicho foi o melhor que consegui. Consolo-me pensando que, mesmo no domínio das afeições humanas, há escolhas piores. Minha lagartixa é melhor do que muita ”víbora” que anda por aí...

domingo, 3 de junho de 2012

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