Enquanto o amor
romântico busca a complementariedade, e a parceria visa ao que é útil, a
amizade eclode no terreno do desinteresse. Ela é não um meio para um fim, mas
(lembrando o que Kant diz sobre a arte), um fim em si mesma. Ao retirar o
componente da premência biológica, ou do ganho prático, o que sobra é a transparência
do encontro. Ter um amigo é contar com um espelho em que a nossa humanidade se
reflete sem julgamentos.
Para se manter, a
relação demanda uma boa dose de tolerância, pois não é totalmente imune às fraquezas
que todo ser humano tem. Vez por outra elas se evidenciam, ameaçando turvar o
clima e testando a intensidade da afeição. Nelson Rodrigues conta nas suas “Confissões”
que, sofrendo de “insônias crudelíssimas”, costumava ligar para Otto Lara Resende
nas madrugadas. Imagine o que é ser tirado da cama nessa hora para aliviar o
tédio de um amigo que não conseguia dormir. Otto se levantava (certamente com
cuidado para não acordar a mulher) e conversava por longos minutos com o autor
de “Vestido de noiva”. Essas vigílias forçadas nunca comprometeram a amizade
dos dois.
Dizer que o amigo nos compenetra da ideia do
Semelhante é reconhecer que ele é uma espécie de guardião da nossa identidade. É
o porto seguro no qual o “eu” se reconhece no “outro” de forma plena. Nesse
tipo de relação, deixamos de lado a “persona” social para partilhar o que temos
de mais real e cru. Isso envolve não apenas afinidade, mas também a certeza de
que, ao lado daquela pessoa, nossa humanidade não precisa ser retocada, escolhida,
performada – precisa apenas ser vivida.
No ensaio “Dos
amigos”, Montaigne tenta explicar o “inexplicável” que o uniu a Étienne de La
Boétie. Chega à conclusão de que, em sua forma mais elevada, a amizade transcende
as categorias comuns dos relacionamentos humanos. Quando questionado sobre o motivo
de tamanha afeição pelo amigo, Montaigne o resume na célebre frase: “Porque era
ele; porque era eu”.
Há na amizade,
segundo o autor dos “Essais”, uma comunhão de essências. Queremos um amigo pelo
que se irradia da sua presença – uma presença que nos acompanha tanto no
diálogo exasperado, tortuoso, quanto no silêncio confortador. Ele e Étienne não
eram apenas aliados intelectuais; eram os Semelhantes um do outro. Essa relação
permitia que suas humanidades fossem partilhadas sem reservas, pois na
verdadeira amizade as almas se misturam e se confundem.
Vinicius de Moraes
confirma esse modo de ver quando diz que “amigo não se faz; amigo se
reconhece”. Tal percepção parece transportar a amizade do campo da construção
social para o do destino ou da metafísica. Quando o Poetinha diz que amigo “se
reconhece”, sugere que o encontro não é o ponto de partida mas o reencontro de
algo que já existia em estado latente.
A ideia de que a
amizade é um “reconhecimento” evoca uma sensação de familiaridade ancestral. Nesse
processo, o outro personifica uma parte nossa que sempre esteve “lá”, esperando
para ser espelhada. Lembra um pouco a paixão, em que os amantes parecem sentir
que conhecem um ao outro há muito tempo. Freudianamente, esse tempo pretérito é
o da infância, quando se opera a identificação com a figura paterna, ou
materna, que vai modelar a futura escolha do objeto amoroso.
Contudo, no que
diz respeito à amizade é mais pertinente citar Jung do que Freud (por sinal, os
dois foram durante muito tempo amigos, mas terminaram se afastando por motivos
que aqui não vêm ao caso). Carl Jung fala em “sincronicidade” para descrever
coincidências significativas que não têm uma causa lógica, mas têm um sentido
profundo. Um amigo não aparece na nossa vida por acaso, mas por uma necessidade
da alma. O encontro ocorre no momento em que ambos precisam partilhar aquela
“humanidade sem reservas”. É como se o universo conspirasse para que dois
Semelhantes se cruzassem a fim de promover o recíproco crescimento.