sexta-feira, 27 de maio de 2011

Diálogos (4)

- Doutor, preciso melhorar minha vida sexual.
- Primeiro você precisa me dizer qual a hora em que costuma fazer sexo.
- A hora não lembro. Lembro o ano.
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Do professor para a diretora da escola:
- Acabou o material para a aula de microbiologia.
- Não faz mal. Pegue ali um pouco da merenda.
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- Como você passou a noite?
- Nos braços de Morfeu.
- Engraçado... Eu pensei que você estivesse dormindo.
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O professor explica à turma a origem da vida:
- A vida começou com um caldo químico, uma “sopa” de bactérias. Vocês não têm ideia...
- A gente tem, professor! Tomamos uma ontem no almoço.
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Diz a mulher para o marido português, que dirigia o carro ziguezagueando na pista:
- Pegue a mão direita.
- Não posso. Estou segurando com ela a direção. 

domingo, 22 de maio de 2011

Para um ensino melhor

Estudar português segundo a norma culta piora a vida das pessoas. Isso é o que sugere o livro “Para uma vida melhor”, recentemente distribuído pelo MEC em algumas escolas dos níveis fundamental e médio do país. A gente sempre soube que as regras gramaticais são uma chatice; quando mal explicadas, elas põem o pensamento numa camisa de força e podem tolher a criatividade verbal do aluno. Mas daí a piorar as nossas vidas...
Não há dúvida de que falar de acordo com a norma requer esforço. Dizer “nós vamos” pressupõe o conhecimento das pessoas gramaticais e dos mecanismos de flexão que devem adequar o verbo ao emissor. Dizer “nós vai” é mais simples. Muitos falam assim no dia a dia.
O conceito que o livro traz sobre o estudo da língua mostra que os tempos mudaram. Ouvi falar de variantes linguísticas quando estava no curso de Letras. No ensino médio aprendi que se devia usar a norma culta, pois precisaria dela para falar bem em público e, sobretudo, para redigir sem riscos o texto que me seria pedido no vestibular.
Se me tivessem ensinado que é correto dizer: "Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado", conforme está na publicação, eu certamente ficaria confuso. Segundo Heloísa Ramos, autora da obra, numa frase como essa a presença do “os” já é suficiente para indicar o plural.
Por que apenas a do “os”? Suponhamos que esse artigo estivesse no singular e que os adjetivos, também determinantes do substantivo “livro”, estivessem no plural. De quantos e quais livros se estaria falando? Se a própria palavra “livro” está no singular, o lógico é pensar que se fala de apenas um. “Mas o verbo está no plural” -- dirão. Ora, com tanta arbitrariedade na flexão dos nomes, poderíamos pensar que houvera engano também na do verbo. Sobretudo porque cabe a ele concordar com o termo nominal, e não o contrário.
Para justificar a construção “Nós pega o peixe”, a autora afirma: “...quem ouve a frase sabe que há mais de uma pessoa envolvida na ação de pegar o peixe”. Evidentemente que sabe. Mas se o objetivo do falante é apenas se comunicar, independentemente da forma usada para isso, não precisa haver escola. A escola existe para orientar sobre certos mecanismos de ajuste que dão coerência formal ao texto.
Numa frase como essa que a professora citou, o desrespeito à norma não traz grande prejuízo. É possível entender a mensagem. Em outras, contudo, pode gerar confusão de sentido. Há inúmeras situações em que a concordância é o meio de identificar o sujeito, ou seja, de saber a quem (ou a quê) o verbo se refere.
O livro procura evitar que os alunos sejam preconceituosos. É discriminação rejeitar o registro coloquial nas situações em que ele se impõe. Mas isso também ocorre quanto à língua padrão; rejeitam-se aquelas pessoas que, nas situações em que se pede uma linguagem espontânea e mesmo “inculta”, aparece falando certinho. Nem por isso a escola deve orientar que se fale “errado” para se adequar a tais situações informais.
A melhor maneira de fazer ver a pertinência do registro coloquial, ou mesmo do popular, é apresentar os textos orais ou escritos em que eles ocorrem e mostrar aos alunos que não constituem infrações. Apresentá-los como “recomendáveis” ou nivelá-los aos que observam a língua padrão só tem um efeito: confundir os estudantes e, de certo modo, negar o papel da escola.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Repensando os provérbios

Camões diz num soneto que o mundo é feito de mudanças. Isso contraria o Eclesiastes, para o qual não há nada de novo sob o sol. O mais prudente é chegar a um equilíbrio e reconhecer que as coisas mudam para permanecer iguais. Ou se tornam iguais a cada vez que mudam.

