segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

A invenção de Aglaia


        “O pássaro secreto”, de Marília Arnaud, é o relato de uma crise. O romance se estrutura como uma parte propriamente narrativa, em que a personagem principal, Aglaia Negromonte, relata cronologicamente os fatos ligados à sua vida, e outra com características de um diário. Nessa última a personagem reflete sobre a sua experiência no lugar a que é conduzida por força das ocorrências que, em grande parte por culpa dela própria, lhe destruíram a sanidade. A bem urdida alternância entre os dois segmentos sugere-nos, desde o início, que desfecho lhe seria destinado.

O que deflagra o colapso da personagem e o seu rompimento com o mundo é saber que tem uma irmã fruto de uma ligação do pai fora do casamento e que essa irmã viria morar com a família. A existência dessa parente, em tudo distinta dela, leva Aglaia a se deparar com o que há de pior em si. Desperta-lhe inveja, ciúme e sobretudo um automenosprezo intensificado por sua índole melancólica – sugerida pela referência a “uma passageira crise saturnina”, que ela qualifica como “própria da idade”.  Não tão passageira, pois Saturno – o planeta de rotação mais lenta – é o regente interminável dos temperamentos melancólicos.   

As inúmeras referências a personagens shakespearianos nos fazem pensar no livro como uma tragédia romanceada, em que a hybris da personagem principal se metaforiza num pássaro escuro e hediondo – a Coisa. Esse pássaro horrendo não consegue levantar voo e mantém a personagem presa a seus complexos e medos: “...toda feita de asas, penas e bicos, (a Coisa) não sabia voar em alturas nem cantar o mais breve pipilo, e rastejava como uma serpente, e me socava o peito com cascos de bicho bruto”.

 Do ponto de vista psicanalítico, a Coisa é o inomeável, o indizível, o que não pode ser formulado, entre outras razões, por conter uma insuportável carga de verdade. É a projeção de um eu em desarmonia com os outros e consigo mesmo. Está no nível das “coisas indizíveis (...), tão íntimas que compartilhá-las é o mesmo que arrancar o coração e colocá-lo sobre a mesa, ‘Veja, é feio, frágil, sangrento, o que faço com ele?’”. A Coisa é um espelho da personagem presa em seu mutismo e incapaz de verbalizar com clareza o que sente e o que supõe que as pessoas sentem diante dela.

 Aglaia demonstra desde criança um enorme fascínio pelas palavras, que ela supunha estarem “por trás de tudo, uma espécie de ponte entre mim e o mundo”. Concorre para esse deslumbramento a influência do pai, Heleno Negromonte, que lhe desperta o gosto pelos livros e a introduz na leitura dos clássicos.  Com o tempo, à medida que Heleno Negromonte se alheia das obrigações da casa e imerge em seu exílio literário, a admiração da filha por ele em muito diminui. Livresco e superficial, o pai leva-a a perceber que o discurso pode ser também o lugar da mentira, do engodo, da representação.  

             A relação da personagem com a figura paterna é então ambígua; divide-se entre a idolatria e o desprezo. Ator profissional, Negromonte vive para cultuar a própria imagem. Em sua narcísica prepotência, “por acreditar que as pessoas eram o que falavam, decretava a forma como devíamos nos expressar”. Essa atitude concorre para intensificar em Aglaia a desconfiança quanto ao valor das palavras.   

  A despeito do ressentimento com a figura paterna, a personagem disputa o amor do pai com a meia-irmã que adentra a casa com o seu charme francês.  A preferência de Heleno Negromonte pela outra potencializa o ódio de Aglaia ao pai, que a rejeita e deve pagar por isso: “Um dia, quem sabe, meu pai arrancaria os próprios olhos por haver desprezado a filha que verdadeiramente o amava”.  

 É significativo que a personagem deseje para ele o destino de Édipo, culpando-o por um fracasso familiar que também se deve à esposa acomodada e passiva que aceita sem protesto a traição do marido. Esse quadro acentua na filha o sentimento de orfandade: “Cheguei a supor que fora adotada. Custava-me crer que eu era filha daquela mãe de traços à Isabelle Adjani, daquele pai de olhos azuis e porte de deus romano”.

