- Hoje estou meio pra baixo.
- Pra baixo?
- Down.
- Ah! Agora entendi. Por que você não vai ao shopping? Lá, quem sabe, você dá um upgrade no seu ânimo. Um stop nesse baixo-astral.
- Sorry, mano, mas não dá. Indo ao shopping, vejo aquelas novidades fashion que estão fora do meu alcance e fico na pior. Por falta de money.
- Mas dá para aproveitar os produtos on sale, brother. Não se sinta tão out.
- Tenho tentado ficar in, mas não consigo.
- Eu sei qual é o seu problema. Inputs errados.
- Explain, please.
- Você só assimila o que não presta. Tem uma mentalidade de bad boy.
- Você quer dizer que o meu espírito é hard?
- Isso. Você precisa ficar mais soft, botar um pouco de technicolor na tela da sua vida.
- De fato, ela está meio dark.
- Meio? Está noir toda. Procure uma alternativa.
- Infelizmente não me vem nenhum insight quanto a isso.
- Que tal uma girl? Nada como um love story para tornar o mundo interessante.
- Mas só enquanto a paixão dura... Depois se volta ao real, ao the dream is over.
- Eu sei, é tudo uma questão de time. Mas se a gente for pensar nisso, não faz nada. Você parece uma pessoa que quer viajar e se recusa a fazer o check-in. Desse jeito não voa, fica sempre no chão.
- Como fazer o check-in se me falta o ticket? Eis o que sou, existencialmente falando: alguém que quer viajar sem ter comprado a passagem.
- Depois dessa eu vou indo, senão sua tristeza passa pra mim. Good bye.
- Good bye. Quando nos veremos de novo?
- Quer mesmo saber? Se você continuar desse jeito, talvez never.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
terça-feira, 8 de junho de 2010
O melhor amigo
Nestor tinha pavor de ser traído. Casado há dois anos com Verinha, sofria pesadelos imaginando-a com outro. Como esse medo se tornava uma obsessão, ele sentiu que precisava desabafar com alguém para não enlouquecer. Pensou em Eduardo, seu melhor amigo. E um dia, entre uma cerveja e outra, falou-lhe da sua angústia.
O amigo, para surpresa de Nestor, não lhe tirava a razão:
- Longe de mim duvidar da honestidade de Verinha, mas hoje os tempos são outros. Li recentemente que as mulheres estão traindo tanto quanto os homens.
- Você leu? Onde? -- quis saber Nestor, aflito, passando sem querer a mão na testa.
- Ah, li em vários lugares... E tenho uma tese sobre isso: as mulheres traem justamente os pudicos, os certinhos.
- Os certinhos, como eu? Explique melhor.
duardo emborcou a metade do copo de cerveja e prosseguiu:
- Para mim, mulher só é fiel quando tem medo de ser traída. A fidelidade nela não é uma virtude, mas uma estratégia de defesa. A mulher só ignora os outros homens quando convive, concretamente, com a possibilidade de perder o seu.
- Mas isso é um absurdo. Ou você está doido, ou leu muito Nelson Rodrigues.
- Vá por mim, Nestor. Quer que Verinha seja fiel a você? Dê a entender a ela que tem outra -- ou melhor: tenha mesmo outra! Ela vai ficar tão concentrada nisso, que não enxergará no mundo outro homem além de você.
A conversa não saiu da cabeça de Nestor, que terminou vendo algum sentido nas palavras de Eduardo. Precisava “preocupar” Verinha para que ela não tivesse tempo nem ânimo de pensar em outro. Uma semana depois começou a namorar Alzira, caixa de uma lanchonete que, havia já algum tempo, enrubescia quando dava o troco a ele. Como trabalhavam de dia, marcaram para se ver de noite pelo menos uma vez na semana.
Verinha, claro, começou a desconfiar. O que podiam significar aquelas fugas noturnas senão outra mulher? Sofreu em silêncio até que não aguentou mais e resolveu se abrir com alguém. E ninguém mais adequado para confidente do que Eduardo, o melhor amigo do marido. Ele devia saber de alguma coisa.
