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domingo, 28 de julho de 2013

"Subliminar"

        O inconsciente nunca foi bem-aceito pela ciência. O que não pode ser visto nem provado não interessa à maior parte dos cientistas. O método científico trabalha com hipóteses que devem ser verificadas para tornar ou não válidas as teorias. É quase impossível fazer esse trabalho num domínio do psiquismo que fica abaixo do limiar da consciência. Um domínio que não pode ser testado nem quantificado, e por isso não se presta a formalizações válidas sobre o homem e a natureza.
      O panorama vem mudando, e uma das provas é este “Subliminar” (Zahar), de Leonard Mlodinow. O autor, que é doutor em Física, pretende mostrar que existe mesmo um inconsciente e que ele determina a maior parte das nossas escolhas. A obra é rica em evidências resultantes de pesquisas rigorosamente documentadas.
       Numa delas, por exemplo, constatou-se que um grupo de mulheres escolhia seus maridos não pela beleza ou pela inteligência, mas por terem o mesmo sobrenome. Em outra, descobriu-se que a cotação de determinadas ações aumentava nos dias ensolarados (parece que o sol estimulava o ânimo para jogar na Bolsa). Um terceiro estudo mostrou que uma descrição mais floreada dos pratos de um restaurante levava os fregueses a considerá-los mais gostosos. Em detalhes como esses revela-se a influência do inconsciente, que fala às emoções, aos sentidos, e tem razões que não são percebidas pela mente racional.  
        Mlodinow fala de um “novo inconsciente”, que se distingue do que é apresentado na psicanálise freudiana. Para o físico, o inconsciente não é o lugar em que desejos proibidos entram em conflito com um superego tirânico. Não é a sede de impulsos instintivos que se “recalcam” em razão da moralidade. Não é, enfim, a cena dos complexos que vão definir a sexualidade humana.
      Ele é antes efeito da configuração do nosso cérebro, que evoluiu de estágios primitivos – comuns a todos os animais – até chegar à complexidade do córtex pré-frontal. Expandimo-nos racionalmente preservando níveis primitivos de sentir e pensar; esses níveis jamais são soterrados e interferem com muita força em nossas preferências conscientes. Eles fazem com que julguemos “produtos pela caixa, livros pela capa e até balanços anuais de corporações pelo melhor acabamento em papel brilhante” (p. 31). A ideia fascina e não deixa de constituir um alerta: é preciso se prevenir contra as aparências. Mas dificilmente escapamos a elas.  
       O que falta ao inconsciente de Mlodinow é a dimensão da linguagem. Ele aparece como uma memória de prazeres, estímulos, sensações, mas não sedia o jogo mediante o qual o desejo procura driblar a censura (o superego) condensando ou deslocando sentidos. O inconsciente teorizado pela ciência não se interessa, por exemplo, em explicar os sonhos e os atos falhos. Justifica nossas escolhas, mas não quer saber do que ocorre quando elas não podem se realizar. Desconhece as possibilidades de explicação pela análise e, com isso, fecha as trilhas para a cura das neuroses.
       Isso nem de longe tira os méritos do livro, cuja variedade e rigor dos casos apresentados constituem um argumento convincente. Depois de o ler a gente é estimulado, antes de fazer nossas escolhas, a pensar no mínimo duas vezes.

