segunda-feira, 30 de junho de 2014

Exílio

Uma coisa em mim sabe
Uma coisa em mim quer
Uma coisa em mim sonha
Mas no fundo não é

Uma coisa em mim bruta
Uma coisa em mim flor
Que ora me chama à luta
Ora finge o pudor

Uma coisa perdida
Ou que não vai ter fim 
Passa longe tão longe
E está dentro de mim.

(da série "Meus pecados poéticos") 

domingo, 11 de maio de 2014

O debate no "Fantástico"

     Aprimorar o processo de correção do Enem é fundamental para tornar justa a avaliação dos candidatos. O governo vem tentando fazer isso, conforme demonstraram as medidas tomadas para impedir que em 2013 se repetisse o que ocorreu em 2012. No ano retrasado, redações com inserções indevidas (hino de clube, receita de macarrão) foram corrigidas normalmente. No ano seguinte redações desse tipo foram anuladas, por se entender que seus autores não tinham a intenção de fazer o exame a sério.
        O “Guia do Participante – 2013" trazia instruções claras quanto a esse ponto. Lia-se na página 9 que a redação receberia zero se apresentasse, entre outras características, “impropérios, desenhos e outras formas propositais de anulação ou parte do texto deliberadamente desconectada do tema proposto”. Também eram condições para zerar “fuga total ao tema”, “não obediência à estrutura dissertativo-argumentativa” e “texto com até 7 (linhas)”, entre outras práticas.  
       O debate levado ao ar pelo Fantástico no último dia 4, e do qual participei com outros quatro professores, tinha por objetivo avaliar até que ponto essas recomendações foram observadas pelas bancas. Jornalistas ligados à produção do programa escreveram textos infringindo-as propositadamente, por vezes de forma gritante, de modo que não suscitassem dúvidas quanto aos problemas que apresentavam. Nesses textos constavam, além de hinos de clube, comentários que nada tinham a ver com o tema, internetês, língua do “P” etc.
        Das dez redações produzidas pelos jornalistas, apenas quatro foram zeradas. Os corretores oficiais penalizaram algumas brincadeiras e despropósitos, mas deixaram passar as cópias. Elas apareciam em textos nos quais apenas o primeiro parágrafo era da autoria do “candidato” e, por não totalizarem mais de sete linhas, se enquadravam entre os que deveriam ter sido anulados.   
       Esse é um ponto que merece reflexão. Por que os plágios não foram percebidos? Excesso de provas para corrigir? Falta de leitura atenta dos textos motivadores? Numa das redações as cópias não eram desses textos, mas de outras partes da prova; como não era dever dos examinadores ler a prova toda, pode-se alegar que eles não tinham como perceber os plágios. A alegação não procede, pois a redação que o “candidato” elaborou com os enunciados de várias questões era uma colcha de retalhos. Cada parágrafo tinha um tópico, que não se conectava com o anterior. Uma leitura minimamente atenta notaria as falhas de coerência e progressão.
      O texto mais controverso foi o que apresentava informações desconexas, sem nenhuma base histórica, mas sobre os quais poderia pairar uma leve dúvida: deboche, provocação, ou mesmo ignorância? Como várias vezes me deparei com redações semelhantes, não considerei que tivesse havido os dois primeiros propósitos. O candidato que desconhece o AI-5 ou as circunstâncias da morte de Getúlio Vargas deve ser proporcionalmente penalizado por isso. O zero era excessivo devido a determinadas virtudes que o texto apresentava, como boa estruturação e correção linguística (dificilmente encontradas, por sinal, em alunos que tivessem um nível tão baixo de informação). Por tais virtudes dei ao “candidato” 300 – a metade dos 600 com que o Enem generosamente o avaliou. 
        Também suscitou polêmica o texto em que o candidato se dirigiu duas vezes a Papai Noel. Essa foi uma inserção descabida, voluntariamente jocosa, e que também me fez dar zero à redação. Fiz isso tanto pelo apelo ao “Bom velhinho” (assim o “candidato” o tratou na segunda vez em que se dirigiu a ele), quanto pela descaracterização do gênero pedido no Enem. A inclusão dos vocativos transformou o texto numa mistura de dissertação argumentativa e... “carta a Papai Noel”.
     Pelo que se viu no debate, não se pode dizer que as bancas ignoraram as determinações do Inep. No entanto, com algumas exceções, atenderam-nas no que saltava aos olhos. As maiores falhas foram naquilo que dependia de uma leitura detida, que só pode fazer quem tem não apenas preparo, mas tempo para avaliar com atenção os textos.

terça-feira, 18 de março de 2014

Soneto da confirmação

Para Denise, nos 33 anos do nosso casamento


No atropelo dos dias, nem nos demos
conta de há quanto tempo, lado a lado,
tristezas e alegrias recolhemos,
resistentes às mágoas e ao enfado.
    
Talvez nem um nem outro supusesse  
que naquela paixão tão insegura,
feita de dor e medo, estivesse    
o término de uma longa e vã procura.  

