Recentemente uma aluna minha foi assaltada num dos restaurantes da cidade. O episódio não aconteceu à noite, nem ela estava sozinha; estava com um grupo de amigas. Almoçavam no intervalo de uma dessas bizuradas para concursos, que ocorria no prédio em frente, quando o fato aconteceu.
Os ladrões não apareceram de repente, como
se poderia pensar. O grupo percebera o casal bem-vestido que comia a umas
poucas mesas de distância. Notaram que o homem olhava muito para elas, e por um
momento tiveram pena da mulher. Devia sofrer muito com um parceiro tão
enxerido.
Em dado momento a mulher se levantou e, como que
distraidamente, dirigiu-se ao grupo e pegou a bolsa da minha aluna. Quando esta
foi reagir, o parceiro se adiantou e apontou-lhe o revólver na cabeça. O grupo
ficou estarrecido, paralisado, enquanto o casal calmamente deixava o restaurante
e entrava num carro que o esperava a poucos metros.
Narro o episódio para confirmar uma sensação que hoje,
mais do que nunca, acomete os habitantes desta cidade. A outrora pacata João
Pessoa se transformou num território de insegurança e desrespeito à lei.
Foi-se o tempo em que se procurava a Cidade das
Acácias para fugir da violência dos grandes centros urbanos. Agora isso não é
mais possível; a violência está aqui, e tem-se exercido de variadas formas. Ora
é o crime brutal contra mulheres, que são encontradas seminuas em lugares
solitários; ora o assalto seguido de morte a poucas quadras do nosso maior shopping;
ora a tentativa de sequestro de empresários em área nobre da praia.
Os casos acima chocam, mas pelo menos ocorreram na
sombra. Seus autores tiveram o cuidado de se encobrir, conscientes de que estavam
do “outro lado” da lei e temiam ser justiçados. No roubo da bolsa ninguém foi
ferido, mas não se viu da parte dos meliantes o desejo de se esconder. Estavam
ali à luz do dia, num ambiente público, como qualquer cidadão de bem que no
intervalo do trabalho engole seu justo almoço. Parecia natural que de repente
um dos dois se levantasse, pegasse o objeto, e que o parceiro ameaçasse matar a
dona caso ela protestasse.
Hoje os marginais invadem os espaços rotineiros do
homem comum. Já não precisam de capuz nem de sombra para esconder o rosto. Afrontam
a lei com acinte e descaro, pois sabem que ninguém os punirá – e nisso João
Pessoa já não é diferente das outras cidades. A impunidade, decorrente de uma
previsível falha do sistema, entrou no cálculo dos criminosos. Eles sabem que o
delito não lhes trará nenhuma consequência grave. O risco é tão só da
vítima.
O fato é que João Pessoa não é mais o
“oásis urbano” que a muitos atraía. Está perdendo a identidade para se
assemelhar às caóticas metrópoles que causam pavor a seus habitantes, que se
sentem vulneráveis ao transitar em espaços rotineiros; o medo vem alterando a sua
relação com a rua e com o outro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário