quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Por que as mulheres vão mais ao médico do que os homens

Reportagem de “Veja” mostra que as mulheres vão mais ao médico do que os homens. Dá para entender as razões:


1) geralmente, para se conseguir a consulta, é uma novela;

2) o grande número de pessoas na sala de espera rende uma boa fofoca;

3) na saída, sempre se tem que comprar alguma coisa.

domingo, 7 de novembro de 2010

Dilma não é "presidenta"

Esperava-se que, depois de Lula, a língua portuguesa fosse mais bem-tratada. Já bastavam os suplícios que ele infligiu ao idioma durante seus oito anos de mandato. Mas parece que com Dilma não vai ser muito diferente. Sua disposição em se chamar “presidenta” (que existe, mas é feio) dá a entender que ela será mais uma a despetalar a “flor do Lácio”.


Dilma associa a flexão do substantivo a reivindicações de gênero. Sendo a primeira mulher a presidir a nação, deseja que a vitória do seu sexo se espelhe no idioma. Para isso, acrescenta ao título do cargo que ocupa uma desinência forçada e antieufônica.

“Presidente” não é exclusivamente palavra masculina; pertence ao grupo dos substantivos comuns de dois, que servem para designar tanto o masculino quanto o feminino. Não há, pois, nenhuma limitação machista em aplicá-la a uma mulher.

Meu medo é que a moda pegue, e no futuro tenhamos de estender esse “a” brioso e feminil às designações que, sem nenhum ranço de preconceito, indicam as várias funções exercidas por mulheres neste país. No rastro de “presidenta” vão então aparecer as agentas, gerentas, assistentas, atendentas, superintendentas... Quem aguenta?!

domingo, 24 de outubro de 2010

Olho neles

“Tropa de Elite 2” se propõe a mostrar o que está por trás da corrupção policial, tomando como exemplo as milícias que agem nos morros e subúrbios do Rio de Janeiro. O motivo da deterioração ética da polícia não é a índole doentia nem o baixo contracheque dos soldados; é a organização político-administrativa que lhe serve de suporte -- o chamado Sistema.
A palavra Sistema, por sua abrangência um tanto abstrata, anda meio fora de moda. É tudo e é nada, ao mesmo tempo. Um dos méritos do filme de Jose Padilha é dar nome aos bois, ou melhor, às piranhas e tubarões que são parte dele.
Com uma clareza quase didática, o roteiro mostra que a violência das milícias é reflexo de uma viciada estrutura de poder. Alimenta-se da ambição dos políticos, que para se eleger não respeitam os limites entre o lícito e o ilícito. As milícias são apenas uma peça (talvez a mais visível) de uma engrenagem cujo comando transcende os quartéis.
O capitão Nascimento descobre isso devido a uma operação malograda que comandou, na qual um dos representantes dos Direitos Humanos constata o assassinato de um preso. Punido com a transferência do Bope para a Secretaria de Segurança Pública, ele passa a conhecer bem o funcionamento dessa instituição, que subordina as suas atribuições à missão suprema de reeleger o governador. Para isso vale tudo, inclusive roubar armas e atribuir a culpa aos bandidos.
Nascimento torna-se então um inimigo do Sistema, contra o qual arremete como um solitário herói romântico. Sua indignação aumenta depois que o filho se fere num atentado em que ele, Nascimento, era quem devia perder a vida. A partir daí nada o cala, nada o modera, nada o detém. E sua voz termina se fazendo ouvir numa CPI da Câmara.
O estrondoso sucesso mostra a sintonia do público com as denúncias feitas pelo filme. Muito do que nele aparece, afinal de contas, pode ser visto com alguma constância em jornais e TVs. Ver ali retratada parte do nosso cotidiano político é uma forma de repúdio e de catarse. Serve também de alerta em tempos de eleições. É como se os milhares de espectadores quisessem passar um recado aos eleitos e aos que agora pretendem se eleger: “Cuidado, pessoal. Estamos de olho”.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Eleições na ponta da língua