A narrativa em primeira pessoa nos faz desconfiar dos juízos da personagem sobre os outros e sobre si mesma. Muito do que ela percebe nas pessoas é projeção da imagem que faz dela própria. Sua feiura aparece como antítese simétrica da beleza e da autoconfiança que enxerga na meia- irmã, que a seus olhos parece irresistível e perfeita: “...uma espécie de luz (...) parecia incidir sobre Thalie, distinguindo-a do restante, como se o seu mundo fosse um palco, e ela, a personagem  de um monólogo sem fim. Não, estou enganada. Aquela luz jorrava de dentro dela (...)”. Tal impressão se fortalece na medida em que a meia-irmã conquista o amor do primo pelo qual Aglaia é apaixonada.

Um ponto alto do romance é a linguagem. A autora adota um tom expressionista na descrição de lugares e sobretudo de pessoas. Por meio desse recurso, ressalta a disposição psicológica da personagem principal, que infunde na apreciação dos parentes dos quais não gosta (e são todos, com exceção da avó Sarita) o ressentimento que tem do mundo.  

O romance como gênero é uma estrutura aberta, que permite a incorporação de múltiplos elementos associados à vivência dos personagens e mesmo do autor. Seu propósito é “criar um mundo” que seja espelho deste em que nos movemos, com a sua diversidade social, cultural, geográfica e histórica.  

        Marília Arnaud explora com maestria essa possibilidade, introduzindo na trama uma ampla gama de informações e reflexões sobre temas que tradicionalmente provocam o ser humano (casamento, amizade, ciúme, morte). Faz isso com equilíbrio e um apreciável domínio do tempo, de modo a preservar a tensão narrativa e nos manter presos ao percurso autodestrutivo da personagem principal.

       No desvendamento da alma de Aglaia Negromente ecoa a voz do bardo inglês, enformando-lhe a melancólica obsessão e ditando-lhe o dilaceramento interior. Se Shakespeare “inventou o humano”, Marília Arnaud inventou Aglaia para ilustrar o abismo a que ele é capaz de descer quando o ressentimento, o abandono e o desejo de vingança lhe determinam o comportamento.

 

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Esquecendo a fantasia


Haverá ou não Carnaval? Alguns governos estaduais e municipais já decretaram que não, mas ainda não há uma resposta definitiva para essa pergunta. Por via das dúvidas, vou deixar no fundo do baú a fantasia que comprei há algumas décadas e pretendia estrear na próxima festa de Momo. Ela está empoeirada (um pouco mais do que o dono) e precisa de uma lavagem que lhe remova o bolor.

Nunca fui o que se chama de folião. Não vou ou a clubes nem participo de blocos. Tampouco desapareço de casa no sábado para só reaparecer na manhã da quarta, ressacado e com marcas suspeitas na roupa. Confesso que essa inapetência para a euforia momesca me traz algum sentimento de culpa (se não é a culpa que a produz). Para aplacar o remorso, mantenho a fantasia no baú com a esperança de um dia vesti-la e sair por aí.  Para fazer o quê, ainda não sei, mas não seria algo que se pudesse publicar neste espaço.   

Tudo indica que não haverá mesmo Carnaval, e bem que precisávamos dele. Reclusos há cerca de dois anos, ansiamos por invadir as ruas com ânimo brincalhão. Seria um meio de descarregar a neura acumulada e preservar a saúde mental. Oprimida pelo constante receio de contrair os vírus (agora há mais de um nos ameaçando), nossa mente necessita se retemperar com os influxos da festa. É nela que o povo projeta suas fantasias de grandeza e provisória redenção. Sem esse hiato de sonho, não lhe seria possível suportar a dureza de um cotidiano marcado por ameaças e privações.

O País anda sujo e feio, e quem o vem poluindo é o pior dos lixos – o lixo humano. As ruas estão cheias dele. São pessoas que, não tendo mais onde morar, amontoam-se nas calçadas e nelas passam a viver. Não se trata de um ou outro indivíduo que ali aporta para curar a bebedeira e desaparecer no dia seguinte. Trata-se de famílias inteiras, pais e mães acompanhados de seus filhos.

