domingo, 22 de março de 2020

Notas sobre a pandemia (2)


O homem faz malabarismos num dos sinais da Epitácio Pessoa. Parece argentino ou venezuelano. Os carros param e apreciam, mesmo sem querer, a arte daquele artista de rua. Terminado o número, ele circula entre os automóveis sorrindo e estendendo o boné. Ninguém baixa os vidros. O motivo certamente é o medo do vírus, que desencoraja qualquer contato humano que implique a possibilidade de contágio. Não se sabe se o homem é portador, mas, por via das dúvidas... Alguns veem essa possibilidade como um pretexto para continuar indiferentes a esse tipo de abordagem. Nunca baixaram os vidros e têm agora uma boa razão para não fazer isso.


Notas sobre a pandemia (1)


Amanhã, segunda, é dia de ficar em casa. Terça, também. E quarta, quinta, sexta, sábado, domingo... A quarentena torna iguais os dias. E nas emissoras de TV o assunto é o mesmo. Os canais mostram a devastadora escalada da Covid-19 no mundo e as estratégias dos governos para debelar a pandemia. Quem resistia a deixar o domicílio vai aos poucos aceitando a ideia de permanecer recluso. Os que não concordarem adoecerão, pois é patológico se insurgir contra aquilo que não tem saída. E a saída, agora e pelos próximos dias, é não sair. Aproveite para conhecer melhor a sua casa e as pessoas que nela moram. Tudo indica (felizmente!) que você não terá outra oportunidade como essa.

sexta-feira, 20 de março de 2020

O vírus e nós


Dizem que a ficção antecipa a realidade, e nada melhor para confirmar isso do que a situação que estamos enfrentando com essa ameaça do coronavírus. As ruas vazias, como se vê em São Paulo e em outras grandes metrópoles mundiais, parecem o cenário de um filme de terror. A diferença é que nos filmes a gente visualiza o inimigo, enquanto que agora ele é microscópico e praticamente invisível. Essa invisibilidade reduz as chances de derrotá-lo, pois dá a muitos a impressão de que ele não existe. Não falta quem considere os alertas das autoridades médicas um exagero a que a mídia, interessada em aumentar a audiência, dá imensa repercussão.
O brasileiro gosta de assumir esse tipo de comportamento. Prefere muitas vezes negar o perigo a enfrentá-lo, pois o enfrentamento exige esforço e sobretudo renúncia a certos prazeres. Um deles é ir à praia, onde o aglomerado de banhistas constitui um ambiente propício à contaminação de vírus, bactérias e outros micro-organismos que podem ameaçar-lhe a vida.
Em outro aspecto a ameaça da Covid-19 lembra uma obra de ficção — o da expectativa quanto ao final. Espera-se que ele seja feliz, claro. O problema é quanto de insanidade teremos que repelir, e quanto de sofrimento suportar, até que o pesadelo acabe.
O vírus vem abalando a economia mundial e ameaça levar os países à recessão. Isso dá medo, pois historicamente as guerras sucedem períodos de grande crise econômica. O ser humano convive mais facilmente com o vazio do sentido do que com o do bolso. Tendo o que comer, ele encontra energia para especular sobre o enigma da existência. De barriga vazia, não há como direcionar o intelecto a elucubrações transcendentes. O imperativo é matar a fome, que no capitalismo se multiplica em outros apetites. Já se vê nos supermercados a ânsia em fazer provisões e garantir o suporte material básico para a sobrevivência.
Somos egoístas, indiferentes ao próximo, ligados primeiro em nosso bem-estar – mas também somos aferrados ao instintual impulso de sobreviver.Tal impulso fica seriamente ameaçado ante a perspectiva de uma guerra de grandes proporções. Essa ideia paradoxalmente (ou nem tanto) me faz otimista. A possibilidade de uma hecatombe universal alerta-nos para o imperativo de preservar a vida na Terra. E não será um vírus, por mais contagioso e “coroado”, que terá a força de mudar isso. Resistiremos, mas para que muitos não caiam pelo caminho é preciso que sejamos solidários. No atual momento, ajudar os outros é ajudar a nós mesmos.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Milton na Academia


