sábado, 24 de janeiro de 2026

Aposentado



           Naquele dia Osvaldo abriu os olhos e, por uma espécie de automatismo, levantou-se da cama e foi olhar o relógio. Deu-se então conta de que não precisava mais fazer isso; estava aposentado. Pensou em ainda dormir um pouco, quando percebeu que a mulher já estava sentada à mesa da copa. Depois de escovar os dentes e lavar o rosto, foi até lá e se sentou para o primeiro café em anos sem pressa, sem preocupação com o trânsito, sem medo de chegar tarde e não poder assinar o ponto.

Rosilda notou sua expressão de alívio. O marido bem que merecia o descanso. Esforçara-se muito para criar os filhos do casal – Nestor e Amanda – e a partir de agora tinha direito a outro tipo de rotina. Por sinal, Osvaldo já lhe dissera que um velho amigo, Aníbal, participava de um grupo que costumava jogar gamão à tardinha, num shopping, e lhe fizera o convite. Ele tinha aceitado.

A aposentadoria seria também uma forma de o marido lhe ajudar em algumas tarefas domésticas, como lavar os pratos. O trabalho na repartição nunca havia deixado tempo para isso. Rosilda tocou no assunto e, ao se levantarem da mesa, levou-o até a pia para mostrar como era simples o serviço:

– Você só tem que borrifar detergente numa bucha, esfregar na louça engordurada e remover tudo com a água da torneira. – Ele fez sinal de que entendera e pouco depois, para confirmar que tinha boa vontade, começou a trabalhar. Dispôs-se então a ficar ajudando a mulher nessa tarefa, que não prejudicaria o gamão com os amigos nem outras amenidades a que a sua nova condição lhe daria direito.

No dia seguinte, recebeu a visita de um dos filhos. Mal entrou em casa, Nestor saudou-o com entusiasmo:  

– Viva! Agora temos aqui um aposentado. Dever cumprido, chega enfim o repouso do guerreiro.  

Osvaldo sorriu sem jeito, e ficou mais sem jeito ainda quando o filho acrescentou:

– O descanso é merecido, mas tome cuidado. Aposentadoria não é sinônimo de ociosidade. O pai de um amigo meu se aposentou e ficou sem fazer nada. Resultado: acabou com depressão. Hoje toma remédios, por sinal caríssimos.

Osvaldo ponderou que não ia se tornar um inativo. Além do gamão, pretendia procurar outras distrações...

– Eu tenho uma proposta para o senhor não ficar sedentário – cortou o rapaz. – Três vezes por semana devo providenciar um relatório sobre os gastos da empresa. Coisa simples, mas que me toma o tempo de outros serviços.  O senhor podia me dar uma mão. Nem vai precisar sair de casa, eu trago a papelada pra cá.  

O pai disse que era possível, sim, desde que o trabalho não atrapalhasse os encontros que pretendia ter com as pessoas da sua faixa de idade.

– Beleza, pai. Esse trabalho, o senhor vai ver, fará bem a nós dois – disse e saiu apressado. Precisava trabalhar num dos tais relatórios.

No dia seguinte foi a vez de Amanda. Ela veio com os filhos – um casal – e foi logo pedindo aos dois:

          – Deem os parabéns ao seu avô. Ele agora está aposentado.

– O que é “aposentado”, mamãe? – perguntou Eduardo. 

– Quer dizer que ele vai ficar em casa descansando. 

– Puxa mãe, que bom! – exclamou Carol. – Agora vovô vai ficar mais com a gente.  

– Pois é... – disse Amanda. – Agora ele vai ficar mais com a família.

Pensou um pouco e completou: – Pai, por que não pega os dois na escola pelo menos três dias na semana? É uma forma de o senhor se distrair e me ajudar a ficar mais tempo na loja. Às vezes perco clientes quando tenho que sair mais cedo.  

– Ah, vovô, Faz isso, faz! – reforçaram as crianças quase ao mesmo tempo. – Quero que o senhor conheça minhas colegas – justificou a menina, segurando a mão dele. Como escapar àquela afetuosa intimação?

         – Está bem, vou ver os melhores dias de pegar vocês – prometeu, já pensando em como dividir essa tarefa com as partidas que jogaria com os amigos.

