domingo, 16 de maio de 2021

O sol nasceu

 

Antigamente escrever bem era ser precioso, usar palavras pouco comuns, burilar a forma. Hoje o que se aprecia é o estilo sóbrio e descarnado, cujo modelo é Graciliano Ramos ou Dalton Trevisan.

         pelo século XIX, não se dizia “O sol nasceu”. Uma frase como essa era um resumo que o autor rascunhava e escondia, com medo de que o acusassem de falta de imaginação ou indigência verbal. “O sol nasceu” – precisa dizer mais? Hoje os manuais dos cursos de Comunicação dizem que isso basta. Para eles, a boa frase é a que privilegia substantivo e verbo. Adjetivos e advérbios são excrescências que debilitam a expressão.

         Mas no século passado essa frase magra precisava engordar. Os elementos nutridores eram justamente o adjetivo e o advérbio. “O sol nasceu” – e daí? O sol nasce todo dia. Esse fato corriqueiro, dito assim de modo seco e banal, não comove ninguém. Não basta a simples enunciação dessa verdade imorredoura para despertar no leitor as ressonâncias visuais e afetivas do nascer do sol.

         Então o cronista vestia o fraque (se estivesse em casa, botava um pijama de seda cheirando a alecrim), introduzia o charuto na piteira, sorvia longamente a fumaça e começava: “O astro-rei...”. Por que chamar o sol de “sol”? “Astro-rei” era bem mais expressivo, tinha a magnificência da metáfora.

         “O astro-rei, brilhante e sanguíneo...” Ah, os adjetivos. Bastaram essas duas palavrinhas para injetar no sol força e brilho. É impossível agora não visualizá-lo em todo o esplendor do dilúculo (que, para quem não sabe, é o nome que se dá ao crepúsculo matutino).  

         Satisfeito, prosseguia nosso cronista: “O astro-rei, brilhante e sanguíneo, rompe despudoradamente a linha do horizonte...”.  Agora apareceu o advérbio de modo. Nada como ele para acrescentar ao verbo matizes sensoriais. A frase incha um pouco, é verdade, mas estávamos longe do rigor anorético com que hoje se vestem ideias e modelos.

         E vinha o desfecho, que devia ser marcante: “O astro-rei, brilhante e sanguíneo, rompe despudoradamente a linha do horizonte e lança revérberos dourados na natureza estremunhada”. O cronista sorria, saboreando a animização presente na imagem final. O que faz o sol a cada novo dia senão restaurar as forças de uma natureza desfalecida em sombras? Esplêndido!

Depois de uma nova tragada, ele se dispunha a escrever a frase seguinte. Tinha paciência e sobretudo tempo para urdir aos poucos o texto. A nós, que vivemos o imediatismo de um mundo cibernético e globalizado, resta-nos dizer simplesmente: “O sol nasceu”. O que, para falar a verdade, hoje parece não interessar a ninguém.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

O vírus e a fé

 

          Hoje completo 70 anos, mas a culpa não é minha. Por mim eu teria ficado nos cinquenta, que é o limite entre o vigor e um presumível início de decrepitude. O tempo deve ter me trazido até aqui para mostrar o quanto a gente se modifica e permanece o mesmo com o avanço da idade.

           Se o menino é pai do homem, como disse Machado, o velho é um rebento pouco promissor da maturidade. Ele se enriquece em experiência mas, a partir de certo momento, também em ineficiência. Detém um saber que não lhe será útil para muita coisa, a não ser para se consolar do que não pode mais fazer.

          Há um ano, eu lamentava comemorar os 69 em tempos de pandemia. Não imaginava que aos 70 me depararia com uma situação idêntica – ou talvez pior. O número de mortes já era grande, mas se avolumou a ponto de abarcar amigos e conhecidos. O que foi feito nesses 365 dias para controlar a infecção? Pela forma como ela veio se propagando, muito pouco ou quase nada.