Como tratar numa coluna de língua portuguesa o resultado das últimas eleições para o governo do estado? Bem, tudo começou com uma elipse; um dos candidatos se ausentou do debate promovido por uma importante rede local de televisão.
Certamente lhe disseram que certas ausências, por evocar a pessoa sem lhe explicitar a dimensão física, dão mais prestígio do que a simples presença. Faltar é crescer na lembrança, fazer-se presente na imaginação -- e aqui chegamos à metonímia, que é um tropo mediante o qual se designa alguém, ou alguma coisa, pela indicação de elementos capazes de evocá-los. Tudo naquela noite -- a começar do lugar vazio -- faria lembrar o faltoso.
Essa é uma interpretação. A outra é a de que os marqueteiros do candidato o convenceram a não comparecer porque ele já estava praticamente eleito. E aqui chegamos a um aparente paradoxo: como alguém que tinha larga vantagem nas pesquisas perde para o segundo colocado? Uma vez que isso põe em xeque a eficiência dos institutos de pesquisa, propõe-se que daqui em diante eles mudem a metodologia. Em vez de a margem de erro ou acerto ficar em dois pontos percentuais, ela deve saltar para entre 10 e 15! Assim nenhum instituto vai falhar nem os candidatos vão antecipadamente pensar que já venceram.
Outra alternativa é partir para a ironia, convocando o polvo alemão. Como ele acertou todos os resultados da Copa, inclusive a derrota do Brasil, não lhe seria difícil apontar um de seus tentáculos para o futuro eleito -- que de antemão poderia se considerar “escolhido pelo polvo”.
Há quem discorde de que Ricardo Coutinho ultrapassou José Maranhão porque este se ausentara do debate. Vê nessa tese uma hipérbole, um exagero, alegando que em algumas das últimas pesquisas Coutinho já antecipava a reação. Isso pode ter fundamento, mas a ausência do governador foi a justificativa mais comentada. Ele se fez defectivo, como certos verbos que não têm todas as formas e devem ceder a outros seu papel semântico (os mais conhecidos são “adequar”, “precaver-se” e “reaver”). A quem o candidato cedeu o seu papel? Ao maior oponente, que além de atacar sem contestação ainda se beneficiou do argumento da ausência (válido apenas, como ocorreu, quando a falta do interlocutor é voluntária).
Restou ao público amargar a antítese de um combate anunciado e que não se realizou. Isso é péssimo em tempos midiáticos como o nosso. Trocamos tudo por uma boa atração na TV, seja ela um filme, um show ou um capítulo da novela das oito. Melhor ainda quando o drama, em vez de personagens fictícios, é protagonizado por pessoas reais. Isso lhe aumenta a catarse, ou seja, a capacidade de nos aliviar de certas tensões da alma.
Muita gente não desligou a TV naquela noite pelo desapontamento de ter deixado de saber mais sobre a plataforma dos candidatos. Desligou por terem lhe frustrado a expectativa de um programa atraente, marcado pela logomaquia (duelo verbal). Como hoje somos telespectadores antes de sermos eleitores, houve quem não perdoasse o ludíbrio e procurasse traduzir isso no voto. Mas vem aí o segundo turno, digo, o segundo round (para encerrar com uma metáfora). E desta vez ninguém vai deixar o ringue vazio.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Nova entrevista com Propinildo Caixadois

Propinildo Caixadois, para quem não se lembra, é aquele primo de Justo Veríssimo que se elege deputado há várias gerações. Ele já perdeu a conta de quantas vezes se candidatou (mas não de quanto ganhou durante os mandatos) e vai novamente pleitear uma vaga no Legislativo.
Conversamos na sacada da sua nova cobertura de cinco quartos, todos suítes, inclusive o da empregada (“É preciso tratar bem os pobres.”). O apartamento foi caríssimo, e ele não sabe se conseguirá quitá-lo (“Isso vai depender da vontade do povo...”). Começo a entrevista:
- Deputado, qual a sua filosofia de campanha?
- Como ninguém ganha estas eleições sem alguma ligação com o atual presidente, meu marqueteiro procurou manter o apelo socialista do seu governo -- mas com uma ligeira adaptação. Transformou o “Tudo pelo social” em “Tudo pelas socialites”.
- Pelas socialites? E com que objetivo?
- Enaltecer o valor dessas bravas e caridosas mulheres. Os chás, almoços e jantares beneficentes que elas promovem melhoram as condições de vida de muita gente.
- Mas elas pouco se preocupam com o regime!
- Aí é que você se engana. Regime é a maior preocupação delas. A maioria vive em dieta. E não são poucas as que arriscam a vida em cirurgias de lipoaspiração para melhorar a silhueta.
- Qual a sua plataforma para a educação? O senhor é a favor, por exemplo, do ensino a distância?
- Plenamente a favor. Para mim, os alunos devem ficar o mais distantes possível do ensino. Livro demais prejudica a inteligência e faz pensar besteira.
- E quanto ao nepotismo? Qual a sua opinião?
- Essa prática tem sido mal compreendida e injustamente criticada. O nepotismo é uma virtude. Ele confirma o apreço que nós, políticos, temos pela família -- a começar da nossa. Todo o mundo destaca a importância da instituição familiar, mas estranha quando a gente nomeia um parente para trabalhar conosco.
- Mas o senhor nomeou vinte!
- Para evitar conflagrações internas. Ou você é a favor de brigas na família? Esse tipo de discórdia é o pior de todos, pois ocorre entre pessoas do mesmo sangue.
- Mas precisava colocar sua esposa na chefia de gabinete?
- Houve incoerência da mídia na interpretação desse episódio. Primeiro eles disseram que eu ia pouco ao Congresso, só “trabalhava” em casa. Depois criticaram a nomeação da minha mulher. Ora, quem melhor do que ela para supervisionar o meu local de trabalho?
- Por sinal, dizem que o senhor é muito bem-casado. O que o atraiu em sua esposa?
- Ela me conquistou com uma declaração.
- Ah!... Então sob essa casca de político escolado pulsa um coração romântico, que não resistiu a uma declaração de amor!
- Que de amor! De bens! Fui tocado pela relação patrimonial do pai dela. Essa foi a minha “flecha de Cupido”.
- E quanto à causa ecológica? O senhor pretende fazer alguma coisa para combater o efeito estuda?
- Na verdade, já estou fazendo. Diminuí a quantidade de cerveja semanal, pois notei que ela estufava meu estômago e levava à emanação de gases que prejudicam a qualidade do ar. Aqui em casa, pelo menos, todos passaram a respirar melhor.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Sobre pais e deuses

