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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Carpe diem

Ao fim da vida gongórica,
quis estampar no seu túmulo
uma inscrição retórica.

Cunhou a frase bombástica
com verve, capricho e nítida    
intenção encomiástica.

Mas veio o destino sádico
e sem rumor nem estrépito
(mas dos seus desígnios ávido)

fez que lá chovesse a cântaros:
a água, num fluxo intérmino,
afogou como num pântano

aquele ornamento gráfico.
Agora lhe enfeita a lápide 
só o silêncio sarcástico.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Zanzoando (3)

Justificativa para o acidente com Teori Zavascki, segundo uma mulher que ouvi no supermercado:
-- Muita macumba!
                                   ****
Os empresários têm seus interesses, que são legítimos. Querem lucro e devem ser estimulados a obtê-lo, pois assim pagam mais impostos e permitem ao Estado bancar as despesas com saúde, segurança, educação.
Essa dinâmica fica bagunçada quando um milionário chega à presidência da República. Sendo governo, ele se confunde com o Estado e acaba pervertendo-lhe as funções. A tendência é que transforme a máquina estatal em instrumento de seus interesses e deixe de atender o povo (embora fale o tempo todo em nome dele).
O Estado deve servir aos despossuídos, e não favorecer quem já tem demais.
                                  ****
Não é meio irônico o sujeito se chamar “Lenine” e se dizer traído pela esquerda?
                                            ****
Teori chega no Céu e se dirige, de má vontade, ao Criador:
-- Senhor, o que houve? Foi muito bom ter vindo pra cá, mas eu não podia perder a vida agora. Tinha uma importante missão a cumprir. A nação precisava de mim para botar um bando de corruptos na cadeia.  
-- O problema foi justamente esse, meu filho. Eu tentei evitar o que aconteceu, mas o lobby era muito forte!
-- E quem patrocinou esse lobby? O Tinhoso?
-- Não. Como se trata do seu país, foi... o Jeitoso.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Coisas

-- Viu que coisa?
-- Achei a aula... coisificante.    
-- Ele não explicou o que disse que ia explicar.   
-- Pois é. Aquela coisa kantiana de...
-- A “coisa em si”.    
-- Isso, o que está além da representação! Inacessível ao intelecto e aos sentidos.     
-- Ele poderia ter explorado mais a noção de “coisidade” da coisa. Ou mesmo de alienação, apelando dialeticamente para Marx.
-- Não misture as coisas!
-- Sei que o tema é complexo, mas com algum esforço ele talvez conseguisse.  
-- Concordo. A coisa só não foi pior porque ele reconheceu e se desculpou
-- Essa foi a melhor coisa da noite. O autorreconhecimento de que não era lá grande coisa.
-- Também não humilhe o homem. Isso é coisa de ressentido.
-- Ressentido coisa nenhuma!
-- Não podemos julgar ele apenas por esse erro. Cada coisa tem seu peso, não adianta forçar.
-- Tá bom. Mas saiba uma coisa: se isso se repetir, eu pego uma coisa da sala e jogo nele.
-- Que coisa?
-- Uma coisa bem pesada.   
-- Tolice, isso não é coisa que se faça. Ele tem o seu valor.
-- Tinha! Veja como são as coisas: não faz muito tempo ele era o tuxaua, uma "coisa" em termos de filosofia. E agora?
-- Mas ele vai se reabilitar. Se há uma coisa certa neste mundo, é que um dia se segue ao outro.
-- Se reabilitar como? Fazendo o quê?
-- Qualquer coisa que nos leve de novo a confiar nele.
-- E que coisa seria essa?
-- Aí é que está a coisa! Cabe a ele descobrir.
-- Desconfio de que não consegue.   
-- Por quê, ora? Você está com má vontade. Pegue suas coisas e vamos embora.
-- Já vou, mas tem uma coisa: se ele não se reabilitar, vou passar isso na sua cara. Você está defendendo demais o professor. Parece até que há alguma coisa entre vocês dois.
-- Vamos embora, antes que eu me irrite! Você já não está falando coisa com coisa.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Zanzoando (2)

