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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O galo e o peru (uma antifábula natalina)

Véspera de Natal. No quintal de uma família de classe média, estão um galo e um peru. O galo caminha alegre, balançando a crista. Já o peru não sai do canto e mal disfarça a tristeza. Sabe o que o aguarda.
De repente o galo canta. O peru o interroga com um misto de surpresa e ressentimento:
- Por que essa alegria?
- Porque tenho alguma coisa a ver com o que acontece hoje. Um de meus ascendentes saudou o nascimento do Menino. Foi a trombeta auroreal de um novo mundo. Como eu não iria me alegrar?... E você? Qual a razão dessa cara?
- Ora... Daqui a pouco vou virar comida para os que vêm festejar o nascimento a que você se refere. Queria que eu estivesse contente?
- Procure aceitar. Trata-se de uma grande causa. Além do mais, você terá tudo para ser o rei da festa. Muitos o acharão macio, crocante, bem-temperado.
- Isso não vai depender de mim, mas da cozinheira. Esqueceu que estarei morto?
- Estará sem vida, mas será o centro das atenções. E o mais importante: representará ali a grande nota de realidade. Mais do que a árvore, as músicas, os cumprimentos formais, dará testemunho da natureza do homem. O sucesso desta noite vai se medir pelo prazer que der aos convivas.
- Tem certeza?
- Claro! Você vai saciar-lhes o apetite do corpo, que é mais profundo do que o da alma. Se vir as coisas por esse lado, se convencerá da sua importância.
O peru parece refletir sobre as palavras do colega. O galo volta a se distanciar balançando a crista. Canta de novo, sem motivo -- ou, quem sabe, pela alegria de não ser peru.
Quando volta de mais um passeio, ouve novo desabafo:
- Sua retórica não me convence. É fácil elogiar um condenado à morte quando se vai permanecer vivo. Aposto que está contente por não ocupar o meu lugar.
- Não nego... Mas você sabe que meu dia chegará em breve. E não terá o mesmo brilho que o seu. Vou “reinar” num desses banais almoços de domingo, com música estridente ao fundo e cerveja em vez de champanhe...
Nesse momento a cozinheira aproxima-se dos dois e se dirige ao peru. Tem numa das mãos uma peixeira brilhante. A ave não esboça reação. No momento em que é alçada e apertada de encontro à barriga da mulher, ouve ainda cantar o galo. Pela terceira vez.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Natal e presentes

Suponhamos que se faça uma pesquisa para saber qual o personagem mais importante do presépio. A maioria, claro, dirá que é o Menino Jesus. A festa natalina justifica-se por Ele. Sua vinda ao mundo, marcada por sacrifícios e exemplos, significou para o homem a Salvação.
Outros vão dizer que é a Virgem Maria. Não tanto pelo que faz ali, envolvendo o Menino com o desvelo materno, mas pelo sofrimento que a aguarda. Ver o filho ser morto com tanta crueldade, aninhar o cadáver no colo, conduzi-lo ao sepulcro -- haverá tormento maior do que esse para uma mãe?
Também não faltará quem aponte José, que sofreu calado as suspeitas de infidelidade da esposa. Não deve ter sido fácil para o carpinteiro saber que a mulher estava grávida e aceitar que essa gravidez não se dera pela via da carne, mas por intercessão do Espírito Santo. Sabemos por nossa cultura machista o que isso significa. Mas o compassivo homem, lutando contra as evidências, acreditou na virgindade de Maria e lhe deu o amor de que ela precisava para realizar sua missão
Haverá, por fim, quem ache mais importantes os Reis Magos. Não estranhe o leitor essa escolha; ela atualmente é a que melhor se sintoniza com o espírito do Natal. Os Magos inauguraram o gesto que hoje simboliza a Festa -- dar presentes. O ato de levar ouro, incenso e mirra foi o precursor das levas de gente que invadem os shoppings em busca de enfeites, roupas, objetos de decoração.
Longe de mim criticar os que presenteiam ou os que são alvo de nosso pendor para presentear. O problema é o exagero com que nos cobram isso. Um exagero que não disfarça, por trás da cortina de generosidade, a regência ávida e insaciável do mercado.
O resultado é que acabamos em alguma medida nos falsificando. Para não destoar dos outros presenteamos indiscriminadamente, a torto e a direito, sem que muitas vezes nosso coração eleja os destinatários. O difícil nesse jogo é saber o quanto há de sinceridade e o quanto há de pose. Qual a distância entre intenção e convenção.
No fim da maratona, que envolve intermináveis horas entre prateleiras e caixas registradoras, nossa alma sofre uma espécie de cansaço aquisitivo. Já não sabemos o que demos, nem a quem. E fica difícil distinguir nessa profusão de coisas os traços do verdadeiro afeto.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Solecismo amoroso

