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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A rosa fenecida

Desligo a TV como quem fecha um livro de histórias. Acabou-se, a princesa morreu. E a tela escurece engolindo o carro florido, deslocando-se lentamente como um jardim móvel. No centro desse canteiro, acompanhada por milhões de olhos perplexos, jaz fenecida a rosa da Inglaterra. Ela eclodiu, como é próprio das rosas, deu o seu breve recado ao mundo e logo, logo se desfez.
Esse foi um conto às avessas, rigorosamente modelado pela vida real: o príncipe e a princesa não terminaram juntos (em verdade, já se tinham separado havia muito tempo) e nem sequer houve um beijo de despedida. Foi sobretudo a história de um tempo em que reis, rainhas, príncipes e princesas já não sabem como representar o seu papel. Ou talvez já não tenham, mesmo, qualquer papel a desempenhar.   
A moça era branca, loura e parecia uma princesa de verdade – quero dizer: uma genuína princesa de mentira. Pois a autenticidade das princesas se pauta em referências imaginárias. Elas são tanto mais verdadeiras quanto mais correspondem à imagem dos nossos sonhos. Com a sua timidez charmosa e o seu ar grave e medroso, Diana evocava uma dessas figuras que maravilharam a nossa infância. Tinha um ar maternal e preceptor, um ar de quem nasceu para guiar com ternura. Do seu todo frágil, emanava uma espécie de fortaleza compassiva.
Além do mais, parecia ter feito o percurso oposto ao de Cinderela. Pois a heroína da história era só, e rejeitada, antes de se casar com o príncipe. Com Diana aconteceu o contrário: depois de se casar com Charles é que se sentiu rejeitada e traída. Pode-se dizer que a corte, com seu fausto frio e suas megeras centenárias, foi verdadeiramente o seu borralho. E se ela recebeu vinte e seis milhões de dólares pelo divórcio, é certo que não saiu do casamento menos amargurada e menos só.
O mundo todo, ao longo de uma década e meia, acompanhou o seu drama. Para enfrentar a realeza, a moça elegeu um aliado imponderável, múltiplo e exigente: a opinião pública. Seu confessionário e seu divã eram as páginas dos jornais e as câmeras de televisão. Daí que ficamos conhecendo em detalhes os lances da sua vida. Primeiro foi a indiferença e a traição de Charles, depois vieram o divórcio e as tentativas de um novo relacionamento – passando pela anorexia e pela bulimia.
Estarrecido, o mundo percebeu um dia que a princesa não tinha fome. Ou, se comia, lançava tudo fora, e definhava. O mundo percebeu essas reações e se compadeceu; a falta de fome e a rejeição ao alimento eram efeito da tristeza e da solidão. Então perdoou, com fascinada cumplicidade, a confissão de adultério. Poucas vezes um adultério foi tão compreendido e, intimamente, tão festejado. O marido e a família do marido mereciam. Diana não fizera mais do que dar o troco.
Ela queria apenas ser rainha no coração do povo, mas não escapava também de ser outra coisa: mãe do possível futuro rei da Inglaterra. O seu grande desafio era harmonizar essa condição com a liberdade mundana, que aparentemente ganhou ao se separar do príncipe. Por mais que não quisesse, no entanto, a sombra indireta do trono a detinha, limitava-a, pendia sobre a sua cabeça como uma guilhotina azul. Penso que essa ambiguidade a matou. Diana não era uma mulher livre, e quis se comportar como tal. Enquanto estivesse presa ao trono pela expectativa de ser mãe de um futuro rei, jamais poderia namorar e ter casos como uma pessoa qualquer. E morreu fugindo da fama. Ou de uma possível má fama.
Ninguém defende, é claro, a fúria daqueles paparazzi. Mas eles foram meros instrumentos, mediadores inescrupulosos entre a princesa e o seu público, que tanto a compreendia quanto a devorava. E se Diana morreu da popularidade (ou com medo dela), se foi consumida pela própria fama, resta saber que destino terá o seu exemplo ou, mais propriamente, a sua imagem. Como ela será trabalhada, isso é um mistério. O certo é que a realeza a teme. Por isso não permitiu que lhe vissem a derradeira face. Nada propiciaria mais a divinização, ou o delírio fanático, do que o rosto exangue da morta. 
Preferiram enterrá-la muda. Sem rosto e sem auréola.
           

