terça-feira, 8 de março de 2022

Corrigindo o Carnaval

 

          Todos sabem o que é o “politicamente correto” – esse modo de pensar inclusivo, aberto às diferenças e inimigo dos preconceitos. Ele tem se estendido a vários aspectos da sociedade, mas estranhamente deixou de lado o Carnaval. Uma breve pesquisa sobre as músicas carnavalescas, no entanto, mostra o erro de tal omissão É verdade que há algum tempo se baniu “Tropicália” e “Cabeleira do Zezé”, mas não são apenas essas canções que embutem um conteúdo preconceituoso.  

 Resolvi então dar meu modesto contributo. Nosso cancioneiro carnavalesco, de fato, tem sido preconceituoso com determinados segmentos da sociedade. Ou com grupos historicamente injustiçados. Minha contribuição consistirá, por enquanto, numa breve indicação de músicas que devem se acrescentar às duas já mencionadas. O fato de estarmos em pleno “tríduo momesco” é uma boa razão para tratar do assunto. Quanto mais cedo nos mobilizarmos para prevenir esse tipo de abuso, melhor.     

Comecemos por “Aurora”. Trata-se de uma marchinha aparentemente inócua. Essa impressão muda quando se observam com atenção os versos iniciais: “Se você fosse sincera,/ô ô ô ô Aurora,/ veja só que bom que era,/ô ô ô ô Aurora.”  A desconfiança sobre a sinceridade de Aurora reflete uma mentalidade machista. Se não é sincera, Aurora mente, e mentindo lança sobre as pessoas do seu gênero a sombra do ardil e da trapaça. Como não relacionar isso com a mentira que Eva pregou em Adão para que ele, inocentemente, comesse a maçã? Proponho que não se cante nem se dance mais “Aurora”.

E “Máscara Negra”? Todos conhecem o clássico de Ze Kéti e Pereira Matos. É sem dúvida uma música bonita, mas lamento dizer que não deve mais ser cantada. Se não, vejamos. No finalzinho da letra o “Pierrô” diz à “Colombina”: “Vou beijar-te agora/ não me leve a mal/ hoje é Carnaval.” Perceberam a atitude autoritária e truculenta? Quem pode negar que isso é assédio? Ele se propõe a beijar a mulher sem o seu consentimento e cinicamente pede que ela não o leve a mal (ou seja, tem consciência de que o beijo vai de alguma forma importuná-la). “Máscara negra” deve ficar de fora em respeito à integridade do corpo da mulher, que tem o direito de beijar (e ser beijada) por quem ela queira.

Acho que se deve incluir também “Jardineira”. Parece de um lirismo inocente, mas não deve mais constar no repertório carnavalesco. Quem não se lembra da letra? Indagada sobre a sua intensa tristeza, a moça responde que o motivo foi uma camélia que caiu do galho e morreu (depois de dar dois suspiros). O emissor diz então à moça que não fique triste porque ela tem o mundo ao seu dispor e (prestem atenção agora!) é muito mais bonita do que a camélia que morreu. Ou seja, ele aceita alegremente a morte da flor, o que mostra pouco respeito pela natureza (e, por extensão, pela ecologia).

E “Marcha da Cueca”? A letra é bastante conhecida. Alguém se diz disposto a matar quem roubou sua cueca para fazer pano de prato. Até aí nada grave. Pode-se interpretar o propósito homicida como uma hipérbole; o emissor estaria indignado com quem deu essa inusitada serventia a sua roupa íntima. O grave aparece depois, quando ele confessa que a cueca foi um presente que ganhou... da namorada. Namorada dar cueca de presente? Para fazer isso ela devia desaprovar as roupas de baixo que ele usava. E como conheceu essas roupas?! Essa música constitui um péssimo exemplo para os jovens que namoram com recato e decência.

