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terça-feira, 1 de maio de 2012

Traição

Eusébio tinha obsessão pela língua portuguesa. Desde moço lia Eça, Rui, Camilo, que para ele eram os expoentes do idioma. A leitura dos clássicos incutira-lhe a ideia de que o uso do vernáculo devia ser apurado e solene. Nada de plebeísmos, nada da vulgaridade com que os incultos o maltratam no dia a dia.
Para Eusébio uma silabada, uma concordância malfeita, um pronome mal colocado eram crimes de lesa-pátria. Certa vez recusou-se a assinar um documento porque o contínuo lhe pedira que colocasse ali a sua “rúbrica”. “Rúbrica?! É rubrica, seu parvo! Rubrica!” – esbravejou diante do rapaz atônito, jogando a caneta sobre o birô.
Eusébio era casado com Asclepíades. Ele a escolhera mais pelo nome do que por qualquer outro predicado. “Asclepíades” lhe parecia, ao mesmo tempo, tortuoso e sonoro. O hiato entre o “i” e o “a” soava-lhe delicado e tenso. Muitas vezes, sozinho à noite no escritório, recitava o nome para lhe sentir a timpânica sonoridade. Enquanto isso Asclepíades, a de carne e osso, perguntava-se na cama por que o marido não largava aqueles livros e vinha dormir. Sentia-se abandonada e carente.
De fato, em matéria de conjunção só interessavam mesmo a Eusébio as gramaticais. Para se distrair do abandono, Asclepíades começou a visitar uma tia e o filho desta, Leocádio. Logo a moça se entrosou com o rapaz, que era bonito e, como se não bastasse, um analfabeto em português. A paixão foi nascendo devagarinho. Num bilhete que lhe mandou, Leocádio escreveu “saudade” com cedilha. Asclepíades beijou o papel, deslumbrada. Estava farta de correções em nome da pureza do idioma. Queria um devasso na gramática e – por que não? – também em outros domínios.
Passaram a se encontrar ora na casa dele, quando a tia não estava; ora na casa dela, nas tardes em que Eusébio ia para a biblioteca. Asclepíades não tinha remorso de levar o primo para o leito conjugal. Usara-o muito pouco com o marido.
Numa tarde Eusébio voltou mais cedo para buscar um livro que se esquecera de devolver à biblioteca e surpreendeu os dois no quarto. A mulher não pareceu se abalar muito, mas Leocádio ficou em pânico. Desarvorado, implorou: “Me perdoe, mestre!”.
- Como?!
- Me perdoe!!
O mestre parecia não acreditar no que tinha ouvido. Explodiu:
- Jamais! Iniciar frase com pronome oblíquo é imperdoável. É uma traição ao idioma!
Em seguida pegou o livro, que estava em cima da mesa de cabeceira, e rubro de indignação deixou o quarto.

(Em "A idade do bobo", p. 19)
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