terça-feira, 28 de março de 2023

Cala-se o Menestrel Maldito


 Ele era um grande crítico dos costumes e sobretudo da política do Brasil, com suas deformações e vícios — o maior deles, a corrupção. 

Era também um cantor sensível da figura feminina. Suas modinhas, que lembram os menestréis do Medievo, têm um lirismo terno e romântico. 

Satirista impiedoso, via no humor o recurso mais eficiente para ridicularizar os medíocres e mal intencionados. 

Não poupava a si mesmo da ironia, conforme cantou em famosa composição em que critica o próprio apêndice nasal — que, segundo ele, só não era maior do que a miséria do País… 

Ao iniciar um dos shows que deu por aqui no Theatro Santa Roza, por volta da década de 1970, reagiu a um morcego que sobrevoava o palco, dizendo: “Olha o passarinho…”. 

A plateia não conseguiu segurar o riso.

Era difícil resistir ao seu espírito, que animava um talento de múltiplas facetas. Por tudo isso ele deixa saudades. (Foto “O fuxico”)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

A folia de cada um


               Sempre fui um folião enrustido. Como tinha dificuldade de aderir à folia, a família e os amigos me consideravam anticarnavalesco -- o que não é verdade. Brinco por dentro, com uma espécie de euforia espiritual. Pode parecer contraditório falar em espírito a propósito de uma festa que celebra a carne, mas a contradição é apenas aparente. Carne e espírito são no fundo uma coisa só. O desejo é físico, mas pode se sublimar, e nesse caso a alma se funde com o corpo.  Freud que o diga.  

         Carnavalescos como eu têm dificuldade de cair no samba, no passo ou no frevo. Gostam mais de olhar, imunes ao tumulto dos clubes e das ruas.  São diferentes dos que rejeitam o Carnaval com o argumento de que nessa ocasião o homem se animaliza. Animal ele nunca deixou de ser – um animal soterrado por séculos de civilização. A festa é o meio de deixar emergir a “fera” aprisionada. Ou isso, ou a neurose, a psicose e outros males a que o progresso nos conduz. É preciso vez por tirar a máscara de bons moços.   

         O carnavalesco enrustido compreende a necessidade de liberar o que há em nós de instintivo. Não só compreende como sente um pouco de inveja dos que fazem isso sem inibições, entregando-se sem reservas à alegria. O que ele tem não é moralismo, é pudor, cuja manifestação visível é a timidez. Ao perceber isso, os outros o provocam e às vezes o humilham.

Não adianta. Nada o faz balançar o corpo, nem mesmo os acordes iniciais de “Vassourinhas" (essa música sempre me pareceu um dos maiores símbolos do Carnaval pelo seu poder de contagiar as massas; nos clubes ou nas ruas, quando tudo parece monótono, ela sempre dá alguma voltagem à animação). 

         A tendência do enrustido é ver o Carnaval como nostalgia. Nostalgia do presente, pelo momento que escapa, e a óbvia nostalgia do passado, pela lembrança de outros carnavais. Na sua imaginação, eles eram melhores do que os de hoje.

É como se naquele tempo não houvesse tanta agitação ou maldade e fosse possível brincar sem maiores riscos. As mulheres pareciam mais pudicas; e as músicas, cheias de um romantismo que convidava aos devaneios de um grande amor (mesmo que esse amor, como diz a letra da canção, desapareça com a fumaça). Para o nostálgico, que é parente do melancólico, tudo que se distancia da realidade é melhor.

         Crença ilusória. Os Carnavais do passado não são diferentes dos de agora. Cada época imprime à festa a sua marca, mas o significado profundo permanece o mesmo. Quando eu era menino, costumava ouvir relatos de mortes nos salões devido aos porres de lança-perfume; ou de agressões, provocadas por ciúme, que terminavam em assassinatos. Sob o aparente romantismo latejava a febre das grandes paixões, potencializadas pela música e as drogas.

Vou assistir à festa pela televisão, de olho também na crise que o País atravessa. Espero que ela não tenha a força de inibir as pessoas que veem na festa a possibilidade de esquecer por uns dias o vandalismo nos Três Poderes e o morticínio dos ianomâmis. O País está marcado por escândalos como esses e por outras chagas, como a intensa desigualdade social e a violência contra as mulheres. É preciso uma dose grande de esquecimento e alegria para depois, com a lucidez possível, enfrentar o que vem por aí.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Humor e velhice


                Fala-se que, na velhice, a vida perde a graça. Discordo. Quem perde a graça é o velho, não a vida, que sempre está aberta a quem quer desfrutá-la. Uma das formas de evitar que a graça se perca, mesmo sendo avançada a idade, é cultivar o humor.

  O bom humor diante das limitações que a idade impõe é uma forma de resignação ativa. Existe a resignação passiva, que leva à tristeza e a uma espécie de submissão ressentida aos percalços da idade. Não é essa a que o humor propicia, pois quem ri da própria condição mostra que não se submeteu a ela.

O riso não apenas “castiga os costumes”, conforme a expressão latina; não é só um instrumento de crítica social e um recurso para transformar as instituições. Ele também constitui um meio de aferição das carências individuais. Concorre para que o indivíduo tenha a exata medida do seu valor e, sobretudo, reconheça suas fraquezas e impossibilidades.