Quando eu era pequeno, ouvi falar de um “paletó para homem lascado atrás”. As pessoas diziam isso e riam. Eu, claro, não conseguia entender. Sempre me lembro dessa frase quando penso na hipálage, figura sintática que representa um “deslocamento de atribuição”.
A hipálage pode ser um recurso literário, como nesta passagem: “Fiquei olhando o voo branco das garças”, em vez de “O voo das garças brancas”. O deslocamento do adjetivo “branco” (de “garças” para “voo”) enriquece visualmente a imagem.
Voltando à minha lembrança. O normal é: “paletó lascado atrás para homem”. O problema é que, nessa ordem, desfaz-se a malícia -- e com ela, a graça.
                                            ****
Foi preciso mais de 100 presos morrerem em chacinas para se concluir que o maior problema dos presídios brasileiros é... a burocracia. Propõe-se agora soltar os que não deveriam estar mais atrás das grades.
O medo é que o velho “jeitinho” exerça aí o seu papel e se acabe mandando para a rua mais gente do que o desejável.
                                           ****
Segundo Voltaire, o segredo de aborrecer é dizer tudo. Dizer tudo, além de deixar o leitor impaciente, tira-lhe o prazer de compreender por si. É uma forma de subestimar sua inteligência.
                                           ****
Não tenho nada contra quem pinta o cabelo. É louvável o esforço de querer parecer mais jovem, driblar os anos. O problema é que às vezes se carrega na tinta. O ideal seria esconder o artifício, negar que o tingimento é fingimento. Como não se faz isso, o efeito algumas vezes chega a ser patético. 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Artimanhas da vírgula

          A vírgula altera o sentido da frase. Ela pode...

         MUDAR O TEOR MORAL DE UM CONSELHO
Não se venda caro.
Não se venda, caro.

INDICAR O CONTRÁRIO DO QUE SE DISSE  
Não gosto de caminhar sozinho.
Não, gosto de caminhar sozinho.

DISTORCER A LIÇÃO DE UM PROVÉRBIO
Quem canta seus males espanta.
Quem canta seus males, espanta.

TRANSFERIR UM ATRIBUTO A OUTRA PESSOA
A filha chegou com a mãe neurótica.  
A filha chegou com a mãe, neurótica.  

         TRANSFORMAR A CONVICÇÃO EM INDIFERENÇA   
         Quem quer se salvar ora.           
         Quem quer se salvar, ora.

UNIVERSALIZAR UM CONCEITO
Não confie no homem que engana os outros.
Não confie no homem, que engana os outros

   MOSTRAR QUE UMA REGRA NÃO ADMITE EXCEÇÕES
          Fora João, ninguém entra aqui.
          Fora, João, ninguém entra aqui.
         
TRANSFORMAR UM ESTADO EVENTUAL NUM DEFINITIVO
         Anda preguiçoso.
         Anda, preguiçoso.

         DESFAZER UMA EXPECTATIVA   
         Todos querem ver Maurício campeão do UFC.   
         Todos querem ver Maurício, campeão do UFC.
           
         MOSTRAR QUE O SENTIMENTO MUDOU           
         Só se você me acompanhar.  
         Só, se você me acompanhar. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Zanzoando

Tomando um cafezinho num quiosque de Tambaú, ouço a conversa de dois sujeitos. Um deles diz:
-- Quando eu morrer, vou me enterrar no seu buraco.
Que promessa estranha!
                                        ****
Entre as minhas leituras de férias, estão “Sodoma e Gomorra” (Marcel Proust), o terceiro volume de “Em busca do tempo perdido”; e “Guia de escrita” (Steven Pinker), um excelente roteiro para quem quer escrever com “clareza, precisão e elegância”.
Proust nas primeiras páginas do seu livro faz uma caracterização exaustiva do homossexualismo, buscando entender (e explicar) a psique do que chama de “homens-mulheres” e “mulheres-homens”.
Uma pílula retirada da página 29: “Toda criatura busca seu prazer, e, se essa criatura não é por demais viciosa, busca-o num sexo oposto ao seu. E para o invertido o vício começa (...) quando (...) busca o seu prazer nas mulheres.” Ele usa mesmo o termo “vício” , que hoje pode soar politicamente incorreto. Mas usa-o como Freud usa “perversão”, ou seja, com um propósito mais descritivo, ou analítico, do que moral.
O livro de Pinker é das melhores coisas que li sobre a arte de redigir. Com base em postulados da neurolinguística, o autor nos apresenta os princípios do chamado “estilo clássico”.
Entre as diretrizes desse estilo está o emprego da ordem direta, a fuga às abstrações (“O estilo clássico minimiza as abstrações, que não podem ser vistas a olho nu”), a preferência por verbos, a recusa ao emprego dos chamados “substantivos zumbis”, que tendem a “esconder” os responsáveis pelas ações (corrijo muito essa prática nas redações dos vestibulandos, que escrevam frases do tipo: “É preciso mudança e renovação no nosso sistema de ensino”, sem informar quem deve fazer tais mudanças e, sobretudo, em que elas consistem).   
Há também no livro ótimas observações sobre o uso da voz passiva (às vezes injustamente estigmatizada) e sobre os perigos da “maldição do conhecimento”, que consiste em achar que o leitor é capaz de entender conceitos ou nomenclaturas de determinadas áreas.  Esse mal acomete muito os intelectuais e não raro os leva à obscuridade, que no fundo disfarça um falso saber.
                                        ****
       Outro dia na televisão ouvi alguém dizer que é preciso entender “o psicológico” dos jovens. Alto lá! “Psicológico” é adjetivo, e não substantivo. Aparece bem em locuções como “nível psicológico” “distúrbio psicológico” etc. O que é preciso é entender “a psique”, “a mente”, “o psiquismo”, “a psicologia” dos jovens.
      Lembrei-me agora de um aluno que, numa redação, referiu-se ao “psico” dos adolescentes! Essa também não dá. “Psico” é forma presa, só aparece em compostos (psicoativo, psicolinguística etc.). 

