quarta-feira, 22 de abril de 2026

Visita de aniversário

              


Era o dia do seu aniversário. Ele acordou cedo e foi logo fazer o café da manhã. Não tinha expectativa de comemorar, mas certamente parentes ou amigos ligariam para felicitá-lo. Antes de terminar a refeição, ouviu que batiam na porta. Não podia imaginar quem seria àquela hora. Olhando pelo olho mágico, viu que era um velho de barbas, aparentemente inofensivo, e tratou de abrir.  

– Quem é o senhor?

         – Sou o Tempo.

– O Tempo?!

– Sim, meu filho. Sabendo que hoje você completa anos, vim lhe fazer uma visita.

Um tanto desconcertado, perguntou se o desconhecido queria entrar.

– Não. Estou de passagem. Aliás – ponderou filosoficamente –, estou sempre de passagem. Nunca paro em lugar nenhum. Só findarei na Eternidade, que por sinal desconfio de que não há.   

– Por que veio? Quer me dizer alguma coisa?

– Vim para lhe lembrar que existo. Geralmente as pessoas esquecem essa verdade tão óbvia. Você, por exemplo, não tem dado muita importância à minha existência.

– Como o senhor sabe disso?

– Não posso dizer. Minha sabedoria é um mistério

– Mas por que diz que eu ajo como se o senhor não existisse?

– Porque tem deixado de lado certas obrigações, convivido mal com as pessoas, se omitido em fazer o que deve para um dia encarar bem minha irmã... Somos inseparáveis um do outro. Ela é inflexível e não perdoa quem se esquece de mim.

          – E quem é sua irmã?  

          – A Morte.   

Ouvindo isso, ele sentiu um arrepio. Nunca tinha lhe ocorrido seriamente que o Tempo e a Morte eram irmãos.

– Por que o senhor diz que eu não posso encarar sua irmã?   

          – Porque não fez nem faz o que devia. Veja quantos projetos abandonou, a quantos compromissos faltou, quantas palavras se omitiu de dizer (sobretudo aos que ama!) por indiferença ou letargia. E assim foi deixando de ser você.

Ele se sentiu desconfortável com a repreensão e tentou argumentar:   

– Não vejo como esse comportamento pode interferir na chegada da sua... irmã. Depois que ela vem, nada mais tem importância.  O que fiz ou deixei de fazer se apagará quando eu não mais estiver aqui.

O Tempo o olhou com ar sardônico e esboçou um sorriso:

– Você está enganado. Se acontecesse como diz, seria indiferente fazer ou não fazer; sentir ou não sentir; conhecer ou não conhecer. E todos teriam ante a minha irmã a mesma expressão neutra de quem não viveu. Isso tornaria inútil o trabalho dela.

– Inútil por quê?

– Porque não há sentido em tirar a vida de quem já está morto.  

Ouvindo isso, ele se calou. Sentiu-se irritado com aquele intruso, que vinha incomodá-lo no dia do aniversário.  Merecia visita melhor em data tão especial. 

– Já que disse o que tinha de dizer, Senhor Tempo, pode se retirar. Eu esperava que num dia como hoje me trouxesse um presente...

– Dou-lhe não só presente, como passado e futuro. Você não tem de que reclamar. Ou melhor: se reclamar, não será de mim, mas de você próprio por me aproveitar mal.

Falou tais palavras pregando os olhos nele, como para ressaltar a advertência. Depois completou:

– Vou indo. Tenho muitas visitas a fazer.  

Ele passou o dia meditando nas palavras do visitante, que tinham muito de verdade. Perdera momentos preciosos na vida e muitas vezes deixara de fazer o essencial.

      Ao longo do dia recebeu muito menos ligações do que esperava, mas evitou a decepção ou o ressentimento. Certamente a escassez tinha a ver com o que o Tempo lhe havia dito. 

terça-feira, 14 de abril de 2026

À luz do dia

             

           Recentemente uma aluna minha foi assaltada num dos restaurantes da cidade. O episódio não aconteceu à noite, nem ela estava sozinha; estava com um grupo de amigas. Almoçavam no intervalo de uma dessas bizuradas para concursos, que ocorria no prédio em frente, quando o fato aconteceu.

         Os ladrões não apareceram de repente, como se poderia pensar. O grupo percebera o casal bem-vestido que comia a umas poucas mesas de distância. Notaram que o homem olhava muito para elas, e por um momento tiveram pena da mulher. Devia sofrer muito com um parceiro tão enxerido. 

Em dado momento a mulher se levantou e, como que distraidamente, dirigiu-se ao grupo e pegou a bolsa da minha aluna. Quando esta foi reagir, o parceiro se adiantou e apontou-lhe o revólver na cabeça. O grupo ficou estarrecido, paralisado, enquanto o casal calmamente deixava o restaurante e entrava num carro que o esperava a poucos metros.

Narro o episódio para confirmar uma sensação que hoje, mais do que nunca, acomete os habitantes desta cidade. A outrora pacata João Pessoa se transformou num território de insegurança e desrespeito à lei.

Foi-se o tempo em que se procurava a Cidade das Acácias para fugir da violência dos grandes centros urbanos. Agora isso não é mais possível; a violência está aqui, e tem-se exercido de variadas formas. Ora é o crime brutal contra mulheres, que são encontradas seminuas em lugares solitários; ora o assalto seguido de morte a poucas quadras do nosso maior shopping; ora a tentativa de sequestro de empresários em área nobre da praia.     

Os casos acima chocam, mas pelo menos ocorreram na sombra. Seus autores tiveram o cuidado de se encobrir, conscientes de que estavam do “outro lado” da lei e temiam ser justiçados. No roubo da bolsa ninguém foi ferido, mas não se viu da parte dos meliantes o desejo de se esconder. Estavam ali à luz do dia, num ambiente público, como qualquer cidadão de bem que no intervalo do trabalho engole seu justo almoço. Parecia natural que de repente um dos dois se levantasse, pegasse o objeto, e que o parceiro ameaçasse matar a dona caso ela protestasse.  

 Hoje os marginais invadem os espaços rotineiros do homem comum. Já não precisam de capuz nem de sombra para esconder o rosto. Afrontam a lei com acinte e descaro, pois sabem que ninguém os punirá – e nisso João Pessoa já não é diferente das outras cidades. A impunidade, decorrente de uma previsível falha do sistema, entrou no cálculo dos criminosos. Eles sabem que o delito não lhes trará nenhuma consequência grave. O risco é tão só da vítima. 

         O fato é que João Pessoa não é mais o “oásis urbano” que a muitos atraía. Está perdendo a identidade para se assemelhar às caóticas metrópoles que causam pavor a seus habitantes, que se sentem vulneráveis ao transitar em espaços rotineiros; o medo vem alterando a sua relação com a rua e com o outro.

         O roubo da bolsa da aluna foi uma espécie de sobremesa para os bandidos, que saíram sem pagar a conta. Ela pagou a sua graças a uma “vaquinha” das amigas. O episódio abalou-a de tal modo, que desistiu de no dia seguinte fazer o concurso – mesmo porque os larápios lhe subtraíram documentos imprescindíveis para entrar na sala. Quer dizer: ela perdeu não só a bolsa, mas talvez a possibilidade de mudar o seu futuro.

Visita de aniversário