Fico por aqui a fim de não aborrecer o leitor. Minhas pesquisas, no entanto, vão continuar (a propósito, acabou de me ocorrer “Pirata da perna de pau”; essa música deve ser banida por desrespeitar os deficientes físicos). Aguardem novas contribuições, pois considero o “politicamente correto” um baluarte contra as brigadas da intolerância e do preconceito. Ele ainda vai mudar este país!

domingo, 6 de março de 2022

Tirando a máscara do herói


 Os heróis dos quadrinhos não têm uma identidade. São arquétipos em que o cinema introduz personalidades variadas, com isso alargando-lhes a dimensão humana. Um exemplo disso é este “The Batman”, que mostra o personagem principal hesitante quanto à própria identidade e às voltas com fantasmas do passado. 

O filme é um pouco arrastado, mas acaba nos levando de arrastão. Convence sobretudo do segundo terço para o fim, quando destaca a luta do herói com o grupo mafioso que domina a política de Gotham City. 

Esse combate aparece envolto em sombras que refletem outro tipo de conflito, centrado na psique do personagem — uma psique torturada pela lembrança dos pais, cuja morte ele não conseguiu superar. 

Mas o maior combate é com o Charada, clássico vilão que nesta versão de Matt Reeves aparece como uma espécie de assassino “do bem”. Seus crimes são uma tentativa de punir os meliantes da política e da máfia, promovendo uma renovação da cidade. 

Ele sabe que Batman é seu maior adversário nesse processo de “limpeza”, por isso concentra principalmente nele a sua disposição maligna. Fazendo jus ao nome, provoca-o com enigmas verbais cuja resolução levaria ao confronto final entre os dois. 

“The Batman” é coerente em sua proposta ao destacar o visual sombrio e compacto no qual Gotham City parece se afogar. O tom escuro da paisagem é uma projeção da melancólica consciência do herói (otimamente interpretado por Robert Pattinson). Limitado pela culpa mas sobretudo preso ao dever, que é o de defender a cidade, ele resiste às investidas da Mulher Gato (Zoë Kravitz, também em ótima interpretação).

Fotografia e música (por vezes bombástica) ressaltam a atmosfera opressiva.

Pelo elenco, a fotografia e a concepção original, que humaniza e “problematiza” o tradicional personagem dos quadrinhos, “The Batman” merece uma ida ao cinema. 

 

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Conversa para passar o tempo

 

Nietzsche escreveu que, ao pensar em casar com alguém, deve-se antes fazer a pergunta: “Eu seria capaz de conversar com essa pessoa pelo resto dos meus dias?” A observação é pertinente, pois a falta do que dizer e a indisposição para ouvir são indícios de desinteresse ou mesmo de saturação.

Acho, no entanto, que responder satisfatoriamente a essa pergunta não basta para que se garanta o sucesso da união matrimonial. Isso obviamente vale mais do que os predicados físicos, pois ninguém deve se casar atraído apenas por um rosto bonito, um corpo atlético ou roliço, um jeito gracioso de sorrir. Esses critérios animam a paixão, mas são irrelevantes para um tipo de relacionamento em que os envolvidos se propõem a permanecer juntos e constituir uma família.

A resposta positiva à pergunta do filósofo também vale mais do que a condição econômica, embora o dinheiro tenha enorme importância por tornar de algum modo suportável a infelicidade. Mas o fato é que a disposição para a conversa ou a alta condição social são pouca coisa diante de um fator que que tem mais peso: a genética.

Quem sai aos seus não se regenera, por isso é importante observar o perfil dos que têm o mesmo sangue do futuro esposo ou da futura esposa. O comportamento deles configura um modelo em que o noivo ou a noiva devem se incluir. Afinal, são filhos do mesmo pai. Apesar da individualidade dos seus membros, toda família tem uma marca, e mesmo quem destoa do padrão apresenta algumas características comuns.    