           No entanto, fiz a minha parte. Fiquei em casa, usei máscara, lavei as mãos e não me aglomerei. O que não pude foi impedir que o vírus se multiplicasse enquanto eu envelhecia mais um ano. Resistimos, ambos – ele como um espectro velado, eu como uma vítima em potencial. Agora que estou em processo de vacinação (esperando a segunda dose da Coronavac), torço para me livrar da sua ameaça agressiva e mutante. Mesmo isso acontecendo, não poderei repor o que o coronavírus me subtraiu de serenidade e alegria.

          Por que falar nele numa data como esta? Porque sem o vírus a comemoração seria diferente. Eu estaria, como em anos anteriores, confraternizando com as pessoas da minha afeição. Em prazerosa aglomeração familiar. O vírus nos impõe a distância e empurra cada um para dentro de si mesmo. Suprime-nos o convívio, que num dia como hoje é fundamental. Quisera estar ingerindo outro tipo de “dose”, mais inebriante e festiva do que a que deverá ser aplicada em meu braço. Mas, pensando bem, no atual momento esse ainda é o melhor presente que posso receber.

              Com o passar do tempo, o problema maior não é ter planos para o futuro. É ter futuro para pôr em prática os planos que a gente faz. Nestes tempos de pandemia e de querelas políticas que só retardam a erradicação do vírus, meu projeto mais caro é sobreviver. E poder, com fé, comemorar outros aniversários.  

quarta-feira, 24 de março de 2021

Uma dúvida socrática


          Sócrates é considerado o pai da filosofia. O seu reconhecimento de que criamos os deuses em vez de sermos criados por eles constituiu um golpe fatal no universo dos mitos. A partir daí, ficou mais fácil para o ser humano guiar-se pela razão.

        Mas Sócrates também ficou famoso por afirmar: “Só sei que nada sei.” Como alguém capaz de percepções tão certeiras sobre a mente humana poderia “nada saber”? Qual era a intenção do filósofo ao dizer isso?

        Certamente era mostrar que a condição básica para o conhecimento é se despojar das falsas certezas e desconfiar das verdades estabelecidas. Para pensar por si mesmo é preciso “partir do nada”, construir o próprio saber e, com ele, a própria visão de mundo. Isso não significa desconhecer a tradição; significa posicionar-se livremente quanto a ela.

        Os homens se distinguem pelos graus de verdade que podem suportar. As ilusões estão ao alcance de todos; a verdade, só de alguns. Cada um deve ter a liberdade e a coragem de construir a sua.

domingo, 7 de março de 2021

Mudança de curso

Ainda não sei por que me dispus a cursar Medicina. Filho e sobrinho de professores, sempre estive ligado ao magistério. Comecei dando aulas particulares de Português na casa dos alunos. Com isso juntei um dinheirinho, que me permitiu dispensar a mesada do “velho” e comprar meu primeiro carro – um Fusca usado. Fiquei exultante, pois com ele era mais fácil arranjar namoradas.  

A etapa seguinte foram os cursinhos pré-vestibulares, nos quais passei a atuar aos 22 anos. Nesse tempo eu lia muito, ensinava outro tanto e fazia o Científico no velho Liceu Paraibano. Não quis fazer o Clássico, pois nele não poderia estudar matérias como Química, Física ou Biologia – essenciais para o vestibular de Medicina. Não me sentia vocacionado, mas esse era o curso que todos faziam (os outros eram Engenharia e Direito). Envolvido com as aulas nos cursinhos, e preferindo ler autores literários a estudar os compêndios da escola, preparei-me mal para o vestibular. O resultado não poderia ser outro: uma retumbante reprovação.   

