sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Ao perdedor, as baratas!

Um livro recente, preocupado em caracterizar a diferença entre os sexos, afirma que os homens são de Marte e as mulheres, de Vênus. Homem e mulher seriam antíteses físicas e, sobretudo, psicológicas. O que ela quer, ele despreza. E o que ele persegue ou admira, ela simplesmente abomina.
Casado e pai de duas meninas, vivencio como poucos o desmesurado abismo que separa mulher e homem. Sou um marciano entre três venusianas. Posso dizer que em minha casa não convivem quatro, mas um contra três, e que tal oposição se revela em todos os domínios disso que se chama lar. Há momentos em que lamento não haver aceitado o conselho de um tio árabe, hoje falecido. Em mais de uma visita que lhe fiz, em Campina Grande, ele me fitou com gravidade e quase me intimou: “É preciso providenciar o filho varão!”. Disse e repetiu, com uma ênfase e uma convicção maometanas: “Trate de fazer o varão!”.
Na época, ri desse prudente conselho, contestando o que me parecia uma demonstração de exacerbado machismo. E pensava comigo: varão lá em casa, só eu. Sendo o único homem entre três afanosas mulheres, julgava que seria alvo de certos cuidados e regalias. Mas quão enganado eu estava. Às vezes penso que já não mando, já não influo, já não interfiro em minha própria casa.
Por não entender de vestidos ou de maquiagem, fui mais de uma vez expulso do quarto. Por ser alheio a temperos, molhos e demais sutilezas da gastronomia, já me enxotaram da cozinha. Por não saber me comportar nas festinhas de casa ou da escola, e sempre achar que se comprou bolo ou balas demais, fui gentilmente convidado a, nessas ocasiões, permanecer no escritório. E ali tenho ficado a maior parte do tempo, roído pelas traças da solidão e do desgosto – entre livros que me entendem e são tão severos quanto eu. Enquanto isso, fora desse estrito domínio, a casa se subverte em excessiva e colorida alacridade. Sei que sou uma mancha cinza, às vezes um desmancha-prazeres, e me recolho humilde ao meu reduto de homem. Com a sensação de estar dispensado ou excluído.
Ah, mas vez por outra chega o instante em que tudo isso muda. Trata-se de um momento especial, que eu gozo com um êxtase secreto e viril. Nessas ocasiões recobro o meu papel e, com ele, os brios perdidos. E sinto interiormente um prazer que remonta às cavernas, sim, aos urros dos velhos machos ancestrais. Tudo começa com um, dois, vários gritos. “Chico, corre!”. “Papai, vem aqui depressa!”. “Depressa, papai!”. Já imaginando o que seja, sorrio e me levanto devagar. Não me precipito, valorizo o pânico e a espera. E vou tratando de pegar o chinelo, que empunho como a uma arma de guerra.
Ao chegar na sala, vejo que uma das mulheres está em cima do sofá, outra em cima da mesa, a terceira em cima de uma cadeira. Geladas de nojo e de terror. E ficariam interminavelmente nesse estado, não fosse a minha providencial e masculina interferência. No chão, a poucos metros da mesa e do sofá – a barata. Ela as acua com o seu focinho escuro, de onde emergem aquelas lúgubres e dançantes anteninhas. Consciente da sua força, do seu império de terror, a barata parece disposta a jamais se afastar dali. E contemplo agradecido essa flor dos esgotos, a quem, estranhamente, fico a dever o resgate da minha honra.
Antes de executá-la, olho ainda as mulheres que tremem sobre os móveis. Com expressão aflita e urgente, solicitam a minha piedade e o meu socorro. Então, num gesto decisivo e fulminante, reduzo o monstro a uma pasta caspenta e branca. Depois envolvo o cadáver em papel higiênico e levo-o, triunfante, para o lixo.
As mulheres se libertam do antigo jugo, conquistam espaços profissionais e, como que por vingança, vivem nos ameaçando. Mas eu te digo, ó homem, que não há por que temeres a tal guerra dos sexos. Não serás perdedor. O nosso poderio de séculos não irá pelo ralo – pelo contrário: é do ralo mesmo que, impressentida e sorrateira, virá nossa aliada maior. Nosso instrumento de redenção.

("A rosa fenecida", p. 67) Leia o livro em:  http://www.bookess.com/read/14343-a-rosa-fenecida

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