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terça-feira, 29 de novembro de 2016

Aforismos brasileiros (6) - Guimarães Rosa

                                "Viver é perigoso."
        
        Que a vida é cheia de perigos, todo o mundo sabe. O que há de engenhoso nesse aforismo de Guimarães Rosa é a atribuição do perigo ao próprio ato de viver. A escolha do verbo em vez do nome (a vida) destaca o processo, o trabalho para alguém a cada dia se manter vivo. A frase evoca os perigos do sertão, onde são inúmeras as ameaças à existência, mas se aplica ao homem de todos os lugares (mesmo porque o Sertão, conforme o próprio Rosa nos ensina, é mais uma dimensão interior). Onde há homem, há selva, por isso não se pode facilitar. O preço de estar aqui é a contínua apreensão, da qual o ser humano só escapa quando morre. Enquanto isso vai se dividindo entre Deus e o Diabo, que disputam sua alma.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Rapidinhas sobre a velhice (2)

Os que dizem que a velhice é um estado de espírito estão enganados ou querem nos enganar. A velhice é mesmo um estado de corpo.
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O que menos se perdoa nos velhos é que não se comportem como velhos.
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A bengala é certamente o mais irônico símbolo fálico.
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       Uma das vantagens de ser velho é cortar a fila e ninguém chamar de mal-educado. Chama de... “velho” mesmo.
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Nem sempre se está de acordo sobre onde os velhos devem ficar, mas uma coisa não se discute: é melhor o asilo público do que o exílio doméstico.

sábado, 19 de novembro de 2016

Diálogos (15)

-- Filho, os bons exemplos se aprendem em casa. 
-- Eu sei.  Por isso mesmo quero morar sozinho
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-- Mamãe, Leleco me chamou de bruxa!
-- Você não é bruxa coisa nenhuma. Se ele continuar dizendo isso, pode bater nele.
-- Como?   
-- Use a sua vassourinha!
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     A mulher diz para o marido:
-- Vou usar um “tomara que caia”.
-- Tire essa ideia da cabeça, mulher. 
-- Por quê? Você acha que corro algum risco?
-- Não. Quem corre risco são os outros!
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-- Juquinha, o que se deve fazer com quem tem a mente suja?
-- Uma lavagem cerebral, professora. 
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-- O poder é efêmero, meu filho.  
-- Sei disso, padre. Mas o senhor não calcula quanto é possível juntar no pouco tempo em que a gente o tem! 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Do baú (12)

O maior favor que o escritor pode fazer ao leitor é ser sincero. Geralmente os que fogem à sinceridade o fazem por medo do ridículo, como se as íntimas verdades que expõem não fossem também as de quem os lê. O terreno comum aos homens é o das fraquezas disfarçadas, vilanias escondidas, aspirações muitas vezes inconfessáveis; o leitor agradece a quem o leva a se deparar com tudo isso, que também compõe o seu cenário interior.
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Participar das redes sociais não deixa de ser uma forma de se sentir importante. Nelas o indivíduo se torna alvo da atenção dos outros, o que no fundo todo ser humano deseja.  
O problema é a qualidade das informações. Nas redes se divulga o interessante e, sobretudo, o desinteressante. Muitos têm curiosidade por tais irrelevâncias, que na maior parte das vezes são semelhantes às suas. O que nos identifica com os outros são as quinquilharias, já que nem tudo o mundo dispõe de grandes feitos para ostentar.
Mas as redes cumprem o seu papel, que é o de aproximar as pessoas (às vezes também afastá-las!). Elas são coluna social, álbum de família, repositório de fofocas... Permitem que a gente “se mostre” e curta a exposição dos outros.
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Há quem diga que não vale a pena se casar, pois o amor acaba. Para mim é justamente o contrário: a efemeridade do amor é a maior justificativa para o casamento, que de alguma forma pode realimentá-lo.  
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          De onde vem a culpa, esse império escuro que nos rouba a alma? Não devemos corresponder senão a nós mesmos, no entanto não conseguimos ter isso como uma verdade. Será sempre um problema de cada um conquistar a liberdade interior.
A culpa, como todos os freios, precisa ser graduada. O excesso de freio impede que o carro se locomova; a falta dele o faz desembestar, com as terríveis possibilidades que isso implica.
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O que é o tempo! As garotas bonitas que me ignoravam nas paqueras da Lagoa, ou na calçadinha da praia, hoje são senhoras simpáticas que me cumprimentam e até sorriem para mim. Agora não vale! Eu queria isso antes!!
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A razão é um demônio que vez por outra precisa dar uma sacudida no anjo da fantasia. Esse anjo, com suas róseas maquinações, pode entorpecer ou cegar. Nessas horas é necessário clarividência para não sucumbir às ilusões.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Rapidinhas sobre a superlua

