terça-feira, 31 de março de 2026

Entorno da solitude


              Solidão que não se escolhe é abandono – tenho essa verdade como indiscutível há muito tempo.  E a solidão que se escolhe? O melhor nome para ela encontro nos acréscimos que Paul Tillich faz a filósofos como Sêneca, Montaigne e Thoreau: é a solitude. O teólogo e filósofo teuto-americano estabeleceu a diferença de forma sintética e precisa: “A linguagem criou a palavra ‘solidão’ para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra ‘solitude’ para expressar a glória de estar sozinho.”

  Tais vocábulos designam estados opostos, e a distinção entre eles é fundamental para a psicologia e a filosofia modernas. Costuma-se marcar a diferença caracterizando a solidão como um vazio, enquanto que a solitude é plena. Se a primeira sugere isolamento, carência, a segunda remete a paz e autorreflexão.

          Na solidão há desconforto ou medo de ficar só com os próprios pensamentos. Para fugir a isso, tende-se a buscar distrações no mundo exterior (celular, TV, multidões). Na solitude, pelo contrário, o silêncio é bem-vindo pois nele há um propósito; pode ser a leitura, a meditação, a criação de algo, ou simplesmente o descanso mental.

         Para filósofos como Schopenhauer e Nietzsche, a solitude é o selo de um espírito elevado. O primeiro considera que o valor de um homem é medido pelo que ele contém em si mesmo. Quem tem muito por dentro, precisa de pouco fora. Entenda-se esse “fora” como o burburinho da vida social, que exige sacrifício da nossa individualidade para nos nivelarmos aos outros.

         Schopenhauer chega a formular uma parábola sobre o tema, expressa no Dilema dos Porcos-Espinhos. Quando tentam se esquecer no inverno, esses animais se defrontam com um impasse. Se ficam muito longe, sentem frio (solidão); se ficam muito perto, se espetam (conflitos sociais). A solitude é a distância perfeita, pois nela o indivíduo se aquece com o próprio calor e não corre o risco de ser ferido pelos outros. No limite, essa ferida constitui o que hoje se chama de “relacionamento tóxico”. É preciso, como dizem psicólogos, padres e demais terapeutas da alma, fugir dos porcos-espinhos que tentam envenená-la. 

  Nietzsche leva a solitude a um nível mais radical. Segundo ele, para o indivíduo se tonar quem é precisa se afastar do “rebanho”. O autor de “Ecce Homo” acreditava que a opinião pública e a moral rasa eram como poeira que cega; para dela se livrar, o indivíduo precisava ir para as montanhas (uma metáfora a que se associam as noções de distanciamento e altura).

Nietzsche distinguia os que fogem das pessoas por medo (o excesso desse temor podendo chegar ao que hoje se designa como “fobia social”) dos que fazem isso para crescer e, a partir de uma solitude plena, promover o encontro consigo mesmo. Afinal de contas, o indivíduo só pode ser “para o outro” de forma autêntica se primeiro existir para si mesmo.

           A solitude contraria a máxima da canção popular segundo a qual “é impossível ser feliz sozinho”. O verso é de Vinicius de Moraes, que entre paixões e sucessivos casamentos não deixava de se sentir só. Ele tentava compensar com os novos enlaces (e algumas doses de uísque, claro) um vazio que só a poesia era capaz de preencher. As paixões o faziam se sentir motivado a criar; como tinham um exíguo prazo de validade, logo eram substituídas por outras.

        Isso não ocorre na solitude, ou sozinhez, pois nela é possível obter uma satisfação próxima da felicidade. Veja o leitor que acabo de introduzir um novo termo como sinônimo de solitude: sozinhez. O neologismo não é meu, mas do grande Paulo Mendes Campos, e aparece em antológica crônica na qual ele explica a uma garota que acabara de fazer 15 anos a filosofia contida em “Alice no País das Maravilhas”. Escreve o mineiro: “A sozinhez (esquece essa palavra feia que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: ‘Estou tão cansada de estar aqui sozinha!’ O importante é que conseguiu sair de lá, abrindo a porta.”

           Na sozinhez é possível abrir a porta e sair fortificado. Na solidão tende-se a permanecer prisioneiro por inadvertidamente jogar a chave fora ou haver drenado, com a depressão, toda a energia da alma.

           Alice consegue sair “do fundo do poço” porque a sozinhez favorece a introspecção e não raro se constitui num momento de descoberta e autoconhecimento. Torna-nos mais sensíveis à beleza e à poesia. Sobretudo, pode coexistir com a busca de conexão com os outros. Quem a vivencia não usa as outras pessoas como uma tentativa de camuflar seu vazio interior.

           Conciliar a solitude com a alteridade (o ser para o outro) significa entender que esses dois estados não são excludentes, mas complementares. Sem a solitude, a relação com o outro torna-se superficial; sem o outro, a solitude corre o risco de se transformar num solipsismo que não leva a nada. 

segunda-feira, 9 de março de 2026

A bateria


             Semana passada a bateria do meu carro pifou. Como eu estava no subsolo de uma agência bancária, tive que ligar para o seguro a fim de solicitar um mecânico. Uns 30 minutos depois o rapaz veio, examinou o artefato avariado e o condenou.

– Aqui só outra.

         – E agora? Onde posso mandar buscar uma?

– O senhor liga para a loja Tal – e me passou o telefone. Quando eu lhe pedi uma sugestão de marca, ele me perguntou se eu pretendia vender o carro.

– Não. Por quê?

         – Se for vender compre esta, que é mais barata (e me indicou o nome). Agora, se for ficar com o carro por mais um tempo, leve esta (citou outro nome). É um pouco cara, porém bem mais econômica e difícil de quebrar. Duvido que deixe o senhor no prego.