Aqui é preciso dar um corte e voltar aos idos de 1970. Um carro segue pela estrada que liga Campina Grande a João Pessoa. É noite. No automóvel estão dois homens colados ao radinho do veículo. São meu pai e meu tio, que esperam a divulgação dos resultados do vestibular da UFPB. De repente o repórter começa a ler a relação dos que passaram (hoje, com a internet, poucos têm ideia da tensão que isso representava). Vai lendo, lendo, e nada de aparecer meu nome. Quando a leitura chega ao fim, meu tio (que era padre) recrimina meu pai por não ter me matriculado num cursinho. Ele atribuía o fracasso a essa omissão paterna (de forma injusta, como se viu) e assume ali um compromisso: “Eu vou pagar o cursinho dele.”

Isso mudou tudo. Eu tinha por esse tio, além do afeto, um respeito por assim dizer eclesial. Se ele ia pagar meu cursinho, eu estava moralmente comprometido e não poderia decepcioná-lo. A consciência desse dever me transformou. Incutiu-me a responsabilidade de estudar, compensando o desleixo de anos anteriores. Depois de matriculado, fiz um programa de estudos e a ele me devotei com uma tirânica disciplina. Lembro-me de que não faltei a uma aula sequer. O resultado não poderia ser outro: fiquei em 7º lugar no vestibular geral (que englobava os cursos da área de Saúde) e em 23º na seleção específica para Medicina. Um feito para quem no ano anterior tinha sido reprovado.

Os primeiros anos de curso foram tranquilos, pois não exigiam muito. Era possível conciliá-los com as aulas de Português (eu não me desligara das atividades nos cursinhos). Matérias como Anatomia, Histologia ou Fisiologia pouco sugeriam a vivência de um futuro profissional da área médica. A situação mudou quando passei a cursar disciplinas que demandavam a ida aos hospitais (Semiologia, Técnica Cirúrgica, Clínica Médica e outras).

Dizem, com razão, que o aprendizado da Medicina se faz no contato com os doentes. É preciso estar diuturnamente junto aos leitos. Quem não se ajusta a essa rotina não tem vocação e deve abandonar o barco (antes que nele se afundem o pretenso médico e algum moribundo que tenha o azar de lhe cair nas mãos). Comecei a me compenetrar dessa verdade quando, no Hospital Santa Isabel, me vi incumbido de fazer anamneses e auscultas. Logo fui vendo que não eram aqueles sinais que eu nascera para interpretar. Preferia outros – menos tangíveis, porém mais afeitos à minha inteligência e, sobretudo, à minha sensibilidade.

Com o tempo, a crise foi se aprofundando. Era cada vez menor a vontade de ir ao hospital, mas eu continuava a fazer isso para não decepcionar a família (sobretudo meu pai, que me queria médico). Respirava quando saía dali para, ainda vestindo branco, adentrar a sala de aula e ministrar o pouco que sabia sobre língua portuguesa e literatura. Aguentei o quanto pude, até que um dia veio a bomba.

Não sei bem sei se essa é a metáfora, mas uso-a para figurar os disparos cardíacos ocorridos naquele dia. Lembro-me de que senti uma sensação estranha, um esvaimento parecido com o que antecede a morte – se não fosse a própria morte. Disse-me um colega que fiquei muito pálido e lhe pedi que medisse a minha pulsação: 140 batimentos por minuto. O assunto da aula era choque, e me lembro de ter ouvido o professor dizer: “Choque é má perfusão sanguínea”. Curiosamente, essa definição se enquadrava no que eu sentia. Faltava-me o sangue, e o coração parecia que ia parar. Encurtando a história: saí disparado da sala e ao hospital nunca mais voltei. Conforme me foi explicado depois, eu tinha sofrido um processo de somatização.  Resistira o quanto pudera, fazendo o curso a contragosto, até que meu organismo reagiu jogando no sangue adrenalina, cortisona e outras deletérias substâncias.

Quando cheguei em casa, comuniquei à família a minha resolução. Iria deixar o curso de Medicina naquele dia e me transferir para o de Letras. Olharam-me com alguma perplexidade, mas, curiosamente, o menos surpreso era o meu pai. Depois ele me confessou que não tinha dúvida de que essa mudança ia ocorrer. Sabia das propensões do filho, a quem ele (também professor de Português) muitas vezes transferira a clientela que o procurava.  