Noite de superlua./ Mil lobisomens/ soltos pela rua.
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Esse luar excrescente/ não pede cuidado pouco,/ pois infla o sonho demente/ dos poetas e dos loucos.
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-- Mamãe, que é aquilo no céu?
-- É a lua, meu filho
-- Como cresceu! Por que ficou tão grande?
-- Porque hoje está mais perto da Terra.
-- Ah... Será que um dia a gente vai poder tocar nela?
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-- Clarinda, não dá pra resistir a esse luar, por isso quero dizer te amo. Case comigo.
-- Eu não!  
-- Não?! Por quê?
-- Já vi que você é de lua. O que vai sentir por mim no quarto-minguante? 

domingo, 13 de novembro de 2016

Rapidinhas sobre a velhice

A velhice pode não ser o fim da linha, mas é sem dúvida o começo das agulhas.
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A gente sente que envelhece quando começa a acordar quebrado sem ter feito ginástica.
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Muito da sabedoria dos velhos consiste em encontrar justificativas engenhosas para aquilo que eles não podem mais fazer.
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Envelhecer é comentar sobre algo que ocorreu no dia anterior: “Parece que foi ontem...”.
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A velhice é o momento de fazer um balanço da vida. Mas com muito cuidado para não escorregar e cair.   

sábado, 12 de novembro de 2016

Conversa desinteressante

     Mal coloca a primeira palavra no papel, ele ouve uma voz:
    -- Finalmente você se decidiu...
    -- Hein?! Se decidiu a quê?
    -- A começar o texto, ora. Faz tempo que eu estou esperando.
    -- Quem é você?
    -- Sou o seu leitor. Vê se capricha para não me decepcionar.
    -- O meu leitor? E o que está fazendo aqui? Espere pelo menos eu terminar. Sua hora vem depois. 
    -- Nada disso. Quero acompanhar o seu trabalho, talvez dar uma força. Afinal, você escreve para mim. Tenho todo o direito de lhe cobrar.   
    -- Cobrar?! Agora eu quero liberdade. Sua presença vai terminar me bloqueando. Dê o fora!
    -- Dar o fora!... Cuidado para não se arrepender do que está dizendo. Você pensa que significa alguma coisa sem mim?
    -- Não seja pretensioso. Tenho liberdade para dizer o que quero, a quem quero e como quero.
    -- Aí é que você se engana. Posso reduzir o que faz a uma insignificância. Posso estragar sua reputação e impedir que outros lhe leiam. E o pior: posso deixar você na mais completa solidão.
    -- Como?
    -- Ignorando os seus escritos. Deixando que fale sozinho.
    -- Bem... sei que você tem esse poder, mas não é por isso que vou lhe aturar. E se me encher muito o saco, posso acabar dispensando-o. Escrevo para mim, e pronto.
    -- Deixe de blefe! Você bem sabe que isso não é possível. Qual o sentido de escrever para si? Quem iria atestar o seu valor (caso você tenha)? Ou afagar a sua vaidade (que seguramente você tem)?
     -- Todo homem tem direito à vaidade se o que faz é bom.  
   -- Mas quem decide sobre a qualidade do que ele faz? Ele próprio? Aí não seria vaidade, seria delírio... Conheço muitos que vivem de fantasiar a própria glória; esses dão pena. Acho que você não é um deles.  
     -- Escute, essa conversa está me impedindo de escrever. Dê o fora e espere o texto ficar pronto. Aí você diz o que quiser.
     -- Mais um blefe! Você está preocupadíssimo com o que eu possa dizer. Por que finge indiferença?
     -- Não posso escrever enquanto você estiver por perto vigiando minhas palavras e avaliando se elas vão lhe agradar ou não. Isso é tirania.
      -- Eu proponho que você me esqueça e faça o que tem que fazer.
    -- Não faço, pronto. Desisti. Assim também deixo você frustrado. Não terá o que ler...
    -- Para mim, tanto faz. Não vou mesmo perder muita coisa. Você está sem assunto.
    -- Assuntos não faltam, ora!
    -- Mentiroso. Está sem assunto, sim. E aposto como vai terminar, por falta do que dizer, contando esta conversa entre nós dois. Como se ela interessasse a alguém!

