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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Diálogos (10)

- Joãozinho, o que é isso no seu boletim?
- Ora, pai. É para um dia eu mostrar aos meus filhos que comecei do zero.
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A mulher, ressentida, ao homem que ameaça deixá-la:
- Foram 20 anos de dedicação...
- E você não pode dizer que eu aproveitei mal esse tempo!
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- Alfredo, a bebida ainda vai te levar à beira do precipício!
- Não se preocupe. Eu não vou pular.
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Depois de transar com o sujeito que vivia alardeando suas proezas sexuais, a garota comenta com a amiga:
- Ele é melhor de fala do que de falo.
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Diz a mulher para o marido português, que ziguezagueava na pista:
- Pegue a mão direita!
- Não posso. Estou segurando com ela a direção.



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Que mistério tem Clarice?

Uma pausa, leitor. Hoje não se fala de pacote, violência ou praia suja. Estes são assuntos urgentes e práticos, que antes nos demandam ação do que reflexão. E o mundo não se conserta mesmo. Vamos dar um tempo a essa agitação frívola, nociva tanto ao corpo quanto à alma, e conversar com alguém muito especial. E ouvir coisas certamente profundas sobre os mistérios da vida e do ser.
Isso te assusta e agride? Deixa de ser tolo. A vida é cheia de mistério e não é por negá-lo, querendo em tudo o raso e o chão, que ele se arredará de ti. Não vires a página; fica. E vamos conversar com Clarice Lispector. Foi numa tarde de domingo que ela visitou o meu escritório. Nessa ocasião, como sabes, algumas pessoas estão na igreja, outras nos bares, outras apenas sozinhas - esperando que o domingo passe. Clarice veio sem manto e sem luz, com a humildade dos verdadeiros santos. E eu fui, como quem não queria nada e em verdade querendo tudo, lhe fazendo as perguntas:
P- Se tivesse de escolher entre a literatura e a maternidade, o que você escolheria?
R- Eu desistiria da literatura. Não tem dúvida que como mãe sou mais importante do que como escritora.
P- A mãe deve seguir alguma diretriz especial?
R- À medida que os filhos crescem, a mãe deve diminuir de tamanho. Mas a tendência da gente é continuar a ser enorme.
P- Qual a sua mais remota lembrança ou impressão desta vida?
R- Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo sentia que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
P- E da outra vida, há alguma remota lembrança ou impressão?
R- Estou certa de que através da idade da pedra fui exatamente maltratada pelo amor de algum homem. Data desse tempo um certo pavor que é secreto.
P- Lendo os seus livros, a gente percebe que não apenas os seres humanos - também os bichos lhe impressionam.
R- Sinto os bichos como uma das coisas ainda muito próximas de Deus, material que não inventou a si mesmo; e como uma das formas acessíveis de gente.
P- Qualquer maneira de chorar vale a pena?
R - Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem.
P- Você se considera uma pessoa ordenada?
R- As pessoas que se preocupam demais com a ordem externa é porque internamente estão em desordem e precisam de um contraponto que lhes sirva de segurança.
P- Escrever lhe é substancialmente necessário?
R- Minhas intuições se tornam mais claras ao esforço de transpô-las em palavras. É neste sentido, pois, que escrever me é uma necessidade.
P- O escritor tem que estudar para escrever?
R- Para escrever, o único estudo é mesmo escrever.
P- Que pedido você faria ao linotipista que compõe os seus textos?
R- (...) não me corrija. A pontuação é a respiração da frase, e minha frase respira assim. E, se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.
P- Hoje é domingo, Clarice, e nem eu nem você estamos na igreja. Você acredita em Deus?
R- Mesmo para os descrentes há o instante de desespero: que Deus me ajude. Deus tem que vir a mim, já que não tenho ido a ele.

