domingo, 2 de outubro de 2016

Desistência

Ele chegou para a mulher e disse:
-- Luísa, não dá mais. 
-- O quê!? Como assim?
-- Desculpe... Eu me esforcei, mas sinto que cheguei ao limite da minha resistência.  
-- Tem certeza? Na nossa última conversa você disse que ia continuar insistindo... por nós dois.
-- Eu falei isso mais pra te consolar. Não queria que você se decepcionasse nem perdesse a esperança. Muito menos lhe causar constrangimento.
-- Constrangimento?! É muito mais, é decepção. Você sabe qual foi meu grau de investimento nisso tudo -- investimento emocional e financeiro. 
-- Entendo, entendo... Mas seja razoável. Eu não estou me sentindo bem. Tem dias em que não consigo suportar o peso. Compreenda as minhas razões, por favor.
-- Eu compreendo, sim. Qual o remédio?
-- O remédio é desistir. Pelo bem da minha saúde.
-- Não imaginei que você estivesse assim. Parecia tão envolvido... O problema é de afinação?
-- Não. Até que somos afinados. É mesmo peso, cansaço... Você pensa que eu não lamento?  Imaginei o sucesso que ainda podíamos fazer diante dos amigos, as festas a que nos convidariam.
-- Festas?! Podíamos curtir mesmo aqui sozinhos. Para mim era o bastante. Eu te ouviria por horas... Sonhei com isso anos e anos.
-- Eu sei... Mas está ficando pesado demais.
-- Eu deveria ter escolhido outro...  
-- É verdade. Talvez com outro desse certo. Outro menos complicado e mais leve.
-- Mas não se torture; tive minha parte de culpa nisso. Quando escolhi, fui influenciada pela imagem do meu pai. Ele era o modelo que eu pensei que você poderia seguir. Só que você é outro. Cada qual é o que é.
-- E então? Sem mágoas?
-- Sem mágoas. E já que você está mesmo decidido, vou daqui a pouco à loja devolver o acordeom. Posso ao menos trazer um violão? Não era o instrumento que meu pai tocava, mas talvez você se adapte melhor a ele.
-- Traga. E como violão deve ser mais barato, não se esqueça de pedir a diferença.

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