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sexta-feira, 6 de março de 2009

Gordura verbal

É noite de sábado, e o meu telefone toca. Tenho um arrepio. Um telefonema numa noite de sábado é a possibilidade de tudo – um acidente, uma queixa, um convite, um pedido, um engano. Mas logo a minha ansiedade se desfaz. Quem me liga é a Náiade Descarnada. Quer que eu lhe tire uma dúvida de português.
Antes, falemos um pouco dessa mulher. Chamo-a “Náiade Descarnada” devido à sua obsessão em fazer regime. Ela tem horror a gordura e por isso malha diariamente na academia, onde sua até a alma. É tão exigente com a silhueta que considera Gisele Bünchen obesa. E quando fala nas linhas do seu corpo, devemos entender isso em sentido literal. A Náiade é linear, quase incorpórea.
Pergunto-lhe qual é o problema desta vez. Ela estava fazendo uma carta para o seu guru, o professor de ginástica com quem tem aulas particulares, e esbarrou numa dificuldade com pronomes. Quer saber se é correto escrever: “Não tiveram efeito os comprimidos que eu os comprei numa loja de conveniência”.
Explico à Náiade que a construção não é boa. Há nela um pleonasmo vicioso, pois o “os” repete a idéia representada pelo pronome relativo “que”. Esse pronome já retoma “comprimidos”, por que então acrescentar outro? Consolo-a dizendo que é muito comum esse tipo de engano. Escreve-se, por exemplo: “Ali estão as pessoas que mais as considero” – como se o pronome “que” já não repetisse “pessoas”.
A fim de lhe tornar mais digerível a explicação, digo-lhe que o “os” da sua frase constitui um excesso, uma gordurinha verbal. “É preciso cortar, fazer uma espécie de lipo, entendeu?”. Horrorizada, ela diz que sim. Cortar gordura é com ela mesmo. E desliga o telefone depois de um suspiro comovido e grato.