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sábado, 22 de novembro de 2014

Para Manoel de Barros

Esse Manoel nasceu de um barro
único, todo especial.
Veio fazer com as palavras
um carrossel, ou carnaval, 

em que a brincar, sempre travesso,  
desvenda as máscaras do sentido;   
remove a tisna dos vocábulos    
até resgatar-lhes o brilho.

Quer ver de novo resplenderem  
como no tempo auroreal,   
quando o espírito, em liberdade,    
desconhecia o bem e o mal.

Não veio só, também com ele    
veio o sopro de Deus, o alento
que infunde no verbo a força       
do renovado encantamento.

(da série "Meus pecados poéticos")


domingo, 16 de novembro de 2014

Última revelação

A febre não passava. Vinha com calafrios, tosse, dores nas costas. Bem que não deveria ter comparecido ao enterro de João Lourenço Ferreira de Lacerda. Chovia muito, e ele já estava gripado. Ester o prevenira de que poderia contrair pneumonia ou coisa pior. Tinha consciência de que se arriscava, mas não poderia deixar de prestigiar a memória de um patriarca de Leopoldina, cidade que o havia recebido como a um filho. Se não fosse, sentiria remorsos (a velha culpa o espreitava a propósito de tudo!). Soaria como ingratidão, que sempre lhe parecera o pior dos sentimentos humanos. Foi ao enterro e voltou febril. Nesse estado, também contra os conselhos da mulher, deu aulas à tarde e à noite. Não poderia faltar, pois sempre teve em alta conta o cumprimento do dever. O resultado foi mesmo uma pneumonia, conforme diagnosticara o Dr. Custódio Junqueira, que cuidava dele em companhia de três colegas e do farmacêutico João de Moura.  
Os médicos lhe aplicaram compressas, fizeram lavagens intestinais, deram injeções de electrargol e óleo canforado, mas a febre não cedia. Augusto percebeu que a moléstia começava a enfraquecê-lo e pensou seriamente na morte. A “costureira funerária”, que tanto cantou em versos, parecia agora querer confeccionar sua mortalha. Vinha numa fase de “quietismo absoluto”, quando a segurança do emprego fixo e o acolhimento da cidade mineira lhe propiciavam a tranquilidade de que precisava para estudar e, sobretudo, fazer seus versos.  
Não tinha medo da morte, no fundo sempre aspirara a esse nirvana. Costumava pensar nela como uma pátria homogênea, em que cessam todos os contrastes e o coração humano pode, enfim, gozar do justo repouso. O que lamentava era deixar este mundo com pouco mais de 30 anos, quando ainda sentia borbulhar a fonte que alimentava o seu talento. Imagens e ritmos povoavam-lhe o cérebro com uma intensidade que muitas vezes o fizera perder o sono ou vagar pelos cômodos da casa com uma estranha vontade de chorar. Sentia que ainda não havia concluído a sua missão.
Pensando nisso, adormeceu e teve um sonho. Geralmente sonhava pouco, como se os devaneios poéticos lhe esgotassem o reservatório do inconsciente. Seus sonhos eram blocos negros, imagens sem contorno, de que não se recordava no dia seguinte. Dessa vez foi diferente. Viu um pássaro, que parecia um corrupião ou um urubu, pousado num dos galhos do velho tamarindo do Engenho Pau d’Arco. Aproximava-se do tronco e o abraçava, como se com isto fosse possível enxotar a ave. Mas ela permanecia imóvel, olhando-o ameaçadoramente. Depois emitia um som rouco, e já não era corrupião nem urubu, mas um corvo. Como nos versos de Poe, ele lhe dizia: “Nunca mais!”. 
Acordou ainda ouvindo os pios, que pareciam ditar-lhe a sentença de morte, e se lembrou da velha árvore. Sob seus galhos havia passado intermináveis momentos de tristeza e apreensão, imaginando o que lhe reservava o futuro. E também de consolo, sob o afago dos ramos generosos. Sonhava ser enterrado embaixo do tamarindo, que lhe lembrava seu pai, mas percebia agora que isto seria impossível. Iria mesmo para o cemitério de Leopoldina. Quem sabe um dia não trariam da Paraíba sementes da velha árvore para plantar em volta do seu túmulo? Essa perspectiva o apaziguou. Imaginou as sementes frutificando, o tronco emergindo da terra, os galhos descendo e formando a copa sob a qual repousaria seu corpo. E o organismo vegetal penetrando a matéria que dera suporte ao seu espírito, numa forma de comunhão com a Natureza.   
Cansado, pediu a João de Moura o espelhinho em que costumava se contemplar. Passava minutos se olhando, numa perscrutação semelhante à que, em outro plano, submetia o cérebro até exauri-lo. Mirava-se no espelhinho e não se via. Ou melhor, via uma Sombra, que parecia acompanhá-lo desde tempos imemoriais. E lá estava Ela de novo, contemplando-o enigmática, devolvendo-lhe o negror. Naquela fosca imagem do seu rosto, como num lúgubre negativo, parecia concentrar-se o resumo de tudo quanto ele indagara e ficara sem resposta. Compreender o mundo era sobretudo compreender a si mesmo.
Quando enfim conseguiria se ver? Haveria algum meio de pôr fim às indagações que tanto o torturaram? Aos poucos a resposta foi se formando em seu cérebro. Algo lhe falava, e não era a Sombra, mas um Número – o último de uma sequência de incontáveis abstrações. Parecia vir do estertor das ideias, e não tinha forma. Augusto tentou pegar papel e lápis para captar essa última revelação, mas não teve forças. Pediu então ajuda a João de Moura, que se acercou da cama e foi anotando o que o moribundo lhe ditava:

 Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado,
 a Ideia estertorava-se... No fundo
 Do meu entendimento moribundo
 Jazia o último Número cansado. /

Era de vê-lo imóvel, resignado,
Tragicamente de si mesmo oriundo,
Fora da sucessão, estranho ao mundo,
Como o reflexo fúnebre do Incriado.

Bradei: -- Que fazes ainda no meu crânio?
E o Último Número, atro e subterrâneo,
Parecia dizer-me: “É tarde, amigo!

Pois que a minha autogênica grandeza
Nunca vibrou em tua língua presa,
          Não te abandono mais! Morro contigo!