domingo, 2 de março de 2014

Timidez e folia

      Manuel Bandeira encerra o poema “Epílogo”, escrevendo: “– O meu carnaval sem nenhuma alegria!”. É um verso triste, em que não devemos nos iludir com o ponto de exclamação.  Ele está ali para indicar perplexidade, pois o que menos se perdoa em alguém nessa época é a falta de alegria.
     Esse argumento me faz ponderar se devo escrever sobre o Carnaval. Conheço pouco do assunto, por falta mesmo de experiência, e tudo que dissesse me faria, digamos, perder o passo. Esta palavrinha, folião, pode se aplicar a todo o mundo, menos a mim. Nas vezes em que tentei entrar no espírito da festa, pequei por inércia e me deparei com uma assombração. Ou melhor, com uma sombra, espécie de ectoplasma da minha indiferença e sisudez.
      Mas nem tudo foi assim tão escuro; tive meus pequenos arroubos nas ruas e clubes da vida. Há no Carnaval uma enorme porta aberta para o avesso do que somos, e à qual ninguém fica indiferente. Pode-se não cruzar o umbral, não aderir ao frenesi, no entanto é impossível não se encantar com o que do outro lado nos acena.
       Para quem tem dificuldade de ir no arrasto, o álcool é um excelente indutor. Foi ele que me salvou nas bailes da adolescência, quando era preciso convidar as meninas para o meio do salão e me manter por ali, acompanhando o ritmo de frevos e marchas. Eu era um tímido assumido (e quase sumido), e sem a vodca ou o rum ficaria emperrado. 
            Essas bebidas depois cobravam ao fígado a coragem que me davam, mas sem elas era pior. Melhor a náusea, a dor de cabeça e o vômito do dia seguinte do que a sensação de ter se subtraído ao apelo geral. Um apelo feito de música, risos, carne. 
        A falta de jeito terminou se impondo, e com o tempo não forcei mais. Fui aprendendo a sublimar os prazeres da festa. Deixei de ir a clubes e cordões de folia, preferindo ver o espetáculo da calçada e, depois, pela televisão. Isso coincidiu com o avanço da idade, que naturalmente nos torna menos carnavalescos. O Carnaval exige corpo, energia, disposição para a noite e a aventura – requisitos que diminuem com o tempo. 
    O fato de essa diminuição despertar o gosto pela nostalgia nada tem de surpreendente. Lembrar velhos carnavais é uma das melhores ocupações desta época. Pouco importa se participamos ou não deles; importa é o que lhes acrescentamos de imaginação. Não conheço ninguém que não tenha saudade dos “carnavais de outrora”, que são sempre melhores do que os de hoje. “Outrora” não remete a décadas atrás, ou mesmo a um passado longínquo; remete a uma dimensão fora do tempo, onde vigoram nossas fantasias.
        Fiquei me devendo alguns carnavais, mas quem nesse tipo de experiência pode dizer que teve tudo? Mesmo quem se dá totalmente aos festejos chega ao fim com a sensação de que faltou alguma coisa. Isso consola um pouco os enrustidos, mas não os compensa da sensação de que os que brincam são mais completos. E mais felizes.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Seleção de frases (31)

Estúpido não é quem não entende. É quem não se faz entender.
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O brasileiro dá jeito em tudo, menos no “jeitinho”.
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Se há estrilo, não há estilo.
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 A admiração leva ao respeito, mas nem sempre o respeito leva à admiração.
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 As melhores frases são sobre o que perdemos.
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 Quem vive “se achando” ainda não se encontrou.
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 Um bom dentista não precisa de comercial. Basta o boca a boca.
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 Quem é vivo um dia desaparece.
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 A monotonia cotidiana é uma tragédia em câmera lenta.
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A malícia é a milícia da razão.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A doença da paixão


A paixão é uma doença.
Disso quem é que duvida?
E quanto mais forte, ela  
mais deixa em perigo a vida.

E não é doença tola,
dessas que fácil se cura -
mas uma síndrome, um complexo,
pois com as outras se mistura. 

Tem da gripe, o lacrimejo;
da asma, a falta de ar;
da neurose, o medo mórbido;
da artrite, o latejar.

Do diabetes, o “açúcar”
que não se metaboliza;
da psicose, a angústia
que deforma e tiraniza.

Da rinite, a persistência;
da urticária, o calor;
da diarreia, a urgência; 
da febre alta, o rubor.

Do herpes, tem o contágio
que se reforça no beijo. 
E da otite, o zumbido;
da rouquidão, o arquejo.

Da paranoia, a tendência    
a ser sempre vigiado
ou a vigiar o outro   
(tão querido e odiado!).

Tem da enxaqueca, a aura,
que o parceiro diviniza.    
Do tétano, a convulsão, 
que o prazer mimetiza.