O problema é que às vezes observar o perfil da família não basta. Os genes se distribuem aleatoriamente num mesmo grupo familiar. Entre irmãos há os preguiçosos e os operantes, os lentos (um eufemismo para depressivos) e os ágeis, os discretos e os adeptos do estardalhaço.

Há na distribuição dos genes um componente de transcendência, ditado pelo Acaso, e deve-se torcer para ser aquinhoado com a melhor parte. Disso pode depender a felicidade (ou não) de um casamento ou de outros compromissos que a gente deve assumir na vida.    

E o amor? E a liberdade das nossas escolhas, que refletem nossos desejos? Isso não conta? Conta, e muito. Para que o casamento dê certo, é preciso que algo se contraponha ao que pode miná-lo devido às más predisposições dos noivos ou a outras circunstâncias adversas, e o amor tem nisso o papel mais importante.  

Por ser um produto da nossa liberdade e se radicar nos obscuros domínios do inconsciente, ele pode promover a resistência ao que no parceiro (ou parceira) é motivo de contrariedade e decepção. Graças a ele vai-se poder reduzir os efeitos negativos dos genes não propícios ao bom entendimento do casal. O amor estimula a tolerância e concorre para a aceitação do outro.  

A propósito: sobre o assunto desta crônica, conversamos eu e minha mulher. Nenhum dos dois chegou a uma conclusão (a que também não pretendo chegar agora), mas a conversa nos distraiu numa das inúmeras noites desses nossos quarenta anos de casados.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

A invenção de Aglaia


        “O pássaro secreto”, de Marília Arnaud, é o relato de uma crise. O romance se estrutura como uma parte propriamente narrativa, em que a personagem principal, Aglaia Negromonte, relata cronologicamente os fatos ligados à sua vida, e outra com características de um diário. Nessa última a personagem reflete sobre a sua experiência no lugar a que é conduzida por força das ocorrências que, em grande parte por culpa dela própria, lhe destruíram a sanidade. A bem urdida alternância entre os dois segmentos sugere-nos, desde o início, que desfecho lhe seria destinado.

O que deflagra o colapso da personagem e o seu rompimento com o mundo é saber que tem uma irmã fruto de uma ligação do pai fora do casamento e que essa irmã viria morar com a família. A existência dessa parente, em tudo distinta dela, leva Aglaia a se deparar com o que há de pior em si. Desperta-lhe inveja, ciúme e sobretudo um automenosprezo intensificado por sua índole melancólica – sugerida pela referência a “uma passageira crise saturnina”, que ela qualifica como “própria da idade”.  Não tão passageira, pois Saturno – o planeta de rotação mais lenta – é o regente interminável dos temperamentos melancólicos.   

As inúmeras referências a personagens shakespearianos nos fazem pensar no livro como uma tragédia romanceada, em que a hybris da personagem principal se metaforiza num pássaro escuro e hediondo – a Coisa. Esse pássaro horrendo não consegue levantar voo e mantém a personagem presa a seus complexos e medos: “...toda feita de asas, penas e bicos, (a Coisa) não sabia voar em alturas nem cantar o mais breve pipilo, e rastejava como uma serpente, e me socava o peito com cascos de bicho bruto”.

 Do ponto de vista psicanalítico, a Coisa é o inomeável, o indizível, o que não pode ser formulado, entre outras razões, por conter uma insuportável carga de verdade. É a projeção de um eu em desarmonia com os outros e consigo mesmo. Está no nível das “coisas indizíveis (...), tão íntimas que compartilhá-las é o mesmo que arrancar o coração e colocá-lo sobre a mesa, ‘Veja, é feio, frágil, sangrento, o que faço com ele?’”. A Coisa é um espelho da personagem presa em seu mutismo e incapaz de verbalizar com clareza o que sente e o que supõe que as pessoas sentem diante dela.

