Cresci ouvindo dizer queBrigitte Bardot era a uma figura pecaminosa, imagem da luxúria e da devassidão. Isso faz muito tempo, claro, e tinha a ver com o propósito de incutir na criança o temor ou mesmo a abominação do sexo.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
O mito Bardot
Cresci ouvindo dizer queBrigitte Bardot era a uma figura pecaminosa, imagem da luxúria e da devassidão. Isso faz muito tempo, claro, e tinha a ver com o propósito de incutir na criança o temor ou mesmo a abominação do sexo.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
O galo e o peru ( uma antifábula natalina)
Véspera de Natal. No quintal de uma família de classe média, estão um galo e um peru. O galo caminha alegre, balançando a crista. Já o peru não sai do canto e mal disfarça a tristeza. Sabe o que o aguarda.
De repente o galo canta. O peru então o interroga com um misto de
surpresa e ressentimento:
-- Por que essa alegria?
-- Porque tenho alguma coisa a ver com o que acontece hoje. Um de meus
ascendentes saudou o nascimento do Menino. Foi a trombeta auroreal de um novo
mundo. Como eu não iria me alegrar?... E você? Qual a razão dessa cara?
-- Ora... Daqui a pouco vou virar comida para os que vêm festejar o
nascimento a que você se refere. Queria que eu estivesse contente?
-- Procure aceitar. Trata-se de uma grande causa. Além do mais, você
terá tudo para ser o rei da festa. Muitos o acharão macio, crocante, bem
temperado.
-- Isso não vai depender de mim, mas da cozinheira. Esqueceu que estarei
morto?
-- Estará sem vida, mas será o centro das atenções. E o mais importante:
representará ali a grande nota de realidade. Mais do que a árvore, as músicas,
os cumprimentos formais, dará testemunho da natureza do homem. O sucesso
dessa noite vai se medir pelo prazer que der aos
convivas.
-- Tem certeza?
-- Claro! Você vai saciar-lhes o apetite do corpo, que é mais
profundo do que o da alma. Se vir as coisas por esse lado, se convencerá da sua
importância.
O Peru parece impressionado com essas palavras. O galo volta a se
distanciar, balançando a crista, e canta de novo sem motivo. Ou, quem sabe,
devido à alegria de não ser peru. Quando volta de mais um passeio, ouve novo
desabafo:
-- Sua retórica não me convence. É fácil elogiar um condenado à morte
quando se vai permanecer vivo. Aposto que está contente por não ocupar o
meu lugar.
-- Não nego... Mas você sabe que meu dia vai chegar. E não terá o mesmo
brilho do seu. Vou “reinar” num desses banais almoços de domingo, com música
estridente ao fundo e cerveja em vez de champanhe.
Nesse momento a cozinheira vem interromper a conversa dos dois. Tem na
mão uma peixeira brilhante. Com o ar decidido, dirige-se ao peru.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2025
Para além do clichê
Muito já foi dito sobre a atitude de Gerson de Melo Machado, morto recentemente por uma leoa na capital paraibana. O inusitado do seu gesto, no entanto, faz com que sempre haja algo mais a dizer. Gerson comentava com uma conselheira tutelar que queria ser um domador de feras. Disse-lhe que “ia pegar um avião pra ir pra um safári na África para cuidar dos leões...”. No afã de realizar esse intento, chegou a cortar uma cerca e entrar no trem de pouso de um avião da Gol; as câmeras do aeroporto impediram que o pior acontecesse.
Filho
de mãe esquizofrênica e neto de uma avó com problemas mentais, ele tinha na
genética um inimigo. Presa de mais um delírio, encenou o último ato do seu
drama (ou tragédia) aqui em João Pessoa. Imaginou que a Bica fosse um circo e
se propôs a domar um dos felinos lá existentes. Queria pôr em prática o que
durante anos acalentou como um desejo infantil. Numa espécie de transposição
entre fantasia e realidade, o domínio sobre os animais seria uma metáfora para
a vitória sobre as “feras” que interiormente o consumiam.
Acabou,
sem querer, transformando o Parque Arruda Câmara em local de um espetáculo
tenebroso. Os turistas e demais visitantes depararam-se com o que não imaginavam
encontrar num lugar dedicado à recreação e à momentânea fuga ao estresse da
cidade (mais de uma vez levei lá meus netos, que se encantavam com a fauna e a
flora diversificadas).
Há
algum tempo um leão circense arrastou uma criança que se aproximara da jaula e
a matou. Falou-se então em negligência dos responsáveis pelo circo,
também dos pais, e houve até processo. O dono do empreendimento chegou a sofrer
um ataque cardíaco. Agora a situação é outra, pois a vítima se ofereceu à sanha
do felino. Leona, como toda fêmea, era ciosa do espaço que lhe cabia guardar – e
mal esperou que o invasor tocasse o solo.
Sabe-se que Gerson adoeceu devido a genética e desamparo. Destituído do poder familiar da mãe, fora impedido de ser adotado – diferentemente do que ocorreu com os quatro irmãos. Passou diante disso a ter um comportamento erradio e marginal, o que mais ainda dificultava a sua adoção; família alguma queria receber alguém como ele. A sociedade não lhe deixou então saída. Seu gesto foi produto de negligência, não da administração da Bica, mas de todo um aparato social que o condenou ao abandono.
“Atirar-se
na boca do leão” é uma expressão figurada com que se designa a atitude suicida
de alguém. Ninguém espera que esse clichê tenha um sentido literal, mas por
vezes a sociedade se encarrega de tornar realidade o que, por absurdo ou
inverossimilhante, a linguagem reserva ao domínio das figuras. Isso pode
ocorrer no plano do horrendo e também do sublime. Pode nos conceder enlevo ou
estupor. Num e noutro caso, encoraja-nos a repensar sentimentos e valores, e
nos conduz a uma mais ampla percepção de nós mesmos.
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