quinta-feira, 14 de julho de 2016

Aforismos brasileiros (4) - Paulo Francis

A vida é muito mais variada, anárquica e imprevisível do que sonham os ideólogos”. 


            Nesse aforismo, Paulo Francis critica uma tendência comum aos ideólogos: buscar submeter a realidade a seus esquemas mentais. A ideologia é uma camisa de força para o pensamento e as ações. O alvo de Francis é a esquerda, contra a qual ele investia sem piedade, mas sua frase aplica-se a todos os que procuram enquadrar os fatos em conceitos preestabelecidos. Como antigo esquerdista, o escritor sabia do que estava falando. Também ele fora seduzido na juventude pelas contorções da dialética marxista, que pregava (e dava como certa) a revolução e a “ditadura do proletariado”. O tempo e o amadurecimento o fizeram desconfiar de certezas como essas, que parecem ignorar a natureza humana e a diversidade do real. 

Conselho

O mundo não tem sentido
e nada faz para o ter.
A ele é indiferente
nosso esforço de entender.

As coisas são, simplesmente,
e não ver isso é doença.
Pouco importa à natureza
a angústia de quem pensa.    

Deixa de lado a procura.
Faz como os outros, aceita.
Talvez seja esse o caminho.
Talvez seja essa a receita.

Mas se insistes na busca
e aqui nada te acalma, 
finge que num outro mundo
terá sossego a tua alma.

(da série "Meus pecados poéticos") 

domingo, 3 de julho de 2016

Carta a Berta (4)

Berta querida:

No São-João, a Lava-jato fez mais uma quadrilha dançar. Dessa vez prenderam uma turma que roubava funcionários e pensionistas; o roubo, segundo explicaram os policiais, ocorria por meio de empréstimos consignados. Veja que maldade, Berta: os velhinhos tinham que pagar, além dos juros, um percentual para o bando.  
       Por essas e outras é que sempre fui contra essa forma de conseguir dinheiro. Uma vez Celeste propôs que fizéssemos um empréstimo para a sonhada viagem à Europa (a gente tem este sonho desde que se casou, há 30 anos). Convenci-a a desistir; melhor seria poupar. Começamos, então, a juntar o que sobrava no fim do mês. Não há previsão de quando vai ser a viagem, ou mesmo se ela vai existir, mas a esperança é a última que morre (atualmente, no Brasil, ela tem morrido mais cedo).    
         Passamos o São-João em casa, ouvindo os estampidos lá fora e sentindo o ardor da fumaça em nossas narinas. Já tivemos São-Joões melhores, com fartura de pamonha, canjica, tapioca, munguzá. Agora a crise nos permitiu no máximo comprar um pé de moleque aguado, que dividimos com “Bolsonaro” (ele come tudo, mas enjeitou o bolo; certamente desconfiou de que não era legítimo).  
       Por falar em “Bolsonaro”, nessa época ele se assusta muito com as bombas. Quando ouve os foguetões corre para o quarto, mete-se debaixo da cama e fica lá, tremendo. Parece um neurótico de guerra. Nosso cachorro tem estado mesmo esquisito.  Anteontem jantávamos na copa quando o ouvimos latir e rosnar diante da televisão, que fica na sala. Corremos para ver o que estava acontecendo. Aparentemente, nada demais: a televisão estava transmitindo a parada dos LGBTs. Não entendemos por que isso o deixava tão furioso. Mas, enfim, cada qual (homem ou bicho) tem suas peculiaridades!
         Celeste está muito preocupada com os rumos do Brasil. Para quem já foi do fã-clube de Wando (desconfio de que era uma daquelas garotas que jogavam calcinhas para ele), minha mulher evoluiu muito de mentalidade. Comentou comigo a incoerência de Temer, que havia criticado o descontrole orçamentário do governo anterior e acaba de dar um aumento aos servidores públicos. “E vai aumentar o Bolsa Família num percentual maior do que o prometido por Dilma!” – ressaltou com ironia (para me ferir, claro, pois ela sabe que não sou dos que consideram o impeachment um golpe).
Fiquei pensando com os meus botões no que Celeste havia dito, mas infelizmente não chegamos a um acordo (meus botões achavam uma coisa, e eu outra). Fui dormir chateado. Infelizmente é nesse estado de ânimo que me despeço. Na próxima carta, quem sabe, você me encontrará melhor.

Do seu desalentado      
Nicanor.

domingo, 19 de junho de 2016

As horas

O cuco me funde a cuca
e o resto do corpo inerme.  
O seu canto é uma sentença
gravada na minha pele.

O cuco soa mortal
a quem o escuta (ou não).
Seu trinado é como um réquiem   
que se escuta sem perdão.  

