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domingo, 29 de dezembro de 2013

Sinal dos tempos

        Ele pensou em dar à família um Natal diferente. Estava cansado de ver todo ano a mesma coisa: a parentada em volta da árvore, comendo e bebendo, depois a entrega dos presentes e por fim a ceia. Sentia que, a despeito de a festa por si renovar os espíritos, era preciso mudar um pouco o ritual.  
       Mas como fazer para inovar num acontecimento que se alimenta da tradição? A mulher havia anos armava a mesma árvore. Estava (a árvore, não a mulher) tão velhinha, que toda a iluminação já fora trocada. Ele sentia um confortável prazer em ver a esposa retirar do armário os objetos conhecidos e recolocá-los quase no mesmo lugar. Um ano era muito tempo, o que sempre o fazia se surpreender com detalhes que não observara em anos anteriores. A roupa do anjo Gabriel, por exemplo. Ou a barba de um dos reis magos.
      Então lhe ocorreu a ideia: contratar um Papai Noel para vir, em pessoa, entregar os presentes. A família era pequena; dava para acomodar num saco os mimos que compraria para a esposa, os três filhos, os sogros e as duas cunhadas. 
    Ficou imaginando o efeito: meia-noite, ele reunido com a família na sala, e todos estranhando nesse ano não haver presentes. A sogra desapontada, pois esperava um novo modelo de toalha de mesa. O sogro chateado porque precisava de cuecas e deixara de comprá-las justamente porque o Natal estava chegando. De repente, alguém bateria na porta. A filha mais nova iria ver quem era e voltaria gritando, afogueada: “Mãe, é Papai Noel!”. “O quê?!”
       Bolado o plano, tratou de o pôr em prática. Não foi difícil contratar alguém. Nessa época muitos indivíduos com o chamado “físico do papel” dão seus nomes a agências de emprego, que são procuradas sobretudo pelos shoppings. Ele foi a uma delas. Depois de ver fotos e fazer uma entrevista com o escolhido, contratou o serviço. 
      Comprou os presentes e, na véspera do grande dia, deixou-os com o homem. Era um senhor grisalho, bonachão, conforme convinha à personagem. Chamava-se Leopoldo e tinha um Fiat velho, mas em bom estado, em que levaria os pacotes.
       Enfim, noite de Natal. Para diminuir a perplexidade dos parentes, que não compreendiam a ausência dos presentes em volta da árvore, ele disse que mais tarde haveria uma surpresa. Gerou-se uma tensa mas benéfica expectativa, que só foi  quebrada quando um carro parou quase em frente à casa. 
       Após uns dois minutos, ouviram-se gritos de “Pega! Pega ladrão!” Ele correu até a calçada e viu Leopoldo, desesperado, apontando para dois rapazes que dobravam a esquina levando o saco no qual estavam os presentes; balançava a cabeça e repetia, como que se desculpando: “Vieram de surpresa! Não pude fazer nada...”
        Tratou de tranquilizar o pobre homem e o conduziu ao interior da casa. “Este é Leopoldo”, apresentou, explicando em seguida o que planejara. Houve algum desapontamento, mas todos acabaram compreendendo. Nesse ano não teriam presentes, mas ali estava Papai Noel! Se o despojaram da carga preciosa, qual o remédio? Ninguém hoje tem segurança ao andar nas ruas, ainda mais à noite... O importante era não perder o espírito natalino. E com isso em mente riram, deram um abraço no Bom Velhinho e partiram para a ceia.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Escapando

         Seu Aderson era um velho amigo da família. Costumava nos visitar pelo menos uma vez por mês, geralmente aos domingos, quando ficava para o almoço. Vestia-se com a elegância que o salário da prefeitura permitia. Embora não fosse de sorriso fácil, parecia de bem com a vida.
       Sempre que entrava em nossa casa e lhe perguntávamos como estava, Seu Aderson respondia: “- Vou escapando.” Eu era muito pequeno e não entendia bem o significado daquilo. Escapando... de quê? Ouvira algumas vezes essa palavra e me acostumara a lhe dar um valor exagerado. Quando falavam sobre desastres, por exemplo, diziam que houvera tantas vítimas e um ou outro tinha escapado. Em alguns casos, não escapara ninguém!
         Isso fazia com que a palavra tivesse para mim um odor de tragédia. E lá vinha Seu Aderson banalizar-lhe o sentido, usando-a numa situação comum. O que ele tinha vivido de tão perigoso para dizer que ia escapando?
         O velho morreu faz tempo (disso não escapou) e eu continuo por aqui. Vivo num mundo algumas décadas diferente daquele em que ele viveu, e sempre que me perguntam como estou indo o meu impulso é o de repetir suas palavras: “- Vou escapando .” E não digo isso por força de expressão.
     Ultrapassar mais um dia nos tempos atuais é sobreviver a uma série de combates e riscos. Quem consegue, escapou. O que diria Seu Aderson caso hoje lhe fosse exigido, por exemplo, percorrer as ruas da cidade à noite? Quem sai de casa nem sempre tem a certeza de voltar. As drogas e a bandidagem tornam qualquer percurso noturno uma aventura cujas consequências ninguém imagina. Ou imagina, sim, e por isto sai temeroso, deixando a família inquieta. Nunca pareceu tão verdadeira a conhecida frase de Guimarães Rosa: “Viver é perigoso.”
         Já se começa o dia cercado por expectativas ameaçadoras. As primeiras manchetes dos jornais impressos ou televisivos são de violência. Vizinhos assassinam vizinhos, pais matam filhos (ou vice-versa), torcedores se trucidam nos estádios. Parece que o mundo se transformou num grande açougue, e ninguém está livre de ser abatido na próxima esquina. Dizer que os bandidos venceram a guerra contra a polícia virou um lugar-comum que aceitamos como uma irônica fatalidade.
         A violência não vem só dos marginais, ou seja, não se alimenta apenas da desigualdade social. Entre pessoas da mesma classe também é grande o furor, a intolerância, o impulso de agredir por qualquer motivo. Parece que um enervamento sistemático corre em nossas veias. E o trânsito, com o perdão do trocadilho, é em grande parte o veículo dessa hostilização. Há carros demais, motos demais, gente demais querendo ir ao mesmo lugar na mesma hora.
         Seu Aderson não tinha carro, andava a pé, o que sem dúvida lhe tornava mais fácil ir escapando. Nos dias de hoje há mais apelos e desafios. Escapar exige o concurso de todos os sentidos e também o bafejo da sorte. Num mundo em que a violência ultrapassou de muito os limites da racionalidade, voltamos a depender do destino para ganhar mais um dia.