          Osvaldo entrou, assim, na sua rotina de aposentado. Nem sempre podia dormir o quanto queria, pois tinha que ajudar Rosilda nos trabalhos domésticos (além de cuidar dos pratos, lavava agora os banheiros “para manter rija a musculatura”, conforme lhe dissera a mulher). À tarde corrigia os relatórios de Nestor; como nunca fora bom em Português, tinha por vezes que fazer consultas na internet sobre regência, acentuação, colocação pronominal e outros tópicos, o que retardava o trabalho.

Quanto à busca dos netos na escola, era a melhor parte; o problema é que justamente nessa hora os amigos se reuniam, e as duas vezes por semana que sobravam para se encontrar com eles lhe pareciam poucas. Embora sentisse um enorme prazer em abraçar os garotos, conduzi-los ao automóvel e deixá-los no apartamento onde moravam, a lembrança das conversas com a turma (às vezes recheadas de anedotas ou de filosóficas considerações sobre a passagem do tempo) deixava-o um pouco nostálgico.  

         Passaram-se seis meses, e Oswaldo parecia ter se adaptado à nova rotina. Dele se poderia dizer tudo, menos que se tornara “um inútil”. Como uma forma de demonstrar reconhecimento à disposição do marido, que poderia ter se “recolhido aos “aposentos” mas não quisera, Rosilda resolveu fazer um almoço especial em família. Nestor e Amanda acharam muito justo, pois o pai vinha se mostrando uma espécie de “aposentado exemplar”. Era um modelo que desencorajava os que confundiam essa etapa da vida com inação.

          Chegou o domingo do almoço. Família reunida, só faltava o homenageado, que permanecia no quarto enquanto o restante conversava em volta da mesa.

           – Mãe, cadê papai? – estranhou Amanda. – Vá chamar.

           Rosilda não chegou a fazer isso, pois logo se ouviu bater a porta do quarto; pouco depois, Osvaldo aparecia com um papel na mão. Postou-se diante do grupo e falou:

            – Pessoal, tenho uma surpresa para vocês. – Fez uma pausa e completou: – A partir de amanhã vou voltar ao trabalho. Este é o meu documento de readmissão; fui buscar ontem.

           Ficaram todos em silêncio, que foi quebrado por Amanda: – Mas por quê, pai?! Não se adaptou à vida de aposentado?

           – Mais ou menos isso, filha – respondeu, com um sorriso enigmático.

           Em seguida, ante o olhar surpreso e levemente decepcionado do grupo, tratou de ocupar o seu lugar à mesa.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Sobre a amizade



     A amizade é por excelência um sentimento desinteressado. Nela não interferem o sexo nem a cumplicidade. Queremos um amigo pelo prazer de ter alguém perto. Alguém com quem conversar ou ficar em silêncio. Alguém que nos compenetre tão profundamente da ideia do Semelhante, que nos permita partilhar sem reservas a nossa humanidade.

Enquanto o amor romântico busca a complementariedade, e a parceria visa ao que é útil, a amizade eclode no terreno do desinteresse. Ela é não um meio para um fim, mas (lembrando o que Kant diz sobre a arte), um fim em si mesma. Ao retirar o componente da premência biológica, ou do ganho prático, o que sobra é a transparência do encontro. Ter um amigo é contar com um espelho em que a nossa humanidade se reflete sem julgamentos.

Para se manter, a relação demanda uma boa dose de tolerância, pois não é totalmente imune às fraquezas que todo ser humano tem. Vez por outra elas se evidenciam, ameaçando turvar o clima e testando a intensidade da afeição. Nelson Rodrigues conta nas suas “Confissões” que, sofrendo de “insônias crudelíssimas”, costumava ligar para Otto Lara Resende nas madrugadas. Imagine o que é ser tirado da cama nessa hora para aliviar o tédio de um amigo que não conseguia dormir. Otto se levantava (certamente com cuidado para não acordar a mulher) e conversava por longos minutos com o autor de “Vestido de noiva”. Essas vigílias forçadas nunca comprometeram a amizade dos dois. 

