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domingo, 14 de agosto de 2016

Ser pai

Ser pai é padecer no crediário
e assumir o duro compromisso   
(seja grande ou pequeno o seu salário)  
de dar à casa o que for preciso.

É ser da mãe um pálido coadjuvante
no crucial e biológico enredo;                           
e como recompensa, em tal instante,
sentir-se “grávido” só por arremedo.    

É privar-se de jogos e cerveja,
mostrar-se duro mesmo que não seja,  
suportar o Complexo de Abraão.  

E à noite, sozinho no escuro,   
imaginar se os filhos, no futuro,   
vão dizer que cumpriu sua missão.


(da série  “Meus pecados poéticos”)  

sábado, 13 de agosto de 2016

Carta de um pai aflito

Queridos filhos:

Amanhã é o Dia dos Pais, e deverei receber presentes de vocês. Não posso fazer exigências, pois reconheço que não sou um pai exemplar (mas quem o é?). Às vezes fico muito tempo ausente e não posso lhes dar a atenção devida; noutras ocasiões me torno excessivo, ralhando e até batendo (uns tapinhas moderados, é verdade, que procuram mais corrigir do que castigar. Nunca ninguém aqui precisou apelar para a Lei da Palmada).  Enfim, esse é o meu papel. Espero que me compreendam e perdoem.
O que pretendo por meio desta cartinha, se me permitem, é fazer um pedido a respeito do que vão me dar. Sei que a boa vontade de vocês é grande, e a grana é curta (mesmo porque sou um tanto avaro nas mesadas), mas com esforço e alguma imaginação é possível fugir ao comum em todos esses anos. Cuecas, por exemplo. Trata-se inegavelmente de um artefato útil, higiênico e necessário – mas já notaram como eu tenho uma porção delas, a maioria ganha justamente no Dia dos Pais? Pensei até em mudar o nome dessa data para Dia das Cuecas. Abram minha gaveta e vejam vocês mesmos. Eu não usaria o que está ali nem que vivesse tanto quanto Matusalém (e olhem que o meu velho corpo já apresenta algumas avarias!).
E meias?! Nada contra meias, pelo contrário: gosto sobretudo quando elas combinam com os sapatos (embora nem sempre os dois entrem em acordo). Até me recusei, quando era jovem, a usar sapatos sem meias embora isso na época fosse um sinal de rebeldia e eu me achasse um rebelde. Esqueçam as meias. E também os desodorantes. Já ganhei tantos, que pensei que vocês estivessem me mandando um recado. Talvez achassem que eu cheirava mal e, por delicadeza, quisessem que eu percebesse isso de forma indireta; daí me presentearem com frascos e tubos de desodorantes (alguns, perdoem-me a franqueza, tão ruins que só fariam piorar a inhaca).   
Não tenho propostas concretas. Tudo que eu quero é que usem um pouco de imaginação e variem as escolhas. Se vierem com cuecas, meias ou desodorantes eu não recusarei, claro. Apenas ficarei triste e com mais problemas para resolver. Onde ia colocar esses objetos? Eu teria que transferir a incumbência à mãe de vocês, que iria ralhar comigo e me chamar de ingrato (esquecendo-se dos presentes que ganha, bem mais interessantes do que os meus. Mas entendo; afinal, mãe é mãe).
Espero que essa carta os sensibilize. Para terminar, um último pedido: não precisa me dar coisas caras, pois sei bem de onde sai o dinheiro para pagar a fatura. Pesquisando um pouco, é possível comprar bons presentes pelo preço daqueles que vocês costumam me ofertar. Ou será que não?
Um beijo deste pai que os ama.




domingo, 7 de agosto de 2016

Aforismos brasileiros (5) - Clarice Lispector

                                “A gente ama apesar.” 