Ouvi de alguém que a exibição da filharada era uma estratégia para comover as pessoas em seus automóveis e fazê-las baixar os vidros. Mesmo sendo verdade, não se pode aceitar que os pais que se prestam a esse papel disponham do mínimo essencial para sobreviver. O País empobreceu mesmo, e não se precisa de estatísticas para comprovar isso. A miséria salta aos olhos e espeta o coração das pessoas sensíveis.

O Carnaval não resolveria esse e outros problemas, mas permitiria que por um momento nos alheássemos da incômoda realidade. É melhor se deparar nas calçadas com “blocos de sujos” do que se confrontar diuturnamente com a sujeira que as vem impregnando.


sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Por que o livro é o melhor amigo do homem?

Motivos não faltam:

 - Ele nos acompanha para onde a gente vá. 

- Independentemente do dia, do lugar ou do clima, está sempre disposto a se abrir para nós.

- Desde que a gente o observe com atenção, não nos deixa sair da linha.

- É capaz de contar histórias sérias ou divertidas, mas também nos orienta e instrui.

- Faz-nos “viajar” de forma segura, imune às intempéries, pelos mais diversos lugares do mundo.

- Apresenta-nos a personagens intrigantes e profundos, que nos ajudam a compreender melhor a alma humana. Com essas figuras a gente se identifica e estabelece uma comunhão impossível de estabelecer com as pessoas de carne e osso. 

- Não protesta quando o esquecemos por um tempo, deixando-o às traças, pois sabe que em algum momento a ele vamos retornar.   

- Não se irrita quando a gente o suja, amassa ou rabisca. Pelo contrário, sabe que esses maus-tratos significam que estamos vivamente interessados no que ele nos diz. 

- Não se chateia se a gente, por cansaço ou preguiça, resolve virar a página, ou mesmo substituí-lo por outro. Ciúme não é com ele.

 - Não se constrange quando o apertamos, sopesamos, manuseamos, pois sente esses contatos como uma intimidade destituída de interesses escusos ou de má-fe.

- Não fica magoado quando o passamos a outra pessoa, pois a sua fidelidade é extensiva a todo o gênero humano.

- Está sempre de bom humor, sorrindo para nós de orelha a orelha. 

O oposto da hipérbole

 

Sempre que pergunto em classe qual o oposto da hipérbole, a turma responde que é o eufemismo. Não me deparei com esse equívoco apenas em sala de aula – também o constatei em portais de língua portuguesa. 

A verdade é que o contrário da hipérbole não é o eufemismo. Essas figuras não podem se contrapor, uma vez que se situam em áreas diferentes. A hipérbole diz respeito ao “pathos” (paixão), enquanto que o eufemismo está ligado ao “ethos” (caráter).

Quem produz uma hipérbole o faz abalado por forte impressão emocional. Exagera para comover ou suscitar empatia: “estou morto de fome”, “ele tem uma vontade de ferro” (hipérbole metafórica), “daria a minha vida por você”.

Um conhecido exemplo de hipérbole aparece neste quarteto de Augusto dos Anjos:

 

        ”No tempo de meu pai, sob estes galhos,

        Como uma vela fúnebre de cera,

        Chorei bilhões de vez com a canseira

        De inexorabilíssimos trabalhos.”

 

         Os versos constam do soneto “Debaixo do tamarindo”, em que o poeta confessa o seu amor pela árvore que ensombrava a casa-grande do engenho onde nasceu. Revelam o desespero diante da morte e a esperança de continuidade pela fusão com o organismo vegetal (lê-se no final do poema: “Abraçada com a própria Eternidade/ A minha sombra há de ficar aqui!”).

         A referência ao pranto “bilhões de vezes” chorado e aos “inexorabilíssimos” trabalhos busca traduzir a intensidade de uma Dor que transcende a esfera pessoal. Não é apenas o sofrimento de um indivíduo, mas de toda a espécie humana, com a qual o eu poético se identifica.