 Aglaia demonstra desde criança um enorme fascínio pelas palavras, que ela supunha estarem “por trás de tudo, uma espécie de ponte entre mim e o mundo”. Concorre para esse deslumbramento a influência do pai, Heleno Negromonte, que lhe desperta o gosto pelos livros e a introduz na leitura dos clássicos.  Com o tempo, à medida que Heleno Negromonte se alheia das obrigações da casa e imerge em seu exílio literário, a admiração da filha por ele em muito diminui. Livresco e superficial, o pai leva-a a perceber que o discurso pode ser também o lugar da mentira, do engodo, da representação.  

             A relação da personagem com a figura paterna é então ambígua; divide-se entre a idolatria e o desprezo. Ator profissional, Negromonte vive para cultuar a própria imagem. Em sua narcísica prepotência, “por acreditar que as pessoas eram o que falavam, decretava a forma como devíamos nos expressar”. Essa atitude concorre para intensificar em Aglaia a desconfiança quanto ao valor das palavras.   

  A despeito do ressentimento com a figura paterna, a personagem disputa o amor do pai com a meia-irmã que adentra a casa com o seu charme francês.  A preferência de Heleno Negromonte pela outra potencializa o ódio de Aglaia ao pai, que a rejeita e deve pagar por isso: “Um dia, quem sabe, meu pai arrancaria os próprios olhos por haver desprezado a filha que verdadeiramente o amava”.  

 É significativo que a personagem deseje para ele o destino de Édipo, culpando-o por um fracasso familiar que também se deve à esposa acomodada e passiva que aceita sem protesto a traição do marido. Esse quadro acentua na filha o sentimento de orfandade: “Cheguei a supor que fora adotada. Custava-me crer que eu era filha daquela mãe de traços à Isabelle Adjani, daquele pai de olhos azuis e porte de deus romano”.

A narrativa em primeira pessoa nos faz desconfiar dos juízos da personagem sobre os outros e sobre si mesma. Muito do que ela percebe nas pessoas é projeção da imagem que faz dela própria. Sua feiura aparece como antítese simétrica da beleza e da autoconfiança que enxerga na meia- irmã, que a seus olhos parece irresistível e perfeita: “...uma espécie de luz (...) parecia incidir sobre Thalie, distinguindo-a do restante, como se o seu mundo fosse um palco, e ela, a personagem  de um monólogo sem fim. Não, estou enganada. Aquela luz jorrava de dentro dela (...)”. Tal impressão se fortalece na medida em que a meia-irmã conquista o amor do primo pelo qual Aglaia é apaixonada.

Um ponto alto do romance é a linguagem. A autora adota um tom expressionista na descrição de lugares e sobretudo de pessoas. Por meio desse recurso, ressalta a disposição psicológica da personagem principal, que infunde na apreciação dos parentes dos quais não gosta (e são todos, com exceção da avó Sarita) o ressentimento que tem do mundo.  

O romance como gênero é uma estrutura aberta, que permite a incorporação de múltiplos elementos associados à vivência dos personagens e mesmo do autor. Seu propósito é “criar um mundo” que seja espelho deste em que nos movemos, com a sua diversidade social, cultural, geográfica e histórica.  

        Marília Arnaud explora com maestria essa possibilidade, introduzindo na trama uma ampla gama de informações e reflexões sobre temas que tradicionalmente provocam o ser humano (casamento, amizade, ciúme, morte). Faz isso com equilíbrio e um apreciável domínio do tempo, de modo a preservar a tensão narrativa e nos manter presos ao percurso autodestrutivo da personagem principal.

       No desvendamento da alma de Aglaia Negromente ecoa a voz do bardo inglês, enformando-lhe a melancólica obsessão e ditando-lhe o dilaceramento interior. Se Shakespeare “inventou o humano”, Marília Arnaud inventou Aglaia para ilustrar o abismo a que ele é capaz de descer quando o ressentimento, o abandono e o desejo de vingança lhe determinam o comportamento.

