Fiz análise durante um
tempo para me libertar da dependência do Rivotril. Eu tinha na época cerca de 26
anos e desenvolvi um brutal processo de ansiedade devido ao conflito que
vivenciava no curso de Medicina. Não nascera para ser médico, e me via obrigado
a lidar com pacientes em aulas de disciplinas como Semiologia e Técnica
Cirúrgica. Segurei o quanto pude, até que veio a reação: síndrome do pânico,
taquicardia, sensação de morte e um quadro depressivo-ansioso que durou cerca
de dois anos.
A terapia ajudou a me
libertar do Rivotril, um dos medicamentos prescritos na época. A dependência
que ele causa, como se sabe, é química e também psicológica. Foi preciso muita
conversa com Luiz Maia para, aos poucos, eu me convencer de que a dose mínima à
qual chegara, por esforço próprio, não passava de um placebo. Ingeri-la era uma
espécie de ritual que aliviava a tensão e me permitia dormir.
A psicoterapia também
serviu para que eu lidasse melhor com velhas culpas familiares. Delas não me
libertei totalmente, mas a reflexão sobre o papel de certos entes da família me
levou a compreendê-los e aceitá-los. O processo se completava com a literatura,
que por sinal serviu de base ao mestre vienense para criar o seu método.
“Filho, desiste de lutar contra mim. Há mais de mim em você do que de você
mesmo.” Como não vislumbrar o conflito edipiano numa indagação como essa, que
aparece num conto de Dalton Trevisan?
Escrevo estas linhas
porque é frequente hoje o debate sobre a eficiência
da psicanálise. Segundo
alguns, como
método terapêutico
ela tem perdido terreno
para procedimentos mais
práticos e objetivos,
como os que prescreve a psicologia cognitivo-comportamental. Para
outros, entre
os quais me
incluo, o valor da psicanálise
situa-se além do divã;
está em seus
reflexos na cultura.
A psicanálise
não é apenas
um método
clínico. É uma forma
original de ver o ser humano. Antes
de Freud “descobrir” o inconsciente, o homem se contentava com a soberania
da razão. Achava, com
Descartes, que
só existia porque pensava. O mestre
vienense alargou a dimensão do eu; mostrou que
há domínios obscuros,
irracionais, que
determinam o que somos – ou o que
desejamos ser.
O contato com a obra de
Freud se intensificou com a elaboração
da minha tese
de Doutorado. Desde
as primeiras leituras dos poemas de Augusto
dos Anjos, impressionaram-me as imagens de culpa
e melancolia de que
eles estão recheados. Por que tanto remorso?
– eu me
perguntava. Que instrumento
teórico seria mais
adequado para interpretar
aquelas imagens de peso,
carga, doença,
deterioração da matéria,
rejeição da sexualidade?
A psicanálise
me permitiu interligar
os vários signos
que remetem a problemática
do “eu” a uma culpa atávica. Alguma coisa como o “pecado original”.
Quem lê
Augusto não
se depara apenas com
o drama do indivíduo;
ele não
fala apenas
de si. Não
é um lírico,
pois refere uma Dor
que é de toda
a humanidade.
A leitura
da obra de Freud não
somente me serviu de orientação para a tese. Também me fez compreender melhor o homem em seu conflito consigo e com a
civilização. Li-a (não
toda, ainda)
como quem
lê um
romance com
cujo personagem
principal é impossível
não se identificar:
o ego.
Todos somos egos
e estamos no centro de uma luta penosa entre uma porção
instintiva, que
procura realizar
seus desejos,
e um supervisor
às vezes tirânico
chamado superego. Nesse drama está, por
assim dizer,
a nossa essência.
Temos que servir a dois senhores, como diz o criador
da psicanálise. E o mais
das vezes rejeitar
os prazeres em
prol dos interesses
da civilização. A vida
é renúncia – e vejam como nisso o ateu
Freud se aproxima da mensagem cristã.