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domingo, 9 de maio de 2010

À luz do dia

Recentemente uma aluna minha foi assaltada num dos principais restaurantes da cidade. O episódio não aconteceu à noite, nem ela estava sozinha. Estava com um grupo de amigas. Almoçavam no intervalo de uma dessas bizuradas para concursos, que ocorria no prédio em frente, quando o fato aconteceu.
Os ladrões não apareceram de repente, como se poderia pensar. O grupo percebera o casal bem-vestido que comia a umas poucas mesas de distância. Notaram que ele olhava muito para elas, e por um momento tiveram pena da mulher. Devia sofrer muito com um parceiro tão enxerido.
Em dado momento a mulher se levantou da mesa e, como que distraidamente, dirigiu-se ao grupo e pegou a bolsa da minha aluna. Quando esta foi reclamar, o parceiro se adiantou e apontou-lhe o revólver na cabeça. O grupo ficou estarrecido, paralisado, enquanto o casal calmamente deixava o restaurante e entrava num carro que o esperava a poucos metros.
Conto essa história para confirmar uma sensação que hoje, mais do que nunca, acomete os habitantes desta cidade. A outrora pacata João Pessoa se transformou num território de insegurança e desrespeito à lei.
Foi-se o tempo em que se procurava a Cidade das Acácias para fugir da violência dos grandes centros urbanos. Agora isso não é mais possível; a violência está aqui, e tem-se exercido de variadas formas. Ora é o crime brutal contra mulheres, que são encontradas seminuas em lugares solitários; ora o assalto seguido de morte a poucas quadras do nosso maior shopping; ora a tentativa de sequestro de empresários em área nobre da praia.
Os casos acima chocam, mas pelo menos ocorreram na sombra. Seus autores tiveram o cuidado de se encobrir, conscientes de que estavam do “outro lado” da lei e temiam ser justiçados. No roubo da bolsa ninguém foi ferido, mas não se viu da parte dos meliantes o desejo de se esconder. Estavam ali à luz do dia, num ambiente público, como qualquer cidadão de bem que no intervalo do trabalho engole seu justo almoço. Parecia natural que de repente um dos dois se levantasse, pegasse o objeto, e que o outro ameaçasse matar a dona caso ela protestasse.
Hoje a violência invade os espaços rotineiros do homem comum. Já não precisa de capuz nem de sombra para esconder seu rosto. Afronta a lei com acinte e descaro, pois sabe que ninguém a punirá -- e nisso João Pessoa já não é diferente das outras cidades.
O roubo foi uma espécie de sobremesa para os bandidos, que saíram sem pagar a conta. Minha amiga pagou-a graças a uma “vaquinha” das amigas, mas não pôde fazer o concurso porque os ladrões levaram documentos imprescindíveis para que ela entrasse na sala. Quer dizer: perdeu não só a bolsa, mas talvez a possibilidade de mudar o futuro.