("A rosa fenecida", p. 103)
Leia o livro em http://www.bookess.com/read/14343-a-rosa-fenecida

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Seleção de frases (19)

Há dois tipos lamentáveis de mulher: as que escondem quando deveriam mostrar, e as que mostram quando deveriam esconder.
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O amor não acaba quando falta emoção. Acaba quando falta assunto.
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Não adianta matar o tempo. Ele sempre ressuscita.
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O homem precisava de um álibi intelectual para odiar o semelhante. Inventou a ideologia.
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Nada afasta mais a felicidade do que “ter tudo para ser feliz”.
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Onde os outros veem horizonte, o deprimido vê abismo.
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A medicina preventiva é a poupança dos médicos.
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A eleição é, de fato, a festa de democracia. Pena que acabe logo, e a esse momento luminoso suceda uma longa penumbra em que mal se vê ou escuta o povo.
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O perdão pode ser bonito e cristão. Mas não deixa de representar, para o agressor, um reforço de comportamento.
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Sem humor, a vida não tem graça.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Ao perdedor, as baratas!

Um livro recente, preocupado em caracterizar a diferença entre os sexos, afirma que os homens são de Marte e as mulheres, de Vênus. Homem e mulher seriam antíteses físicas e, sobretudo, psicológicas. O que ela quer, ele despreza. E o que ele persegue ou admira, ela simplesmente abomina.
Casado e pai de duas meninas, vivencio como poucos o desmesurado abismo que separa mulher e homem. Sou um marciano entre três venusianas. Posso dizer que em minha casa não convivem quatro, mas um contra três, e que tal oposição se revela em todos os domínios disso que se chama lar. Há momentos em que lamento não haver aceitado o conselho de um tio árabe, hoje falecido. Em mais de uma visita que lhe fiz, em Campina Grande, ele me fitou com gravidade e quase me intimou: “É preciso providenciar o filho varão!”. Disse e repetiu, com uma ênfase e uma convicção maometanas: “Trate de fazer o varão!”.
Na época, ri desse prudente conselho, contestando o que me parecia uma demonstração de exacerbado machismo. E pensava comigo: varão lá em casa, só eu. Sendo o único homem entre três afanosas mulheres, julgava que seria alvo de certos cuidados e regalias. Mas quão enganado eu estava. Às vezes penso que já não mando, já não influo, já não interfiro em minha própria casa.
Por não entender de vestidos ou de maquiagem, fui mais de uma vez expulso do quarto. Por ser alheio a temperos, molhos e demais sutilezas da gastronomia, já me enxotaram da cozinha. Por não saber me comportar nas festinhas de casa ou da escola, e sempre achar que se comprou bolo ou balas demais, fui gentilmente convidado a, nessas ocasiões, permanecer no escritório. E ali tenho ficado a maior parte do tempo, roído pelas traças da solidão e do desgosto – entre livros que me entendem e são tão severos quanto eu. Enquanto isso, fora desse estrito domínio, a casa se subverte em excessiva e colorida alacridade. Sei que sou uma mancha cinza, às vezes um desmancha-prazeres, e me recolho humilde ao meu reduto de homem. Com a sensação de estar dispensado ou excluído.
Ah, mas vez por outra chega o instante em que tudo isso muda. Trata-se de um momento especial, que eu gozo com um êxtase secreto e viril. Nessas ocasiões recobro o meu papel e, com ele, os brios perdidos. E sinto interiormente um prazer que remonta às cavernas, sim, aos urros dos velhos machos ancestrais. Tudo começa com um, dois, vários gritos. “Chico, corre!”. “Papai, vem aqui depressa!”. “Depressa, papai!”. Já imaginando o que seja, sorrio e me levanto devagar. Não me precipito, valorizo o pânico e a espera. E vou tratando de pegar o chinelo, que empunho como a uma arma de guerra.
Ao chegar na sala, vejo que uma das mulheres está em cima do sofá, outra em cima da mesa, a terceira em cima de uma cadeira. Geladas de nojo e de terror. E ficariam interminavelmente nesse estado, não fosse a minha providencial e masculina interferência. No chão, a poucos metros da mesa e do sofá – a barata. Ela as acua com o seu focinho escuro, de onde emergem aquelas lúgubres e dançantes anteninhas. Consciente da sua força, do seu império de terror, a barata parece disposta a jamais se afastar dali. E contemplo agradecido essa flor dos esgotos, a quem, estranhamente, fico a dever o resgate da minha honra.
Antes de executá-la, olho ainda as mulheres que tremem sobre os móveis. Com expressão aflita e urgente, solicitam a minha piedade e o meu socorro. Então, num gesto decisivo e fulminante, reduzo o monstro a uma pasta caspenta e branca. Depois envolvo o cadáver em papel higiênico e levo-o, triunfante, para o lixo.
As mulheres se libertam do antigo jugo, conquistam espaços profissionais e, como que por vingança, vivem nos ameaçando. Mas eu te digo, ó homem, que não há por que temeres a tal guerra dos sexos. Não serás perdedor. O nosso poderio de séculos não irá pelo ralo – pelo contrário: é do ralo mesmo que, impressentida e sorrateira, virá nossa aliada maior. Nosso instrumento de redenção.