Escolhi a segunda, pois não pretendia tão cedo vender o automóvel. Bateria instalada, voltei para casa pensando na alternativa que o mecânico tinha me apresentado. A escolha fora fácil pois, como disse, o carro ainda iria ficar comigo por um bom tempo. Mas... e se eu fosse me desfazer dele? Qual das marcas teria escolhido?

          Comecei a pensar nisso e senti um arrepio. A pergunta do rapaz tinha implicações profundas; envolvia um dilema moral. Pensei em Kant, que fundamenta sua ética na máxima: “Não faças a outrem o que não queres que te façam.” Se eu escolhesse a bateria mais barata e dispendiosa, que além disso podia quebrar, estaria fazendo a outrem (o eventual comprador do meu carro) o que não queria que me fizessem. 

O curioso foi a maneira objetiva, prática, direta, com que o mecânico me fizera a pergunta. Não havia hesitação nem escrúpulo, como se a proposta fosse muito natural. Ele sempre devia apresentar essa opção aos clientes. Alguns até lhe dariam uma gorjeta pela dica, mesmo que isso reduzisse a vantagem obtida com a escolha do produto ruim. O importante era o pequeno lucro imediato, acrescido do indizível prazer de enganar o outro. Pois esse tipo de escolha não vale só pelo dinheiro; vale também (ou sobretudo) pela sensação de ter sido esperto.  

Já chegando em casa, me dei conta de que a sugestão do rapaz diz muito de nós. No trabalho, no comércio, na política e mesmo nas relações interpessoais, nos comportamos como o sujeito que passa a bateria ruim sem considerar o que isso pode trazer para o outro.

         Tudo fica ótimo até o momento em que somos nós esse outro. E quando nosso carro quebra no meio de uma viagem noturna e ficamos com a família ao relento, protestamos contra o egoísmo do ser humano e lamentamos pertencer a espécie tão mesquinha. Esquecemo-nos de que dela fazemos parte e não raro somos nós a protagonizar a trapaça.      

Talvez seja por isso que este carrão chamado Brasil não anda – ou anda muito desigual. Falta em sua “bateria” a corrente do interesse pelo bem comum. Somos antikantianos por atavismo e convicção, fazendo sempre que possível aos outros o que nunca desejamos para nós.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Mediania

 

           Nasceu às doze horas de um dia temperado. Rigorosamente, nem quente nem frio. O signo era Balança. Veio sem berros, choramingando, e quando a mãe lhe deu o peito ele não exultou. Sentia-se que estava apenas satisfeito.

Houve ligeiro desacordo quanto ao nome que iriam lhe dar. O pai queria José, a mãe simpatizava com Elmano. Ficou Joel – uma fórmula conciliatória.

Na escola tinha comportamento regular; nunca um zero, nunca um dez, nunca uma briga. No máximo umas arengas, que o temperamento de Joel apressava em desfazer. Nos últimos anos do segundo grau, botaram-lhe um apelido: Média Ponderada. Não era em referência ao caráter, mas a uma eventual destreza matemática. Serviria, no entanto, para defini-lo quanto ao espírito – um espírito marcado pela aurea mediocritas.

Com as mulheres Joel não era ousado. Nem tímido. Daí ter logo ficado noivo, situação em que gostaria de ter permanecido pelo resto da vida. Mas como a noiva insistisse e ele não dissesse sim ou não, terminou conduzido à presença do padre. Só que não ia fazer juras; era um expediente muito radical. No máximo, promessas. Ou, antes, disposições. Isso não impediu que saísse da igreja casado e bem-disposto.

Não ambicionava riquezas. Dizia sempre que queria ganhar o suficiente para ter o necessário (não explicava para quê). Desprezava o supérfluo, embora admitisse não rejeitar, aos domingos, uma galinha ao molho pardo. Podia ser branco, para evitar suspeitas do radicalismo politicamente correto.    

Joel às vezes sonhava. Ia ganhar na loto com mais um grupo, formar-se técnico de nível médio, conhecer um museu em Portugal onde se dizia haver reproduções da torre Eiffel, das pirâmides e de Manhattan. Era demais para ele conhecer essas atrações in loco. Além do mais, se isso ocorresse ele deixaria de sonhar.   

Em política, dizia-se um moderado. Não gritava slogans: sussurrava-os. Entre a púrpura comunista e o cinza fascista, preferia o furta-cor centrista. Contra os juízos apocalípticos, não achava que o Brasil estivesse à beira do abismo; o que nos espreitava, segundo ele, era tão só um desfiladeiro – coisa mensurável por qualquer escala métrica idônea. Era enfim pela tolerância com os extremistas e revanchistas, o que o levava a admitir, em ocasiões-limite, a prática de passeatas (com no máximo dez pessoas) e pichações (desde que facilmente removíveis).   

Desconfiava dos idealistas e dos apaixonados; não estavam em si, e duvidava mesmo que estivessem nos outros. Não acreditava no átomo nem no horizonte; eram ficções de espíritos transtornados. E quanto à literatura, sentenciava: não se deve ler o que não represente um instrumento prático imediato. Ultimamente vinha substituindo as obras densas da sua estante por almanaques, folhetos e bulas.

       Teve câncer e morreu pouco depois num hospital de segunda. Não do câncer, é óbvio, mas de uma sequela. O destino lhe deu tempo razoável para se penitenciar dos pecados; livrou-se de alguns, os mais graves, e preservou outros, pois não queria o Céu. Nada de extremos.

À luz do dia