Quem determina que não se deve sair de casa não são
as autoridades médicas ou governamentais; é uma senhora ponderada, discreta e
aliada da razão chamada Prudência. O preço que se paga por desprezá-la pode ser
muito alto. Com não rara frequência, é a morte. Se evidências mostram que
deixar a casa e participar de aglomerações levou em outros países a que se
multiplicasse o número de mortos, fazer isso ou induzir outros a fazê-lo é de
uma imprudência homicida. Os arautos da sensatez devem chamar os responsáveis
por essa leviandade à razão. Todos estamos esperançosos de que esse “tsunâmi” passe
logo, mas, como lembra Baltasar Gracián, a esperança é a grande falsificadora
da verdade e deve ser corrigida com inteligência e... prudência!
segunda-feira, 30 de março de 2020
domingo, 29 de março de 2020
Notas sobre a pandemia (7)
Vi depoimentos
de pessoas que foram infectadas com gravidade pelo coronavírus e escaparam.
Chamou-me a atenção o que disse um senhor ainda debilitado e de máscara: “É
como se afogar no seco.” Vejam o que é a força de uma imagem. Ouvimos o tempo todo
que a Covid-19 destrói os alvéolos pulmonares. Isso impressiona, claro, mas é abstrato
e conceitual. A imagem, ao contrário, tem o poder da concretude. Atinge mais os
sentidos do que o intelecto. Gera identificação por nos fazer partilhar de um
afeto, uma sensação, um sentimento. Que informe emitido por uma autoridade médica
nos impressionaria tanto, quanto a declaração feita por um ex-infectado de que parecia
“se afogar no seco”? Fui dormir apreensivo. Nada do que eu tinha ouvido até aquele
momento me evocara com tamanha intensidade o mais angustiante sintoma dessa doença, que é a falta de ar.
sábado, 28 de março de 2020
Redação sem risco: Como fazer o texto entrar na linha
Redação sem risco: Como fazer o texto entrar na linha: Orientações para a construção do texto dissertativo, levando em conta os recursos semânticos e estruturais que asseguram a clareza e a coesão. A obra se baseia na experiência do autor em sala de aula como professor de redação e língua portuguesa para candidatos ao Enem e a concursos públicos. Os textos que nela constam apareceram inicialmente na revista Língua Portuguesa (Editora Segmento), na qual o autor colaborou por cerca de dois anos.
sexta-feira, 27 de março de 2020
Notas sobre a pandemia (6)
Historicamente, os períodos de privação ensinam
mais do que os de bonança. Que lição a crise provocada pelo coronavírus vai nos
dar? Não falo das atitudes generosas que os governos são obrigados a tomar
agora para que a economia não entre em colapso e milhões não morram de fome. Refiro-me
a ações estruturais, profundas, que preparem os países para não ser pegos
desprevenidos em flagelos semelhantes (aos quais sempre estamos suscetíveis).
Uma crise como a do coronavírus revela o quanto há de falho num sistema que se
baseia na avidez do lucro e na iníqua distribuição de renda. Todos ajudam
agora, pois o sistema não pode entrar em pane. Mas quantos manterão a ajuda
quando o pesadelo com a Covid-19 se desfizer e outras pragas menores
continuarem, normalmente, a espezinhar ou destruir os fracos e desassistidos?
Enfim, amanhã vai ser outro dia ou continuaremos imersos na mesma noite?
quinta-feira, 26 de março de 2020
Notas sobre a pandemia (5)
O coronavírus é uma ameaça letal, por isso causa
estranheza que em meio às discussões sobre a melhor forma de combatê-lo
prevaleçam os interesses políticos. Interesses mesquinhos, que pouco têm a ver
com o bem-estar da coletividade. Ou, se têm, é de forma tangencial. Já se
percebeu que o enfrentamento da Covid-19 é um desafio ao bom senso e ao
tirocínio administrativo. Quem apresentar melhores propostas para combatê-la
contará com um valioso trunfo nas eleições de 2022. Isso tem feito com que a
retórica de palanque substitua em alguns o interesse por informações
confiáveis, embasadas nos estudos da ciência. Toda essa medíocre querela
demonstra que o pior vírus (o de mais deletérios efeitos) é o que instila nos
homens a ambição pelo poder.
quarta-feira, 25 de março de 2020
Notas sobre a pandemia (4)
Pelo que ouvi de médicos infectologistas, as
máscaras só deveriam ser usadas por portadores do vírus. Poucos, no entanto,vêm
atendendo a essa restrição. O resultado é que têm faltado máscaras para quem de
fato delas necessita – como o pessoal da Saúde. Não convém abusar desses higiênicos
tapumes, que às vezes também funcionam como um depurador estético; há quem
fique menos feio com elas. Nossas autoridades têm considerado a máscara uma
espécie de símbolo da seriedade com que estariam tratando a pandemia. Mas é
preciso portá-las com dignidade, do contrário o efeito é pior. Máscaras que ficam
caindo, são indevidamente manuseadas ou se prendem a uma orelha só indicam
oportunismo e improviso. Podem até fazer seus portadores perderem a
popularidade.
segunda-feira, 23 de março de 2020
Notas sobre a pandemia (3)
A longa reclusão em casa começa a gerar
preocupação com o estado psicológico das pessoas. Que fazer? Psicólogos têm
usado as redes sociais para atender gratuitamente os que precisem de ajuda.
Muitos deverão procurá-los alegando sintomas diversos, como depressão e
ansiedade. Entende-se esse tipo de reação, mas há um fator que suaviza os
efeitos da falta de convivência; é a percepção de que o confinamento é geral. Saber
que todos vivem o mesmo drama ajuda a suportar a quarentena. Faz as pessoas perceberem
que estão isoladas, mas não sozinhas. A solidariedade é que vai derrotar o
coronavírus.
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