terça-feira, 25 de junho de 2019

Divagando se vai longe (18)

           A Justiça não tem religião, pois independe de crenças. Seu referencial deve ser a verdade, e não o dogma. A consciência de um juiz não pode estar comprometida pelos apelos subjetivos e emocionais implícitos na escolha desta ou daquela religião. Não pode ser toldada por uma visão de mundo particular, que vê com reservas e às vezes com hostilidade outras visões.
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Quando se quer criticar alguém de direita, diz-se que é de “extrema direita”. Quando se quer criticar alguém de esquerda, diz-se que é de “extrema esquerda”. Ser esquerda ou direita, tão-somente, parece que não é problema. O mal ocorre quando se agrega a um desses rótulos o adjetivo “extremo”. Daqui a pouco, para criticar um moderado, vão chamá-lo “extremista de centro”.
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Não acredito em Deus, mas sei que Ele me perdoa por isso. Minha descrença é um modo de afirmá-lo, pois ninguém se dá ao trabalho de negar o que não existe. O problema não é saber se Deus existe ou não, mas sim em que medida a crença ou descrença nele determina o nosso comportamento.
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           Viver é fazer. Não necessariamente para “ficar”, mas para justificar a existência e dar ao tempo um emprego — vale dizer: um sentido. A vida tem sentido para os que, fiéis a si mesmos, empregam seu tempo em realizar aquilo para o qual vieram ao mundo.
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          Sempre que me sento para escrever, me sinto desafiado. Escrever requer muita responsabilidade. Tem um dimensão ética, pois implica respeito pela língua. É preciso senti-la, sondar as suas possibilidades, conhecer e seguir determinadas regras — mas às vezes transgredi-las. A língua tem uma verdade que se expressa por meio de uma retórica. A retórica guia o pensamento (ou melhor, coreografa-o) e disso resultam não só efeitos estéticos, como também novas revelações sobre o homem e o mundo.         

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