sábado, 7 de janeiro de 2017

Diálogos (16)

-- Para diminuir os gastos, decidi que lá em casa ficaríamos um dia na semana sem comprar nada.  
-- Funcionou?
-- Mais ou menos. Notei que nesse dia minha mulher adoece.
-- Adoece?! Por quê?  
-- Síndrome de abstinência
                                      ****
  -- Dizem que vai faltar gasolina.
  -- Então fiquemos a postos!
                                     ****
-- Mamãe, Maria é ave?
-- Não, meu filho.
-- Então por que se diz “ave Maria”?
-- Não sei... Faça uma pergunta melhor.
-- Décimo é pinto?
-- Não!
-- Então por que se diz “pio décimo”?
                                    ****
-- O que o músico faz em comum com o sapateiro?
-- Sola.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A palavra mais bonita

Li há algum tempo uma pesquisa sobre qual seria a palavra mais bonita da língua portuguesa. Muitos levaram em conta apenas o conteúdo e responderam “amor”, “ética”, “democracia”, “credibilidade” e semelhantes. Essas são palavras nobres, não há dúvida, pois veiculam elevados conceitos ou sentimentos. Mas os responsáveis pela pesquisa estavam mais interessados na forma. Queriam saber das palavras como organismos sonoros ou mesmo visuais. Palavras que tinham uma beleza em si.
É claro que não se pode abstrair a forma do conteúdo, pois significante e significado tendem a constituir uma unidade. São como cara e coroa. Quando ouvimos uma palavra, automaticamente a vinculamos ao que ela significa. Mas com um pouco de imaginação é possível dissociar esses níveis; fazendo isso, captamos a beleza que elas têm. “Amor”, “ética”, “democracia”, “credibilidade”, convenhamos, são palavras pouco expressivas. Tanto é assim que não as “percebemos”; vamos direto ao que elas significam e nos damos por satisfeitos.
Mas duvido que você vá direto ao sentido de “crisálida”, “magnólia”, “puerpério”, “sobrancelha” (a preferida de Veríssimo) e outras que retêm a nossa atenção pela densidade sonora.  Isso independe do significado. “Palustre”, por exemplo, quer dizer “pantanoso”, mas perde o que pode respingar nela de pútrido neste verso de Jorge de Lima: “A garupa da vaca era palustre e bela” (um verso cuja harmonia fônica encantava o meu amigo Antonio Carlos Villaça, de quem o ouvi pela primeira vez).
A pesquisa de que falei queria palavras bonitas e, com isso, testava a sensibilidade poética dos leitores. A poesia é por excelência o terreno onde impera o significante, a forma. Isso não quer dizer que se pode escrever qualquer coisa desde que soe bem. “Qualquer coisa” nunca soa bem, pois um mínimo de nexo é desejável. No entanto mesmo desse nexo estamos dispostos a abdicar desde que a mensagem se sustente como forma. “Rosa, sublime contradição. Volúpia de não ser o sono de ninguém debaixo de tantas pálpebras” – esses versos de Rimbaud, que cito de cor, não querem “dizer nada”. Mas como são bonitos, como impressionam poeticamente! E por quê? Porque visualizamos as pálpebras como pétalas (metáfora) e, com isso, aceitamos o sublime paradoxo apontado no início.
Augusto dos Anjos é um bom exemplo de que, na poesia, a forma conta mais do que o conteúdo. Muitos dos que o admiram não compreendem seus poemas, mas se impressionam com a melodia áspera de versos como estes: “Produndissimamente hipocondríaco/ Este ambiente me causa repugnância.../ Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia/ que se escapa da boca de um cardíaco.” Parece que quanto menos o “entendem”, mais o amam.
Considerar as palavras por si (escutando-as ou "vendo-as") e procurar atribuir-lhes os sentidos que parecem adequados é um bom exercício para as aulas de criação literária.  Os alunos a princípio acham estranho esse processo de desautomatização, mas acabam gostando da brincadeira. Afinal, não deixa de ser engraçado descobrir que “jiló” deveria significar “um tipo de lagarta”; “boiola”, um molusco encontrado em água doce; e “erisipela”, uma exótica flor do Oriente.
E agora, que tal aderir à pesquisa sobre a palavra mais bonita da nossa língua? Pensei em “sussurro”, “beneplácito”, “obnubilado”, mas vou ficar com “escafandro”. Não gostaram? Gosto não se diz, curte-se.  