Milton enverga hoje o Fardão e certamente fará isso com um garbo em nada condizente com um dos sentidos que esse verbo tem. Pode-se pensar em tudo, menos em vê-lo encurvado sob o peso da glória acadêmica. Altivo, fez por merecê-la.
Somos amigos de longa data, pois começamos juntos em cursinhos pré-vestibulares. Ele por sinal me sucedeu no antigo Curso 2001, quando em 1978 ingressei na Universidade. Pouco depois Milton faria o mesmo, trazendo para o curso de Letras um vasto cabedal de conhecimentos e de habilidades como professor. Era sobretudo um didata, sem que isso implicasse redução da competência como pesquisador e intérprete literário. A sala de aula era o seu laboratório e o seu palco. Não admira, pois, que fizesse (e continue fazendo) tanto sucesso entre os alunos.     
Num tempo em que a moda era introduzir nos cursos de Letras correntes importadas (sobretudo da França), ele se voltou para os estudos clássicos. Grande conhecedor da mitologia, procurava resgatar a herança dos gregos e sobretudo dos latinos, bases do humanismo que ainda hoje inspira as escolhas éticas do ser humano. Empenhou-se em criar uma área voltada para esses estudos, que foram se estendendo da graduação à pós-graduação.
Ultimamente tem publicado muito nas redes sociais, interpretando obras literárias (como “Os miseráveis”), referindo passagens autobiográficas e falando das suas convicções políticas. É arguta e sensível, por exemplo, a leitura que ele fez dos tipos humanos que povoam o universo de Vitor Hugo. Nas redes ele também enfoca a sua origem humilde e o esforço dos pais para fazer os filhos terem acesso à escola. O empenho, pelo que se percebe hoje, foi coroado de êxito.
Quem priva da sua amizade conhece-lhe o bom humor e a verve, por vezes, “docemente pornográfica”. Dependendo do alvo, essa doçura pode se transformar em acidez, mas nada que agrida ou fira ninguém. Milton é sobretudo da conversa, dom que exercita semanalmente, por exemplo, em colóquios matutinos na Livraria do Luiz. Há algum tempo passou a usar chapéu, o que concorreria para lhe dar um ar de sapiente maturidade não fosse ele avesso a qualquer tipo de ostentação – mesmo a que deriva de uma conquista nobre como a do saber. Um saber do qual não estão ausentes as inquietações metafísicas. Percebe-se em seus últimos textos uma grande preocupação com a espiritualidade, associada à nostalgia ante a contingência de envelhecer.
Diante disso, deve de algum modo ser-lhe gratificante a perspectiva de se tornar imortal. O que vejo nele de definitivo, capaz de resistir à sucessão do tempo, é a seriedade intelectual, o empenho acadêmico, a busca por conciliar a modernidade com a imorredoura lição da cultura greco-latina – tudo isso traduzido em textos que primam pela elegância e o rigor vernáculo. Para nosso recreio, ainda entremeia essa vertente “séria” com epigramas irônicos e mordazes, que retomam a tradição de alguns de seus mestres latinos. Parabenizo-o pela conquista de hoje e desejo que, na APL, ele dê sequência ao trabalho que nos acostumamos a apreciar.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Arte e liberdade


Platão não queria os poetas na República. Considerava-os perturbadores da ordem. A ideia de que a arte contém o fermento da desordem é velha e tem servido de justificativa para que governos totalitários (de esquerda ou de direita) busquem limitar ou dirigir as manifestações artísticas. O pretexto para isso é a vinculação que elas deveriam ter com ideologias como a do nacionalismo.
A arte não pode se comprometer com projetos nacionais, que servem basicamente a interesses do Estado. Ela é a “região da liberdade” e deve atender aos anseios dos artistas; por meio das obras eles expressam suas angústias e perplexidades (que são as de todos nós). Fazem, assim, com que nos conheçamos melhor.
    A função da arte, como diz Alain de Botton, é proceder à “crítica da vida”. Isso não se faz sem liberdade e compromisso com os valores éticos.
   Quem se propõe a doutrinar moralmente sobre a arte ou não entende nada de estética ou está mal-intencionado. Por mais que acene ao heroísmo, ao sentimentalismo ou ao sacrifício em prol da nação, não esconde seu nefasto propósito de retirar do homem o que o peculiariza — a liberdade de pensar e a possibilidade de traduzir as inquietações que lhe vão na alma.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

A outra face

Tem sido muito comentado o tapa que o papa Francisco deu na mulher que tentou agarrá-lo. O gesto agressivo e raivoso do Sumo Pontífice surpreendeu os que se acostumaram com a fala mansa e a doçura estampada em seu rosto.
Como classificar aquele rompante de brutalidade? O gesto foi lamentável, claro, pois do representante maior de Cristo na Terra se espera tolerância e boa vontade com os que o importunam ou ofendem. Foi no mínimo um descompasso entre o homem e o seu papel.
Mas (e aqui se invoca um conhecido preceito cristão) “não julgueis para não serdes julgados”. Se por um momento Francisco esqueceu que era “o papa”, terá havido razões para isso. Entre elas, certamente, as pressões que vem sofrendo por parte de segmentos conservadores da Igreja.
O papa tem assumido posições corajosas, como a de denunciar e punir os pedófilos. Quer resgatar a imagem da instituição e reconquistar a confiança dos que, decepcionados com os escândalos sexuais, dela vêm se afastando.
Sou um admirador de Francisco e gostaria de não ter assistido àquela cena. Presumo que muitos católicos têm o mesmo sentimento. Vê-lo perder o controle tisnou um pouco a sua imagem. Os que agora dele se aproximarem farão isso com prevenção e algum temor. Sabe-se lá se o homem vai estar num dia ruim!
        O consolo é que Francisco não estará só. A grande massa dos cristãos vai entender seu gesto “humano, demasiadamente humano” e, nesse momento delicado da sua vida, rezará por ele. O comum é ocorrer o contrário, mas há circunstâncias nas quais se inverte essa corrente e o papa é que precisa de orações.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Roubando a cena no Enem


       Não era fácil fazer fita num tema específico como esse da redação do Enem. Muitos devem ter dado uma panorâmica e abordado o acesso às artes de modo geral. Mas quem agiu assim tratou do assunto, quando era preciso dar um close na “sétima arte”. Havia a possibilidade de fazer uma montagem, utilizando os textos de apoio em primeiro plano e completando com flashbacks sobre temas correlatos. Mas tudo sem cópia, claro, para não dar aos corretores a impressão de que “já viram esse filme”. Se observasse isso direitinho, você poderia roubar a cena e até chegar ao happy end da nota 1000.

No calor de Roma