         Clarice resgata o uso de “apesar” como advérbio (hoje esse vocábulo aparece apenas nas locuções “apesar de”, “apesar de que”) para afirmar uma verdade profunda e aparentemente desconcertante sobre o ser humano. Amamos alguém não pelo que ele é, mas apesar do que ele é. Isso pode parecer paradoxal e decepcionar os que esperam do ser amado uma irrestrita correspondência a suas expectativas. Talvez a paixão exista “por causa”, pois nela o objeto é uma fantasia, uma projeção de quem se apaixona. O amor, que pressupõe uma visão realista do objeto, ocorre mesmo é... apesar. Implica reconhecer no outro o que ele tem de falho, mesquinho, humano, e ainda assim se dispor ao difícil exercício da aceitação. Ou do perdão. Sem isso, é impossível amar. 


sábado, 30 de julho de 2016

Carta a Berta (5)

Querida Berta:

Estive ausente por uns dias, mas não me esqueci de você. É que houve uns problemas aqui em casa e tive de arregaçar as mangas (não para resolvê-los, mas para não me sujar). Primeiro veio um entupimento no vaso sanitário. Depois o teto da cozinha apareceu com um vazamento que fazia a água descer pelas paredes e danificar o piso.
Parecia que estávamos na Vila Olímpica do Rio, e sem aquele batalhão de encanadores, eletricistas e pedreiros para resolver o problema. Com a grana curta, Celeste teve de apelar para um funcionário que trabalha para a mãe dela; Dona Zeferina mandou-o de má vontade e ainda me criticou (minha sogra nunca me engoliu, embora tenha tentado isso mais de uma vez quando ninguém estava olhando). Deve ter aproveitado o pretexto para lembrar à filha que ela não deveria ter se casado com um joão-ninguém...
Mas os problemas foram resolvidos, felizmente, e a vida voltou à normalidade. “Bolsonaro” está magrinho porque não tem se alimentado bem. Com alto o preço da carne, está sendo impossível deixar todo o osso para ele. Quando rosna, faminto, tento explicar-lhe que o culpado não somos nós, e sim a crise.  
 Por falar em crise (e é só no que se fala), dentro de poucos dias se resolverá o problema do impeachment. Celeste, com a sua velha queda pela esquerda, aderiu a um grupo no Facebook intitulado “Fora,Temer”. Perguntou se eu queria participar. Embora isso pudesse melhorar o clima entre nós, fazendo-a pelo menos abrandar a greve de sexo, respondi que não. O “Fora, Temer” poderia dar a entender “Volta, Dilma”, e eu não queria correr esse risco.
Os partidários da “teoria do golpe” querem que a presidente afastada compareça com o presidente em exercício à cerimônia de abertura dos jogos. Já tem gente apostando para saber quem levará a maior vaia. Ainda bem que não se está pensando em bater panelas; se isso ocorresse, ninguém ia suportar o barulho num momento em que é tão importante escutar o Hino Nacional (escutar, pelo menos, já que ninguém sabe mesmo cantá-lo). Além do mais, bater panelas seria péssimo para a imagem do País quando o feijão (principal ingrediente na mesa dos brasileiros) está pela hora da morte. Não se pode prever como a comunidade internacional ia interpretar isso.  
Felizmente a Olimpíada começa na próxima semana e nos fará sair um pouco do baixo-astral trazido pela crise. Vai ser animado acompanhar o movimento dos turistas, o desembarque das delegações, a chegada dos chefes de Estado. Entre eles François Hollande, que ultimamente só tem assistido a minutos de silêncio. Talvez agora se alegre um pouco, principalmente se a França (hélas!) conquistar medalhas.
 Despeço-me por hoje. Que a Olimpíada transcorra sem atentados e a única explosão que a gente escute seja a dos gritos da nossa torcida. Essa explosão verde-amarela fará bem a um país que ainda está no vermelho.

Abraço olímpico do seu
Nicanor.
  

Ícone

Diante de ti,
quedo e comovido,  
vislumbro o espaço  
de que estou proscrito.

Tua plenitude,
simétrica ao vazio
em que me debato,
é como a de um rio

que desdobra o tempo
para além do fim. 
Faz sonhar o sempre
no que morre aqui.
 
