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quinta-feira, 25 de abril de 2013

Seleção de frases (25)

Quem sai aos seus não se regenera.
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Concordo que “ser” é mais importante do que “ter”. Por exemplo: ser rico vez de apenas ter um dinheirinho...
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O mundo seria melhor se, em vez de apontar as diferenças entre as pessoas, a gente destacasse as semelhanças.
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“Sabe quem é o padroeiro do fast food?” “É o São Duíche.”
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A retórica justifica tudo. É possível absolver um assassino cruel invocando os direitos humanos.
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Todo livro chato tem um começo e um... enfim!
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Acredite mais na crítica do que nos elogios. Nenhum crítico é hipócrita.
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“- Sabe quando é que o espírito baixa?” “- É quando a pomba gira.”
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O dinheiro não salva, mas salda.
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Perdoa-se tudo aos velhos, menos que não se comportem como velhos.

sábado, 20 de abril de 2013

Gullar e a gramática


Um poeta tem obrigação de saber gramática? Quem acha que não, deve ler a entrevista de Ferreira Gullar à revista “Língua Portuguesa”. O autor de “A luta corporal” e “Poema sujo” se mostra de um rigor surpreendente quanto a certos usos determinados pela norma. A diferença entre “este” e “esse”, por exemplo, que mesmo alguns gramáticos tendem hoje a minimizar.
Gullar defende a gramática em nome da clareza e da precisão. Não se pode separar rigor semântico de rigor gramatical, pois “as palavras têm sentido preciso e, para escrever bem, é preciso saber o significado, as relações entre elas, quais se combinam, como convivem”.
Geralmente os aspirantes a poetas ignoram essa lição. Na universidade eu recebia muitos originais de poemas, e não eram poucos os que apresentavam falhas de ortografia, regência, concordância. Cada jovem daqueles se achava um gênio da língua e certamente considerava humilhante uma consulta a Celso Cunha, Rocha Lima ou Evanildo Bechara.
O que alimenta um ponto de vista como o esse é a má compreensão da noção de “desvio”. Para certas correntes da teoria literária, a criação decorre de um desvio da norma, ou seja, de uma transgressão aos preceitos gramaticais. A norma legisla sobre o uso comum, não sobre o estilo.
Não há dúvida de que isso é verdade, conforme demonstram figuras como a silepse. Quando Vieira escreve “Os portugueses sois ladrões”, está “infringindo” uma norma de concordância. Trata-se de uma infração aparente; Vieira é português, mas não se considera ladrão. Daí ter usado o verbo na segunda pessoa (vós), embora o sujeito estivesse na terceira (eles, os portugueses).
Ninguém faz isso ignorando a gramática. Pelo contrário: é preciso conhecê-la muito bem. Embora constitua uma transgressão normativa, o “desvio” traz implícita a norma. Do contrário, não seria percebido como tal.
Constatações como essa transparecem da entrevista de Ferreira Gullar, que devia ser lida por todos os aspirantes a escritores. Para ele o embasamento gramatical, ao contrário do que alguns pensam, não é empecilho à criação.