– Eu lhe gosto.
– Eu gosto de você.
– Hem?!
– Eu também gosto de você, ora.
– Está me corrigindo?
– Corrigindo como?
– Você usou o verbo diferente. Era para ter dito “Eu também lhe gosto”, ou coisa parecida. Mas me corrigiu: “Eu gosto de você”. Disse tudo certinho.
– Nem pensei nisso.
– Lhe incomoda eu falar errado? Você é capaz de amar uma mulher que não sabe português?
– Que é que isso tem a ver?
– Tudo. Eu fui sincera, disse o que naturalmente sentia. Não pensei na forma. Quem é que pensa na forma numa hora dessas? Falei que gostava de você, ou melhor, que lhe gostava. E você nem reparou no que eu disse. Reparou no meu verbo errado.
– Pelo amor de Deus, não dramatize. Eu repeti o que você tinha me dito, só que de um jeito um pouco diferente.
– Mais correto. Sem erro – como é que se diz? – de regência. Ou de concordância, sei lá.
– Regência.
– Está vendo? Me corrigiu de novo.
– Você não perguntou? Respondi à sua pergunta. Sei que é de regência por acaso. Foi uma das poucas coisas que aprendi no colégio. Tinha regência em Português e em História. Em Português a regência era do verbo e de certos nomes, em Historia era de Feijó. Você não lembra? Diogo Feijó.
– Pare, por favor. Você parece que não percebe a gravidade do que aconteceu. A partir de hoje, a partir desta conversa, alguma coisa se partiu entre nós. Definitivamente. Perdi a espontaneidade, jamais serei a mesma. Vou ter que vigiar minhas palavras, senão elas não chegam até você.
– Fale como achar melhor, ora. O importante é o que se diz, e não...
– Mentira... E ainda por cima mentiroso! Como pude gostar de alguém que está mais interessado na qualidade do meu português do que na sinceridade do meu afeto? Pra você não importa o que eu sinto, e sim a forma como devo expressar minhas emoções.
– Você está exagerando, está sendo ridícula.
– Ridícula? Ah! Primeiro ignorante, agora ridícula. O que mais? Posso ser tudo isso, mas não sou insensível. E sabe de uma coisa? Nosso namoro não daria mesmo certo.
– Mas íamos tão bem...
– Até você me corrigir em hora tão imprópria. Que marido você ia dar! Agora corrige minha linguagem, depois certamente vai querer interferir nas minhas roupas, nos meus hábitos, nos meus amigos. O casamento com você seria uma eterna sabatina, um interminável exame de seleção. Eu ia ter que me policiar dia após dia para não ser reprovada.
– Mas que loucura!
– Ignorante, ridícula, e agora louca... Basta! Não quero ouvir mais. Adeus.
(Em "A idade do bobo", p. 75)

domingo, 11 de dezembro de 2011

Um amor

Luana postou uma mensagem no meu blog dizendo que “adorou” as “Considerações heterodoxas sobre a paixão”, mas discorda de que esse sentimento “dura no máximo três anos”. “Às vezes é necessário que ela dure bem menos...”, objetou com ar de experiência. E terminou com este apelo: “Quero encomendar um novo texto: como encontrar um amor? Topa o desafio? hehehe”.
Pensei em ignorar a proposta, mas fui picado por esse risinho final. “Hehehe”! Parecia uma antecipação de vitória, um prévio reconhecimento de que eu não seria capaz de dar conta da tarefa. Talvez tivesse razão. Quem sou eu para me aventurar em matéria tão grave? Sobretudo hoje, que já não me apetecem as delícias e agonias desse tipo de busca. Mas aquele risinho...
Achei curioso que a desafiante tivesse se referido a “um amor”, e não “ao amor”. Por uma dessas curiosidades em que é pródiga a língua, o artigo no primeiro caso mais define do que indefine. Falar de “um amor” é se referir a alguém específico, e com isso dar mais ênfase ao objeto do que ao sujeito. Se procuramos “o amor”, essa procura é uma empresa mais nossa do que do outro. Se buscamos alguém especial, o sucesso da escolha vai depender mais dele do que de nós. Aí começam os problemas.
É mais fácil encontrar “o amor”, porque nesse caso o sentimento tende a ser recíproco. Quem dá fatalmente recebe, e não se preocupa muito com a retribuição. Às vezes o próprio reconhecimento de que ama é suficiente para lhe trazer uma espécie de plenitude.
Já a procura de “um amor”, pondo o foco no outro, o reveste de idealizações. Isso quase sempre implica desconhecer sua humanidade, ou seja, justamente o que o torna amável (no outro sentido de que trato aqui). Ninguém perdoa as imperfeições de uma quimera. Como geralmente o movimento é recíproco, também para o outro devemos ser únicos, encarnar um ideal, saciar o desejo de um além que não tem nada de transcendente -- às vezes se esconde nas dobras do lençol.
Isso não quer dizer que não se deva buscar “um amor”, pois grande parte do encanto da vida advém vem do empenho de o perseguir e do sonho de o encontrar. Muitas vezes em função disso é que estudamos, trabalhamos, nos esforçamos para crescer e aparecer. As contrariedades que essa busca provoca (e que constituem tão interessante matéria para a arte) não justificam a renúncia a ela. Apenas manda a prudência que sejamos modestos em nossas fantasias e aceitemos as reais dimensões do outro.
Escrevi, escrevi, e desconfio de que disse muito pouco. Começo a entender o motivo do risinho de Luana e aceitar que perdi a batalha. Mas me sinto satisfeito por pelo menos haver tentado; não ficava bem a uma pessoa de idade fugir ao desafio de uma garota. O que me consola é saber que existe algo de estimável nessa derrota. Minha desafiante não deve dar importância ao que eu disse pela elementar razão de que ninguém deve antepor o saber à vida. Continue, Luana, procurando “um amor”. As cicatrizes dessa busca é que a deixarão em condições de um dia merecer “o amor”.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Seleção de frases (4)