E sabia mesmo. Eduardo lhe propôs um encontro numa lanchonete (a mesma, por sinal, onde Alzira trabalhava) para conversarem sobre “o caso de Nestor”.
- Ele tem um caso? - foi a primeira pergunta que Verinha fez antes de pedirem um sanduíche com suco de laranja.
- Infelizmente, sim. Você não merecia... ou melhor: merecia.
- Eu merecia? Por quê?
- Verinha, você não conhece a psicologia masculina. A fidelidade no homem não é uma virtude, mas uma estratégia de defesa. O homem só ignora as outras mulheres quando convive, concretamente, com a possibilidade de perder a sua. Por que não lhe dá uma lição?
- Lição?
- Claro. Arranje alguém. Quando Nestor desconfiar de que você tem outro, vai ficar desesperado e se tornar de novo um marido fiel.
Verinha ficou impressionada com a conversa. Dias depois, telefonou para Eduardo a fim de aprofundarem o assunto. E não só para isto. Se tinha mesmo que trair Nestor, que fosse com alguém que lhe dissera palavras tão sábias.
O amigo, para surpresa de Nestor, não lhe tirava a razão:
- Longe de mim duvidar da honestidade de Verinha, mas hoje os tempos são outros. Li recentemente que as mulheres estão traindo tanto quanto os homens.
- Você leu? Onde? -- quis saber Nestor, aflito, passando sem querer a mão na testa.
- Ah, li em vários lugares... E tenho uma tese sobre isso: as mulheres traem justamente os pudicos, os certinhos.
- Os certinhos, como eu? Explique melhor.
duardo emborcou a metade do copo de cerveja e prosseguiu:
- Para mim, mulher só é fiel quando tem medo de ser traída. A fidelidade nela não é uma virtude, mas uma estratégia de defesa. A mulher só ignora os outros homens quando convive, concretamente, com a possibilidade de perder o seu.
- Mas isso é um absurdo. Ou você está doido, ou leu muito Nelson Rodrigues.
- Vá por mim, Nestor. Quer que Verinha seja fiel a você? Dê a entender a ela que tem outra -- ou melhor: tenha mesmo outra! Ela vai ficar tão concentrada nisso, que não enxergará no mundo outro homem além de você.
A conversa não saiu da cabeça de Nestor, que terminou vendo algum sentido nas palavras de Eduardo. Precisava “preocupar” Verinha para que ela não tivesse tempo nem ânimo de pensar em outro. Uma semana depois começou a namorar Alzira, caixa de uma lanchonete que, havia já algum tempo, enrubescia quando dava o troco a ele. Como trabalhavam de dia, marcaram para se ver de noite pelo menos uma vez na semana.
Verinha, claro, começou a desconfiar. O que podiam significar aquelas fugas noturnas senão outra mulher? Sofreu em silêncio até que não aguentou mais e resolveu se abrir com alguém. E ninguém mais adequado para confidente do que Eduardo, o melhor amigo do marido. Ele devia saber de alguma coisa.
E sabia mesmo. Eduardo lhe propôs um encontro numa lanchonete (a mesma, por sinal, onde Alzira trabalhava) para conversarem sobre “o caso de Nestor”.
- Ele tem um caso? - foi a primeira pergunta que Verinha fez antes de pedirem um sanduíche com suco de laranja.
- Infelizmente, sim. Você não merecia... ou melhor: merecia.
- Eu merecia? Por quê?
- Verinha, você não conhece a psicologia masculina. A fidelidade no homem não é uma virtude, mas uma estratégia de defesa. O homem só ignora as outras mulheres quando convive, concretamente, com a possibilidade de perder a sua. Por que não lhe dá uma lição?
- Lição?
- Claro. Arranje alguém. Quando Nestor desconfiar de que você tem outro, vai ficar desesperado e se tornar de novo um marido fiel.
