quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Sobre o tempo e o prazo

Deus criou o tempo, e o Diabo nos fez criar o prazo. 

O tempo (ou a percepção de que existe algo com esse nome) é um fluir interminável, do qual participa (e depende) tudo que existe na Natureza e no Cosmo. É a condição para que as coisas mudem e a vida se processe do nascimento à morte. Ele não tem fronteiras, pois constitui um eterno devir. 

Já o prazo é uma fração do tempo determinada pelos deveres e compromissos que a vida social nos impõe. É arbitrado segundo intenções bem concretas, atendendo a limites que nos obrigam a agir, o mais das vezes, sob pressão. É, enfim, a substituição do devir pelo dever.

O tempo tem algo de transcendente e imodificável (a não ser na equação einsteiniana), enquanto que o prazo se estica ou reduz conforme determinados apelos ou circunstâncias; e depende da forma como sentimos determinados eventos. 

Quem não já percebeu que o que é ruim passa mais devagar? Ou, para lembrar Bergson, “dura” mais? A duração, categoria intuída pelo filósofo francês, está ligada ao  prazer ou desprazer que os acontecimentos provocam em nós.

Quando alguém diz que quer “um pouco mais de tempo” para saldar uma dívida ou vivenciar uma experiência, quer na verdade dizer que deseja um prazo maior. O tempo é inteiro e não se quantifica.

Nosso medo da morte se liga, não à passagem do tempo, mas à constatação de que a vida tem um prazo ditado pelas condições biológicas. O prazo nos faz naufragar no rio do tempo, cujo fluir se confunde com a eternidade. 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Sinal dos tempos

           

Ele pensou em dar à família um Natal diferente. Estava cansado de ver todo ano a mesma coisa: a parentada em volta da árvore, comendo e bebendo, depois a entrega dos presentes, e por fim a ceia. Sentia que, a despeito de a festa existir para renovar os espíritos, era preciso mudar um pouco o ritual.   

Mas como fazer para inovar num acontecimento que se alimentava da tradição? A mulher havia anos armava a mesma árvore. Estava (a árvore, não a mulher) tão velhinha, que toda a iluminação já fora trocada. Ele sentia um confortável prazer em ver a esposa retirar do armário os objetos conhecidos e recolocá-los quase no mesmo lugar. Um ano era muito tempo, o que sempre o fazia se surpreender com detalhes que não observara em anos anteriores. A roupa do anjo Gabriel, por exemplo. Ou a barba de um dos reis magos.

      Então lhe ocorreu a ideia: contratar um Papai Noel para vir, em pessoa, entregar os presentes. A família era pequena; dava para acomodar num saco os mimos que compraria para a esposa, os três filhos, os sogros e as duas cunhadas.  

Ficou imaginando o efeito: meia-noite, ele reunido com a família na sala, e todos estranhando nesse ano não haver presentes. A sogra desapontada, pois esperava um novo modelo de toalha de mesa. O sogro, chateado, porque precisava de cuecas e deixara de comprá-las justamente porque o Natal estava chegando. De repente, alguém bateria na porta. A filha mais nova iria ver quem era e voltaria gritando, afogueada:

–  Mãe, é Papai Noel!

– O quê?!

Bolado o plano, tratou de o pôr em prática. Não foi difícil contratar alguém. Nessa época muitos indivíduos com o chamado “físico do papel” dão seus nomes a agências de emprego, que são procuradas sobretudo pelos shoppings. Ele foi a uma delas. Depois de ver fotos e fazer uma entrevista com o escolhido, contratou o serviço.  

Comprou os presentes e, na véspera do grande dia, deixou-os com o homem. Era um senhor grisalho, bonachão, conforme convinha à personagem. Até ria parecido com o ícone natalino, sem precisar forçar muito o “Rô Rô”. Chamava-se Leopoldo e tinha um Fiat velho, mas em bom estado, no qual levaria os pacotes.

Enfim, noite de Natal. Para diminuir a perplexidade dos parentes, que não compreendiam a ausência dos presentes em volta da árvore, ele disse que mais tarde haveria uma surpresa. Gerou-se uma tensa mas alegre expectativa, que só foi quebrada quando um carro parou quase em frente à casa.  

Após uns dois minutos, ouviram-se gritos de “Pega! Pega ladrão!”. Ele correu até a calçada e viu Leopoldo, desesperado, apontando para dois rapazes que dobravam a esquina levando o saco no qual estavam os presentes; balançava a cabeça e repetia, como que se desculpando:

 – Vieram de surpresa! Não pude fazer nada...

        Tratou de tranquilizar o pobre homem e o conduziu ao interior da casa.

– Este é Leopoldo – apresentou, explicando em seguida o que planejara.

