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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Seleção de frases (9)

A política é a arte de prometer mundos e ficar com os fundos.
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É fácil identificar um autor anônimo. Ele nunca assina o que escreve.
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Que Deus me salve dos que querem me salvar.
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Cristo morreu para nos salvar e certamente se arrependeu disso
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Já perdi a conta dos livros que não li.
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Diante de certas mulheres, eu me sinto um abjeto sexual.
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A sociedade tem uma gramática particular. Está cheia de sujeitos sem predicados.
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Não respeito muito essa história de árvore genealógica. Se é para pesquisar nossa ascendência, que se vá mesmo à zoologia.
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A vaidade é o orgulho sem pudor.
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Há pessoas cheias de si e pessoas cheias de “se”.

domingo, 15 de abril de 2012

Confissão

O Filósofo está apaixonado. Demorou muito para admitir isso, mas agora não pode mais se enganar. Seria desconhecer as evidências, menosprezar o alcance das suas faculdades cognitivas. Depois de longas prospecções interiores, reconhece que está amando. Não permitiria, contudo, que os arroubos da paixão lhe turvassem o entendimento. Afinal, era um filósofo, um homem acostumado a meditar sobre as grandes questões do universo.
Precisa conversar com Ela. Acha melhor usar o telefone, pois o contato físico num momento como este delataria sua perturbação emocional. Quer tudo, menos perder o controle. Disca os números e, ao fazer isso, percebe contrariado que suas mãos tremem. Ouve do outro lado uma voz dizendo “Alô”, mas não responde logo. Prefere estudar o que vai dizer. Um tanto exasperada, a voz indaga:
- Quem é você?
Essa pergunta o deixa desnorteado. Há décadas se questiona sobre isso e ainda não encontrou uma resposta. “Quem sou, de onde venho, para onde vou” -- essas questões já lhe consumiram várias noites de sono. Para simplificar, diz o próprio nome, embora saiba que o nome é uma designação convencional e nada diz sobre a essência da pessoa.
- É Sizenando.
- Ah...
Passa alguns segundos analisando o tom com que a moça pronunciou esse monossílabo. Foi uma interjeição sem ponto de exclamação, como se Ela de alguma forma esperasse o telefonema. Como se pensasse: “Enfim, ele está ligando”. Saberia dos seus sentimentos? Hesitante, permanece em silêncio, procurando formular uma síntese que unifique suas contraditórias reflexões. Como não diz nada, Ela continua:
- Quer me confessar alguma coisa?
Confessar? Por quê? Ele não fez nada de errado. Antes de responder, relembra os momentos que passaram juntos. Será que nessas ocasiões cometeu alguma falta de que deva se penitenciar?
- Não, não quero -- responde. Ouve-a suspirar e dizer: “Que pena. Fica para outra vez”.
- Outra vez?
- Sim, quando você tomar coragem.
Tem dois importantes temas para meditar nesta noite: primeiro, o apelo à confissão; segundo, a certeza que ela tem de que haverá outra vez. Como se não duvidasse de que num segundo telefonema ele confessaria. Mas... confessar o quê?
Enquanto o Filósofo rumina essas coisas, Ela lhe diz “Boa noite” e desliga. Havia em sua voz um acento entre glacial e escarninho. Parecia adivinhar que o Filósofo teria uma noite difícil, semelhante às muitas que tiveram Pascal (antes da conversão), Hamlet ou Santo Agostinho. Uma sombria noite do espírito... Ele escova os dentes e se prepara para a insônia.
Do outro lado, depois de desligar o telefone, a moça fica se perguntando: “Quando é que esse tolo vai enfim se declarar?

domingo, 8 de abril de 2012

Do baú

Semana Santa é tempo de reflexão, por isso resolvi retirar do baú alguns escritos. Se não têm valor, conto com o espírito cristão do leitor para me perdoar. Aí vão:

O homem nasce duas vezes. A primeira, quando chora; a segunda, quando ri. O primeiro nascimento é biológico; o segundo, espiritual. Já se disse que o riso é uma forma de afastar a dor. De não se entregar a ela e, ao mesmo tempo, perdoar o que existe de errado, impróprio, impossível na Criação. O riso sela um pacto entre o homem e Deus, que certamente não gosta de quem o recrimina com o desespero. O desespero nega o sentido da vida. O riso o reconhece da única forma como é possível reconhecê-lo -- acolhendo sem protesto o absurdo. É o estágio máximo da compreensão.
Podemos viver sem chorar, mas não podemos viver sem rir. Para isto seria preciso não ver nem avaliar o mundo, que é risível porque se desenvolve num infindável jogo de tentativas e erros. As derrotas mostram que o homem está sempre aquém de seus propósitos e refletem a má avaliação que ele faz de si e dos outros. A única forma de reagir a isso é com o humor.
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Perdoar Deus é a primeira condição para merecê-Lo. Deus não se dá a quem o responsabiliza pelo mundo.
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Sartre diz que se escreve por vingança. Faz sentido, pois o que somos decorre em grande parte do que fizeram conosco. A escrita é uma forma (das mais brandas, por sinal) de dar o troco.
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A pergunta mais importante que toda pessoa deveria se fazer é: “Será que o que eu desejo é compatível com o que eu sou?” A resposta correta a isso pouparia muita desilusão e perda de tempo. O mais das vezes, sonhamos ser o que jamais seremos.
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Segundo Nietzsche, a queixa tem um componente de agressão e por isso é inútil. De fato; o queixoso não pode esperar boa vontade de alguém que se sente agredido por ele.
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Dizem que o casamento funciona melhor quando os dois são iguais. Nada mais falso; a igualdade de traços prejudica a união. O ideal é que cada qual tenha seus próprios defeitos -- e também suas qualidades. Da complementação das diferenças é que nasce a harmonia.
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A fofoca é uma forma de catarse, por isso não morre nunca. Falamos dos outros porque isso nos alivia e aparentemente nos torna melhores a nossos próprios olhos.
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Os mais humildes são na verdade os mais ambiciosos. Querem nada menos do que a vida eterna.

sábado, 7 de abril de 2012

Seleção de frases (8)

Ao perdedor, as baratas.
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Pau d’água procura emprego em alambique. Quer beber na fonte.
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- O que o músico faz em comum com o sapateiro?
- Sola.
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Fim de semana de rico é “uísque-end”.
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A felicidade não está no que se tem, mas no que se faz.
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- Dizem que vai faltar gasolina.
- Então, fiquemos a postos.
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Tem gente que se finge de idiota para disfarçar que o é.
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Dá para chorar de barriga cheia. Difícil é rir de barriga vazia.
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A dor ensina o Reparil.
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O ignorante é aquele sujeito que passa a vida em broncas nuvens.



sexta-feira, 6 de abril de 2012

Brinquedo e culpa

Foi numa Quinta-Feira Santa. Eu me sentia como deve se sentir todo bom cristão: triste, cabisbaixo, lutuoso, pois se comemorava o aniversário d’Aquele que morrera por nós.
Minha mãe não proibia que ríssemos, mas se tornava grave, e a tendência da família era acompanhar esse estado de ânimo. Era pecado rir, brincar, comer carne. Nos meus dez anos eu seguia essas prescrições com um rigor dramático, quase pânico. Tinha medo de que, desobedecendo a elas, minha alma viesse a arder no inferno.
Vez por outra meu tio nos visitava nos feriados. Era comum, então, que me trouxesse um presente. Podia ser bombons, chocolate ou um brinquedo. Nessa quinta-feira ele apareceu escondendo um grande pacote atrás da batina. Não sei o que lhe deu na telha, pois o dia era impróprio para surpresas.
Semanas antes, eu notara na feira um brinquedo que me encantou. Naquele tempo não havia iPod, videogame, MP4 e outros artefatos eletrônicos que fascinam os jovens de hoje. A gente se empolgava com coisas simples – piões, corujas, carrinhos de rolimã.
O brinquedo a que me referi era um caminhão de madeira. Para guiá-lo não se usava barbante; da boleia saía uma haste fina, com cerca de quarenta centímetros, em cujo extremo superior havia uma direção. Sim senhor, uma direção quase igual à dos carros de verdade.
A surpresa que meu tio me fazia era justamente o caminhão. Mal o presente saiu do embrulho, meus olhos gritaram de alegria. Só os olhos, pois a boca teve de permanecer muda. O dia não era adequado a gritos nem a outras expansões da alma. A alma tinha que ficar chorosa e contrita em memória d’Aquele que morrera para nos salvar.
Fui para o quintal com o caminhão e comecei a dirigi-lo. Simulei grandes percursos, fingindo-me um motorista real. Buzinava, freava, cortava outros carros. Estava contente, mas não feliz. Ao prazer juntava-se o remorso. Parecia que do fundo escuro do tempo o Salvador me espreitava com olhos recriminadores. E não deixava de ter razão; eu não estava retribuindo à altura o seu Sacrifício.
Confortei-me um pouco atribuindo a culpa a meu tio. Por que ele não aparecera lá em casa uns dois dias depois? O caminhão era presente para sábado de Aleluia. Tivesse meu tio adiado a visita, juntava-se à minha minha euforia de menino a alegria da Ressurreição -- e tudo teria saído perfeito.
(Em "A idade do bobo", p. 53)