Às vezes é impossível deixar tudo às claras sem que alguém gema.
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A corrupção não dá frutos. Dá furtos.
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Ela só tem maus pensamentos quando está no banheiro. É uma deprivada.
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Nos eventos sociais, é grossura sair de fininho.
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O pior da solidão é a monotonia. Ninguém constitui boa distração para si mesmo.
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Geralmente essas ONGs “sem fins lucrativos” não mentem. Colocam os lucros “no começo”.
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Sexo bom é aquele em que se leva tempo para passar do afago ao ofego.
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Amanhã começa a semana. Tem gente que só aguenta a segunda depois de “tomar a primeira”.
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A política é um jogo de faz-de-contra.
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Os opostos se atracam.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Terapias

Ele andava triste, sem ânimo, às vezes com vontade de morrer. Os amigos notaram o seu estado e o aconselharam a procurar um médico. Recusou com veemência, pois não acreditava em medicina para a alma.
Mas uma noite teve um sonho esquisito. Sonhou que era um macaco pequeno, o único macaco entre seus irmãos. A mãe o olhava com indisfarçável repugnância e hesitava entre alimentá-lo ou deixá-lo morrer de fome. Ele então chorava, gritando e agitando uma campainha. Isso provocava a raiva do pai, que abraçava a mulher e o ameaçava com um facão. Enciumado, ele procurava um canivete para matar o pai mas era impedido pelos irmãos, que resolviam levá-lo para um zoológico. Lá o enfiaram numa cela, onde ficou se debatendo até que um funcionário chegou junto dele e perguntou: “O que é que está havendo? Fale! Fale!”. Não conseguia dizer nada.
Ficou tão intrigado com o sonho, que decidiu vencer o preconceito e consultar um psicólogo. Mas quem? E, sobretudo, de que linha? Resolveu divulgar o sonho na internet e aguardar sugestões. Eis alguns e-mails que recebeu:
1) Seu sonho reflete um complexo de Édipo mal resolvido. Você e o seu pai disputam o amor da sua mãe, daí o ódio que sente por ele e o desejo de matá-lo. A oposição entre o facão e o canivete é uma representação metafórica da inveja do pênis associada ao temor da castração. Sua terapia deve ser psicanalítica, e de base freudiana.
2) Impressionou-me, no seu sonho, a repugnância da mãe ao constatar o aspecto simiesco do filho. A dúvida entre alimentá-lo ou não é uma clara metonímia do conflito entre o seio bom e o seio mau. Você ainda hoje não sabe se ela o ama ou o odeia, e precisa resolver esse conflito. Do contrário, a sensação de desmamado o acompanhará pelo resto da vida. Sugiro-lhe uma psicoterapia kleiniana.
3) Seu sonho é carregado de significantes -- a referência ao som da campainha, por exemplo. Uma das onomatopeias para esse objeto é “ding”, que remete à Coisa (Das Ding), ou seja, ao Objeto Perdido. Sintomaticamente, você não fala. Se não fala, não tem o falo, o que não é nenhuma falácia (talvez uma faloácia). A ausência da fala/falo o deixa fulo e mostra que você se encontra numa posição infantil diante do Nome do Pai. É preciso trabalhar isso. Procure já um terapeuta lacaniano.
4) O sonho é claríssimo, ora. O macaco representa a porção animal que você se recusa a inibir diante do pai opressor. É preciso dar vazão a essa torrente de instinto por meio de uma terapia regressiva, que o reconduza à liberdade da horda primeva. É preciso soltar o grito primal.
5) Esqueça qualquer tipo de simbolismo para esse sonho. O motivo do seu sofrimento são pensamentos errados. Posso acompanhá-lo a um zoológico, em cinco sessões, para mostrar que você não é macaco coisa nenhuma. Compararemos seu comportamento com o dos símios e você se convencerá de que gosta de mais coisas além de banana e não consegue andar com tanta destreza sobre o tronco das árvores. Recomendo-lhe (e me apresento) um terapeuta cognitivo-comportamental. (Em A idade do bobo, p. 14-16)