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Reconto

                             (para ler cortando)
Acendeu a luz, pressionando o interruptor até ouvir um clique, e entrou no quarto transpondo o umbral que separava esse cômodo da sala onde se encontrava. Percebeu que estava sozinho, pois ali não havia ninguém. Lembrou-se então de telefonar para Lucélia. Fez isso utilizando o único aparelho que havia no quarto, já que ali não existia outro, e pressionando o polegar nas teclas que correspondiam ao número da moça. Certamente ela ouviu a chamada, pois atendeu. E quase imediatamente, uma vez que não se passou muito tempo, perguntou “quem é” – sinal inequívoco de que não sabia quem tinha ligado.
Jubilino (esse foi o nome com que o batizaram e que motivou o seu rompimento com os pais) resolveu não dizer nada antes de falar alguma coisa e, com isso, romper o silêncio. Lucélia ficou irritada e ameaçou dizer um palavrão, mas não disse, tanto que permaneceu calada. Sentiu o sangue “ferver-lhe nas veias”, já que ele não pode mesmo ferver fora delas; se o fizesse, a queimaria toda -- desde que, obviamente, a expressão não passasse de uma metáfora.
Jubilino (todo o seu tormento começou com o bullying que sofrera na escola por causa desse nome; pensou até em trocá-lo por Astarpácio) resolveu se revelar e acabar com o mistério, que desse modo seria desvendado. “É Jubilino”, sussurrou em voz baixa para não se ouvir (não sem evocar, num lampejo que durou pouquíssimo tempo, a figura dos pais e o nefando dia em que eles foram ao cartório).
Explicou em seguida por que tinha telefonado para Lucélia, conforme se podia deduzir do fato de ambos estarem conversando naquele momento. Disse que se sentia só e sem companhia, de modo que precisava de uma. Lucélia perguntou se aquilo era um pedido de casamento (o que o pegou de surpresa, pois ele não esperava) e antes que lhe respondesse a moça disse “Aceito!”, o que significava concordância com o suposto mas não declarado pedido. Jubilino (se os pais não tinham inspiração, por que não consultaram um guia telefônico?!) sentiu-se encurralado pela enfática e eufórica reação da moça, que além disso se mostrava veemente e alegre. Confirmou que era mesmo um pedido de casamento e que, se ela quisesse, poderiam marcar o dia desde que essa fosse a sua vontade.
O rapaz disse que se casaria dali a um mês se ela pudesse agora lhe fazer companhia e ficar junto dele no quarto. Lucélia teve pena e, apiedando-se do seu futuro consorte, disse que iria. E foi, tanto que chegou lá em alguns minutos e num breve intervalo de tempo. Os dois se abraçaram, apertando o corpo de um contra o do outro e enlaçando-se por trás, e se beijaram aproximando os respectivos lábios. Lucélia disse que estava surpresa e espantada, pois não esperava aquilo. Perguntou quando iriam subir ao altar, galgando os degraus e se postando diante do padre para dar o sim e, com isso, afirmar a concordância quanto ao propósito de se casarem. Iriam se tornar marido e mulher até que a morte os separasse e que os dois fechassem os olhos para sempre e nunca mais os abrissem.   
        Jubilino (e pensar que seus pais também tinham dito um comovente “sim” no altar antes de se casarem e escolherem o nome pelo qual ele seria chamado!) lhe disse que iria tratar dos papéis e dar entrada nos documentos, pedindo-lhe em seguida que ela se deitasse ao lado e junto dele. Estava carente e necessitado. Ela assentiu, concordando, e os dois fizeram amor pela primeira vez, já que isso nunca ocorrera antes. Lucélia então lhe falou que queria fazer um pedido. Era sobre o nome da criança que haveriam de ter. “Se for menino, quero que o nome seja o seu. Acho tão bonito...”. 
      Ouvindo essas palavras, o rapaz enterrou o rosto no travesseiro, que estava embaixo da sua cabeça, e começou a chorar, fazendo com que dos seus olhos corressem lágrimas. Lucélia, perplexa e atônita, olhava o futuro esposo sem saber o que dizer. 