domingo, 21 de julho de 2013

Redator não é escritor


          No artigo “Escritor não é revisor”, publicado nº 93 da Revista Portuguesa, Sírio Possenti volta a discutir a correção das redações do Enem. Ele afirma que há “dois discursos” sobre o que uma redação deve avaliar: o do Inep e o da mídia. O primeiro leva em conta “o que há de positivo num texto”, detendo-se nos aspectos de organização e coerência. Já o segundo dá ênfase às questões ortográficas e gramaticais, punindo com rigor os que cometem deslizes nesses domínios ou fazem brincadeiras.    
           Possenti defende que o primeiro discurso deve prevalecer sobre o segundo; é mais importante organizar bem as ideias e redigir coerentemente do que conhecer regras de gramática e ortografia. Não há dúvida de que isso é verdade. Escreve bem sobretudo quem pensa bem e formula com clareza o pensamento. O problema é que sua argumentação se funda na oposição entre escrever e revisar, deixando de lado o que se deve esperar de quem redige.
         Antes de tratar disso, duas observações sobre as “brincadeiras” que o professor menciona, referindo-se obviamente aos estudantes que inseriram em seus textos parte do hino do Palmeiras e uma receita de miojo. A primeira é que tais brincadeiras não deveriam constar ao lado das infrações gramaticais e ortográficas. O autor as coloca entre esses delitos leves para minimizar seu efeito, esquecendo-se de que elas afetam a progressão e, por conseguinte, a coerência e a unidade textual. Ou seja: atentam contra requisitos que ele considera importantes.
        A segunda observação tem a ver com o aspecto, digamos, ético das referidas inserções. Não há como defender seus autores depois que eles confessaram ter feito o que fizeram para mostrar que os corretores não leem as redações. Pelo visto, na hipótese mais branda, conseguiram o seu intento. E na mais grave, acabaram revelando a imperícia e sobretudo a ingenuidade de quem, tendo-as  lido, não percebeu que esses alunos não estavam fazendo o exame a sério. Estavam ali para desmoralizar a banca... Saber ler é ser capaz de captar intenções desse tipo.  
        Possenti  invoca o exemplo dos escritores para demonstrar que se deve ser tolerante com determinadas infrações ortográficas e gramaticais no vestibular. De fato, por não serem obrigados a revisar seus textos, muitos deles desconhecem aspectos da norma culta. Como observa o linguista, o autor “está dispensado de saber um conjunto de coisas (de ter algumas competências, dir-se-ia hoje). O que se espera dele é que domine outras: em suma, que saiba escrever (...)”.
          Esse paralelo entre escritores e vestibulandos é um dos pontos vulneráveis da sua argumentação. O linguista se revela contraditório logo ao responder à professora Daniela Aizenstein, para quem uma das exigências da redação dos vestibulandos deve ser “ideias maduras e originais”. Contrapondo-se a esse ponto de vista, ele interroga: “o que é uma ideia original? (...) É original esperar ideias originais de redações de estudantes de 18 anos?” Ou seja: tacitamente reconhece que os referenciais adotados para vestibulandos e escritores não podem ser os mesmos. No entanto, é com base no que fazem os escritores (ou seja, na capacidade que eles têm de “escrever” mesmo ignorando preceitos normativos) que defende mais complacência com os que no Enem cometem erros ortográficas e gramaticais.
          Os escritores, de fato, usam a língua mais como fim do que como instrumento. São originais, têm o que dizer. Certamente é por isso que neles determinados deslizes podem ser perdoados. Antonio Prata, por exemplo, manda suas crônicas para a “Folha de S. Paulo” com problemas de ortografia e pontuação, e depois as recebe em condições de ser publicadas.  
          Mas em que medida se pode comparar os vestibulandos com Antonio Prata, Chateaubriand, Kafka ou Cervantes (os autores citados no texto)?  A quase totalidade dos que se submetem às provas vai usar a língua instrumentalmente em concursos, exames acadêmicos, entrevistas de emprego – instâncias em que se exige do candidato o conhecimento da norma culta. Assim, eles serão cobrados no âmbito que Possenti  considera, se não irrelevante, pouco significativo do ponto de vista da produção textual.
         O candidato que se submete a um concurso público ou tem que preencher um questionário para conseguir emprego não vai contar, como Prata, com revisores de plantão. Tem que resolver por si as questões gramaticais e outras que dizem respeito à norma. Deve revisar o próprio texto, o que significa dizer: redigi-lo por inteiro.
         Atribuir a revisores tarefas que são de redatores (e ainda mais opondo-as às dos escritores) é dar a entender que a revisão é atividade menor, subsidiária. E como nela se concentram as correções gramaticais, sugere que se pode escrever bem desconhecendo aspectos da norma; os escritores, afinal, não precisam dela para produzir seus textos. Uma ideia como essa repercute negativamente em sala de aula, pois encoraja o descaso com o estudo da língua.   
          De um bom redator não se exige originalidade ou estilo, mas clareza e correção de linguagem. O vestibular pede uma redação, não um texto literariamente criativo, e quem redige (na escola ou fora dela) deve conhecer a norma gramatical. Que se deixe aos escritores a prerrogativa de tangenciá-la e por vezes ignorá-la – eles que podem compensar as eventuais carências nesse domínio com os produtos do engenho e da emoção.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Diálogos (11)

       O professor de redação disse que a gente deve fugir do lugar-comum. 
       -- Descobriu a pólvora!
                                                     ****
     -- Mestre, quem o senhor levaria para uma ilha deserta?
     -- Quem me faz esse tipo de pergunta. E o deixaria lá para sempre!
                                                     ****
     -- Estou escrevendo sobre a impotência. 
     -- Uma tese?
     -- Não. Uma brochura.
                                                     ****
    -- Mestre, é difícil encontrar um idiota?
    -- Nem sempre. Muitas vezes ele está diante de nós. 
                                                     ****
    -- Estava escrito nas estrelas que ficaríamos juntos para sempre...
    -- Alguém deve ter apagado.   

domingo, 7 de julho de 2013

Microcontos


Velhice

A mulher entrou no banheiro. O marido, apreensivo, ficou esperando na sala.  Assim que ela voltou, ele fez-lhe a pergunta: “Conseguiu?!” “Sim.” 
Estava ganho o dia.  
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Ofício de viver  

Passou a maior parte da vida na repartição. Morreu sem saber qual foi mesmo o seu papel.
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Herança

Humilhado, olhou para o filho e pensou: “Esse vai ser maior do que eu”. Seu pai um dia dissera dele a mesma coisa. 
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Recusa

Morreu descontente consigo. Dizem que suas últimas palavras foram: “Se Deus me der o céu, perco o respeito por Ele.”
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Metamorfose

Certa manhã, José C. acordou transformado num asqueroso inseto. Sua mulher, aproveitando o pretexto, borrifou-lhe uma dose letal de Detefon.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Seleção de frases (27)

       Para bom agricultor, meia pá lavra.
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       Infelizmente, ninguém é julgado pelo que sonhou.
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     O marido não enxergava que a mercearia do casal não dava certo. A mulher o alertou: “-- Homem, tire essa venda e venda a venda.”
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       Um dos meus conselhos para se aproveitar a vida é: “Ria, enquanto tem dentes.”
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      O estilo é a forma no pensamento.
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    O pior defeito humano é a impaciência. Por não conseguir dar tempo ao tempo, o impaciente atropela o ritmo da vida.   
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     A maioria dos necrológios tem muito pouco a ver com os defuntos.
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    Depois que inventou de criar animais em casa, ela come o cão que o diabo amansou.
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    Tudo bem que se queira “sair do armário”. Mas não precisa ficar se expondo na varanda... 
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     Há os sem teto e os sem chão. Uns perderam a casa; outros, a ilusão.