Se as coisas se transformam -- mesmo mantendo sua essência --, transforma-se também a linguagem. Os provérbios, por exemplo. Eles são generalizações, e como tais expressam verdades aparentemente imutáveis. Mas será que não têm de se adaptar à evolução dos tempos? Sempre é possível, nem que seja por um artifício poético ou irônico, vê-los com nova roupagem.
Diz-se (ou melhor, Hobbes disse) que o homem é o lobo do homem. Ora, hoje ele é muito mais logro do que lobo. Nosso propósito é antes enganar do que devorar o semelhante. Passamos-lhe a perna nos negócios, nos concursos, nas relações sentimentais. E queremos que ele se mantenha vivo para presenciar nossa vitória -- o que seria impossível caso o triturássemos entre caninos esfaimados. Retifiquemos, então: “O homem é o logro do homem”.
Vivemos tempos pragmáticos e pouco dado a especulações filosóficas. A especulação que nos interessa hoje é a financeira, por isso proponho esta atualização para o axioma de Descartes: “Penso, logo invisto.” Trocar “existir por “investir” ajusta-se melhor a uma época na qual se cultiva pouco o ser e se medem as pessoas pelo que elas têm.
“O que os olhos não veem o coração não sente” é outra sentença que não bate muito com a realidade -- mesmo porque pode ser facilmente contestada. Suponhamos que nossos olhos não vejam um buraco à nossa frente. Fatalmente cairemos nele, e duvido que em tal circunstância o coração não sinta, e não responda com uma galopante taquicardia. Mudemos, pois, esse brocardo para alguma coisa como: “O que os olhos não veem pode nos fazer tropeçar”. Simples, prático, irrefutável.
“O futuro a Deus pertence” também deve ser visto com reservas, pois não expressa uma verdade universal. Um político nepotista, por exemplo, dirá com mais exatidão: “O futuro aos meus pertence”. E quem pode dizer que ele está errado?
A atual onda ecológica torna suspeita a afirmação segundo a qual “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”. Ter um pássaro na mão sugere a atitude politicamente incorreta de comê-lo ou engaiolá-lo, enquanto que deixar os dois a voar concorre para a preservação da espécie. É um gesto de respeito à vida, que os ecologistas e os poetas agradecem. Proponho, então, uma variante menos ofensiva à natureza (se algum grupo preservacionista quiser aproveitá-la, fique à vontade): “Um pássaro na mão não vale a sua extinção”.
Para terminar, sugiro que se substitua o bondoso “Quem sai aos seus não degenera” por algo mais condizente com a natureza humana. Por exemplo: “Todo filho é a tara do pai”.
(Em "A idade do bobo", p. 35)

domingo, 13 de março de 2011

Questões transcendentes (e respostas nem tanto) (3)

1) Você se acha uma pessoa constante? R.: Às vezes.
2) Como distingue sexo de amor? R.: No sexo, cuidamos do outro pensando em nós; no amor, cuidamos de nós pensando no outro.
3) Tem medo do inferno? R.: Tenho mais medo dos que querem me livrar do inferno.
4) Diga uma frase essencialmente mentirosa. R.: Eu não minto.
5) O que acha inútil na vida? R.: O que não traz respeito, dinheiro ou prazer.
6) O que pediria às pessoas que o seguem? R.: Que me mostrassem o caminho.
7) O que é mais difícil na vida? R.: Representar o próprio papel.
8) É possível ao homem chegar ao autoconhecimento? R.: A gente só se conhece até onde não é.
9) Acredita no socialismo? R.: A maioria é pela igualdade de classes desde que se preserve o seu status.
10) Dê um conselho aos vaidosos. R.: Quem vive “se achando” ainda não se encontrou.







segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Diálogos (3)

- Doutor, acho que estou louco.
- Deixe de tolice. Quem lhe disse isso?
- Uma voz...

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- Maricota, como é mesmo o nome daquela doença que eu tenho?
- Amnésia!

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- Professor, diga uma frase de espírito.
- “Hoje à noite venho lhe assombrar!”