O que és não importa,
mas sim o que vejo
na fome infinita
com que te desejo.


segunda-feira, 25 de julho de 2016

O colecionador de palavras

O hábito começou muito cedo. Dizia “papá” e “mamã” com um prazer especial em jogar com as sílabas. “Pa... pá”, “mã... mã” -- os sons iam e voltavam até que ele os guardava para depois, quando quisesse, brincar de novo. Com o tempo foi juntando outros fonemas (“bu... bu”, “pi... pi”, “tá...tá”). Um dia teve febre e ouviu “dodói”; enamorou-se da palavra e ficou repetindo-a em seu delírio.  
Cresceu e foi refinando as escolhas. Agora prestava atenção não apenas aos sons, mas também ao casamento que havia entre eles e o sentido. Às vezes a união lhe parecia perfeita, como em “croque” (sentia o atrito de um fonema no outro), “bafo” (a palavra terminava num sopro) ou “empecilho” (pronunciar essa foi um obstáculo que venceu a duras penas).
Noutras vezes, achava que palavra e som eram como estranhos. “Erisipela”, por exemplo. Ficaria bem para designar um metal precioso (“Usava um colar de erisipela legítima”), mas não para indicar uma doença. O mesmo se diga de “faniquito”, que mais parecia nome de passarinho (“Na manhã ensolarada, faniquitos em bando cortavam o azul do céu”). Teve pena da tia por ela sofrer de uma doença cujo nome não combinava em nada com as ulcerações que havia em suas pernas.
Descompassos como esse lhe deram uma vaga ideia das incoerências do mundo. Havia palavras bonitas para coisas feias e palavras feias para coisas bonitas, assim como havia pessoas lindas com uma alma escura, e outras, de rosto nada atraente, com um espírito luminoso. O mais das vezes -- foi aprendendo -- o nome era uma falsa aparência das coisas. Isso não o levou a desistir da coleção, só que agora ele tinha um critério; passou a dividir as palavras conforme a semelhança que tinham com os objetos ou seres que designavam.
Agrupou de um lado, por exemplo, “sanfona”, “crocodilo”, “miosótis”, “turmalina” (se bem que essa mais parecesse nome de mulher) -- e do outro “presidente”, “cadeira”, “promotor”, “recurso” (palavras que não excitavam a língua e que a gente, quando as ouvia, não tinha a curiosidade de saber o que significavam).
À medida que envelhecia, tornava-se mais exigente com a sua coleção. Algumas palavras lhe pareciam insípidas, por isso ele resolveu esvaziar parte do baú. Uma das primeiras que jogou fora foi “jucundo”, cuja hipocrisia não mais suportava (parecia designar algo triste, mas significava “alegre”). Trocou “jucundo” por “meditabundo”, palavra mais honesta e de acordo com seu atual estado de espírito. Jogou fora também “vagar”, “flanar”, “leviano”, e por pouco não se livrava de “paciente” (“prudência”, que entrou no lugar, parece que o aconselhou a esperar mais um tempo).
A coleção agora tinha pouquíssimos termos, mas cada um pesava tanto que o homem não conseguia transportar o baú. Deixou-o embaixo da cama e nele foi inserindo, sem muito entusiasmo, as palavras que ainda o impressionavam (sabia que, se parasse de colecionar, morria). Um dos novos termos foi “achaque”, que vagamente lhe soou como uma dança fúnebre de tribo africana (riu ao perceber que ainda tinha imaginação poética).  Outro foi “próstata”, que lhe pareceu o som de uma chicotada (ta-ta). E um dos últimos foi “tumor”, que ele sem graça botou no lugar de “humor”.
 Depois que morreu, os amigos e parentes ficaram intrigados com aquele baú embaixo da cama. Abriram-no e nada encontraram em seu interior. “Ele era meio tantã”, comentou a mulher. “Passava horas diante desse baú vazio.” Resolveu guardá-lo, como lembrança, e aos poucos foi metendo nele os objetos inúteis da casa.



quinta-feira, 14 de julho de 2016

Aforismos brasileiros (4) - Paulo Francis

A vida é muito mais variada, anárquica e imprevisível do que sonham os ideólogos”. 