Verinha ficou impressionada com a conversa. Dias depois, telefonou para Eduardo a fim de aprofundarem o assunto. E não só para isto. Se tinha mesmo que trair Nestor, que fosse com alguém que lhe dissera palavras tão sábias.
domingo, 9 de maio de 2010
À luz do dia
Recentemente uma aluna minha foi assaltada num dos principais restaurantes da cidade. O episódio não aconteceu à noite, nem ela estava sozinha. Estava com um grupo de amigas. Almoçavam no intervalo de uma dessas bizuradas para concursos, que ocorria no prédio em frente, quando o fato aconteceu.
Os ladrões não apareceram de repente, como se poderia pensar. O grupo percebera o casal bem-vestido que comia a umas poucas mesas de distância. Notaram que ele olhava muito para elas, e por um momento tiveram pena da mulher. Devia sofrer muito com um parceiro tão enxerido.
Em dado momento a mulher se levantou da mesa e, como que distraidamente, dirigiu-se ao grupo e pegou a bolsa da minha aluna. Quando esta foi reclamar, o parceiro se adiantou e apontou-lhe o revólver na cabeça. O grupo ficou estarrecido, paralisado, enquanto o casal calmamente deixava o restaurante e entrava num carro que o esperava a poucos metros.
Conto essa história para confirmar uma sensação que hoje, mais do que nunca, acomete os habitantes desta cidade. A outrora pacata João Pessoa se transformou num território de insegurança e desrespeito à lei.
Foi-se o tempo em que se procurava a Cidade das Acácias para fugir da violência dos grandes centros urbanos. Agora isso não é mais possível; a violência está aqui, e tem-se exercido de variadas formas. Ora é o crime brutal contra mulheres, que são encontradas seminuas em lugares solitários; ora o assalto seguido de morte a poucas quadras do nosso maior shopping; ora a tentativa de sequestro de empresários em área nobre da praia.
Os casos acima chocam, mas pelo menos ocorreram na sombra. Seus autores tiveram o cuidado de se encobrir, conscientes de que estavam do “outro lado” da lei e temiam ser justiçados. No roubo da bolsa ninguém foi ferido, mas não se viu da parte dos meliantes o desejo de se esconder. Estavam ali à luz do dia, num ambiente público, como qualquer cidadão de bem que no intervalo do trabalho engole seu justo almoço. Parecia natural que de repente um dos dois se levantasse, pegasse o objeto, e que o outro ameaçasse matar a dona caso ela protestasse.
Hoje a violência invade os espaços rotineiros do homem comum. Já não precisa de capuz nem de sombra para esconder seu rosto. Afronta a lei com acinte e descaro, pois sabe que ninguém a punirá -- e nisso João Pessoa já não é diferente das outras cidades.
O roubo foi uma espécie de sobremesa para os bandidos, que saíram sem pagar a conta. Minha amiga pagou-a graças a uma “vaquinha” das amigas, mas não pôde fazer o concurso porque os ladrões levaram documentos imprescindíveis para que ela entrasse na sala. Quer dizer: perdeu não só a bolsa, mas talvez a possibilidade de mudar o futuro.
Os ladrões não apareceram de repente, como se poderia pensar. O grupo percebera o casal bem-vestido que comia a umas poucas mesas de distância. Notaram que ele olhava muito para elas, e por um momento tiveram pena da mulher. Devia sofrer muito com um parceiro tão enxerido.
Em dado momento a mulher se levantou da mesa e, como que distraidamente, dirigiu-se ao grupo e pegou a bolsa da minha aluna. Quando esta foi reclamar, o parceiro se adiantou e apontou-lhe o revólver na cabeça. O grupo ficou estarrecido, paralisado, enquanto o casal calmamente deixava o restaurante e entrava num carro que o esperava a poucos metros.
Conto essa história para confirmar uma sensação que hoje, mais do que nunca, acomete os habitantes desta cidade. A outrora pacata João Pessoa se transformou num território de insegurança e desrespeito à lei.