 Dizer que o amigo nos compenetra da ideia do Semelhante é reconhecer que ele é uma espécie de guardião da nossa identidade. É o porto seguro no qual o “eu” se reconhece no “outro” de forma plena. Nesse tipo de relação, deixamos de lado a “persona” social para partilhar o que temos de mais real e cru. Isso envolve não apenas afinidade, mas também a certeza de que, ao lado daquela pessoa, nossa humanidade não precisa ser retocada, escolhida, performada – precisa apenas ser vivida.

No ensaio “Dos amigos”, Montaigne tenta explicar o “inexplicável” que o uniu a Étienne de La Boétie. Chega à conclusão de que, em sua forma mais elevada, a amizade transcende as categorias comuns dos relacionamentos humanos. Quando questionado sobre o motivo de tamanha afeição pelo amigo, Montaigne o resume na célebre frase: “Porque era ele; porque era eu.

Há na amizade, segundo o autor dos “Essais”, uma comunhão de essências. Queremos um amigo pelo que se irradia da sua presença – uma presença que nos acompanha tanto no diálogo exasperado, tortuoso, quanto no silêncio confortador. Ele e Étienne não eram apenas aliados intelectuais; eram os Semelhantes um do outro. Essa relação permitia que suas humanidades fossem partilhadas sem reservas, pois na verdadeira amizade as almas se misturam e se confundem.

Vinicius de Moraes confirma esse modo de ver quando diz que “amigo não se faz; amigo se reconhece”. Tal percepção parece transportar a amizade do campo da construção social para o do destino ou da metafísica. Quando o Poetinha diz que amigo “se reconhece”, sugere que o encontro não é o ponto de partida mas o reencontro de algo que já existia em estado latente.

A ideia de que a amizade é um “reconhecimento” evoca uma sensação de familiaridade ancestral. Nesse processo, o outro personifica uma parte nossa que sempre esteve “lá”, esperando para ser espelhada. Lembra um pouco a paixão, em que os amantes parecem sentir que conhecem um ao outro há muito tempo. Freudianamente, esse tempo pretérito é o da infância, quando se opera a identificação com a figura paterna, ou materna, que vai modelar a futura escolha do objeto amoroso. 

Contudo, no que diz respeito à amizade é mais pertinente citar Jung do que Freud (por sinal, os dois foram durante muito tempo amigos, mas terminaram se afastando por motivos que aqui não vêm ao caso). Carl Jung fala em “sincronicidade” para descrever coincidências significativas que não têm uma causa lógica, mas têm um sentido profundo. Um amigo não aparece na nossa vida por acaso, mas por uma necessidade da alma. O encontro ocorre no momento em que ambos precisam partilhar aquela “humanidade sem reservas”. É como se o universo conspirasse para que dois Semelhantes se cruzassem a fim de promover o recíproco crescimento.

          A frase de Vinicius (segundo a qual amigo se reconhece) confirma a experiência de Montaigne. O francês escreveu que, antes mesmo de se conhecerem pessoalmente, ele e La Boétie já se buscavam por meio dos escritos um do outro. Quando finalmente se viram, “encontraram-se tão tomados, tão conhecidos, tão ligados, que nada desde então lhes foi tão próximo”. Não houve um processo de “fazer a amizade”; houve apenas o reconhecimento de que suas almas já estavam misturadas antes mesmo de seus corpos se cruzarem.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O mito Bardot


Cresci ouvindo dizer queBrigitte Bardot era a uma figura pecaminosa, imagem da luxúria e da devassidão. Isso faz muito tempo, claro, e tinha a ver com o propósito de incutir na criança o temor ou mesmo a abominação do sexo.

Cresci mais e, em filmes como “E Deus criou a mulher” (título provocativo por sugerir para a mulher uma matriz divina, e não demoníaca), tive uma mais adequada percepção da figura da atriz.
Bardot inaugura uma nova versão da Femme Fatale. Ela não maltrata nem humilha Michel (personagem de Jean- Louis Trintignant) por querer destruí-lo, como ocorre com as versões tradicionais desse mito, mas por ser extremamente livre para os padrões sociais do lugar onde moram.
É malvada não por cálculo ou estratégia, mas por natureza. Seu comportamento aparece como uma resposta a quem aparentemente tenta domesticá-la por meio do casamento e da submissão às normas sociais.
Daí se dizer que o filme de Roger Vadim (marido da atriz à época) “inventou” o mito Bardot — uma espécie de símbolo da quebra dos valores tradicionais e da liberação sexual dos anos 1950.
Na visão do diretor, que chocou os redutos conservadores, a liberdade física de Bardot aparece como um desafio à moralidade burguesa.
Por extensão, o filme usa a liberdade feminina como uma força que busca desestabilizar a autoridade masculina tradicional
A Igreja Católica e grupos conservadores condenaram o filme, o que concorreu para fixar a imagem da estrela como uma mulher perigosa, mesmo demoníaca — tal como me pintavam quando eu era menino.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O galo e o peru ( uma antifábula natalina)