Trocar Medicina por Letras, ainda mais tendo iniciado o quarto ano, parecia àquela época uma prova de insensatez. Ouvi de colegas comentários do tipo: “Só faltam dois anos para terminar. Você vai morrer de fome.” Ou: “Letras é curso de moça.” Bem, de fome não morri. E quanto à minha orientação sexual, garanto que não sofreu nenhum abalo.   

          Vez por outra conto essa história a alunos meus que estão na encruzilhada do vestibular. Muitos sofrem com dúvidas sobre o curso que devem escolher, e acho que o meu testemunho pode ajudá-los. Encorajo-os a sondar honestamente o seu interior e seguir a vocação. Dentro de cada um de nós existe uma vozinha que chama (“vocação” vem de “vocare”, quer dizer chamar), conclamando-nos a não desprezar nossas aptidões. Se somos o que fazemos, fazer aquilo para o qual nascemos nos legitima como seres humanos. 

sábado, 13 de fevereiro de 2021

O complô

 

Não se sabia se aquilo era um fórum, uma assembleia ou um bate-boca de desocupados. O certo é que estavam reunidos uns tipos estranhos – umas figuras! A primeira a falar foi Metáfora, que desde o início, contra a opinião de Metonímia, autointitulara-se chefe do grupo:

Amigos, eu aqui sou a cabeçaou “o cabeça”, como queiram. Precisamos reagir. Basta de espoliação. O Escritor nos usa o tempo todo, e depois cabe somente a ele a glória. Ora, nós é que somos imortais. Queremos os nossos direitos.

– As figuras, unidas, jamais seremos vencidas... – entoou Silepse. Mal ensaiava o coro, no entanto, foi interrompida por Metonímia, que resmungou:

         – Não aceito o seu cajado, ó Metáfora. Como podemos escolher um líder que o tempo todo muda de sentido? O cabeça aqui devo ser eu.

– Mas que arrogância! – objetou Metáfora. – Até para dizer isso você me usa. “Cabeça” é metáfora. como sou mesmo importante?

Metonímia não se deu por rendida:

– O seu destino é ser como aquela ali – e apontou ao longe Catacrese, que desgastada e sem brilho jazia no olho da rua, ou seja, num lugar-comum.

– Mas sabe por que aconteceu isso com ela? – insistiu Metáfora. – Porque se deixou usar demais. Agora não impressiona nem comove. E será esse o nosso destino se não nos rebelarmos agora contra o Escritor. Que ele reconheça a nossa força e o nosso brilho ou, então, que fique de uma vez nos braços daquela outra – e apontou desdenhosamente Gramática, que a tudo assistia, impassível, num recanto da sala.

A essas palavras, um frisson percorreu a assembleia. Cochichos, uivos, gritos marcaram a adesão ao ponto de vista de Metáfora (o que fez Ironia, com um sorriso maroto, sublinhar a calma que havia no ambiente). Era preciso fazer ver ao mundo, com todas as letras, como elas sempre foram exploradas pelo Escritor. se atribuía a ele o mérito pelos textos que escrevia, mas de onde vinham o vigor e a beleza de suas produções? Vinham delas, figuras, que não mereciam do ingrato nem um registro de rodapé.

Cada uma quis então externar o seu ressentimento. Hipérbato foi o primeiro a falar: “De tal exploração cansei!”. Essa queixa só exacerbou o ânimo de Hipérbole: “Vamos prendê-lo e crucificá-lo!!”. Felizmente essa conclamação não sensibilizou a todos, esbarrando no bom senso dos mais ponderados. Lítotes preferiu comentar que o Escritor, de fato, não era muito honestoopinião compartilhada por seu pai, Eufemismo. Elipse nada disse, mas fez questão de dar a entender o que pensava. Perífrase começou, fleumática: “Colegas, antes de manifestar o meu juízo sobre o assunto desta pendência, o qual pretendo seja o mais isento possível, levando em conta não apenas os argumentos aqui apresentados por Metáfora, como também...” – mas o auditório, aos gritos de “Vamos aos finalmentes!”, não deixou que ela terminasse.