            Nesse aforismo, Paulo Francis critica uma tendência comum aos ideólogos: buscar submeter a realidade a seus esquemas mentais. A ideologia é uma camisa de força para o pensamento e as ações. O alvo de Francis é a esquerda, contra a qual ele investia sem piedade, mas sua frase aplica-se a todos os que procuram enquadrar os fatos em conceitos preestabelecidos. Como antigo esquerdista, o escritor sabia do que estava falando. Também ele fora seduzido na juventude pelas contorções da dialética marxista, que pregava (e dava como certa) a revolução e a “ditadura do proletariado”. O tempo e o amadurecimento o fizeram desconfiar de certezas como essas, que parecem ignorar a natureza humana e a diversidade do real. 

Conselho

O mundo não tem sentido
e nada faz para o ter.
A ele é indiferente
nosso esforço de entender.

As coisas são, simplesmente,
e não ver isso é doença.
Pouco importa à natureza
a angústia de quem pensa.    

Deixa de lado a procura.
Faz como os outros, aceita.
Talvez seja esse o caminho.
Talvez seja essa a receita.

Mas se insistes na busca
e aqui nada te acalma, 
finge que num outro mundo
terá sossego a tua alma.

(da série "Meus pecados poéticos") 

domingo, 3 de julho de 2016

Carta a Berta (4)

Berta querida:

No São-João, a Lava-jato fez mais uma quadrilha dançar. Dessa vez prenderam uma turma que roubava funcionários e pensionistas; o roubo, segundo explicaram os policiais, ocorria por meio de empréstimos consignados. Veja que maldade, Berta: os velhinhos tinham que pagar, além dos juros, um percentual para o bando.  
       Por essas e outras é que sempre fui contra essa forma de conseguir dinheiro. Uma vez Celeste propôs que fizéssemos um empréstimo para a sonhada viagem à Europa (a gente tem este sonho desde que se casou, há 30 anos). Convenci-a a desistir; melhor seria poupar. Começamos, então, a juntar o que sobrava no fim do mês. Não há previsão de quando vai ser a viagem, ou mesmo se ela vai existir, mas a esperança é a última que morre (atualmente, no Brasil, ela tem morrido mais cedo).    
         Passamos o São-João em casa, ouvindo os estampidos lá fora e sentindo o ardor da fumaça em nossas narinas. Já tivemos São-Joões melhores, com fartura de pamonha, canjica, tapioca, munguzá. Agora a crise nos permitiu no máximo comprar um pé de moleque aguado, que dividimos com “Bolsonaro” (ele come tudo, mas enjeitou o bolo; certamente desconfiou de que não era legítimo).  
       Por falar em “Bolsonaro”, nessa época ele se assusta muito com as bombas. Quando ouve os foguetões corre para o quarto, mete-se debaixo da cama e fica lá, tremendo. Parece um neurótico de guerra. Nosso cachorro tem estado mesmo esquisito.  Anteontem jantávamos na copa quando o ouvimos latir e rosnar diante da televisão, que fica na sala. Corremos para ver o que estava acontecendo. Aparentemente, nada demais: a televisão estava transmitindo a parada dos LGBTs. Não entendemos por que isso o deixava tão furioso. Mas, enfim, cada qual (homem ou bicho) tem suas peculiaridades!
         Celeste está muito preocupada com os rumos do Brasil. Para quem já foi do fã-clube de Wando (desconfio de que era uma daquelas garotas que jogavam calcinhas para ele), minha mulher evoluiu muito de mentalidade. Comentou comigo a incoerência de Temer, que havia criticado o descontrole orçamentário do governo anterior e acaba de dar um aumento aos servidores públicos. “E vai aumentar o Bolsa Família num percentual maior do que o prometido por Dilma!” – ressaltou com ironia (para me ferir, claro, pois ela sabe que não sou dos que consideram o impeachment um golpe).
Fiquei pensando com os meus botões no que Celeste havia dito, mas infelizmente não chegamos a um acordo (meus botões achavam uma coisa, e eu outra). Fui dormir chateado. Infelizmente é nesse estado de ânimo que me despeço. Na próxima carta, quem sabe, você me encontrará melhor.

Do seu desalentado      
Nicanor.