    


            Véspera de Natal. No quintal de uma família de classe média, estão um galo e um peru. O galo caminha alegre, balançando a crista. Já o peru não sai do canto e mal disfarça a tristeza. Sabe o que o aguarda.

De repente o galo canta. O peru então o interroga com um misto de surpresa e ressentimento:

-- Por que essa alegria?

-- Porque tenho alguma coisa a ver com o que acontece hoje. Um de meus ascendentes saudou o nascimento do Menino. Foi a trombeta auroreal de um novo mundo. Como eu não iria me alegrar?...   E você? Qual a razão dessa cara?

-- Ora... Daqui a pouco vou virar comida para os que vêm festejar o nascimento a que você se refere. Queria que eu estivesse contente?

-- Procure aceitar. Trata-se de uma grande causa. Além do mais, você terá tudo para ser o rei da festa. Muitos o acharão macio, crocante, bem temperado.

-- Isso não vai depender de mim, mas da cozinheira. Esqueceu que estarei morto?

-- Estará sem vida, mas será o centro das atenções. E o mais importante: representará ali a grande nota de realidade. Mais do que a árvore, as músicas, os cumprimentos formais, dará testemunho da natureza do homem.  O sucesso dessa noite vai se medir pelo prazer que der aos convivas.     

-- Tem certeza?

 -- Claro! Você vai saciar-lhes o apetite do corpo, que é mais profundo do que o da alma. Se vir as coisas por esse lado, se convencerá da sua importância.

O Peru parece impressionado com essas palavras. O galo volta a se distanciar, balançando a crista, e canta de novo sem motivo. Ou, quem sabe, devido à alegria de não ser peru. Quando volta de mais um passeio, ouve novo desabafo:

-- Sua retórica não me convence. É fácil elogiar um condenado à morte quando se vai permanecer vivo.  Aposto que está contente por não ocupar o meu lugar.       

-- Não nego... Mas você sabe que meu dia vai chegar. E não terá o mesmo brilho do seu. Vou “reinar” num desses banais almoços de domingo, com música estridente ao fundo e cerveja em vez de champanhe.

Nesse momento a cozinheira vem interromper a conversa dos dois. Tem na mão uma peixeira brilhante. Com o ar decidido, dirige-se ao peru.

A ave não esboça nenhuma reação. Quando é alçada e apertada de encontro à barriga da mulher, ouve ainda o galo cantar. Pela terceira vez.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Para além do clichê



             Muito já foi dito sobre a atitude de Gerson de Melo Machado, morto recentemente por uma leoa na capital paraibana. O inusitado do seu gesto, no entanto, faz com que sempre haja algo mais a dizer. Gerson comentava com uma conselheira tutelar que queria ser um domador de feras. Disse-lhe que “ia pegar um avião pra ir pra um safári na África para cuidar dos leões...”. No afã de realizar esse intento, chegou a cortar uma cerca e entrar no trem de pouso de um avião da Gol; as câmeras do aeroporto impediram que o pior acontecesse.  

Filho de mãe esquizofrênica e neto de uma avó com problemas mentais, ele tinha na genética um inimigo. Presa de mais um delírio, encenou o último ato do seu drama (ou tragédia) aqui em João Pessoa. Imaginou que a Bica fosse um circo e se propôs a domar um dos felinos lá existentes. Queria pôr em prática o que durante anos acalentou como um desejo infantil. Numa espécie de transposição entre fantasia e realidade, o domínio sobre os animais seria uma metáfora para a vitória sobre as “feras” que interiormente o consumiam. 

