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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Haicais (2)

                          I          
            Certeza ou engano?
            Entre eu e mim
            cabe um oceano.

               II
Voam tristezas e alegrias,
vitórias e fracassos.
Tudo na vida pássaro.

                        III
           Chuva de verão.
           Nuvem de mosquitos
           borra a luz do sol.

                        IV
          Ossos do ofício:
          o coveiro faz da morte
          um exercício.

                       V
          Engaiolado no quarto,
          contemplo ao longe
          o voo do pássaro.

                      VI
         Casamento à burguesa.
         Tédio na cama,
         fartura na mesa.

                     VII
         Estrela cadente
         não apaga os sonhos
         que brilham na gente.

                    VIII
         É probido.
         O quê?
         Não posso dizer.

domingo, 14 de janeiro de 2018

O verbo libertário de Winston Churchill

“O destino de uma nação” aborda a atuação de Winston Churchill como primeiro-ministro num momento extremamente delicado para a Europa. Hitler ameaçava invadi-la, e os políticos britânicos achavam que só um acordo com o Führer poderia impedir que isso ocorresse. Churchill (vivido ou “revivido” por Gary Oldman) discordava. Achava que nada poderia deter a ambição dos alemães, e um acordo não seria mais do que um eufemismo para a derrota.
O filme mostra a luta do primeiro-ministro para fazer prevalecer o seu ponto de vista.  Destaca a figura carismática e imprevisível do homem birrento (e às vezes bem-humorado), que tomava uísque no café da manhã. Poucos tinham uma visão tão ampla da História e conheciam tão bem os seus atores (de heróis a vilões como Hitler e Mussolini). Sua maior arma, porém, era a habilidade verbal.  
Não são poucos os manuais de literatura que fazem referência ao seu estilo conciso e vigoroso. Ele escolhia palavras curtas e preferia substantivos a adjetivos e advérbios. Sua obsessão pelo termo exato transparece no trabalho que dava à jovem datilógrafa (interpretada por Lily James) e na preocupação em retocar o discurso que faria à nação pela BBC; prestes a entrar no ar, ainda cortava e substituía passagens do manuscrito. Exemplos de concisão e rigor são as metonímias que aparecem em sua famosa exortação ao povo inglês: “Sangue” (luta, se necessário até à morte), suor (trabalho) e lágrimas (sofrimento)”.
Leitor de Cícero e Horácio (citados no filme), Churchill conhecia o poder e o alcance das palavras. Foi em grande parte graças a elas que, depois de sondar a vontade do povo (numa bizarra viagem de metrô), conseguiu a adesão entusiástica do Parlamento. Poucas figuras da História testemunham, como ele, a estreita associação que existe entre palavra e liberdade.
                                                    ****

(Foto: Chico Viana em frente à estátua de Winston Churchill na Praça do Parlamento, em Londres).

sábado, 6 de janeiro de 2018

Cony, um militante da liberdade

        Morreu Carlos Heitor Cony. Descobri-o quando era adolescente, um pouco por influência do meu pai, que gostava muito de “Informação ao crucificado”. O “velho” João Viana se identificava com a crise vocacional do narrador, que passa anos no seminário e depois o abandona por ver que não nasceu para ser padre. Esse foi o drama de muitos jovens nascidos nas primeiras décadas do século passado. O resultado era um conflito interior que gerava muito sofrimento. O fato de largar a batina não impedia a persistência de um resíduo nostálgico muito difícil de apagar. Cony tinha essa nostalgia (que eu percebia também em meu pai).   
Muitos dos textos de Cony relatam os momentos em que ele costumava percorrer os corredores silenciosos e solenes do seminário em busca da “verdade”; em busca de si mesmo (essa procura me lembrava a do personagem Lelento, de “O nariz do morto”, livro autobiográfico de Antonio Carlos Villaça sobre o qual fiz a minha dissertação de Mestrado). O jovem seminarista sentia-se “puro” e almejava o céu. Muito desse sentimento de pureza era estimulado pelo fulgor da liturgia e pela altissonância do latim, que parecia facilitar a elevação do espírito a Deus.
Ao deixar o seminário Cony foi trabalhar em jornais, onde além de crônicas escrevia artigos que denunciavam os malfeitos dos poderosos. É conhecida a sua atuação contra a ditadura, pela qual foi preso mais de uma vez. Ele desconfiava de partidos políticos e criticava os desmandos dos poderosos, fossem de direita ou de esquerda. Era sobretudo um militante da liberdade.
Sempre o considerei um dos grandes cronistas do Brasil, ao lado de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Nélson Rodrigues, Carlinhos Oliveira e outros. Como cronista ele se fazia personagem, revelando as fragilidades do homem maduro que às vezes se sentia criança. Tinha uma sólida formação clássica (que deveu, em grande parte, ao seminário) e grande apego aos escritores existencialistas. Desconfio que veio de Sartre, Camus e outros seu compromisso com a liberdade, condição essencial para alguém ser um livre-pensador. Cony era, por isso vai fazer falta.