Foi-se o tempo em que se procurava a Cidade das Acácias para fugir da violência dos grandes centros urbanos. Agora isso não é mais possível; a violência está aqui, e tem-se exercido de variadas formas. Ora é o crime brutal contra mulheres, que são encontradas seminuas em lugares solitários; ora o assalto seguido de morte a poucas quadras do nosso maior shopping; ora a tentativa de sequestro de empresários em área nobre da praia.
Os casos acima chocam, mas pelo menos ocorreram na sombra. Seus autores tiveram o cuidado de se encobrir, conscientes de que estavam do “outro lado” da lei e temiam ser justiçados. No roubo da bolsa ninguém foi ferido, mas não se viu da parte dos meliantes o desejo de se esconder. Estavam ali à luz do dia, num ambiente público, como qualquer cidadão de bem que no intervalo do trabalho engole seu justo almoço. Parecia natural que de repente um dos dois se levantasse, pegasse o objeto, e que o outro ameaçasse matar a dona caso ela protestasse.
Hoje a violência invade os espaços rotineiros do homem comum. Já não precisa de capuz nem de sombra para esconder seu rosto. Afronta a lei com acinte e descaro, pois sabe que ninguém a punirá -- e nisso João Pessoa já não é diferente das outras cidades.
O roubo foi uma espécie de sobremesa para os bandidos, que saíram sem pagar a conta. Minha amiga pagou-a graças a uma “vaquinha” das amigas, mas não pôde fazer o concurso porque os ladrões levaram documentos imprescindíveis para que ela entrasse na sala. Quer dizer: perdeu não só a bolsa, mas talvez a possibilidade de mudar o futuro.
terça-feira, 27 de abril de 2010
Sol e esquecimento
Reaberto ao público o Cristo Redentor. A TV mostra uma bela manhã de sol, com os turistas deslumbrados olhando lá de cima a capital carioca. De um lado a ponte Rio-Niterói, do outro o Pão de Açúcar, mais atrás a lagoa Rodrigo Freitas.
Volta o sol para aos poucos sepultar as lembranças da catástrofe provocada pelas chuvas. Não dá para lembrar coisas tristes, ligadas a morte e luto, diante do recorte sensual daquela geografia. A visão da cidade ali deitada parece um irrecusável apelo à vida, e ninguém é mórbido o bastante para ignorá-lo.
Mas não precisa ser o Rio, que tem como aliado sua deslumbrante beleza. Onde quer que a chuva tenha destruído e matado, agora estamos em tempo de esquecer. Basta para isso vir o sol, que nos convoca à vida e nos captura também graças à frivolidade do nosso espírito.
Somos levianos, irresponsáveis, inimigos da previdência e da lembrança. Está certo que esquecer é condição para prosseguir, quem vive preso ao passado não realiza o futuro. Mas tendemos a recusar do passado seu legado mais precioso: o que ele pode nos trazer de lição. O resultado é que, por uma amnésia consentida, alargamos o domínio do imprevisível. Com isso reforçamos as garras do destino, cujo poder se multiplica quando a ação do homem se subtrai.
O desmoronamento do morro do Bumba, em Niterói, ainda reboa em nossos ouvidos. Foi uma trágica sinfonia de choros e urros em volta de dezenas de corpos sepultados vivos. Isso num momento em que a terra estava molhada e densas nuvens escureciam o céu. A desgraça tinha o seu décor, e todo o mundo estava concentrado nela. Naquele momento os moradores e o poder público se dispunham a evitar que tragédias como aquela voltassem a acontecer.
Mas passa o tempo, vem o sol para aclarar o céu e livrar a cabeça de cuidados enfadonhos. Daqui a pouco a terra endurecerá e o aterro sanitário ganhará aspecto de rocha (tudo é possível na fantasia dos que não têm onde morar). Novos casebres vão se reerguer, animados pela esperança. Ninguém se lembrará de que um dia aquilo foi uma tumba coletiva.
E a vida vai prosseguir dentro de uma normalidade aparente -- até que volte a chover. Mas para que pensar nisso agora?