Acabou, sem querer, transformando o Parque Arruda Câmara em local de um espetáculo tenebroso. Os turistas e demais visitantes depararam-se com o que não imaginavam encontrar num lugar dedicado à recreação e à momentânea fuga ao estresse da cidade (mais de uma vez levei lá meus netos, que se encantavam com a fauna e a flora diversificadas). 

Há algum tempo um leão circense arrastou uma criança que se aproximara da jaula e a matou.  Falou-se então em negligência dos responsáveis pelo circo, também dos pais, e houve até processo. O dono do empreendimento chegou a sofrer um ataque cardíaco. Agora a situação é outra, pois a vítima se ofereceu à sanha do felino. Leona, como toda fêmea, era ciosa do espaço que lhe cabia guardar – e mal esperou que o invasor tocasse o solo. 

Sabe-se que Gerson adoeceu devido a genética e desamparo. Destituído do poder familiar da mãe, fora impedido de ser adotado – diferentemente do que ocorreu com os quatro irmãos. Passou diante disso a ter um comportamento erradio e marginal, o que mais ainda dificultava a sua adoção; família alguma queria receber alguém como ele. A sociedade não lhe deixou então saída. Seu gesto foi produto de negligência, não da administração da Bica, mas de todo um aparato social que o condenou ao abandono.

“Atirar-se na boca do leão” é uma expressão figurada com que se designa a atitude suicida de alguém. Ninguém espera que esse clichê tenha um sentido literal, mas por vezes a sociedade se encarrega de tornar realidade o que, por absurdo ou inverossimilhante, a linguagem reserva ao domínio das figuras. Isso pode ocorrer no plano do horrendo e também do sublime. Pode nos conceder enlevo ou estupor. Num e noutro caso, encoraja-nos a repensar sentimentos e valores, e nos conduz a uma mais ampla percepção de nós mesmos.

            Gerson deu consistência real a uma imagem horripilante, que nos remete à selva de onde presumivelmente evoluímos. Com essa atitude, fruto de insensibilidade e rejeição social, ele mostrou o quanto ainda há de primitivo em nós. Depois do que fez, é impossível mencionar aquele clichê linguístico sem evocar o seu tresloucado gesto.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Devaneios sobre a cama


               Alguém já disse que a cama é um móvel metafísico, pois nela o indivíduo nasce, ama e morre. Vejo-a mais como um móvel físico, em que a gente dorme para aliviar os incômodos do corpo.

         A cama é o lugar do repouso, da meditação, e também da preguiça. A preguiça, como se sabe, é um dos pecados capitais. Deve ser por isso que, nos claustros e conventos, tendia-se a evitar as camas confortáveis. Os religiosos dormiam num estrado duro para que o corpo não se acostumasse ao conforto e viesse a amolecer. Imagino que, em sonho, supunham estar sobre um colchão fofo, desses a que o corpo lascivamente se amolda.

         O homem primitivo dormia no chão, sobre pedra, areia, grama. Uma das vantagens disso é que não sofria da coluna. Certamente alguém, sentindo a maciez da grama, resolveu cortá-la em tufos e os pôr num saco ou num envoltório semelhante. Assim nasceu o colchão, ou um protótipo primitivo dele. Embora espetasse um pouco, era um avanço em relação à superfície pedregosa. A partir daí, nosso antepassado veio a dormir não apensas por necessidade como também por prazer.

      Com o hábito de ficar na cama, ele começou a dedicar boa parte do tempo à reflexão e ao devaneio, o que levou ao desenvolvimento da filosofia e da arte (da filosofia até Aristóteles, para quem a caminhada estimulava o pensamento). Passou também a pensar mais nas mulheres – a delicadeza dos traços, a melodia da voz, a graça do andar. A partir dessa percepção, a mulher foi se transformando de simples objeto sexual em musa erótica. Mas levou tempo até que deixasse de ser puxada pelos cabelos e levada para o fundo da caverna para fazer amor. Essa prática só teria mesmo fim com o aparecimento dos primeiros cabeleireiros.  