Houve algum desapontamento, mas todos acabaram compreendendo. Nesse ano não teriam presentes, mas ali estava Papai Noel! Se o despojaram da carga preciosa, qual o remédio? Ninguém hoje tem segurança ao andar nas ruas, ainda mais à noite... O importante era não perder o espírito natalino.

E com isso em mente riram, deram um abraço no Bom Velhinho e o convidaram para a ceia.

domingo, 22 de dezembro de 2024

Fidelidade latina

            A série “Cem anos de solidão”, que estreou recentemente na Netflix, faz jus à obra-prima que lhe deu origem. Reproduz com primor os eventos, a atmosfera e os conflitos presentes no romance, que transcende do realismo para captar a experiência e o imaginário de uma família latino-americana e sua descendência.   

Jose Arcádio Buendía, o patriarca da prole, é um visionário que pretende descobrir por meio de confusos experimentos alquímicos os segredos e as leis da Natureza. Influenciado pelo cigano Melquíades, perde noites buscando entender o enigma da vida e da morte. Enquanto isso, os membros da família se dispersam dentro e fora de casa, dando curso aos instintos sexuais (alguns incestuosos), ao enseio utópico de outras terras ou à obsessão revolucionária. De um modo ou de outro, a violência permeia esses comportamentos.  

Chama a atenção na série o trabalho dos atores, de uma impressionante homogeneidade – com destaque para as atrizes que interpretam a personagem Úrsula. Delas emana uma fortaleza e uma convicção condizentes com o papel de esteio da família. São paradigmas da mulher que se impõe pelo discernimento e a sensatez num cenário de homens tíbios ou tresloucados.

Outro mérito está na direção, que orienta a câmera pelos desvãos da casa como se quisesse ressaltar que ali é um micromundo e, obviamente, espelha um cenário bem maior. Concorre para a beleza plástica do filme a alternância entre esses movimentos e a fixação da câmera em quadros cuja cenografia é rica de significados. É como se a direção pretendesse que o espectador neles se detivesse para melhor captar a inter-relação entre o ambiente e a psicologia dos personagens. Os quadros valem por si.

       A opressão do poder político, com as suas tramoias e o uso truculento da força, enseja a tragédia que ocorre no final. Encoraja tanto a luta armada (de que é exemplo máximo o comportamento de Aureliano), quanto as alienadas elucubrações do velho patriarca, que enlouquece por não conseguir encontrar um sentido para a vida. Amarrado ao tronco que genealogicamente simboliza, ele sonha reencontrar Melquíades nas águas lustrais de um lago onde o outro, ironicamente, veio a se afogar. 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Um poeta além da vanguarda


            Foi-se Gilberto Mendonça Teles, crítico literário, professor e poeta. No âmbito dos estudos literários, escreveu o elogiado “Vanguarda europeia e Modernismo brasileiro”, no qual reproduz e comenta os manifestos de vanguarda que influenciaram alguns dos nossos autores modernistas. 

Para ele nem toda vanguarda é boa, ou seja, nem toda ela enriquece com novas técnicas e formas a poesia. Daí o apelo um tanto jocoso que faz no poema "Prece", publicado em “Arte de armar”: “Ah! Meu anjo bom,/ meu anjo da guarda,/ livrai-me do mal.../ dos maus da vanguarda."

Sua produção poética é marcada por uma aguda consciência artesanal e pela valorização da metalinguagem, que corresponde a uma crise e, ao mesmo tempo, a um revigoramento da poesia. 

Cheguei a ouvir dele: “Em vez de tematizar velhos universais como o amor, a Natureza, a saudade, os poetas passaram a se debruçar sobre o próprio fazer poético”. Isso explicava a sua admiração pela poesia de Drummond, entre outros modernos, sobre cujas repetições estilísticas escreveu um estudo que se tornou clássico.

O autor de “José”, a propósito, foi um dos presentes ao almoço comemorativo dos seus 50 anos, ocorrido na Churrascaria Porcão, no Rio. A foto é um flagrante dessa comemoração; nela aparecemos eu e Denise com Gilberto (à esquerda) e com o amigo e escritor Virgílio Moretzsohn Moreira, também falecido. 

          Um dos títulos mais importantes de Gilberto é “Saciologia goiana”, em que utiliza o mito do Saci para discutir erotismo, realidade político-social e intertextualidade no quadro da tradição literária. Consciente do próprio valor, não se importava com ser reconhecido “agora”. Confiava no juízo do tempo, que é sempre o senhor da última palavra.

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Para além do esquecimento


             “Ainda estou aqui” tem lotado as salas de cinema brasileiras. Vi-o há pouco e entendo a razão do sucesso. O filme é um registro impactante do pesadelo que o País viveu nos chamados “anos de chumbo”.   

A partir do sequestro e morte do ex-deputado Rubens Paiva, o roteiro enfoca a esfacelamento de uma família de classe média, igual a tantas outras, que de repente se vê aterrorizada pela prepotência e o arbítrio. O alegre convívio familiar, marcado por jogos, brincadeiras, idas à praia, é rompido pela presença enigmática de “estranhos” que invadem a casa.