Palavras e palavrão

Nosso destino é circular entre palavras. A sensibilidade a elas varia de pessoa para pessoa, mas o homem só se reconhece por meio da representação verbal. Há os que as amam e os que as desprezam (com medo da sua carga de verdade); os que por meio delas procuram o sentido e os que, descrentes, procuram o sentido nas coisas.
Esses estão mais próximos do Nada. Ou da ausência de Deus, pois Deus é por excelência a Palavra, o signo absoluto, que só pôde ser criado a partir do desmesurado vazio. Mesmo essa ideia de vazio é metafórica, o que prova que só se pode pensar o sentido por meio do verbo. Fora da linguagem não há enredo que nos aponte a salvação.  
Circular entre palavras é ter com elas, desde o início, uma relação não só intelectual como também afetiva. É ouvi-las e também senti-las, cheirá-las. Às vezes temê-las também pelo que há nelas de abscôndito e sinuoso.  O que intimida a criança diante do adulto é não compreender o sentido de certos termos. A criança, como diz Lacan, não tem o falo (ou seja, não tem a fala) e se reconhece impotente por isso.   
Fiquei intrigado, já lá vão muitos anos, quando vi meu pai sorrir com deleite ao ouvir pelo rádio um político dizer “minimizar”. O que havia de interessante em “minimizar”? Por que essa devia ser, naquele momento, a palavra adequada – tão certeira que provocou o sorriso espiritual do meu pai? Eu não conseguia entender e senti-me derrotado, mais criança do que realmente era. No dia em que descobri o que ela queria dizer, experimentei uma espécie de triunfo.
Preocupamo-nos com as nossas relações com as pessoas, mas ninguém se interessa muito por seu comércio com as palavras. Por que não parar um pouco e tentar escrever as memórias de nossas experiências verbais? Quem fizer isso constatará que, a cada signo aprendido, vai-se alargando a sua percepção do mundo e, sobretudo, de si mesmo. 
Desnecessário é dizer que esse comércio envolve um lado nobre e também um lado negro, representado pelas expressões pornográficas. O aprendizado desse último é chocante e nos precipita em alguns tormentos morais. Aprender a palavra feia é um pouco aceitá-la, confundir-se com ela, perder a virgindade quanto a certos inconfessáveis propósitos humanos. 
Lembro-me de que fomos vizinhos de um pessoal mal-educado, que não poupava nem eles mesmos das chamadas expressões chulas (este adjetivo sempre me sugeriu mau cheiro, o chulé da linguagem). Numa discussão com os tais vizinhos ouvi um termo que, desde então, ficou soando para mim como o grande palavrão da língua.
O impacto do termo, que obviamente eu não sabia o que significava, deveu-se em parte ao horror da minha mãe. Convivi dias com essa palavra impenetrável e terrível, que se alternava em meus devaneios noturnos com a confortadora luminosidade do santo-anjo rezado antes de dormir.  Era tudo uma questão de semântica; o termo chulo, com a sua fonética enigmática e rude, aparecia como a antítese do anjo, o outro lado da salvação.
Nem muitos anos depois, quando estudando Medicina deparei-me em Anatomia com a expressão “saco escrotal”, livrei-me da angustiante impressão que aquele termo provocara em mim. E olhem que tomei contato com muitos outros, “cabeludos” e terríveis – sobretudo no início da adolescência, quando o uso de palavrões é uma espécie de senha para ser aceito pela turma.
A experiência do palavrão é um triste mas necessário acidente de percurso. Geralmente modelado em partes pouco nobres da anatomia, ele confirma a intranscendente animalidade do nosso corpo, que pela palavra feia se revela mortal.