No eufemismo, atenuamos um conteúdo desagradável com a intenção de não ferir nem chocar. O que anima esse propósito é a ética, o recato, por vezes a conveniência social. Podemos dizer de alguém muito feio, por exemplo, que “seus traços não são harmoniosos”. Ou, de uma pessoa estúpida, que ela “não tem um cérebro brilhante”. O eufemismo preserva o conteúdo e suaviza a forma.

O seu oposto é o disfemismo, que consiste no uso de expressões deselegantes, grosseiras ou chulas. Na versão disfêmica, o muito feio passa a “horrendo”, “um parto”, “um frankenstein”. O pouco inteligente é chamado de “anta”, “burro”, “quadrúpede”. O disfemismo é uma intensificação pejorativa e visa agredir ou chocar.  

         Numa de suas crônicas, Adriano Silva critica os que nada fazem sem escutar a opinião alheia e são capazes de perder o dia caso não recebam um sorriso de aprovação. Ele diz invejar os indivíduos autossuficientes, que “resolvem suas inseguranças (...) sem expor o traseiro nu na janela”. Essa referência ao “traseiro nu” é uma imagem disfêmica; por meio dela o autor critica os que costumam expor aos outros a sua intimidade.

Qual é então oposto da hipérbole? É a hipossemia, que se caracteriza pela diminuição do conteúdo significativo das palavras. Ela ocorre, por exemplo, quando alguém afirma ter sentido “uma dorzinha” que o levou ao a passar três dias no hospital; quando a mãe ameaça dar “umas palmadas” no filho (em vez de uma surra); ou quando o ricaço diz que deu “um pulo” na Europa para saber as novidades.

Vejam que nesses casos, ao contrário do que ocorre no eufemismo, não existe o propósito de suavizar um conteúdo desagradável. O emissor minimiza o sentido para reduzir a dimensão do que faz, e não para evitar agredir quem quer que seja. O que determina as escolhas é menos o decoro do que o afeto, a emoção.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Bolsa Feiura

 

Li não sei onde que se está pensando em criar no Brasil o Bolsa Feiura. Segundo o idealizador do projeto, vivemos numa sociedade que valoriza muito a beleza, e os que não a têm competem em desigualdade de condições com os bonitos. Uma forma de reparar essa injustiça seria destinar aos feios determinada quantia para que eles pudessem de alguma forma reduzir os efeitos da sua condição. Com o dinheiro comprariam produtos de beleza, frequentariam clínicas estéticas ou mesmo, se fosse o caso, fariam plástica.

Certamente isso vai gerar muitas críticas. Vão dizer que não tem sentido propor tal ajuda quando há no país milhares de indivíduos sem teto ou com fome. Esse argumento, contudo, é fácil de refutar. A feiura não é um problema social (a não ser, talvez, na China), mas entristece ou deprime muitas pessoas, o que indiretamente afeta o setor produtivo do País. Quem, sentindo-se por dentro “um lixo”, tem ânimo para fazer a contento o seu trabalho?

            Essa história de “estar bem consigo” tem fundamento. Se o espelho não nos aprova, tendemos a ignorar os outros e pouco nos importamos com o mundo. Em alguma medida, Freud tem razão: o universo é projeção do ego. Tendemos a moldá-lo conforme nossa disposição interior.

Inclinamo-nos para o belo porque, segundo Stendhal, a beleza é uma promessa de felicidade; isso quer dizer que a feiura promete o oposto. Vinicius segue a mesma pisada ao afirmar, pedindo perdão às muito feias, que beleza é fundamental.

Como veem, o Bolsa Feiura tem um sólido aval literário (a não ser por Quasímodo, que compensa a corcunda com a beleza interior – mas quem liga para ela hoje?). O projeto, se aprovado, não mudará ninguém mas servirá de inestimável consolo. Vai reparar um pouco o descuido (ou mesmo a imperícia) com que a natureza molda certas fisionomias.