 

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Esquecendo a fantasia


Haverá ou não Carnaval? Alguns governos estaduais e municipais já decretaram que não, mas ainda não há uma resposta definitiva para essa pergunta. Por via das dúvidas, vou deixar no fundo do baú a fantasia que comprei há algumas décadas e pretendia estrear na próxima festa de Momo. Ela está empoeirada (um pouco mais do que o dono) e precisa de uma lavagem que lhe remova o bolor.

Nunca fui o que se chama de folião. Não vou ou a clubes nem participo de blocos. Tampouco desapareço de casa no sábado para só reaparecer na manhã da quarta, ressacado e com marcas suspeitas na roupa. Confesso que essa inapetência para a euforia momesca me traz algum sentimento de culpa (se não é a culpa que a produz). Para aplacar o remorso, mantenho a fantasia no baú com a esperança de um dia vesti-la e sair por aí.  Para fazer o quê, ainda não sei, mas não seria algo que se pudesse publicar neste espaço.   

Tudo indica que não haverá mesmo Carnaval, e bem que precisávamos dele. Reclusos há cerca de dois anos, ansiamos por invadir as ruas com ânimo brincalhão. Seria um meio de descarregar a neura acumulada e preservar a saúde mental. Oprimida pelo constante receio de contrair os vírus (agora há mais de um nos ameaçando), nossa mente necessita se retemperar com os influxos da festa. É nela que o povo projeta suas fantasias de grandeza e provisória redenção. Sem esse hiato de sonho, não lhe seria possível suportar a dureza de um cotidiano marcado por ameaças e privações.

O País anda sujo e feio, e quem o vem poluindo é o pior dos lixos – o lixo humano. As ruas estão cheias dele. São pessoas que, não tendo mais onde morar, amontoam-se nas calçadas e nelas passam a viver. Não se trata de um ou outro indivíduo que ali aporta para curar a bebedeira e desaparecer no dia seguinte. Trata-se de famílias inteiras, pais e mães acompanhados de seus filhos.

Ouvi de alguém que a exibição da filharada era uma estratégia para comover as pessoas em seus automóveis e fazê-las baixar os vidros. Mesmo sendo verdade, não se pode aceitar que os pais que se prestam a esse papel disponham do mínimo essencial para sobreviver. O País empobreceu mesmo, e não se precisa de estatísticas para comprovar isso. A miséria salta aos olhos e espeta o coração das pessoas sensíveis.

O Carnaval não resolveria esse e outros problemas, mas permitiria que por um momento nos alheássemos da incômoda realidade. É melhor se deparar nas calçadas com “blocos de sujos” do que se confrontar diuturnamente com a sujeira que as vem impregnando.


sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Por que o livro é o melhor amigo do homem?

Motivos não faltam:

 - Ele nos acompanha para onde a gente vá. 

- Independentemente do dia, do lugar ou do clima, está sempre disposto a se abrir para nós.

- Desde que a gente o observe com atenção, não nos deixa sair da linha.

- É capaz de contar histórias sérias ou divertidas, mas também nos orienta e instrui.

- Faz-nos “viajar” de forma segura, imune às intempéries, pelos mais diversos lugares do mundo.

- Apresenta-nos a personagens intrigantes e profundos, que nos ajudam a compreender melhor a alma humana. Com essas figuras a gente se identifica e estabelece uma comunhão impossível de estabelecer com as pessoas de carne e osso. 

- Não protesta quando o esquecemos por um tempo, deixando-o às traças, pois sabe que em algum momento a ele vamos retornar.   

- Não se irrita quando a gente o suja, amassa ou rabisca. Pelo contrário, sabe que esses maus-tratos significam que estamos vivamente interessados no que ele nos diz. 

- Não se chateia se a gente, por cansaço ou preguiça, resolve virar a página, ou mesmo substituí-lo por outro. Ciúme não é com ele.

 - Não se constrange quando o apertamos, sopesamos, manuseamos, pois sente esses contatos como uma intimidade destituída de interesses escusos ou de má-fe.

