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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Seleção de frases (23)

O gol de letra deve ter sido inventado para diminuir o analfabetismo no futebol.
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A honestidade é como o orgasmo. Não existe pela metade.
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Senhor, afasta de mim as tentações, mas não as tentadoras!
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O tempo não conspira contra os que se amam. O amor acaba mais pelas rusgas do que pelas rugas.
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O que me falta é o que me faz sobrar.
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Crise de identidade não é quando você não sabe quem é. É quando imagina ser muitos.
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Meu guru disse nunca conseguiu me fazer atingir o ponto alfa. Isso para mim não é surpresa. Há muito tempo eu desconfiava de que ele era mesmo um analfa.
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O tempo nos remete à outra face da moeda. Ontem, eu era “o cara”. Hoje sou o coroa...
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Não se chateie se rirem de você. Afinal, o riso é uma prova de humor.
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O que nos falta nunca faltou. É apenas a aspiração do que não somos.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Ciclotímicos sociais

Vez por outra dou meus passeios na orla do Cabo Branco, pela manha, e nessas ocasiões revejo amigos e conhecidos. Um deles – mais conhecido do que amigo – foi meu colega no Liceu Paraibano e tem uma curiosa particularidade: às vezes me cumprimenta, às vezes não.
Isso me deixa mais intrigado do que constrangido, mesmo porque não interpreto sua eventual indiferença como algo dirigido a mim. Deve ser um traço lá dele, que certamente se comporta de igual maneira com outras pessoas.
Seria compreensível se a partir de certo momento ele deixasse de me cumprimentar e não mudasse mais de atitude. A indiferença se explicaria pela lembrança de uma antiga mágoa. Ou pelos fuxicos de alguém que teria insinuado que eu fizera algum comentário negativo sobre ele. Com o tempo a vida se encarregaria de explicar o mal-entendido, ou não, e iríamos em frente – cada um sabendo o que devia fazer quando cruzasse com o outro.
Mas o riso hoje, e a indiferença amanhã, convenhamos que isso desconcerta. Sempre que o vejo apontar a alguns metros, penso comigo: “E hoje? Ele vai falar ou não?”. À medida que nos aproximamos, cresce a expectativa. Olho para o chão, para o mar, fito o longínquo Farol espreitando com o canto dos olhos como está a cara dele. O pior é que a cara não diz muita coisa; a expressão neutra, marmórea, pode subitamente se abrir num sorriso ou permanecer como está. Sinto um alívio quando passamos um pelo outro.
A psicologia deve ter um nome para designar pessoas assim. É gente que sofre de uma espécie de ciclotimia social. Falta-lhes constância no trato. O modo de se relacionarem com os outros é determinado pelo bom (ou mau) humor com que se acordam. “Hoje não estou para ninguém” – e se encaramujam, ressentidas, com raiva do mundo. Ou então: “Hoje estou de bem com a vida” – e que os outros recebam, como dádiva rara, a graça de suas efusões.
Acredito que essas pessoas sofrem com mais rigor a verdade expressa na conhecida frase de Sartre. Para elas, os outros devem ser mesmo o inferno; e ter de cumprimentar alguém logo de manhã é a primeira labareda de um círculo (os “círculos infernais” de Dante!) que se alargará ao longo do dia. Daí o mutismo, daí a seriedade, daí a indiferença, que não vem livre de remorso. Do contrário não se explicaria o comportamento oposto, em que o riso desponta como um pedido de desculpas.
Enfim, são os abismos da alma humana. Por mais que tentemos ser compreensivos com gente desse tipo, é difícil não se irritar com o purgatório em que a sua inconstância nos precipita. Nunca sabemos como estão. Nunca sabemos o que verdadeiramente sentem por nós.

(Em "A idade do bobo", p. 85).
Leia o livro completo em:
http://www.bookess.com/read/14324-a-idade-do-bobo




 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O hino e as drogas

Dois eventos muito comentados nos últimos dias foram a execução do Hino Nacional pela cantora Vanusa, na Assembleia Legislativa de São Paulo, e a entrevista da atriz Fernanda Torres a Isto É.
Com voz sonâmbula e trôpega, Vanusa embaralhou os versos da pátria canção a ponto de fazer todo o Brasil rir. Nosso hino, com aquela enxurrada de inversões e termos pomposos, já não é fácil de compreender. Trocando palavras e confundindo imagens, a cantora o reduziu à máxima incongruência.
Houve quem visse em seu desempenho um caso pensado, como se ela quisesse chamar a atenção para a natural dificuldade da letra e, por meio disso, engrossar o coro dos que desejam modificá-la. Depois se esclareceu o episódio: Vanusa cantou obnubilada, pois estava sob o efeito de remédios.
Fernanda Torres trata de outro tipo de drogas. A atriz escreveu e está encenando uma peça sobre elas -- não apenas sobre, mas contra. Diz que experimentou maconha e cocaína, viveu o inferno a que substâncias como essas normalmente levam e agora sentiu a necessidade de fazer um alerta.
Sua entrevista é uma espécie de julgamento da geração que via nos “paraísos artificiais” uma forma de militância política e contestação dos valores burgueses. Naquele tempo, tomar droga era ser revolucionário e expandir os horizontes existenciais. Quem se recusava era alienado ou no mínimo careta. O preço pago por essa ilusão foi muitas vezes a neurose, a impotência sexual ou a loucura.
Hoje a atriz é casada, tem filhos e frequenta academias de ginástica. Procura levar uma vida saudável, mas sente remorso por estar se transformando numa pessoa “certinha” e exemplar. Parece que não superou de todo o patrulhamento que, em outros tempos, incitava-a a romper com os códigos sociais. Segundo essa antinorma, ser certo era ser errado; e cuidar da saúde, um execrável hábito burguês que alheava o indivíduo de experiências fundamentais. Quanto mais autodestrutivo ele fosse, mais “profundo” e respeitável.
O desempenho de Vanusa e a entrevista de Fernanda levaram-me de volta aos anos 1960, quando não apenas se consumiam drogas como se cantava muito o Hino Nacional. Eu confesso que não tinha jeito para nenhuma das duas coisas. Menos por medo e mais por instinto de preservação, nunca experimentei maconha, cocaína, LSD ou qualquer desses passaportes mágicos para a transcendência. Sentia-me por causa disso um excluído, uma espécie de marginal da marginalidade, mas hoje não me arrependo das ofertas que recusei.
Quanto ao hino, era difícil cantá-lo por obrigação e, sobretudo, para exaltar a ditadura vigente. Quando nos reuníamos no pátio do Liceu com o intuito de fazer isso, meu peito “inchava” de má vontade e da boca não saía nada. O silêncio era uma forma surda de militância, uma maneira de recusar o que estavam fazendo com o País.
O melhor de ter ouvido as duas mulheres é constatar que o tempo passou. Fernandinha reconhece, com franqueza e coragem, o engodo de que foi vítima toda uma geração. E Vanusa não foi presa por, mesmo sem culpa, desrespeitar um símbolo nacional.

("A idade do bobo", p. 91)
Leia o livro completo em http://www.bookess.com/read/14324-a-idade-do-bobo