("A rosa fenecida", p. 67) Leia o livro em:  http://www.bookess.com/read/14343-a-rosa-fenecida

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Compulsões

Vejo uma reportagem na TV sobre compulsão. A repórter entrevista alguns compulsivos, que falam sem pudor de suas manias. Uma mulher só se sente feliz quando faz compras. Mostra no guarda-roupa uma porção de vestidos, blusas, sapatos que jamais vai usar.
Um homem expõe sua monumental coleção de CDs, que se empilha por vários cômodos da casa. Ele não dará conta disso nem que passe o resto da vida ouvindo música. E será que gosta mesmo de música? Quem gosta elege seus compositores preferidos e os ouve repetidas vezes, sem esse afã de substituí-los por outros. Gostar é resumir, selecionar. Mas o compulsivo não avalia méritos, qualidades; o que o motiva é a satisfação mecânica de seus impulsos.
A psicologia cognitivo-comportamental associa os gestos compulsivos a obsessões de que o indivíduo procura se libertar. O pensamento obsessivo aponta para um perigo a que a pessoa fica exposta caso não pratique os rituais de repetição. Neste sentido, comprar sem motivo ou fazer ginástica sem limites seriam pequenas mortificações para afastar uma ameaça ilusória. Ou para apaziguar uma consciência culpada.
Essa cadeia de mortificações constitui no limite um distúrbio sério, em que os gestos compulsivos ganham uma espécie de autonomia que faz a pessoa esquecer o que está querendo purgar. É como no tique nervoso, ou no cacoete, que são caricaturas de prece. O indivíduo ritualiza, com trejeitos corporais, uma reza sem sentido. Ou uma reza que, pelo menos no início, só tem sentido para ele.
Quem não tem suas compulsões? Aquele que não as tiver atire a primeira pedra (os escritores têm as frases feitas, que são compulsões linguísticas). Alguns as disfarçam em atividades nobres, como a arte ou a política. Outros as sublimam nos rituais religiosos. Outros por fim as vulgarizam em jogos, vícios, exercícios físicos.
Minha tese (nada original) é que o excesso de atividade física é uma tentativa de afastar o medo da morte. A consciência de que está exercitando coração e músculos, e com isso combatendo o exército mau de triglicérides e ácidos graxos, dá à pessoa uma ilusão de plenitude. Ou de inexpugnabilidade. Alguns dizem que o que leva a tal excesso é o efeito da endorfina, mas isso não invalida a tese. As preces são uma endorfina da alma, e também se justificam por nossa recusa em morrer.
As compulsões mostram que é tênue o limite entre sanidade e doença mental. Mesmo o indivíduo “normal” tem, como diria Machado, seu grau de sandice. Curar os compulsivos seria curar o mundo, e quem tentasse fazer isso teria o destino de Simão Bacamarte – aquele personagem machadiano que, ao buscar distinguir os doidos dos sãos, termina recolhido a um hospício.

(Em "A idade do bobo", p. 21)