Volta o sol para aos poucos sepultar as lembranças da catástrofe provocada pelas chuvas. Não dá para lembrar coisas tristes, ligadas a morte e luto, diante do recorte sensual daquela geografia. A visão da cidade ali deitada parece um irrecusável apelo à vida, e ninguém é mórbido o bastante para ignorá-lo.
Mas não precisa ser o Rio, que tem como aliado sua deslumbrante beleza. Onde quer que a chuva tenha destruído e matado, agora estamos em tempo de esquecer. Basta para isso vir o sol, que nos convoca à vida e nos captura também graças à frivolidade do nosso espírito.
Somos levianos, irresponsáveis, inimigos da previdência e da lembrança. Está certo que esquecer é condição para prosseguir, quem vive preso ao passado não realiza o futuro. Mas tendemos a recusar do passado seu legado mais precioso: o que ele pode nos trazer de lição. O resultado é que, por uma amnésia consentida, alargamos o domínio do imprevisível. Com isso reforçamos as garras do destino, cujo poder se multiplica quando a ação do homem se subtrai.
O desmoronamento do morro do Bumba, em Niterói, ainda reboa em nossos ouvidos. Foi uma trágica sinfonia de choros e urros em volta de dezenas de corpos sepultados vivos. Isso num momento em que a terra estava molhada e densas nuvens escureciam o céu. A desgraça tinha o seu décor, e todo o mundo estava concentrado nela. Naquele momento os moradores e o poder público se dispunham a evitar que tragédias como aquela voltassem a acontecer.
Mas passa o tempo, vem o sol para aclarar o céu e livrar a cabeça de cuidados enfadonhos. Daqui a pouco a terra endurecerá e o aterro sanitário ganhará aspecto de rocha (tudo é possível na fantasia dos que não têm onde morar). Novos casebres vão se reerguer, animados pela esperança. Ninguém se lembrará de que um dia aquilo foi uma tumba coletiva.
E a vida vai prosseguir dentro de uma normalidade aparente -- até que volte a chover. Mas para que pensar nisso agora?
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Teia de equívocos
Dizem que no início dos tempos não havia distância entre as palavras e as coisas. Cada objeto ou ser eram o que significavam e, reciprocamente, significavam o que eram. A palavra “fogo” queimava, a palavra “medo” tremia, e um vocábulo como “dor” parecia gemer.
Falar disso é entrar no reino da animização, mas não podemos fugir da metáfora quando nos referimos às origens do homem e da linguagem. A própria ideia de que palavra e coisa se identificavam é uma interpretação mítica.
Quem éramos antes de começarmos a falar? A Bíblia remonta o início de tudo à palavra: “No princípio era o Verbo”. Para as Escrituras, antes da palavra não havia o homem. A linguagem é que nos engendrou. Lacan repetiria isso séculos depois ao afirmar que o homem não fala porque é; é porque fala.
Especulações metafísicas à parte, sabemos hoje que é próprio das palavras representar o que não são. O pai da linguística moderna, Ferdinand de Saussure, descreve essa característica como arbitrariedade do signo. Os signos são arbitrários porque não existe relação necessária entre eles e os objetos ou seres que designam.
O que nos faz chamar bola de “bola”? O artefato esférico de couro com que jogamos uma boa pelada bem podia se chamar “linguiça”. E diríamos com a maior naturalidade: “chute a linguiça”, “rebata a linguiça”, “encaixe a linguiça”.
Se o sentido das palavras é convencional, não existe uma essência da linguagem. Toda semântica, ou seja, toda relação entre significante e significado envolve uma mentira, um jogo em que a verdade se dissimula pela própria insuficiência do signo.
Se acrescentamos a isso a natural má-fé do ser humano, que é um mestre na arte de disfarçar seus desejos e intenções, compreendemos o quanto estamos longe de nos entendermos. A comunicação entre os homens é uma teia de equívocos, em que cada um imagina dizer o que os outros supõem estar ouvindo.