Anacoluto foi sucinto: “O Escritor, vamos dar cabo dele” – e esse apelo, conquanto ferisse os ouvidos de Eufonia (que se retirou, aborrecida, alegando questão de ordem), concorreu para que o auditório tomasse uma decisão: trazer o Escritor a plenário e pedir-lhe que, dali em diante, reconhecesse e informasse a todos de quem dependiam os méritos de seus textos. Ou isso, ou o abraço frio de Gramática.  “Quero ouvi-lo dizer com as próprias palavras que os reais criadores somos nós” – enfatizou Pleonasmo sob o aplauso geral, ao mesmo tempo que Sinestesia murmurava para si, amedrontada: “Ih!... Sinto cheiro de barulho.”.

Pouco depois o Escritor entrava na sala e ouvia as reclamações do grupo. Enquanto Metáfora lhe anunciava a sublevação e as opções que lhe restavam, ele podia ver do outro lado Gramática sorrindo e lhe mostrando as algemas – umas algemas simbólicas, é certo, disfarçadas num monte de regras que pareciam ao Escritor a morte da invenção e da ousadia.

– Seja o que for que vocês queiram, eu cedo – acabou por dizer. – De agora em diante, a glória do que eu escrever será de vocês. Mas tem o seguinte – seguiu-se uma pausa tensa, em que cada figura arregalou os ouvidos e os olhos: – De vocês quero também o sangue, os nervos, os sonhos e o medo de morrer. Sem essa vibração e sem esse temor, que são o combustível de tudo que escrevo, nenhuma de vocês me serve; nenhuma de vocês funciona – assim como um corpo não existe sem desejo e sem alma.

            Ouvindo tais palavras, Metáfora desabou. Literalmente.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Demissão exemplar

 

            Donaldo Trump apresentou durante vários anos o programa “O aprendiz” na NBC americana. Nele o ex-presidente avaliava candidatos que pretendiam vencer no mundo corporativo, medindo-lhes atributos como ousadia, planejamento, espírito empreendedor. Caso o candidato se mostrasse inapto em um desses quesitos, receberia do apresentador uma sentença que acabou virando um bordão: “Você está demitido!”.

        Há alguns dias a América demitiu Trump. O povo americano derrotou-o em eleições limpas e, tudo indica, pode impedi-lo de se candidatar em próximos pleitos. O que deu errado na estratégia do guru empresarial que, na gerência do governo americano, não foi capaz de revelar alguns dos atributos que costumava cobrar de outras pessoas?

        Li que a maior influência na formação do ex-presidente veio do seu pai. O velho detestava perder e inculcava esse temor nos filhos. Queria que cada um deles fosse um “matador” – metáfora que sugere a disposição feroz e inclemente de vencer mesmo ao custo de destruir os adversários.

         A lição paterna frutificou no menino Trump, que passou a cultivar a obsessão do triunfo a qualquer preço e custo. Essa mentalidade até pode funcionar no mundo corporativo, onde eventuais rasteiras nos adversários ficam circunscritas aos limites das empresas. Mas é extremamente arriscada no universo político, que exige de seus atores um amplo compromisso com a coletividade. Para medir a prática desse compromisso existe a imprensa, que tende a esquadrinhar com um faro de pitbull faminto o comportamento dos eleitos.

        A derrota de Trump não deixa de representar uma lição. Mostra que a luta pelo poder não é um vale-tudo no qual a mentira, o cinismo e a arrogância vigoram impunemente. O presidente derrotado sustentou até onde pôde a mentira de que houvera fraude nas apurações. Ou melhor, até onde ficou claro o objetivo dessa inverdade: incutir nos aliados uma indignação que os levasse a um protesto radical, como foi a invasão do Capitólio. Cego para permanecer no poder, Trump não percebeu o risco e a gravidade de tal sublevação, da qual resultaram tiros, depredações e mortes.

