Era o dia do seu aniversário. Ele acordou cedo e foi logo fazer o café da manhã. Não tinha expectativa de comemorar, mas certamente parentes ou amigos ligariam para felicitá-lo. Antes de terminar a refeição, ouviu que batiam na porta. Não podia imaginar quem seria àquela hora. Olhando pelo olho mágico, viu que era um velho de barbas, aparentemente inofensivo, e tratou de abrir.
– Quem é o senhor?
– Sou o Tempo.
– O Tempo?!
– Sim, meu filho. Sabendo
que hoje você completa anos, vim lhe fazer uma visita.
Um tanto
desconcertado, perguntou se o desconhecido queria entrar.
– Não. Estou de
passagem. Aliás – ponderou filosoficamente –, estou sempre de passagem. Nunca
paro em lugar nenhum. Só findarei na Eternidade, que por sinal desconfio de que
não há.
– Por que veio?
Quer me dizer alguma coisa?
– Vim para lhe
lembrar que existo. Geralmente as pessoas esquecem essa verdade tão óbvia. Você,
por exemplo, não tem dado muita importância à minha existência.
– Como o senhor
sabe disso?
– Não posso dizer.
Minha sabedoria é um mistério
– Mas por que diz
que eu ajo como se o senhor não existisse?
– Porque tem deixado
de lado certas obrigações, convivido mal com as pessoas, se omitido em fazer o que
deve para um dia encarar bem minha irmã... Somos inseparáveis um do outro. Ela é
inflexível e não perdoa quem se esquece de mim.
– E quem é sua irmã?
– A Morte.
Ouvindo isso, ele
sentiu um arrepio. Nunca tinha lhe ocorrido seriamente que o Tempo e a Morte
eram irmãos.
– Por que o senhor
diz que eu não posso encarar sua irmã?
– Porque não fez nem faz o que devia. Veja
quantos projetos abandonou, a quantos compromissos faltou, quantas palavras se
omitiu de dizer (sobretudo aos que ama!) por indiferença ou letargia. E assim foi
deixando de ser você.
Ele se sentiu
desconfortável com a repreensão e tentou argumentar:
– Não vejo como
esse comportamento pode interferir na chegada da sua... irmã. Depois que ela
vem, nada mais tem importância. O que fiz
ou deixei de fazer se apagará quando eu não mais estiver aqui.
O Tempo o olhou
com ar sardônico e esboçou um sorriso:
– Você está enganado.
Se acontecesse como diz, seria indiferente fazer ou não fazer; sentir ou não
sentir; conhecer ou não conhecer. E todos teriam ante a minha irmã a mesma
expressão neutra de quem não viveu. Isso tornaria inútil o trabalho dela.
– Inútil por quê?
– Porque não há sentido
em tirar a vida de quem já está morto.
Ouvindo isso, ele
se calou. Sentiu-se irritado com aquele intruso, que vinha incomodá-lo no dia
do aniversário. Merecia visita melhor em
data tão especial.
– Já que disse o
que tinha de dizer, Senhor Tempo, pode se retirar. Eu esperava que num dia como
hoje me trouxesse um presente...
– Dou-lhe não só
presente, como passado e futuro. Você não tem de que reclamar. Ou melhor: se
reclamar, não será de mim, mas de você próprio por me aproveitar mal.
Falou tais
palavras pregando os olhos nele, como para ressaltar a advertência. Depois
completou:
– Vou indo. Tenho muitas
visitas a fazer.
Ele passou o dia
meditando nas palavras do visitante, que tinham muito de verdade. Perdera momentos
preciosos na vida e muitas vezes deixara de fazer o essencial.
Ao longo do dia recebeu muito menos ligações do que esperava, mas evitou a decepção ou o ressentimento. Certamente a escassez tinha a ver com o que o Tempo lhe havia dito.
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