       A cama predispõe à inação e a tudo que ela acarreta. Deitado, o indivíduo consome menos calorias, tende a engordar e ser vítima das chamadas doenças da civilização. Mas a verdadeira doença não é do corpo: é do espírito, que tende a erodir à medida que fraqueja o impulso de se levantar. Primeiro acabamos desistindo do esforço, que se constitui numa verdadeira batalha; depois, desistimos de nós mesmos. Na cama o mundo se estreita entre lençóis e travesseiros – e essa redução, tão confortável, é também o mais insidioso dos perigos.

        Esse perigo é menor para os velhos, pois o pior da velhice é ver minguar, não o desejo, mas a vontade de dormir. O jovem tem no sono, em que a identidade se dilui, a graça de suspender por algumas horas o peso da existência. Já o velho, condenado à vigília, percebe que a noite não é penumbra, mas uma claridade na qual cada lembrança se ilumina com uma nitidez tão irrefutável quanto dolorosa. Sem o sono a noite se transforma numa vigília ininterrupta, na qual a memória desfila seus fantasmas com uma nitidez punitiva.

O velho não sofre por falta de sonhos, mas pelo excesso de lembranças – todas nítidas, e algumas implacáveis. A cama, então, deixa de ser espaço de repouso para se transformar numa arena em que manter os olhos abertos sinaliza a derrota. Nessa espécie de naufrágio às avessas, não adianta se agarrar ao travesseiro. E a idade já não concede a paciência de contar carneirinhos.

           Agora me deem licença, pois tenho que me levantar.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Primeiro passeio

           

      A casa em discreto rebuliço. Os adultos mais se divertem com a expectativa, parecendo tomados por uma ansiedade de brinquedo. É que a menina vai dar o seu primeiro passeio. Empacotada em lençóis alvinitentes, ela é posta no carrinho e logo agita as mãos. Pode ser entusiasmo, pode ser um surdo apelo de socorro. Afinal, ninguém sabe o que se passa no íntimo da menina.

Evidências exteriores indicam que está tudo bem; ela não tem fome, não tem sede e trescala um perfume confuso, misto de alfazema e dos humores próprios do recesso onde esteve por nove meses. O pai guiando o carrinho, lá vai a menina explorar o mundo...

O primeiro com que se defronta é o sol, mar de luz despejado de uma vez nos seus olhos. Ao ver que ela aperta doloridamente as pálpebras, dá na telha do pai bancar o guia turístico e ir explicando. Que ela tenha calma, pois, se está sofrendo agora, um dia vai abençoar que exista algo como o sol. Graças a ele ocorre um paraíso chamado verão, onde tudo se injeta de saúde, beleza e vida. E quantas vezes no futuro você, encafuada em porões de inverno, vai ter saudades do sol e desejar que ele retome para revigorar tudo  ̶̶ com a transfiguração de sua luz e a energia de seu calor.

Agora vão pela calçada e passam diante de um jardim. Há plantas, flores e também um cachorro ciumento do espaço que lhe cabe guardar. Late furiosamente para eles. Ocorre ao pai que o quadro bem se presta à alegoria, e antes que a menina chore trata de a compor. As plantas, belas e frágeis, alegram e encantam a vida. Mas nada que seja belo e bom vem de graça; mesmo o que tão na aparência se oferece, como flores num jardim, tem junto ou por trás o seu vigia. Portanto jamais se iluda com o que lhe seja acenado sem preço. Haverá momentos extremos em que o preço vai ser você mesma, a sua alma.

Agora atravessam a rua. No caminho uma pedra, uma pedra no caminho. A alusão é óbvia demais, e o pai sorri, calado. Nada de símbolos ou metáforas. Nada quando a situação tão claramente os sugira. Eis uma lição que ele não pode dar à menina agora, talvez nem interesse a ela. Mas a partir desse passeio, dessa rua e talvez desta crônica, fica um encontro marcado.

        Antes que cheguem ao outro lado, passa um automóvel e quase os atropela. No susto o pai empurra o carrinho e bate de frente no meio-fio. A menina protesta chorando, se pudesse dizia um palavrão. O pai pede desculpas e de novo explica: foi mau jeito, e isto vai lhe acontecer muito na vida. Não por maldade nem por ódio, mas unicamente por afobação, você vai infligir sofrimento aos que ama. De nada vai adiantar que se explique; ninguém vai querer saber do carro lhe espremendo. Julgarão tão só a mão imprudente, o gesto inábil que você não soube deter. 

Aposentado