segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O mito Bardot


Cresci ouvindo dizer queBrigitte Bardot era a uma figura pecaminosa, imagem da luxúria e da devassidão. Isso faz muito tempo, claro, e tinha a ver com o propósito de incutir na criança o temor ou mesmo a abominação do sexo.

Cresci mais e, em filmes como “E Deus criou a mulher” (título provocativo por sugerir para a mulher uma matriz divina, e não demoníaca), tive uma mais adequada percepção da figura da atriz.
Bardot inaugura uma nova versão da Femme Fatale. Ela não maltrata nem humilha Michel (personagem de Jean- Louis Trintignant) por querer destruí-lo, como ocorre com as versões tradicionais desse mito, mas por ser extremamente livre para os padrões sociais do lugar onde moram.
É malvada não por cálculo ou estratégia, mas por natureza. Seu comportamento aparece como uma resposta a quem aparentemente tenta domesticá-la por meio do casamento e da submissão às normas sociais.
Daí se dizer que o filme de Roger Vadim (marido da atriz à época) “inventou” o mito Bardot — uma espécie de símbolo da quebra dos valores tradicionais e da liberação sexual dos anos 1950.
Na visão do diretor, que chocou os redutos conservadores, a liberdade física de Bardot aparece como um desafio à moralidade burguesa.
Por extensão, o filme usa a liberdade feminina como uma força que busca desestabilizar a autoridade masculina tradicional
A Igreja Católica e grupos conservadores condenaram o filme, o que concorreu para fixar a imagem da estrela como uma mulher perigosa, mesmo demoníaca — tal como me pintavam quando eu era menino.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O galo e o peru ( uma antifábula natalina)

    


            Véspera de Natal. No quintal de uma família de classe média, estão um galo e um peru. O galo caminha alegre, balançando a crista. Já o peru não sai do canto e mal disfarça a tristeza. Sabe o que o aguarda.

De repente o galo canta. O peru então o interroga com um misto de surpresa e ressentimento:

-- Por que essa alegria?

-- Porque tenho alguma coisa a ver com o que acontece hoje. Um de meus ascendentes saudou o nascimento do Menino. Foi a trombeta auroreal de um novo mundo. Como eu não iria me alegrar?...   E você? Qual a razão dessa cara?

-- Ora... Daqui a pouco vou virar comida para os que vêm festejar o nascimento a que você se refere. Queria que eu estivesse contente?

-- Procure aceitar. Trata-se de uma grande causa. Além do mais, você terá tudo para ser o rei da festa. Muitos o acharão macio, crocante, bem temperado.

-- Isso não vai depender de mim, mas da cozinheira. Esqueceu que estarei morto?

-- Estará sem vida, mas será o centro das atenções. E o mais importante: representará ali a grande nota de realidade. Mais do que a árvore, as músicas, os cumprimentos formais, dará testemunho da natureza do homem.  O sucesso dessa noite vai se medir pelo prazer que der aos convivas.     

-- Tem certeza?

 -- Claro! Você vai saciar-lhes o apetite do corpo, que é mais profundo do que o da alma. Se vir as coisas por esse lado, se convencerá da sua importância.

O Peru parece impressionado com essas palavras. O galo volta a se distanciar, balançando a crista, e canta de novo sem motivo. Ou, quem sabe, devido à alegria de não ser peru. Quando volta de mais um passeio, ouve novo desabafo:

-- Sua retórica não me convence. É fácil elogiar um condenado à morte quando se vai permanecer vivo.  Aposto que está contente por não ocupar o meu lugar.       

-- Não nego... Mas você sabe que meu dia vai chegar. E não terá o mesmo brilho do seu. Vou “reinar” num desses banais almoços de domingo, com música estridente ao fundo e cerveja em vez de champanhe.

Nesse momento a cozinheira vem interromper a conversa dos dois. Tem na mão uma peixeira brilhante. Com o ar decidido, dirige-se ao peru.

A ave não esboça nenhuma reação. Quando é alçada e apertada de encontro à barriga da mulher, ouve ainda o galo cantar. Pela terceira vez.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Para além do clichê



             Muito já foi dito sobre a atitude de Gerson de Melo Machado, morto recentemente por uma leoa na capital paraibana. O inusitado do seu gesto, no entanto, faz com que sempre haja algo mais a dizer. Gerson comentava com uma conselheira tutelar que queria ser um domador de feras. Disse-lhe que “ia pegar um avião pra ir pra um safári na África para cuidar dos leões...”. No afã de realizar esse intento, chegou a cortar uma cerca e entrar no trem de pouso de um avião da Gol; as câmeras do aeroporto impediram que o pior acontecesse.  

Filho de mãe esquizofrênica e neto de uma avó com problemas mentais, ele tinha na genética um inimigo. Presa de mais um delírio, encenou o último ato do seu drama (ou tragédia) aqui em João Pessoa. Imaginou que a Bica fosse um circo e se propôs a domar um dos felinos lá existentes. Queria pôr em prática o que durante anos acalentou como um desejo infantil. Numa espécie de transposição entre fantasia e realidade, o domínio sobre os animais seria uma metáfora para a vitória sobre as “feras” que interiormente o consumiam. 

Acabou, sem querer, transformando o Parque Arruda Câmara em local de um espetáculo tenebroso. Os turistas e demais visitantes depararam-se com o que não imaginavam encontrar num lugar dedicado à recreação e à momentânea fuga ao estresse da cidade (mais de uma vez levei lá meus netos, que se encantavam com a fauna e a flora diversificadas). 

Há algum tempo um leão circense arrastou uma criança que se aproximara da jaula e a matou.  Falou-se então em negligência dos responsáveis pelo circo, também dos pais, e houve até processo. O dono do empreendimento chegou a sofrer um ataque cardíaco. Agora a situação é outra, pois a vítima se ofereceu à sanha do felino. Leona, como toda fêmea, era ciosa do espaço que lhe cabia guardar – e mal esperou que o invasor tocasse o solo. 

Sabe-se que Gerson adoeceu devido a genética e desamparo. Destituído do poder familiar da mãe, fora impedido de ser adotado – diferentemente do que ocorreu com os quatro irmãos. Passou diante disso a ter um comportamento erradio e marginal, o que mais ainda dificultava a sua adoção; família alguma queria receber alguém como ele. A sociedade não lhe deixou então saída. Seu gesto foi produto de negligência, não da administração da Bica, mas de todo um aparato social que o condenou ao abandono.

“Atirar-se na boca do leão” é uma expressão figurada com que se designa a atitude suicida de alguém. Ninguém espera que esse clichê tenha um sentido literal, mas por vezes a sociedade se encarrega de tornar realidade o que, por absurdo ou inverossimilhante, a linguagem reserva ao domínio das figuras. Isso pode ocorrer no plano do horrendo e também do sublime. Pode nos conceder enlevo ou estupor. Num e noutro caso, encoraja-nos a repensar sentimentos e valores, e nos conduz a uma mais ampla percepção de nós mesmos.

            Gerson deu consistência real a uma imagem horripilante, que nos remete à selva de onde presumivelmente evoluímos. Com essa atitude, fruto de insensibilidade e rejeição social, ele mostrou o quanto ainda há de primitivo em nós. Depois do que fez, é impossível mencionar aquele clichê linguístico sem evocar o seu tresloucado gesto.

Sobre a amizade