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Caso sério

-- Pai, urge que o senhor aumente a minha mesada.
-- “Urge”?!  O que é isso?
-- A professora de redação ensinou que a gente deve dizer “urge”. Tem mais força do que “é preciso”, “é necessário”. Parece, tipo assim, o rugido de uma fera. URRRGEEE!
-- Calma, tudo bem. Não precisa me morder. E pra que é que você quer mais dinheiro?
-- Vou fazer o Enem, não vou?  Preciso ler, me informar. Destarte...
-- “Destarte”?
-- Sim. Destarte, dessarte... A professora falou que é melhor do que “então”, “logo”, “diante disso”. Ela quer que a gente arrase na prova. E quer, outrossim, um pouco de fama para ela também, claro.
-- “Outrossim”?
-- O senhor não conhecia?
-- Não. Conhecia “outro não”. Era o que eu ouvia de sua mãe toda vez que lhe pedia um beijo. Ela dizia: “Outro não, Valfredo. Por hoje basta.”.
-- Ah, pai, o senhor é mesmo ignorante. Não é “outro sim”; é “outrossim”, entendeu?
-- Não estou vendo diferença, mas entendi. O contrário, então, deve ser “o mesmo sim”. E não outro!
-- Caramba, pai! Achei massa essa história do beijo. Então ela lhe dava um fora... Que sádica! E o senhor, entrementes, o que fazia?
-- “Entrementes”? Deixe eu ver... Primeiro preciso saber o que é “entrementes”. É alguma coisa como “escorraçado”?
-- Nada a ver. Significa “nesse espaço de tempo”.
-- E por que você não falou isso?
-- Porque a professora disse que “entrementes” impressiona mais. 
-- Nesse caso, pode entrementar à vontade. O importante é que você arrase na redação.
-- Esse é meu desiderato.
-- Como?
-- Desiderato, objetivo, pô! Também o senhor não saca nada da língua portuguesa!
-- Desculpe, ando meio desatualizado. Embora, aqui pra nós, esses termos que você está usando sejam um tanto serôdios.
-- “Ser” o quê?
-- Serôdios! Sua professora não mandou você usar essa palavra no lugar de “antigos”? Se ela ainda não fez isso, vai fazer. Com certeza.
-- Epa! Nada de “com certeza”. É “indubitavelmente”. E sabe de uma coisa? É mister que eu não converse mais com o senhor.
-- “Mister”?!
-- Isso mesmo. E não fale mais da minha professora, viu?
Não quero ouvir. Se fizer isso, que seja à sorrelfa.  
-- “Sorrelfa”!? Essa também veio da professora?
-- Negativo. É contribuição minha mesmo. Pesquei no dicionário para fazer uma surpresa a ela.  
-- “Sorrelfa”... Socorro, Alaíde! Vem cá ouvir teu filho. Alguma coisa muito séria está acontecendo com ele!

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A voz do coração

       Hoje ela mais escuta do que fala. É o contrário do que costumava acontecer, já que ela sempre falou muito. E os filhos precisavam de suas palavras. Eram o resultado de seus conselhos, advertências, ralhações. Frutos não apenas biológicos, mas também espirituais. Nem tudo era acatado ou compreendido. Precisou de tempo para que entendessem a intenção, o sentido, o valor do que ela dizia.   
      Hoje o seu mutismo, ou quase isso, é uma espécie de prêmio. Ela já disse tudo o que tinha a dizer e pode se dar ao luxo de silenciar. Ou falar o que quer, no contexto em que quer, numa espécie de automatismo que no fundo é uma prova de liberdade. Liberta de dizer o que deve, pois isso fazia parte da sua missão, ela reconquistou o direito ao murmúrio e ao devaneio. 
       Sua fala é um tecido esgarçado de lembranças, anseios imprecisos, temores que o tempo ainda não desfez. A voz emerge lenta, aos poucos, como se sobreviesse de um tumulto interior. Às vezes estanca, suspende-se no ar. Isso leva a se querer completar o sentido, que não é necessariamente o que ela pretendia -- mas pouco importa: o elo falso encadeia novas associações, que geram outros sentidos.
    Todos válidos, pois hoje o seu espírito recusa a exclusão. Assim é que uma recordação do dia anterior se confunde com uma lembrança muito antiga. Um muro em frente a onde ela mora torna-se a parede da casa onde viveu na infância. Um amigo da família se superpõe à imagem de um parente que já morreu. Com isso, ela resgata o tempo e os mortos. Cria uma eternidade em que também se inclui.
       Passa a maior parte do tempo vendo televisão, ou sentada junto à mesa. Depois de tantos anos, ganhou o direito de apenas observar o movimento da casa -- ela que fazia tudo, decidia tudo. Ninguém já lhe pergunta o que deve ser feito, mas sabe que ela é a origem do caminho que cada um trilhou. Seu atual sossego tem muito do dever cumprido. Se pudesse, faria mais. Talvez não voltasse à máquina de costura, que abandonou há tempos, mas ainda estaria indo a bancos, feiras, supermercados, e talvez riscando a planta de uma nova casa (chegou a construir três).
        O curioso é que mesmo lacônica, por vezes silenciosa, ela é o centro da casa. Um centro do qual se irradia uma sensação de conforto e paz. Quando recebe filhos, netos, bisnetos, genros ou noras, os olhos são a melhor expressão da sua alegria, que desabrocha num sorriso largo. Ela em verdade não precisa desses momentos para sorrir; fez do humor o doce invólucro da sua sensibilidade. Ri do que vê, do que ouve, até do que diz, com uma candura e um despojamento de quem tem a alma cheia de graça.
       Essa disposição tranquiliza os que a cercam. Torna-a imune às contrariedades da vida e alimenta a convicção de que ainda vão tê-la por muitos anos. Se ela hoje influi pouco nas coisas práticas, não deixa de ter um importante papel emocional: continuar vivendo. Permanecer entre os que a amam até que se habituem à dor de um dia perdê-la. Como sempre foi generosa, não há dúvida de que fará isso de boa vontade. Com a largueza do seu coração de mãe.


