sábado, 19 de janeiro de 2008

Entre o jogo e a verdade

O que chama a atenção nas entrevistas dos candidatos ao Big Brother é a falta de humildade. O discurso deles segue o mesmo diapasão:
- Estou aqui para fazer a diferença. Não vou deixar pra ninguém.
- Sabe aquela pessoa que, quando chega, decide? Sou eu.
- Olha, cara, o Brasil vai me amar, me adorar. Pode ficar certo disso.
- Sou não menos que demais.
Parece até letra de Caetano. Qualquer um dos concorrentes deixa Narciso com complexo de inferioridade. E nós, seres comuns, feitos de carne, osso, medo e insegurança, ficamos nos perguntando qual a fonte de tanto egocentrismo. O normal seria proclamar a vitória no fim, mas eles já começam se dizendo campeões.
É claro que ser selecionado constitui uma vitória. Para estar entre os 14 eles tiveram que vencer milhares de candidatos e se destacar por virtudes como beleza, desembaraço, personalidade, carisma. Mas isso não basta para justificar o delírio de grandeza.
O que os leva, então, a se dizerem os maiores? Uso o verbo “dizer” não por acaso. Dizer é diferente de sentir. Muitos dos que se dizem “os tais” sabem que são menos do que isso. Mas não podem fugir ao blefe, que faz parte do jogo.
Em situação normal, quem se diz extraordinário deve ser olhado com desconfiança. No tipo de competição em que eles se encontram, exaltar as próprias qualidades é o primeiro passo para criar uma imagem. Essa imagem será decisiva para impressionar o público, que não gosta de perdedores.
Mas o público também não gosta de mentirosos. Quem diz que é sem ser, ou sem pelo menos se aproximar da excelência que apregoa, terá a punição devida. Não sou de ficar vendo o Big Brother, mas se há um aspecto que me interessa no programa é o desmonte gradativo dessas qualidades forjadas.
Nesse tipo de jogo é fundamental a simulação, e ninguém pode simular o tempo todo. Em um ou outro momento de descuido, transparece como num negativo radiográfico a dimensão obscura e real de cada um. O público gosta de cultivar ídolos, mas também se delicia com a revelação desse lado fraco e por vezes mesquinho. Ela, e não o trombetear de virtudes ilusórias, é que vai decidir quem sai e quem fica.

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