         Fala-se agora que, voltando aos negócios, ele deve investir num canal de TV. Ou comandar uma nova versão de “O aprendiz”, desta vez acoplando o programa ao seu propósito de voltar à Casa Branca em 2024. Essa possibilidade não deixa de ser irônica. Com que credibilidade ele vai dar conselhos às pessoas sobre como serem profissionais vitoriosos? Isso implicaria preparar também para a derrota, o que o ex-presidente mostrou que não sabe fazer. Ele perdeu feio e mal, possivelmente sepultando uma carreira que poderia ter continuidade caso o fracasso fosse encarado como um acidente de percurso. A empáfia e a cega obstinação pela vitória não o permitiram enxergar isso.

          O ex-presidente se mostrou pouco resiliente  (para citar um conceito caro aos gurus da autoajuda) e destituído de visão estratégica. Além disso, por arrogância e arrivismo, não hesitou em atropelar princípios éticos e valores tradicionalmente caros ao povo americano – como a democracia. Essa mistura de ambição e desrespeito acabou transformando-o num “matador”, sim, mas de si mesmo.

sábado, 2 de janeiro de 2021

Um brinde aos sobreviventes


                Sempre que vai um ano e vem outro, é comum refletir sobre o que se viveu e fazer planos para o futuro. O tempo, afinal, existe para isto: levar-nos a esquecer as frustrações pelo que não deu certo e nos estimular a fazer novos planos.  Não há dúvida de que no atual momento, com o vírus circulando por aí, as metas vão encolher bastante. Como projetar viagens não sabendo se será possível realizá-las? Como programar festas, de aniversário ou do que for, se os epidemiologistas continuamente nos alertam sobre o risco das aglomerações?

        A luta contra a pandemia está sendo difícil porque nem todos estão interessados em colaborar. Se estivessem, abdicariam um pouco dos próprios interesses em benefício do bem comum. Por que não fazem isso? Talvez por se acharem “imortais”, ou pensarem que estatisticamente têm poucas probabilidades de ser acometidos pela doença. Como se ela só atingisse os outros... É o velho egoísmo triunfando sobre as nossas ralas propensões altruístas.  

      2021 vai ser o ano da vacina. Ou das vacinas, pois haverá muitas, com diferentes níveis de eficiência para as distintas faixas da população. O vírus não se extinguirá sem que em nosso organismo proliferem os anticorpos capazes de devorá-los. Curiosamente, ainda assim há quem se oponha a esse inestimável recurso da ciência – por ignorância, birra ou (o que parece mais comum) posicionamento ideológico. Chega-se ao ponto de desejar o fracasso de quem se empenhe em importar um tipo de vacina que tenha mais eficácia na cura da doença.

        O réveillon é também sinônimo de Carnaval, mas fica difícil antecipar uma folia que não vai se prolongar em fevereiro. Principalmente se a gente se lembrar de que, no período carnavalesco passado, foi o vírus quem fez a festa. A tendência (pelo menos para os prudentes) é ficar em casa abraçando os parentes próximos, com os quais se tem a certeza de não correr riscos. Haverá em tudo isso algo de sombrio, claro. É grave e penoso meditar sobre o tempo quando paira no horizonte a ameaça de um vírus letal. Ele é uma sombra que só irá se desfazer quando a vacina começar a produzir os seus efeitos.

        A vida é um processo de ajustamento contínuo às circunstâncias. Chegamos aonde chegamos na escala evolucionária devido à nossa ilimitada capacidade de adaptação. O ser humano se adapta a tudo, pois o instinto de conservação o impulsiona a ir em frente. Mas “ir em frente” não significa necessariamente evoluir. Pode significar, como no atual momento, apenas sobreviver. À meia-noite do dia 31, brindaremos sobretudo à nossa sobrevivência num ano em que tantos se foram.

Visita de aniversário