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domingo, 25 de março de 2012

A ética no hospital

O assunto da semana foi a reportagem do “Fantástico” sobre a tentativa feita por alguns empresários de corromper um gestor hospitalar. A matéria é sobretudo didática, pois mostra com fartura de exemplos como atuam os que se apropriam do dinheiro público. Eles são claros, objetivos, articulados, e conhecem bem os meandros desse tipo de negócio.
Nos acostumamos a achar que a oferta de propinas vem sempre de pessoas ligadas ao Estado. Os empresários seriam na pior das hipóteses aliciados; quando cediam, era porque não tinham outra alternativa para fechar o negócio ou, que diabo!, porque ninguém é de ferro. Como resistir a engordar com valores tão altos a conta bancária?... A reportagem concorre para desfazer essa impressão. Mostra que muitas vezes é das empresas que partem as propostas indecentes.
E o pior é que elas não surgem de maneira episódica, por obra de uma ovelha negra que se rebela contra as sagradas leis do capitalismo. Surgem como efeito de um conluio e sistematizam uma prática. Essa prática, conforme salientou um dos empresários filmados na reportagem, de tão natural já ilustra uma “ética”.
A prova da naturalidade da situação é que todos negociavam muito à vontade, entremeando os percentuais propostos (dez, quinze, vinte por cento...) com gracejos e cínicas observações pedagógicas. Um dos negociadores chegou a mostrar ao suposto gestor o que ensinava aos filhos. O conselho que dava aos seus rebentos era que sempre protegessem os contratantes, a fim de ser por eles protegidos. Incutia-lhes como demonstração de lealdade o que não ia além de comparsaria.
Essa lição de casa me lembrou o conto “Teoria de medalhão”, de Machado de Assis, em que um pai instrui o filho sobre o que fazer para se tornar uma figura pública influente. Um medalhão não é bem um corrupto, mas realidade e conto têm em comum uma prática educativa que antes deforma do que constrói. E será possível construir alguma coisa numa sociedade em que o roubo dos recursos públicos é um ato “absolutamente normal -- segundo comentou a representante de uma das empresas? Que esperar de um país que normaliza a fraude? Vá ver, nós é que estamos ensinando errado nas escolas.
Desvendada a trama, as autoridades prometem tomar providências e até se fala na instalação de uma CPI. Esperemos que as investigações ocorram mesmo e levem à punição dos culpados. Dá um calafrio pensar que: a) esse foi apenas um entre as centenas de hospitais públicos que há no país; b) as empresas filmadas foram somente quatro entre as dezenas que prestam serviços ou fornecem produtos a essas instituições; c) nem todo gestor hospitalar é um repórter disfarçado do “Fantástico”.
Tudo isso dá a entender que são vários os condutos por onde o dinheiro escoa, relegando ao desamparo milhões de pobres e miseráveis. O diretor do hospital onde se fez a reportagem observou com razão que roubar da saúde constitui um dos piores crimes, pois deixa sem assistência os que não podem pagar médicos e hospitais. Ou seja: é uma forma indireta de matá-los.

domingo, 18 de março de 2012

RS

Umberto Eco escreveu certa vez que não gosta de usar reticências. O motivo é que esse sinal de pontuação sugere arrogância. Ao anteceder uma palavra ou uma oração de reticências, parece que o escritor está dizendo: Preparem-se, que eu vou dizer uma coisa espirituosa. Como vocês certamente não perceberão, estou preparando seus espíritos com esses três pontinhos...”.
Sempre me lembro das palavras de Eco quando me deparo com um rs em textos que recebo na internet. Na internet, sim, pois até agora só vi esse agrupamento de letras no espaço virtual. Como todo internauta sabe, sua função é informar que o autor está sorrindo.
Serão essas letrinhas necessárias? Seu objetivo é realçar ou induzir? Se o que o autor diz é mesmo engraçado, precisamos delas para captar o humor contido na mensagem? E se não é, elas por si conferem graça ao texto? Enfim, quem as usa desconfia da própria veia humorística ou supõe que ela existe e o leitor -- em sua tacanhice intelectual -- não a percebe?
O rs é uma espécie de pleonasmo. Destaca o que se depreende ou se deveria depreender da mensagem. Mas, vá lá, não é de todo inútil. Sua presença dá à conversa um ar franco e cúmplice. Lembra as rubricas de teatro, aquelas indicações entre parênteses por meio dos quais o autor instrui os atores sobre o tipo de emoção que devem imprimir a cada fala. Também nesse caso o recurso é inútil, pois um bom ator sabe, pelo que está no texto, se deve carregar as palavras de medo, ternura, raiva ou o que for. A diferença entre elas e o rs é que não aparecem no texto.
Como o que é moda tem força, vez por outra me pego usando essas letrinhas. Com elas me asseguro de que o leitor vai captar minhas intenções. Tenho-as achado tão úteis, que fico pensando se não deveríamos criar outras abreviaturas no mesmo estilo. Por que só destacar o riso? O homem é um animal que ri -- o único, segundo dizem -- mas que também se entendia, se disfarça, se encoleriza. Nem sempre deixamos transparecer esses estados negros da alma. Por que não enfatizá-los com os sinais devidos, para que o leitor perceba o que de fato se passa dentro de nós?
Além disso, um dos problemas de quem escreve é lidar com a ambiguidade das palavras. Às vezes o escritor produz várias versões para chegar ao que quer dizer, e nem assim consegue. As letrinhas concorreriam para contornar essa dificuldade por tornar inequívoca a mensagem.
Vamos adotá-las, então. Com o intuito de disseminar o novo hábito, apresento algumas abreviaturas possíveis: rv (raiva), dsp (desapontamento), mnt (mentira), inv (inveja), alv (alívio) e assim por diante. As letras poderiam duplicar, triplicar ou quadruplicar conforme a intensidade do sentimento que revelam. Para terem uma ideia, vejam como as frases abaixo ficam bem mais expressivas com elas:
- “Por que você não estava na porta do cinema às oito, conforme combinamos rvrvrvrv?”; - “Sua mãe vai mesmo viajar conosco? dsp”; - “Pessoas como você tornam o mundo melhor mnt”; - “Seu vestido é muito bonito, mas um pouco ousado inv”; - “Então você vai se mudar para outra cidade? Que pena! alvalv”.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Seleção de frases (7)