E tendo, assim, a paixão
sintomas tão variados, 
por que então desse mal
ninguém quer ficar curado? 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Seleção de frases (30)


O saber que não muda o comportamento é como a comida que se mastiga e joga fora.
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No mais das vezes, a paixão começa com fogo e termina no fogão. 
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De todas as virtudes, a paciência é a que mais exige tempo. Por isso não deixa de ser irônico pedi-la aos velhos.
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Elegante é a mulher que sabe se vestir. Sensual, a que sabe tirar a roupa.
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Sejamos otimistas. Em 2014, o Brasil com "jeitinho" vai.
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A opinião pública é o triunfo da maioria silenciosa sobre a minoria estridente.
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Quem sai aos seus não se regenera.
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Se não conseguir realizar seus sonhos no novo ano, procure ao menos se livrar de alguns pesadelos.
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O crack é o verdadeiro caminho das pedras.
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Geralmente a idade do fardão é também a do fraldão.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Escapando

         Seu Aderson era um velho amigo da família. Costumava nos visitar pelo menos uma vez por mês, geralmente aos domingos, quando ficava para o almoço. Vestia-se com a elegância que o salário da prefeitura permitia. Embora não fosse de sorriso fácil, parecia de bem com a vida.
       Sempre que entrava em nossa casa e lhe perguntávamos como estava, Seu Aderson respondia: “- Vou escapando.” Eu era muito pequeno e não entendia bem o significado daquilo. Escapando... de quê? Ouvira algumas vezes essa palavra e me acostumara a lhe dar um valor exagerado. Quando falavam sobre desastres, por exemplo, diziam que houvera tantas vítimas e um ou outro tinha escapado. Em alguns casos, não escapara ninguém!
         Isso fazia com que a palavra tivesse para mim um odor de tragédia. E lá vinha Seu Aderson banalizar-lhe o sentido, usando-a numa situação comum. O que ele tinha vivido de tão perigoso para dizer que ia escapando?
         O velho morreu faz tempo (disso não escapou) e eu continuo por aqui. Vivo num mundo algumas décadas diferente daquele em que ele viveu, e sempre que me perguntam como estou indo o meu impulso é o de repetir suas palavras: “- Vou escapando .” E não digo isso por força de expressão.
     Ultrapassar mais um dia nos tempos atuais é sobreviver a uma série de combates e riscos. Quem consegue, escapou. O que diria Seu Aderson caso hoje lhe fosse exigido, por exemplo, percorrer as ruas da cidade à noite? Quem sai de casa nem sempre tem a certeza de voltar. As drogas e a bandidagem tornam qualquer percurso noturno uma aventura cujas consequências ninguém imagina. Ou imagina, sim, e por isto sai temeroso, deixando a família inquieta. Nunca pareceu tão verdadeira a conhecida frase de Guimarães Rosa: “Viver é perigoso.”
         Já se começa o dia cercado por expectativas ameaçadoras. As primeiras manchetes dos jornais impressos ou televisivos são de violência. Vizinhos assassinam vizinhos, pais matam filhos (ou vice-versa), torcedores se trucidam nos estádios. Parece que o mundo se transformou num grande açougue, e ninguém está livre de ser abatido na próxima esquina. Dizer que os bandidos venceram a guerra contra a polícia virou um lugar-comum que aceitamos como uma irônica fatalidade.
         A violência não vem só dos marginais, ou seja, não se alimenta apenas da desigualdade social. Entre pessoas da mesma classe também é grande o furor, a intolerância, o impulso de agredir por qualquer motivo. Parece que um enervamento sistemático corre em nossas veias. E o trânsito, com o perdão do trocadilho, é em grande parte o veículo dessa hostilização. Há carros demais, motos demais, gente demais querendo ir ao mesmo lugar na mesma hora.
         Seu Aderson não tinha carro, andava a pé, o que sem dúvida lhe tornava mais fácil ir escapando. Nos dias de hoje há mais apelos e desafios. Escapar exige o concurso de todos os sentidos e também o bafejo da sorte. Num mundo em que a violência ultrapassou de muito os limites da racionalidade, voltamos a depender do destino para ganhar mais um dia.

domingo, 24 de novembro de 2013

É ou não é chato?

Ser alvo da gentileza das garotas por estar na faixa dos preferenciais.
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Escolher um lugar tranquilo na praia e ver estacionar bem perto um carro com um daqueles potentes serviços de som.
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Não poder comer chocolate, devido a enxaqueca, e ver os parentes fazerem isso o tempo todo, com expressão de gozo, como se fosse provocação.
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Ouvir da esposa que há muito tempo a gente não lhe faz uma declaração de amor, e não ter nenhuma desculpa boa para dar.  
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Ser surpreendido por um temporal a 500 metros de uma marquise. 
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Ver um amigo ganhar de outro o mesmo presente de aniversário que a gente deu a este último, e ainda na embalagem.  
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Fazer dieta para perder uns quilos e perceber que se está aumentando de peso, pois era preciso também fazer exercícios.     

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Seleção de frases (29)

Os pobres herdarão a Terra. Mas já não encontrarão nada que valha a pena. 
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Quem olha demais os grãos não devora a espiga.
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No Brasil, licitação é sinônimo de ilicitude.
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O espectro que mais me assusta é o ideológico.
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Quando o prêmio amarga, é um “trofel”.
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Se o assassino volta à cena do crime, é culpa. Se a vítima faz isso, é aparição.
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Entre namorados virtuais não há segredos. “O que e-mail é teu.”
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Jamais confie em quem queira lhe vender a salvação. Deus não utiliza intermediários.
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O funcionário se chama “fantasma” porque, se um dia aparecer na repartição, vai assustar todo o mundo.
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Escrever é uma atividade de risco. 






Visita de aniversário