O cuco é máquina do tempo
urdindo, certa, a mortalha.
É o gatilho, o veneno,
o gume de uma navalha.

O cuco é um galo cego
saudando o dia engolido
pela noite, que o segue
rumo à vastidão do olvido.

(da série “Meus pecados poéticos”)

Carta a Berta (3)

Querida Berta:

Na última carta lhe falei de “Bolsonaro”, nosso pitbull. Talvez você não saiba, mas a escolha do nome foi minha. Celeste queria que ele se chamasse “Dirceu”, imagine! Expliquei a ela que, no contexto atual, esse nome não era recomendável.  
Ela fincou o pé e eu pensei que ia perder, pois é mais fácil tirar Eduardo Cunha da Câmara do que fazer minha mulher mudar de ideia. Ainda assim propus um “par ou impar”, com o argumento de que o destino daria a última palavra. Celeste é muito sensível a essas coisas de fatalidade e acabou aceitando, certa de que a sorte estaria a seu lado. Perdeu.
Isso piorou o seu humor, que já era ruim desde a decretação da greve de sexo (não que ela sentisse falta, pois foi sua a ideia, mas não suportava que eu também não me incomodasse). Seu ressentimento acirrou a nossa luta pelo poder, que é velha. Depois da última discussão, de que até "Bolsonaro" participou (me defendendo, claro, pois todos sabem que o cão é o melhor amigo do homem e tem pouca simpatia pela mulher), resolvi falar grosso e dar um ultimato: dali em diante, quem mandava na casa era ela.
Isso fez Celeste sossegar um pouco, mas não superar a frustração com o meu desinteresse sexual. Para me agredir, veio dizer que a minha indiferença vinha de eu ser incompetente na cama; nunca acertara, por exemplo, o tal Ponto G. De fato, eu sempre tive dificuldade com isso. Chego a pensar que indicaram a letra errada.
Acredito que seu ressentimento é mesmo profundo, pois ultimamente ela cismou de fazer terapia. Quando me falou dessa pretensão, tive um calafrio; com a atual crise, como é que a gente ia poder pagar as sessões? Além do mais, esse tipo de tratamento tem os seus riscos. Dizem que é comum o paciente se apaixonar pelo terapeuta. Imaginei Celeste me deixando por um lacaniano e não simpatizei com a ideia. Afinal gosto dela, mesmo neurótica como é. Desconfio, inclusive, de que a neurose é o nosso ponto de equilíbrio. Se um dia ela ficar curada, me deixa.
Para as coisas serenaram, propus-lhe uma viagem e perguntei para onde queria ir, e por quanto tempo. “Para onde o dinheiro der”, respondeu. Melhor, porque nesse caso a gente não precisava levar malas, o que iria diminuir muito o trabalho dela.  
Vejo que me alongo, e sei que sua paciência (ao contrário da dos brasileiros) tem limites. Fico então por aqui. Aguarde nova missiva, pois as cartas que lhe mando têm me servido de lenitivo (ainda vou ver no dicionário o que essa palavra significa, mas vai assim mesmo).

Do seu fiel 
Nicanor. 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Aforismos brasileiros (3) - Machado de Assis

 “É melhor cair das nuvens do que de um terceiro andar.”


Essa é uma das frases mais populares de Machado. Nela o “Bruxo” exercita sua famosa ironia, ao contestar realisticamente um velho chavão. “Cair das nuvens” significa decepcionar-se, perder a ilusão com alguém ou alguma coisa. O autor opõe a essa possibilidade a ideia de que muito pior é cair de um prédio (o modesto terceiro andar certamente se explica por no tempo dele não haver espigões). Os danos no primeiro caso são para a alma, que se recompõe com algumas lágrimas; afinal, a vida é mesmo feita de decepções... Já no segundo os prejuízos são físicos – muitos ferimentos e ossos quebrados, quando não acontece o pior. Esse aforismo, ao mesmo tempo que nos faz sorrir, encoraja-nos a enfrentar com resignação as desilusões.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Para Denise, no seu aniversário


Chega aos sessenta aquela que, um dia,
conheci no frescor da juventude
e se fez minha doce companhia     
“na tristeza, na dor ou na saúde”. 

Não poucas vezes me indaguei, medroso,   
o que no rosto lhe faria o tempo;    
se a beleza, à força dos desgostos,
dele se iria como o pó ao vento.

Percebo agora, tantos anos idos,  
que esse temor carece de sentido    
e que era vã a minha fantasia,

pois a beleza não se desfigura     
quando a anima, retoca e apura    
outra maior, que dentro se irradia.  

Visita de aniversário