domingo, 14 de abril de 2013

A cura

Um dia Eustáquio adoeceu gravemente. Os médicos resolveram interná-lo, mas de nada valeram os remédios e as vitaminas que lhe davam; o homem estava cada vez mais pálido e começava a definhar. Pelo visto, tinha pouco tempo de vida.
Um dos doutores chamou a família e disse que ele poderia não chegar ao fim do mês. E agora? Afável, e com um bom contracheque, Eustáquio era muito benquisto pelos irmãos -- um rapaz e uma moça. Como nenhum deles se casara, acostumaram-se a se amparar um no outro. Eustáquio era por assim dizer a viga-mestra, que agora estava na iminência de se esboroar carregando os dois consigo.
Estavam os irmãos ainda sob o impacto do susto, quando uma enfermeira trouxe do quarto a notícia: pressentindo que ia morrer, o doente queria realizar um último desejo.
- Último desejo?! -- estranharam, pois o irmão aparentemente não tinha desejos. Sempre fora calmo, aquiescente, dividindo a renda com os dois. Agora vinha com essa história. O que a perspectiva da morte não faz!
- E qual é o desejo? - perguntaram quase ao mesmo tempo.
- Ele... quer assistir um strip-tease. No quarto mesmo, já que não pode sair de lá.
- Como?! -- levou tempo para se recuperarem do susto. -- Um strip-tease?! Que pouca vergonha! (Quem berrou isso foi Creusa, apoplética.) Jamais! Se ele fizer isso, e sobretudo numa hora dessas, aí é que vai mesmo para o inferno.
Nestor, mais ponderado, observou que não era justo negar essa vontade ao irmão. Ele sempre fora bom, e tinha o direito de realizar seu estranho desejo antes de morrer. Se queria ver um o strip-tease, que viesse o strip-tease.
O problema era: quem ia fazer o número? Pensaram, pensaram, e alguém propôs Ritinha. Ela morava na mesma rua que a deles e não tinha lá muito boa fama. Lhe explicariam o caso, e a moça (moça era força de expressão) certamente não se negaria a prestar esse serviço a um moribundo.
Ritinha ouviu a proposta, pensou um pouco e acabou aceitando. Menos pelo dinheiro e mais pelo próprio Eustáquio, que ela conhecia de vista e achava uma grande pessoa. Faria o número feliz por dar alegria a alguém que estava tão próximo de deixar o mundo.
Chegou o dia. Ritinha entrou no quarto com uma roupa vermelha rendada. As enfermeiras tinham diminuído a intensidade da luz, para criar uma atmosfera de boate. Na sala de espera, Creusa apertava nervosamente as contas de um terço, preocupada com a alma do futuro morto. A sessão levou uns 30 minutos, e nunca se soube muito bem o que aconteceu ali.
Estranhamente, após daquele dia Eustáquio começou a melhorar. Logo dispensou os medicamentos e deixou o hospital. Algum tempo depois surpreendeu a família pedindo Ritinha em casamento. Creusa se opôs, arrependida por haver permitido o capricho do irmão, mas terminou concordando. Até aceitou ser madrinha, contanto que pudesse escolher o nome do futuro sobrinho.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Do flerte à paquera

Camões escreveu que “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. O poeta quer dizer com isso que nosso desejo é mutante. O que queremos hoje podemos rejeitar amanha, e o que agora desprezamos pode no futuro ser objeto do nosso mais ardente empenho.
Essa verdade vale também para as palavras. Não que elas possam desejar alguma coisa. Palavras não são gente. Mas o prestígio de que desfrutam varia muito, refletindo a nossa forma de sentir o mundo.
Um passeio pela ficção de Machado de Assis mostra isso. Quem sabe hoje o que é “tílburi”? Era uma espécie de carro de duas rodas puxado por um só animal. Tanto servia ao uso particular como ao público, antecipando o táxi dos dias atuais.
No tempo de Machado, “boceta” era uma caixinha em que se guardavam pequenos objetos ou rapé. Não tinha o sentido cabeludo que lhe dão hoje. Machado usa-a mais de uma vez para se referir à caixinha de onde Pandora, a mãe Natureza, retirou as desgraças que atingem os homens.
O próprio rapé também saiu de moda, pois hoje uma turma pesada prefere cheirar outra coisa. Ninguém cheirava rapé para viajar ou cometer delitos; no máximo essa mistura de tabaco com substâncias aromáticas provocava alguns espirros. Era um estupefaciente e descongestionante.
Falo da época de Machado, mas não é preciso ir tão longe. Os jovens, que hoje desabusadamente ficam, há poucas décadas eram chamados de “brotos”. Com a força da sua explosão vegetal, broto é mais inocente do que gato, gatinha, mina e outros termos que se usam agora.
Também se trocou flerte por paquera, que não à toa se deriva de paca (paqueiro é o cão adestrado para caçar pacas). O flerte era um exercício estético, tinha a gratuidade da poesia. Não culminava necessariamente no ato sexual.
Flertava-se para degustar a conquista iminente, e muitos se contentavam com os preâmbulos cheios de promessas. Já a paquera tem muito de uma operação de caça, cujo objetivo é comer a presa.

(Em "A idade do bobo", p. 60)
Leia o livro em  http://www.bookess.com/read/14324-a-idade-do-bobo