Agora, tão diversos do que fomos,
cada vez mais num ponto concordamos
-- um ponto que explica esta união:

apesar de que muito nós brigamos,     
as juras que trocávamos, entre assomos,    
nasciam no altar do coração.

domingo, 2 de março de 2014

Timidez e folia

      Manuel Bandeira encerra o poema “Epílogo”, escrevendo: “– O meu carnaval sem nenhuma alegria!”. É um verso triste, em que não devemos nos iludir com o ponto de exclamação.  Ele está ali para indicar perplexidade, pois o que menos se perdoa em alguém nessa época é a falta de alegria.
     Esse argumento me faz ponderar se devo escrever sobre o Carnaval. Conheço pouco do assunto, por falta mesmo de experiência, e tudo que dissesse me faria, digamos, perder o passo. Esta palavrinha, folião, pode se aplicar a todo o mundo, menos a mim. Nas vezes em que tentei entrar no espírito da festa, pequei por inércia e me deparei com uma assombração. Ou melhor, com uma sombra, espécie de ectoplasma da minha indiferença e sisudez.
      Mas nem tudo foi assim tão escuro; tive meus pequenos arroubos nas ruas e clubes da vida. Há no Carnaval uma enorme porta aberta para o avesso do que somos, e à qual ninguém fica indiferente. Pode-se não cruzar o umbral, não aderir ao frenesi, no entanto é impossível não se encantar com o que do outro lado nos acena.
       Para quem tem dificuldade de ir no arrasto, o álcool é um excelente indutor. Foi ele que me salvou nas bailes da adolescência, quando era preciso convidar as meninas para o meio do salão e me manter por ali, acompanhando o ritmo de frevos e marchas. Eu era um tímido assumido (e quase sumido), e sem a vodca ou o rum ficaria emperrado. 
            Essas bebidas depois cobravam ao fígado a coragem que me davam, mas sem elas era pior. Melhor a náusea, a dor de cabeça e o vômito do dia seguinte do que a sensação de ter se subtraído ao apelo geral. Um apelo feito de música, risos, carne. 
        A falta de jeito terminou se impondo, e com o tempo não forcei mais. Fui aprendendo a sublimar os prazeres da festa. Deixei de ir a clubes e cordões de folia, preferindo ver o espetáculo da calçada e, depois, pela televisão. Isso coincidiu com o avanço da idade, que naturalmente nos torna menos carnavalescos. O Carnaval exige corpo, energia, disposição para a noite e a aventura – requisitos que diminuem com o tempo. 
    O fato de essa diminuição despertar o gosto pela nostalgia nada tem de surpreendente. Lembrar velhos carnavais é uma das melhores ocupações desta época. Pouco importa se participamos ou não deles; importa é o que lhes acrescentamos de imaginação. Não conheço ninguém que não tenha saudade dos “carnavais de outrora”, que são sempre melhores do que os de hoje. “Outrora” não remete a décadas atrás, ou mesmo a um passado longínquo; remete a uma dimensão fora do tempo, onde vigoram nossas fantasias.
        Fiquei me devendo alguns carnavais, mas quem nesse tipo de experiência pode dizer que teve tudo? Mesmo quem se dá totalmente aos festejos chega ao fim com a sensação de que faltou alguma coisa. Isso consola um pouco os enrustidos, mas não os compensa da sensação de que os que brincam são mais completos. E mais felizes.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Seleção de frases (31)

Estúpido não é quem não entende. É quem não se faz entender.
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O brasileiro dá jeito em tudo, menos no “jeitinho”.
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Se há estrilo, não há estilo.
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 A admiração leva ao respeito, mas nem sempre o respeito leva à admiração.
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 As melhores frases são sobre o que perdemos.
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 Quem vive “se achando” ainda não se encontrou.
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 Um bom dentista não precisa de comercial. Basta o boca a boca.
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 Quem é vivo um dia desaparece.
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 A monotonia cotidiana é uma tragédia em câmera lenta.
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A malícia é a milícia da razão.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A doença da paixão


A paixão é uma doença.
Disso quem é que duvida?
E quanto mais forte, ela  
mais deixa em perigo a vida.

E não é doença tola,
dessas que fácil se cura -
mas uma síndrome, um complexo,
pois com as outras se mistura. 

Tem da gripe, o lacrimejo;
da asma, a falta de ar;
da neurose, o medo mórbido;
da artrite, o latejar.

Do diabetes, o “açúcar”
que não se metaboliza;
da psicose, a angústia
que deforma e tiraniza.

Da rinite, a persistência;
da urticária, o calor;
da diarreia, a urgência; 
da febre alta, o rubor.

Do herpes, tem o contágio
que se reforça no beijo. 
E da otite, o zumbido;
da rouquidão, o arquejo.

Da paranoia, a tendência    
a ser sempre vigiado
ou a vigiar o outro   
(tão querido e odiado!).

Tem da enxaqueca, a aura,
que o parceiro diviniza.    
Do tétano, a convulsão, 
que o prazer mimetiza.

E tendo, assim, a paixão
sintomas tão variados, 
por que então desse mal
ninguém quer ficar curado? 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Seleção de frases (30)


O saber que não muda o comportamento é como a comida que se mastiga e joga fora.
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No mais das vezes, a paixão começa com fogo e termina no fogão. 
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De todas as virtudes, a paciência é a que mais exige tempo. Por isso não deixa de ser irônico pedi-la aos velhos.
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Elegante é a mulher que sabe se vestir. Sensual, a que sabe tirar a roupa.
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Sejamos otimistas. Em 2014, o Brasil com "jeitinho" vai.
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A opinião pública é o triunfo da maioria silenciosa sobre a minoria estridente.
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Quem sai aos seus não se regenera.
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Se não conseguir realizar seus sonhos no novo ano, procure ao menos se livrar de alguns pesadelos.
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O crack é o verdadeiro caminho das pedras.
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Geralmente a idade do fardão é também a do fraldão.

Visita de aniversário