Além de levar o chefe, eles fazem ao longo de semanas um cerco que inflige apreensão sobretudo a Eunice, esposa do político, que tenta esconder dos filhos o perigo que os está rondando. A personagem é interpretada por Fernanda Torres, cotada para o Oscar. Ela bem que merece ganhar a estatueta; com a sua interpretação tensa, contida, deixa transparecer sobretudo pelo olhar o desespero que vai tomando conta de todos. 

A cena em que toma banho ao voltar para casa, após a reclusão numa cela policial, merece figurar numa antologia do cinema. A ênfase com que esfrega o corpo gretado e macerado traduz uma repugnância que não é apenas da sujeira física. Ela parece querer extirpar da alma o que ali involuntariamente testemunhou da degradação humana.

A sequência final, em que Eunice é interpretada por Fernanda Montenegro, constitui um dos pontos altos do filme. Vale pelo meticuloso desempenho da atriz e pelo simbolismo que contém. Com Alzheimer, e já esquecida de quase tudo, a personagem manifesta uma rara porém significativa reação ao ver, numa reportagem televisiva, a foto do marido entre um grupo de “desaparecidos”. Só mesmo a Grande Dama para traduzir na medida, com verossimilhança, o traço de emoção que alguém acometido pelo Alzheimer pode experimentar.   

            A doença, então, aparece no filme como uma metáfora; evoca um esquecimento maior e mais grave, referente ao que o País viveu naqueles tempos sombrios. E nos sugere, ante o estupor da personagem, que a amnésia histórica pode levar à reprodução de tudo aquilo.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

O silêncio do inocente


Lembro-me de uma cena que presenciei, há alguns anos, num restaurante da praia que eu costumava frequentar. Nele quase sempre havia pouca gente, de modo que era possível se sentar, pedir uma cerveja e passar minutos ou horas matutando. Enquanto as garrafas vazias se multiplicavam, abrandando o peso das noites de sábado, a gente pensava na vida – às vezes, também, na morte – e curtia uma rala, iluminada, melancolia.

Todo rapaz, entre os quinze e os vinte anos, tem a sua pose de romântico da Segunda Geração. Eu estava nessa, curtindo o tédio e bebendo por uma espécie de compulsão litúrgica – que fazer no sábado à noite, a não ser isso? Foi quando vi entrar o casal. Ou não apenas um casal, pois havia com eles – ou entre eles – um menino.

Difícil era saber por que vieram parar ali. O homem tinha um rosto dostoievskiano – seco e duro. A mulher estava pálida e, pelo vermelho dos olhos, via-se que tinha chorado. Em sua inocência distraída, o menino só se parecia mesmo com um menino. De olho nas garrafas das mesas (certamente pensando nas tampinhas), vez por outra mirava um tanto perplexo os dois.

Sentam-se, encomendam qualquer coisa e, antes mesmo que o garçom traga o pedido, começam o falatório – com pressa, e no seco. O homem fala alto mesmo para um bar, não se importa com as pessoas em volta. A mulher argumenta, contesta, defende-se. Como sou vizinho, chegam à minha mesa fagulhas da discussão. E o curioso é que vou começando a ficar sóbrio. A intrusão súbita da vida real desfaz o meu incipiente torpor alcoólico.

Em dado momento, o sujeito aponta para o menino e diz: “Se não fosse por ele...”. Não completa a frase, mas é fácil de entender. A mulher rebate com raiva, exalta-se e provoca: “Se ele é o problema...” – não ouço o término da frase. Um casal em crise e entre eles um menino. O homem agora acusa os pais dela de não sei o quê, a mulher se defende dizendo que era ele o ingrato: “Você sempre teve má vontade. E não pode dizer tantinho assim de meus pais, que têm nos ajudado inclusive financeiramente.”

Ao ouvir isso, o raskolnikov dá um soco na mesa e faz menção de se levantar. Mas não se levanta, engole a possível ofensa com um copo de água mineral; o garçom tinha vindo e deixado uma coca e uma garrafinha d’água. A coca era para o menino. A mulher não quis nada. Olha em torno e distraidamente me vê. Disfarço, constrangido, e finjo que não percebo sua nova torrente de lágrimas. O menino tem o ar impaciente e assustado.  

Depois de algum tempo os dois vão embora, levando a reboque o seu pequeno estorvo. Fiquei me perguntando: por que na frente do menino? Por enquanto, ele era um involuntário problema para os dois. No futuro, arruinado por cenas como essa, seria um desastre incurável para si mesmo. Aquela cena jamais me saiu da cabeça. Pensei que os adultos até poderiam brigar, trocar farpas, externar um recíproco ressentimento – mas não tinham o direito de, ao fazer isso, destruir a inocência das crianças.

Visita de aniversário