Falar disso é entrar no reino da animização, mas não podemos fugir da metáfora quando nos referimos às origens do homem e da linguagem. A própria ideia de que palavra e coisa se identificavam é uma interpretação mítica.
Quem éramos antes de começarmos a falar? A Bíblia remonta o início de tudo à palavra: “No princípio era o Verbo”. Para as Escrituras, antes da palavra não havia o homem. A linguagem é que nos engendrou. Lacan repetiria isso séculos depois ao afirmar que o homem não fala porque é; é porque fala.
Especulações metafísicas à parte, sabemos hoje que é próprio das palavras representar o que não são. O pai da linguística moderna, Ferdinand de Saussure, descreve essa característica como arbitrariedade do signo. Os signos são arbitrários porque não existe relação necessária entre eles e os objetos ou seres que designam.
O que nos faz chamar bola de “bola”? O artefato esférico de couro com que jogamos uma boa pelada bem podia se chamar “linguiça”. E diríamos com a maior naturalidade: “chute a linguiça”, “rebata a linguiça”, “encaixe a linguiça”.
Se o sentido das palavras é convencional, não existe uma essência da linguagem. Toda semântica, ou seja, toda relação entre significante e significado envolve uma mentira, um jogo em que a verdade se dissimula pela própria insuficiência do signo.
Se acrescentamos a isso a natural má-fé do ser humano, que é um mestre na arte de disfarçar seus desejos e intenções, compreendemos o quanto estamos longe de nos entendermos. A comunicação entre os homens é uma teia de equívocos, em que cada um imagina dizer o que os outros supõem estar ouvindo.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Poema do navegador solitário
internet
internoite
internada
interninguém
nas terras onde aporto
não há porto
só o indeciso reflexo
de uma realidade virtual
(da série "Meus pecados poéticos")
internoite
internada
interninguém
nas terras onde aporto
não há porto
só o indeciso reflexo
de uma realidade virtual
(da série "Meus pecados poéticos")
domingo, 10 de janeiro de 2010
Mensagem ou massagem?
Vou a uma dessas confraternizações de fim de ano, cheias de bebida, nostalgia e violão. Praticamente só se canta Roberto Carlos. E Chico Buarque? -- fico me perguntando. E Caetano? E Milton? Cantarolo Chico o tempo, maravilhado com as letras e a melodia, e não ouço nada dele naquela tertúlia.
A verdade é que em música somos sentimentais. Preferimos, aos autores que pensam, os que sonham, gemem, recordam. Como para confirmar isso, ao meu lado uma senhora levemente ébria suspira com lacrimejante nostalgia: “São tantas emoções...”
Chico, Caetano e Milton são autores-cabeça, fazem música com mensagem. Ora, o ser humano não quer mensagem -- quer massagem. Sem saída, e já na segunda dose de vinho, trato de aderir batucando discretamente na mesa: “Você foi/ o maior dos meus casos./ De todos os abraços/ o que nunca esqueci...”
A verdade é que em música somos sentimentais. Preferimos, aos autores que pensam, os que sonham, gemem, recordam. Como para confirmar isso, ao meu lado uma senhora levemente ébria suspira com lacrimejante nostalgia: “São tantas emoções...”
Chico, Caetano e Milton são autores-cabeça, fazem música com mensagem. Ora, o ser humano não quer mensagem -- quer massagem. Sem saída, e já na segunda dose de vinho, trato de aderir batucando discretamente na mesa: “Você foi/ o maior dos meus casos./ De todos os abraços/ o que nunca esqueci...”
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Naquele dia Osvaldo abriu os olhos e, por uma espécie de automatismo, levantou-se da cama e foi olhar o relógio. Deu-se então co...
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Cresci ouvindo dizer que Brigitte Bardot era uma figura pecaminosa, imagem da luxúria e da devassidão. Isso faz muito tempo, claro, e tinha ...
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Dizem que no início dos tempos não havia distância entre as palavras e as coisas . Cada objeto ou ser ...