- Não fica magoado quando o passamos a outra pessoa, pois a sua fidelidade é extensiva a todo o gênero humano.

- Está sempre de bom humor, sorrindo para nós de orelha a orelha. 

O oposto da hipérbole

 

Sempre que pergunto em classe qual o oposto da hipérbole, a turma responde que é o eufemismo. Não me deparei com esse equívoco apenas em sala de aula – também o constatei em portais de língua portuguesa. 

A verdade é que o contrário da hipérbole não é o eufemismo. Essas figuras não podem se contrapor, uma vez que se situam em áreas diferentes. A hipérbole diz respeito ao “pathos” (paixão), enquanto que o eufemismo está ligado ao “ethos” (caráter).

Quem produz uma hipérbole o faz abalado por forte impressão emocional. Exagera para comover ou suscitar empatia: “estou morto de fome”, “ele tem uma vontade de ferro” (hipérbole metafórica), “daria a minha vida por você”.

Um conhecido exemplo de hipérbole aparece neste quarteto de Augusto dos Anjos:

 

        ”No tempo de meu pai, sob estes galhos,

        Como uma vela fúnebre de cera,

        Chorei bilhões de vez com a canseira

        De inexorabilíssimos trabalhos.”

 

         Os versos constam do soneto “Debaixo do tamarindo”, em que o poeta confessa o seu amor pela árvore que ensombrava a casa-grande do engenho onde nasceu. Revelam o desespero diante da morte e a esperança de continuidade pela fusão com o organismo vegetal (lê-se no final do poema: “Abraçada com a própria Eternidade/ A minha sombra há de ficar aqui!”).

         A referência ao pranto “bilhões de vezes” chorado e aos “inexorabilíssimos” trabalhos busca traduzir a intensidade de uma Dor que transcende a esfera pessoal. Não é apenas o sofrimento de um indivíduo, mas de toda a espécie humana, com a qual o eu poético se identifica.

No eufemismo, atenuamos um conteúdo desagradável com a intenção de não ferir nem chocar. O que anima esse propósito é a ética, o recato, por vezes a conveniência social. Podemos dizer de alguém muito feio, por exemplo, que “seus traços não são harmoniosos”. Ou, de uma pessoa estúpida, que ela “não tem um cérebro brilhante”. O eufemismo preserva o conteúdo e suaviza a forma.

O seu oposto é o disfemismo, que consiste no uso de expressões deselegantes, grosseiras ou chulas. Na versão disfêmica, o muito feio passa a “horrendo”, “um parto”, “um frankenstein”. O pouco inteligente é chamado de “anta”, “burro”, “quadrúpede”. O disfemismo é uma intensificação pejorativa e visa agredir ou chocar.  

         Numa de suas crônicas, Adriano Silva critica os que nada fazem sem escutar a opinião alheia e são capazes de perder o dia caso não recebam um sorriso de aprovação. Ele diz invejar os indivíduos autossuficientes, que “resolvem suas inseguranças (...) sem expor o traseiro nu na janela”. Essa referência ao “traseiro nu” é uma imagem disfêmica; por meio dela o autor critica os que costumam expor aos outros a sua intimidade.

Qual é então oposto da hipérbole? É a hipossemia, que se caracteriza pela diminuição do conteúdo significativo das palavras. Ela ocorre, por exemplo, quando alguém afirma ter sentido “uma dorzinha” que o levou ao a passar três dias no hospital; quando a mãe ameaça dar “umas palmadas” no filho (em vez de uma surra); ou quando o ricaço diz que deu “um pulo” na Europa para saber as novidades.

Vejam que nesses casos, ao contrário do que ocorre no eufemismo, não existe o propósito de suavizar um conteúdo desagradável. O emissor minimiza o sentido para reduzir a dimensão do que faz, e não para evitar agredir quem quer que seja. O que determina as escolhas é menos o decoro do que o afeto, a emoção.

No calor de Roma