O problema de um projeto como esse em nosso país é que poucos resistem a dinheiro que vem do Estado. Seguindo a prática do jeitinho, a maioria vai bolar artifícios para parecer mais feia do que é e ter direito à cota. Talvez isso produza um decréscimo na nossa vaidade, levando à bancarrota o setor de produtos estéticos. Haveria protestos, demissões – e aí, sim, a coisa ficaria feia.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Sobre pentes e cabelos

 

          O homem primitivo não usava pente. Certamente não lhe ocorria a hipótese de que os fios desgrenhados na sua cabeça poderiam se ajustar à caixa craniana de um modo, digamos, mais decente e estético. Quando isso aconteceu (com a inevitável influência da mulher, claro), ele notou que passar o minúsculo objeto pelos cabelos também propiciava um ganho adicional: retirar parte dos piolhos que lhe infestavam o couro cabeludo.  

          Teorias à parte, o pente ganhou ao longo do tempo diversos formatos e acabou se constituindo num dos símbolos da civilização. À medida que nos distanciamos da barbárie primitiva, fomos aprimorando o seu desenho e utilizando em sua confecção novos materiais para, com isso, dar diferentes feições à nossa juba – por mais exígua que fosse.   

           A coisa chegou a tal pondo que estar despenteado, ou mesmo mal penteado, virou uma marca de desrespeito social. Assim como compomos as vestes, precisamos dar aos pelos da cabeça uma aparência decente a fim de melhor transitar em sociedade. Muito da rejeição aos jovens nos anos 1960 veio de eles – na tentativa de imitar os Beatles, por exemplo – deixarem os cabelos crescer e se manterem despenteados (é bom lembrar que o conjunto inglês ostentava um desalinho aparente, pois tinha a rebeldia como imagem).      

          Nada tenho contra os pentes; eles é que não se dão bem comigo. Tanto que, na primeira oportunidade, costumam escapar da minha vista e sobretudo do meu bolso. Não conto as vezes em que isso ocorreu, e o pior: nunca descobri “como” nem “por que” isso ocorre. O fato é que um belo dia (para falar a verdade, nem tão belo assim), enfio as mãos nos bolsos e não dou com eles. Escarafuncho as gavetas e prateleiras onde costumo guardá-los, e nada.

          Esse tipo de acontecimento já foi motivo de conflitos aqui em casa. Para preservar a harmonia conjugal, minha mulher passou a comprar cartelas com vários pentes. Esperava com isso compensar a minha tendência a perdê-los.

           Mas tudo fica em paz por um tempo, e invariavelmente chega o momento em que se repete o fenômeno: meto as mãos nos bolsos e não consigo encontrar o meu. Envergonhado, peço um de empréstimo a ela, que aproveita a ocasião para criticar o meu descuido. De novo?! Como pode uma pessoa ser tão desatenta?! Deve ter a cabeça no mundo da lua! 

           Não, minha cabeça está aqui mesmo, embora despenteada. O problema é que ainda não se descobriu um meio de guardar com segurança, e manter sempre ao nosso alcance, esse objeto minúsculo e esquivo com que nos habituamos a acomodar a rebelde pilosidade que se deposita sobre a nossa caixa craniana.

          Parece haver um simbolismo na tendência que tem o pente de desaparecer da nossa vista. A facilidade com que o deixamos cair, não se sabe onde, mostra que o acaso não incide apenas nos grandes gestos humanos. Também atua em eventos banais, cujo efeito é gerar pequenas aporrinhações no espaço doméstico. O somatório delas, se não conduz à tragédia, pode aos poucos azedar o convívio. Precisamos então fazer de tudo para evitá-las.

         Para aliviar o clima, prometo à mulher não mais perdê-los – mesmo sabendo que será difícil cumprir a promessa. Ouras perdas haverá, e serei novamente objeto de ácidas repreensões. Consola-me saber que, se os procuro em bolsos vazios, é porque ainda preciso deles. Nem que seja para ajeitar os poucos fios que me ligam a um tempo no qual eu me orgulhava de uma vasta cabeleira. Esse pensamento me consola e até me encoraja a proclamar, na surdina: “Vão-se os pentes e fiquem (ainda que ralos) os cabelos!”.

Visita de aniversário