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- Meu marido só pensa em sexo.
- Pois o meu pensa, e também faz.
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- Só sei que nada sei.
- Pois eu, nem isso.



segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Humor e linguagem

O texto de humor é excelente material para o estudo da língua. Isso porque os recursos que levam ao riso decorrem de uma relação muito peculiar entre significante e significado. O efeito humorístico vem de uma ruptura que, como no texto poético, promove uma desautomatização do sentido. Espera-se uma coisa, e aparece outra. Primeiro, o ouvinte/leitor se depara com o imprevisto; depois, constata que esse imprevisto aponta para outro sentido, portador de uma intenção crítica ou irônica.

Vejamos três exemplos, todos do que se poderia chamar “piadas de casal” (casais comumente são fontes de narrativas humorísticas; em Shakespeare e nos românticos em geral aparecem também como alvos de tragédia, sublimidade, ou as duas coisas juntas).

Eis o primeiro exemplo. Conversam marido e mulher, e de repente ela diz: “ -- Querido, tive uma ideia.” E ele: “Teve?” A resposta do marido à declaração da mulher é despropositada. Esperava-se que ele quisesse saber qual fora a ideia. Ao surpreender com a indagação um tanto exclamativa “Teve?”, o homem emite um juízo sobre o intelecto da sua esposa; sugere que ela ter ideias é no mínimo algo muito raro. Rimos não da resposta impertinente, mas do sentido para o qual essa resposta aponta.

O segundo e o terceiro exemplos assentam na ambiguidade, que é um manancial de piadas. A palavra nesses casos tem mais de um sentido, dos quais um é convencional e pertinente -- e o outro “não cabe” na situação, aparece como intruso. Por força dessa intrusão abre-se uma clareira semântica, propõe-se um nexo associativo surpreendente, que promove o riso.

Vamos ao segundo exemplo, também um diálogo. Desta vez quem fala primeiro é o homem: “ - Querida, acho que nascemos um para o outro.”

“- É verdade. Difícil vai ser encontrar esse outro.”

A piada ironiza o velho clichê da retórica amorosa “nascer um para o outro”. O efeito humorístico decorre da ambiguidade do pronome “outro”, que na fala do homem tem um caráter menos neutro e mais definido (“o outro” é cada um dos dois). A mulher, contudo, interpreta o outro como “alguém”, “outra pessoa”. Mas não rimos disso. Rimos do que se revela na “troca”, ou seja, que o homem com quem ela está ainda não é aquele por quem seu coração espera. Coloquei “troca” entre aspas, pois freudianamente a mulher não faz confusão alguma. O aparente engano reflete uma verdade que seu inconsciente conhece muito bem.

Agora o terceiro exemplo. Terminada a cerimônia, o homem diz à mulher com quem acabou de se casar: “- Agora devemos nos transformar em um só corpo e um só espírito. Proponho que sejam os meus.”

Essa é uma piada machista, tanto que a mulher não tem voz; só o homem fala. A figura que promove o efeito humorístico é a antítese entre a ideia de igualdade, presente no primeiro período (devemos ser “um só”), e a locução “os meus” do segundo, que destaca apenas a figura masculina. O humor não seria possível sem a ambiguidade presente em “um só”, que dá ideia tanto de fusão (promovida pelo casamento) quanto de exclusão (traduzida no propósito do homem de se superpor à mulher).

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Questões transcendentes (e respostas nem tanto) (2)

1) Acha a existência gratuita? R.: De modo algum. Tudo nela é pago -- da maternidade, onde nascemos, à capelinha onde vão nos velar.

2) O que é, para você, um grande homem? R.: Um grande homem, o mais das vezes, é alguém de quem só se conhece uma pequena parte.

3) Tem medo de ser esquecido pelas pessoas? R.: Por algumas, tenho medo de ser lembrado.

4) Que acha do casamento aberto? R.: O casamento é uma sociedade de companhia limitada. Abrir o capital pode ser um risco.

5) Aponte uma diferença entre juventude e velhice. R.: Na juventude fazemos sonetos. Na velhice rezamos -- ou fazemos piadas.

6) Que acha do radicalismo? R.: Sou rigorosamente contra toda espécie de radicalismo.

7) Acha que o Acaso nos governa? R.: O Acaso pode ser a lógica de Deus.

8) Acredita em movimentos sociais? R.: Acredito mais nos sexuais, pois eles não discriminam quem está em cima e quem está embaixo.

9) Faria um pacto com o diabo? R.: Desconfio de que ele não ia aceitar. Minha alma foi contaminada pela bondade.

10) O que o tira do sério? R.: Uma boa piada. 

Visita de aniversário