O escritor norte-americano Paul Auster apresentava um programa radiofônico em Nova Iorque, e um dia teve uma curiosa ideia: pedir às pessoas comuns que lhe enviassem histórias, depoimentos, comentários sobre aspectos ou experiências da vida que as impressionaram.
Muita gente lhe escreveu, e o material era tão interessante que o Auster decidiu -- depois de dar uma burilada -- publicá-lo em livro. O título, “Pensei que meu pai fosse Deus”, é o de um dos relatos mais pungentes da obra.
Vez por outra utilizo um desses textos para tema de redação. Os alunos devem escrever livremente, sem a preocupação de obedecer aos preceitos dos gêneros em que se exercitam para o vestibular e o Enem (resumo, carta argumentativa, artigo de opinião, resenha crítica etc.). Devem sobretudo comentar um evento que os tenha tocado, impressionado, levado a refletir sobre o mundo. O resultado sempre é bom; motivados emocionalmente, os estudantes escrevem melhor.
Transcrevo abaixo uma dessas redações. Dois são os motivos: o primeiro, meio maroto, é que hoje se comemora o Dia dos Pais; o texto do aluno (uma mulher) vai então me ajudar, sem mais trabalho, a sintonizar a coluna com a data especial.
O segundo motivo, bem mais sério e importante, é que a autora escreveu um depoimento sincero, corajoso e demasiadamente humano na forma de declarar o seu amor. Também não descuidou do aspecto literário; vale destacar a relação intertextual que ela estabeleceu com o colaborador do livro de Auster -- relação essa que já se manifesta no título da redação: “Pai, deus ou homem?”. Vamos ao texto:
“É difícil falar sobre algo que você não lembra. Mas quando esse ‘algo’ é um acontecimento que mudou completamente a sua vida, falar se torna mais fácil.
“Tinha pouco mais de um ano de idade, portanto, não tenho lembranças de quando ele nos deixou; fico apenas com relatos parciais de seus motivos e atitudes.
“O que deveria ser normal em nossas vidas, para mim fica só na imaginação -- reclamações por desobediência, castigos por má-criação e até ciúmes do namorado. Não paro de imaginar o quão diferente minha vida teria sido se ele tivesse ficado, se tivesse sido um pai e marido presente. Ouso dizer que, em 18 anos, apareceu poucas vezes, sempre com muitas promessas e com grandes expectativas em relação a nós, filhos.
“Muitos filhos veem seus pais como deuses, super-heróis, pessoas que nunca erram. Para mim, meu pai é apenas um mortal; um homem que errou bastante, que fez muitas escolhas ruins e que sempre esteve ausente. Porém, um homem trabalhador, que eu tanto admiro e amo.”

domingo, 8 de agosto de 2010

Questões transcendentes (e respostas nem tanto)

1) O que vem após a morte? O enterro.

2) É possível encontrar o significado da vida? É. No dicionário.

3) De onde veio o homem? Depende de para onde ele foi.

4) O que o leva a se sentir vazio? Não ter almoçado ou jantado bem.

5) Acha que “o inferno são outros”? Os outros não sei, mas mulher com TPM é.

6) O que mais o amedronta? Chegar ao outro mundo e não ver Deus.

7) É verdade que o sexo entristece? Triste é não conseguir fazê-lo.

8) O que acha da literatura mediúnica? Acho que lhe falta espírito.

9) Faria um pacto com o diabo? Não sei se ele ia aceitar.

10) Beleza é fundamental? O essencial para o amor não é a beleza, mas a compatibilidade. Não amamos o que é belo, mas o que nos gratifica.

Visita de aniversário