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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Antonina

Eu a chamava de tia Tó. Das irmãs de meu pai, era com quem mais me dava. Morava em frente ao Colégio Pio XI, dirigido pelo tio Emídio, e muitas vezes quando eu saía de lá ia pedir a ela que me auxiliasse nas lições. Chegava ainda fardado, pensando em depois aproveitar a xepa da casa de minha avó.
Dona Judith queria que todos se alimentassem bem e tinha especial preocupação com Tó, que considerava a mais frágil de suas filhas. “Essa menina é fraca, precisa comer mais”. Dizia isso sugestionada por uma doença pulmonar que a filha tivera quando criança.
E lá vinham leite, frutas, ovos mexidos, dos quais eu sempre me aproveitava . Os ovos mexidos ficaram sendo para mim o que foi para Proust a madeleine; quando hoje bebo um (com remorso, por causa do colesterol) sou transportado à minha infância campinense, que só não foi melhor por causa das crises de asma -- felizmente menos severas que a do francês.
Tia Tó era muito religiosa. Sempre que eu a visitava, à tardinha, ela me chamava para rezar o terço junto com as irmãs. Esse era um ritual diário na família. Embora eu me impacientasse com aquilo (por que se repetiam tantas vezes as mesmas preces?), esperava resignado. É que depois haveria uma recompensa, digamos, celestial: comer peras ou maçãs. Naquele tempo essas frutas eram raras, e bem caras, mas não poderiam faltar no pródigo cardápio da minha avó. Uma das recordações que guardo é a da tia no alpendre descascando as maçãs -- vermelhíssimas -- e me dando uns pedaços.
Pensava-se que a moça franzina não se casaria, mas o destino tinha outros planos. E lhe deu um casamento... das Arábias. Pode não ter sido bem isso, mas o fato é que se casou com um árabe recém-chegado ao Brasil. Armando mal falava português; nesse tempo, acompanhado por um menino que transportava uma grande mala, oferecia em domicílio os produtos. Um dia bateu na casa da Getúlio Vargas e com o seu jeito simpático e despachado, apesar da voz engrolada, encantou Dona Judith e tia Tó. Presumo que foi nessa ordem, pois minha avó foi quem primeiro se entusiasmou com a ideia do casamento. E se manteve a partir daí como uma espécie de “cabo nupcial”.
Depois disso nos afastamos, mas vez por outra me diziam que Tó perguntara por mim. Cheguei várias vezes a projetar uma visita, que por uma ou outra razão não se realizou. Agora ficou definitivamente impossível. Na última terça-feira me ligaram dizendo que ela tinha morrido. A causa -- infecção pulmonar -- foi uma confirmação tardia e irônica dos temores de dona Judith.
Não acredito em coincidências, mas há uma misteriosa sintonia no fato de ela ter morrido tão perto do Natal. Sua fisionomia pálida parecia a de um daqueles anjos que no presépio festejam a chegada da Criança. Quem sabe se não foi chamada para isso? Vou me lembrar dela tocando no violão a valsa que meu pai compôs quando eu nasci. E sobretudo vou ter sempre em mim o gosto que ela imprimiu a minha infância. Um gosto de maçã e oração.