Humorista desiste da profissão. Não quer mais fazer show de graça.
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Tem gente que diz que é “pelo coletivo”, mas se recusa a andar de ônibus.
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- Filho, o que você fez com seu amigo foi muito feio. Você precisa se retratar.
- Certo, mãe. Mas antes de tirar a foto, quero pedir desculpas a ele.
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O dinheiro pode não trazer felicidade, mas a falta dele seguramente não traz.
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Contra flatos não há unguentos.
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Em terra de olho quem tem um cego... errei!
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- Pedrinho, que nota é esta no seu boletim?!!
- Calma, pai. É para um dia eu mostrar aos meus filhos que comecei do zero.
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A política é a arte de quebrar os ovos sem fazer a omelete.



domingo, 4 de março de 2012

Papo cabeça

- Eu soube que você tem lido muito. É verdade?
- É verdade, sim. Quero decifrar o enigma da vida.
- Como aquele rei tebano... Qual é mesmo o nome dele?
- Aquele que gostava “demais” da mãe? A coisa ficou em segredo, até que veio um alemão e a revelou pra todo o mundo. O pobre do rei ficou com complexo e saiu por aí, caminhando, com os pés inchados. Também não lembro o nome dele.
- Édipo! E o alemão foi o Freud, aquele que só pensava em sexo. O homem era tão pra frente que diante dele todo o mundo se sentia recalcado, inferior.
- Também pudera! Ele era um gênio do porte de Newton ou...
- Newton foi o da maçã, não foi? Dizem que uma maçã caiu na cabeça dele, e uma parenta que viu tudo começou a rir. Para deixar a moça sem graça, ele inventou a lei da gravidade.
- Pior foi Einstein, que desprezava o ser humano.
- Ué, quem desprezava não era Schopenhauer?
- Não. Era Einstein mesmo. Desprezava tanto, que tirou uma foto estirando a língua. Como quem diz: “Olhe aqui pra vocês!”.
- Conheço a foto, mas não acho que ele fez aquilo por desprezo. Pra mim foi macaquice mesmo.
- Pode ser. Afinal de contas viemos todos do macaco, e vez por outra não resistimos a uma macaquice. Hobbes que o diga.
- Darwin!! Hobbes é outra história -- ele nos associou a lobos. Queria que nos comêssemos uns aos outros.
- Não exagere. Ele apenas disse que o homem é o lobo do homem.
- E o que faz um lobo, senão devorar a presa?
- Eu não concordo com o que você diz, mas seria capaz de recusar o próximo chopp para lhe garantir o direito de dizer isso.
- A frase é profunda, mas não original. Alguém já falou coisa parecida.
- Voltaire. Mas ele não menciona a cerveja. Portanto, parte da autoria é minha.
 - Voltaire, aquele que serviu de inspiração a um personagem de Stephen King?
- Não. Voltaire, filósofo do Iluminismo. O personagem de King era o Iluminado e, ao que me consta, não tinha nada a ver com o autor desta outra frase famosa: “De pensar morreu um burro.”
- Essa história eu conheço. Ele não aguentou ver o burro morrer por causa de umas chibatadas que o dono lhe aplicava, e terminou enlouquecendo.
- Peraí, esse foi Nietzsche, precursor de um famoso herói de histórias em quadrinhos -- o Super-Homem. E não era um burro, era um cavalo!
- Nietzsche? O que queria ser Cristo?
- Pelo contrário. Nietzsche queria ser o Anticristo. Para isso ele se afastou dos homens -- achava que o inferno são os outros.
- Eu pensava que essa frase era de um francês, Sartre de Beauvoir.
- Não. Esse foi o criador do feminismo moderno... Como esse papo promete ir longe, proponho que a gente pare com a cerveja. Do contrário, vai começar a confundir as coisas.