Tais vocábulos designam estados opostos, e a
distinção entre eles é fundamental para a psicologia e a filosofia modernas.
Costuma-se marcar a diferença caracterizando a solidão como um vazio, enquanto
que a solitude é plena. Se a primeira sugere isolamento, carência, a segunda remete
a paz e autorreflexão.
Na
solidão há desconforto ou medo de ficar só com os próprios pensamentos. Para
fugir a isso, tende-se a buscar distrações no mundo exterior (celular, TV,
multidões). Na solitude, pelo contrário, o silêncio é bem-vindo pois nele há um
propósito; pode ser a leitura, a meditação, a criação de algo, ou simplesmente o
descanso mental.
Para filósofos como Schopenhauer e
Nietzsche, a solitude é o selo de um espírito elevado. O primeiro considera que
o valor de um homem é medido pelo que ele contém em si mesmo. Quem tem muito
por dentro, precisa de pouco fora. Entenda-se esse “fora” como o burburinho da vida
social, que exige sacrifício da nossa individualidade para nos nivelarmos aos
outros.
Schopenhauer chega a formular uma
parábola sobre o tema, expressa no Dilema dos Porcos-Espinhos. Quando tentam se
esquecer no inverno, esses animais se defrontam com um impasse. Se ficam muito
longe, sentem frio (solidão); se ficam muito perto, se espetam (conflitos
sociais). A solitude é a distância perfeita, pois nela o indivíduo se aquece
com o próprio calor e não corre o risco de ser ferido pelos outros. No limite,
essa ferida constitui o que hoje se chama de “relacionamento tóxico”. É
preciso, como dizem psicólogos, padres e demais terapeutas da alma, fugir dos
porcos-espinhos que tentam envenená-la.
Nietzsche leva a solitude a um nível mais
radical. Segundo ele, para o indivíduo se tonar quem é precisa se afastar do “rebanho”.
O autor de “Ecce Homo” acreditava que a opinião pública e a moral rasa eram como
poeira que cega; para dela se livrar, o indivíduo precisava ir para as
montanhas (uma metáfora a que se associam as noções de distanciamento e
altura).
Nietzsche
distinguia os que fogem das pessoas por medo (o excesso desse temor podendo
chegar ao que hoje se designa como “fobia social”) dos que fazem isso para crescer
e, a partir de uma solitude plena, promover o encontro consigo mesmo. Afinal de
contas, o indivíduo só pode ser “para o outro” de forma autêntica se primeiro existir
para si mesmo.
A solitude contraria a máxima da
canção popular segundo a qual “é impossível ser feliz sozinho”. O verso é de
Vinicius de Moraes, que entre paixões e sucessivos casamentos não deixava de se
sentir só. Ele tentava compensar com os novos enlaces (e algumas doses de
uísque, claro) um vazio que só a poesia era capaz de preencher. As paixões o
faziam se sentir motivado a criar; como tinham um exíguo prazo de validade,
logo eram substituídas por outras.
Isso não ocorre na solitude, ou
sozinhez, pois nela é possível obter uma satisfação próxima da felicidade. Veja
o leitor que acabo de introduzir um novo termo como sinônimo de solitude:
sozinhez. O neologismo não é meu, mas do grande Paulo Mendes Campos, e aparece em
antológica crônica na qual ele explica a uma garota que acabara de fazer 15
anos a filosofia contida em “Alice no País das Maravilhas”. Escreve o mineiro:
“A sozinhez (esquece essa palavra feia que inventei agora sem querer) é
inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: ‘Estou tão cansada de estar
aqui sozinha!’ O importante é que conseguiu sair de lá, abrindo a porta.”
Na sozinhez é possível abrir a porta
e sair fortificado. Na solidão tende-se a permanecer prisioneiro por inadvertidamente
jogar a chave fora ou haver drenado, com a depressão, toda a energia da alma.
Alice consegue sair “do fundo do poço”
porque a sozinhez favorece a introspecção e não raro se constitui num momento
de descoberta e autoconhecimento. Torna-nos mais sensíveis à beleza e à poesia.
Sobretudo, pode coexistir com a busca de conexão com os outros. Quem a vivencia
não usa as outras pessoas como uma tentativa de camuflar seu vazio interior.
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