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Surpresa no sítio

         “Marlene vê Nossa Senhora” – falou minha mãe com o ar muito sério. Isso era um anúncio e uma advertência. Significava que eu devia me comportar bem no sítio onde Marlene residia com os pais e dois irmãos. Eram amigos um pouco distantes da nossa família, e tínhamos sido convidados sobretudo para constatar as transcendentes habilidades da moça.            
Para falar a verdade, eu não estava interessado nisso. Pensava sobretudo nos dias livres que passaria entre banhos de rio, visitas ao curral, excursões em busca de passarinhos que eu alvejaria com a baladeira (hipótese que hoje me horroriza, mas ao menino daquele tempo parecia natural. Mesmo porque na época ninguém era punido por matar rolinhas, ribaçãs e outros bichinhos inocentes que cortavam o céu).
Viajamos de ônibus por uma estrada esburacada. Depois de umas três horas de sacolejo e poeira chegamos ao sítio, onde fomos recebidos com a hospitalidade própria da gente do interior. O dono, Seu Aníbal, fazia tudo para nos deixar à vontade. O mesmo se diga da mulher dele. Dona Adalgisa era muito religiosa e só falava do que estava acontecendo com a filha. Já pensava em mandá-la para um convento.  
Marlene era uma morena tímida e simpática. Por exigência da mãe usava cabelos curtos, vestidos muito longos, e só vestia branco. Essa era a cor que melhor se ajustava ao seu beatífico dom.  
O melhor do sítio, para mim, era o curral. Acordávamos cedo e íamos ver os filhos de Seu Aníbal tirar leite das vacas. Quem melhor fazia isso, porém, não era nenhum dos dois. Era Solon, um rapaz que morava no sítio vizinho e frequentemente vinha dar uma mão à família. Por alguma habilidade especial, ele conseguia extrair mais leite do que os irmãos de Marlene. Seu Aníbal elogiava a maneira como o rapaz apertava as tetas das vacas, cujos úberes por assim dizer se abriam àquele experiente contato. O rapaz nascera mesmo com jeito.    
Na primeira sexta-feira após a nossa chegada, fomos a um quarto transformado em capela a fim de acompanhar o terço. Era sempre ao final dele, e na última sexta-feira de cada mês, que se dava o fenômeno. Ninguém conseguiu rezar direito, atento à expressão da moça. Pouco antes de a “visão” aparecer, a mãe fez o alerta: “Vai ser agora!”.
Vimos Marlene abrir muito os olhos, que se inundaram de luz, e contemplar um ponto distante. Estava um pouco vermelha e falou umas palavras que ninguém entendeu. Dona Adalgisa, chorando, segurava a mão da filha como se tivesse medo de que ela fosse deixar este mundo. A aparição durou uns três minutos, e não posso negar que saímos da capela impressionados.
          De volta a casa, comentamos o assunto por uns dias.  Até que ponto deveríamos levar a sério o que ocorrera naquele quarto? Teria de fato a moça algum dom superior, ou virtudes sobre-humanas que lhe conferiam alguma forma de santidade? Como era impossível responder essas perguntas, acabamos esquecendo-a.
Uns quatro meses depois, veio do sítio a notícia: Marlene estava grávida. Grávida, sim, e o responsável era Solon. Rimos bastante da novidade, e mais ainda da surpresa que ela certamente causou a Dona Adalgisa.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Conversa com o Bruxo

         Aproveito a releitura de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” para trocar um dedo de prosa com o seu autor. “Trocarnão é bem o termo, pois quem falou foi Machado. Nossa conversa, além de instrutiva, serviu-me para matar o tédio do domingo. Espero que tenha para o leitor a mesma serventia:
-- O senhor é um autor melancólico. Por que se liga tanto no passado?
-- O menos mau é recordar. Ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, então sim, então talvez se pode gozar deveras.
-- Em sua obra é comum o tema da loucura. Há alguma justificativa para isso?
          -- O mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cérebro, que outra coisa é senão a afirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual?
-- Por que escolheu ummorto para ser o narrador de “Memórias Póstumas...”?
-- A franqueza é a primeira virtude de um defunto. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte
         -- De fato, um morto não se importa com o julgamento alheio...
-- Nãonada tão incomensurável como o desdém dos finados.
          -- Por que é tão difícil a franqueza nas relações sociais?
-- A veracidade absoluta é incompatível com um estado social adiantado.
-- Outro tema recorrente em sua obra é a ambiguidade moral do ser humano. Por quê
         -- O vício é muitas vezes o estrume da virtude.
-- Até que ponto essa ambiguidade é determinada por fatores externos?
-- Não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais.
-- Apesar disso, transparece na sua obra a ideia de que o homem é fundamentalmente egoísta.
-- O nosso espadim é sempre maior do que a espada de Napoleão.
-- Que conselho o senhor daria a um jovem de hoje?
          -- Trata de saborear a vida; e fica sabendo que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio a fim de lastimar o curso incessante das águas.