domingo, 11 de dezembro de 2011

Um amor

Luana postou uma mensagem no meu blog dizendo que “adorou” as “Considerações heterodoxas sobre a paixão”, mas discorda de que esse sentimento “dura no máximo três anos”. “Às vezes é necessário que ela dure bem menos...”, objetou com ar de experiência. E terminou com este apelo: “Quero encomendar um novo texto: como encontrar um amor? Topa o desafio? hehehe”.
Pensei em ignorar a proposta, mas fui picado por esse risinho final. “Hehehe”! Parecia uma antecipação de vitória, um prévio reconhecimento de que eu não seria capaz de dar conta da tarefa. Talvez tivesse razão. Quem sou eu para me aventurar em matéria tão grave? Sobretudo hoje, que já não me apetecem as delícias e agonias desse tipo de busca. Mas aquele risinho...
Achei curioso que a desafiante tivesse se referido a “um amor”, e não “ao amor”. Por uma dessas curiosidades em que é pródiga a língua, o artigo no primeiro caso mais define do que indefine. Falar de “um amor” é se referir a alguém específico, e com isso dar mais ênfase ao objeto do que ao sujeito. Se procuramos “o amor”, essa procura é uma empresa mais nossa do que do outro. Se buscamos alguém especial, o sucesso da escolha vai depender mais dele do que de nós. Aí começam os problemas.
É mais fácil encontrar “o amor”, porque nesse caso o sentimento tende a ser recíproco. Quem dá fatalmente recebe, e não se preocupa muito com a retribuição. Às vezes o próprio reconhecimento de que ama é suficiente para lhe trazer uma espécie de plenitude.
Já a procura de “um amor”, pondo o foco no outro, o reveste de idealizações. Isso quase sempre implica desconhecer sua humanidade, ou seja, justamente o que o torna amável (no outro sentido de que trato aqui). Ninguém perdoa as imperfeições de uma quimera. Como geralmente o movimento é recíproco, também para o outro devemos ser únicos, encarnar um ideal, saciar o desejo de um além que não tem nada de transcendente -- às vezes se esconde nas dobras do lençol.
Isso não quer dizer que não se deva buscar “um amor”, pois grande parte do encanto da vida advém vem do empenho de o perseguir e do sonho de o encontrar. Muitas vezes em função disso é que estudamos, trabalhamos, nos esforçamos para crescer e aparecer. As contrariedades que essa busca provoca (e que constituem tão interessante matéria para a arte) não justificam a renúncia a ela. Apenas manda a prudência que sejamos modestos em nossas fantasias e aceitemos as reais dimensões do outro.
Escrevi, escrevi, e desconfio de que disse muito pouco. Começo a entender o motivo do risinho de Luana e aceitar que perdi a batalha. Mas me sinto satisfeito por pelo menos haver tentado; não ficava bem a uma pessoa de idade fugir ao desafio de uma garota. O que me consola é saber que existe algo de estimável nessa derrota. Minha desafiante não deve dar importância ao que eu disse pela elementar razão de que ninguém deve antepor o saber à vida. Continue, Luana, procurando “um amor”. As cicatrizes dessa busca é que a deixarão em condições de um dia merecer “o amor”.

Um comentário:

  1. Li, reli, trili... Mas só hoje parei para refletir! Realmente, perco muito tempo procurando "um amor", ainda não tive coragem de mudar de tática e procurar "o amor", embora a primeira esteja dando bastante errado. rsrsrs
    Como disse o senhor, tem coisas que só a maturidade é capaz de nos ensinar.
    Mas por que será que umas coisas para umas pessoas são tão fáceis e outras tão difíceis? Não, não... Isso não é mais um desafio de postagem!! hehehe. É quase uma pergunta para mim mesmo.

    Preciso pensar um pouco mais sobre o assunto, mas assim que eu formar uma opinião, vou fazer uma postagem-resposta e aviso ao senhora para ler. Espero que essa postagem renda alguns frutos na minha vida. =)

    Abraços

    Luana

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