domingo, 16 de junho de 2013

Sobre a retórica do humor

          O humor se distingue da comicidade por estar na linguagem. Como tal, possui uma retórica, que orienta sobre alguns dos procedimentos capazes de levar ao riso. Entre eles se destacam a paródia (“Os opostos se atracam”) e a enumeração caótica (“Fiz duas operações: uma no fígado, outra no Banco do Brasil”).
          Na comicidade, rimos da situação ou da figura física; um palhaço, com seu narigão e suas calças largas, é basicamente um cômico. No humor, rimos do efeito surpreendente produzido pelas palavras. O inesperado, que pode ou não tender ao absurdo, faz rir.
         Uma das mais refinadas formas de humor é a ironia. Por meio dela, afirma-se uma coisa dizendo o oposto. É talvez a única figura que depende de um confronto com a realidade para produzir efeito. Se digo de um homem que ele é “um Brad Pitt”, isto por si não tem graça. Pode até ser um elogio, se o sujeito for de fato bonito (nesse caso, terei usado uma imagem metafórica).
         A ironia está em a designação se aplicar a alguém baixinho e feioso. É a distância entre o comparado e o comparante (Brad Pitt) que faz ir. A ironia é uma metáfora sem nexo, ou melhor, uma metáfora em que o chamado “nexo dos atributos” é na verdade uma antítese. Ou um paradoxo.
        Trata-se de um recurso muito temido pelo seu poder de depreciação. Sua força vem de nunca verdadeiramente a gente saber se o autor está dizendo a verdade. Tem gente que é objeto de uma ironia e passa horas em casa ruminando, buscando entender se o que ouviu era sincero ou não. Esse é o gozo do ironista, que no fundo se delicia com as dúvidas do ironizado.
         Outro curioso recurso de humor é o que se pode chamar de “reconversão ao literal”.  Esse processo parece ir de encontro ao princípio que norteia os desvios estilísticos, qual seja, o de que o efeito expressivo resulta de uma ruptura com os sentidos cristalizados, convencionais. Na regressão ao literal, o efeito vem justamente do percurso oposto.
        Pare entendê-la, consideremos que há dois momentos: o primeiro, em que se constrói a imagem. O segundo, em que ela perde o valor de imagem (já transformada em clichê) e volta a significar “de acordo com a letra”.  A surpresa que isso provoca faz rir.
         Os exemplos são muitos. Um dos mais conhecidos é o da velha piada: “Pedro caiu na fossa”. “Morreu?” “Não. Escapou fedendo”. Nessa passagem, “escapar fedendo”, que virou lugar-comum, sofre uma súbita atualização. O fato de haver mesmo o mau cheiro desautomatiza a percepção linguística de maneira análoga à que ocorreu no primeiro momento, quando se construiu a imagem.
        Efeito semelhante ocorre em “ficar de nariz empinado” ou “empurrar com a barriga”, expressões cujo significado automatizamos. É possível chamar a atenção para elas dizendo frases do tipo: “Depois que fez plástica, vive de nariz empinado” ou “Arranjou uma gravidez indesejada. Agora vai ter que empurrar com a barriga”. A ambiguidade faz com que o clichê deixe de ser apenas “força de expressão”.

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