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Violência na escola

        Vez por outra a mídia noticia um ato violento ocorrido na escola. Quando não é um colega que fura outro, é um grupo de alunos que agride o professor. Há diretores solicitando a presença da polícia para que as aulas transcorram em paz.
         Não estou falando do bulllying, um tipo de agressão que sempre existiu mas pelo menos cobria o rosto. Trazia e ainda traz danos sérios, mas nem sempre se traduzia em facadas ou tiros. E poupava o professor. Refiro-me a uma espécie de banditismo explícito, que agride sem sutilezas psicológicas e vem transformando o ambiente escolar num espaço de hostilização e terror.
         Cresci ouvindo a associação da escola a um templo -- um “templo do saber”. Havia nessa bela imagem o reconhecimento do valor que se dava às atividades do espírito. Na escola o homem aprende, se instrui, transcende sua animalidade natural. Lá ele constrói sua humanidade a partir de um legado precioso -- o saber acumulado pelas gerações, que vai aos poucos delineando nosso perfil existencial e ético (lembro aqui Sartre: o homem não tem uma “essência”, tem uma “condição”; seu desafio é se construir a partir da consciência, ou seja, da liberdade).
         Se o que nos distingue dos outros animais é a educação, a escola constitui o espaço onde privilegiadamente se demonstra isso. Ela prolonga a família numa dimensão democrática e salutar, pois desconhece manhas, manias e privilégios deformadores comuns dentro de casa. A escola é um pouco como a igreja -- e não à toa se usa (ou usava) a palavra “templo” para caracterizá-la.  
         Hoje uma imagem como essa nos soa despropositada e mesmo ridícula. Como falar em templo num lugar de perseguições e escaramuças? Como conciliar a ideia de reflexão e estudo com os atos sanguinários que a TV vem nos mostrando? Boa parte dos alunos parece haver trocado o lápis, ou a caneta, pela faca ou o revólver -- e que história vão escrever com esses instrumentos? Quando não brigam entre si, eles brigam com o professor, que consideram um oponente em vez de um aliado. Parece que não estão ali para aprender, mas para enfrentar alguém que representa um obstáculo em suas vidas e deve ser destruído.
Essa forma distorcida de avaliar o mestre, e por extensão a escola, é o dado mais preocupante. Nossos jovens não apreendem o sentido de estudar, educar-se, evoluir intelectualmente para atuar no mundo. Um dos motivos para isso, talvez, é que não acreditam nos valores que a instituição escolar defende e transmite. Como se a escola tivesse um discurso que não bate com a vida real, onde as coisas são decididas pela tramóia, a truculência e o dinheiro. Como se ela os desviasse do que realmente conta.  

domingo, 20 de agosto de 2017

Zanzoando (7)

            Entro na lanchonete. O sujeito que normalmente me serve o expresso não está, e quem me atende é uma senhora. Peço o café. Quando ela vem me entregar, pergunto pelo homem.
        -- Hoje ele tirou folga.
        -- A senhora é a mulher dele?
        -- Às vezes.
                                       ****
A mulher entra na festa, olha o movimento e se queixa ao anfitrião, indignada:
-- Você disse que isso aqui é família!
-- E é! Os casais entram nos quartos para tentar providenciar uma...
                                       ****
Nostalgia e melancolia não são a mesma coisa. Distinguem-se em pelo menos três pontos:

1 – A nostalgia é a saudade do que se teve. A melancolia é a saudade do que não se teve.
2 – A nostalgia é histórica, não existe sem uma prévia convivência com o objeto perdido. A melancolia é mítica; o objeto perdido, nesse caso, é sobretudo um ideal.
3 – A nostalgia pressupõe uma perda. A melancolia pressupõe uma falta.

Exemplo de nostalgia: Gonçalves Dias na “Canção do Exílio”. O poeta está em Portugal e tem saudades do Brasil, onde viveu.
Exemplo de melancolia: Augusto dos Anjos em poemas como “As cismas do Destino” ou “A ilha de Cipango”, nos quais fantasia o mítico retorno à “Pátria da homogeneidade” (que é um espaço ideal, onde obviamente ele nunca esteve).
                                      ****
O exame mais difícil é o de consciência. Devemos fazê-lo todo dia mesmo sabendo que nunca seremos aprovados. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Dali e d'Além

Com o nome de Salvador,
ele se queria Deus.
Então um milagre obrou
(para espanto dos ateus).

Quando seu corpo exumaram,
deu-se o fato surreal,    
que os que por lá estavam 
dizem não ter visto igual:

em meio ao corpo que some
(vejam bem se isso pode!),
a terra, que tudo come,        
não lhe alterou o bigode!!