Rir de si mesmo é um gesto grandioso porque vai de encontro ao egoísmo e à presunção de superioridade sobre os outros. Só os grandes espíritos são capazes disso, pois não temem se ver como verdadeiramente são, quer dizer, sem as máscaras com que normalmente atuam na sociedade. “Atuam” é bem o termo, pois o convívio com as outras pessoas tem muito de representação. E ninguém representa o que é, mas sim o que pensa ou deseja ser.

Rimos do absurdo de certos comportamentos, como o de se deixar filmar vandalizando a sede dos Três Poderes; da hipocrisia dos que no púlpito pregam virtudes, mas na prática são capazes de atos extremos como assassinar alguém; dos que falsamente invocam a pátria e a família para conquistar o poder. O riso atesta um descompasso entre o propósito e a feitura, a expectativa e o fato, a visão do mundo e o que o mundo realmente é.

Fala-se que os humoristas são tristes, o que em nada surpreende. Se escolhem o humor, é porque há nele a percepção da impotência humana para mudar o que a vida tem de insuficiente e frustrante. Os humoristas são os primeiros objetos dessa dura percepção. Toda manifestação de humor é no fundo um gesto de piedade. Só que o humorista não tem o propósito de salvar nada nem ninguém; ri desse ingênuo propósito, que não nos redime da nossa condição.

            Aos velhos, para os quais tendem a se fechar as possibilidades de viver plenamente, o humor é uma espécie de volta por cima. Um meio de superar as limitações de um corpo no qual mínguam os recursos vitais. Nessa quadra da vida, propícia ao cultivo do espírito, o riso aparece como um saber que consola – com a vantagem de reduzir a pressão e aliviar as coronárias. É preciso desconfiar dos velhos que não aprenderam a rir.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

A verdade é de cada um

 

É preciso ter cuidado com as máximas que pretendem nos ensinar como viver. Elas são inevitáveis, pois o desamparo do ser humano leva-o  a continuamente procurar fórmulas que o conduzam à almejada felicidade. Mas nem tudo o que elas dizem devem, como se diz, ser tomado ao pé da letra.

          Por exemplo, li uma vez este conselho dado já não me lembro por quem: “A gente deve enfrentar o que mais teme.” Imaginei transformar esse conselho uma regra e tratei de o pôr em prática. Comecei então a pensar no que mais temo. Várias coisas me causam temor, mas fico em pânico só com a ideia de pensar em ser perseguido por um cão feroz. Um rottweiler, por exemplo. Perto do meu prédio tem uma casa onde existe um. Eu bem poderia me acercar do muro e deixar o cão se aproximar para tentar perder o medo.   Desisti. Tampouco me disponho a enfrentar outras coisas que me arrepiam, como andar à noite por ruas escuras levando o celular.

           Outra regra muito propagada, inclusive pelos praticantes da autoajuda, é a de que não devemos desistir dos nossos sonhos. Houve um tempo em que eu sonhava muito em ganhar na loteria esportiva. A fim de pôr em prática o conselho, passei a jogar toda semana. E não apenas isso; para demonstrar o fervor da minha esperança, aumentava gradativamente a quantia investida no jogo. Um belo dia (uso o chavão porque, de fato, aquele foi um dia belo), me dei conta de que a prática semanal já tinha me levado uma pequena fortuna. Parei. E não só: fiquei convencido de que a certos sonhos é preciso desistir.

         Outro ditado desconfiável é aquele segundo o qual “quem procura acha”. Não dou conta dos objetos que, depois de ter perdido, procurei muito e não consegui achar. Um deles foi um relógio que, não por que cargas d’água, deixei na beira da praia. Outro cujo extravio doeu bem mais foi um livro dado por uma namorada; esqueci-o no banco de um ônibus, e não adiantou voltar lá muitas vezes. Não consegui achar. Desconfio de que esse esquecimento concorreu para que ela, com o tempo, também viesse a me esquecer.

       Não são poucas as chamadas “verdades universais” que, apesar do nome abrangente, não se aplicam a todo o mundo. Até mesmo delas é preciso desconfiar. Fala-se, por exemplo, que Deus ajuda quem cedo madruga. Evite dizer isso a quem sofre de insônia e, por mais que tente, não consegue voltar aos braços de Morfeu depois das três da manhã. Se alguém com esse perfil ouvir que “Deus o ajuda”, vai lastimar pelo resto das noites a ironia.

         Sejamos então humildes ao invocar o conteúdo desses brocardos, que devem ser recebidos com desconfiança. Eles têm o seu grau de verdade, são inclusive bonitos de ouvir e parecem concentrar o suprassumo do conhecimento humano. Mas sabedoria é como roupa; por mais vistosa que seja, não se ajusta a todo o mundo. Tem que ser primeiro provada para se revelar (ou não) útil a quem a usa.  

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Lembrança da feira

 

Um dos textos de Rubem Braga de que mais gosto é sobre uma feira quo o cronista descreve da janela do seu apartamento em Copacabana. Quando ele o escreveu não se acrescentava o adjetivo “livre”, pois as feiras eram por natureza um espaço de liberdade. Tudo ali se vendia, tudo estava ao alcance do olho do freguês.

Braga mostra o que pode haver de belo naquele ajuntamento aparentemente banal. Destaca, por exemplo, uma mulher que sopesa um molho de hortaliças com um “experiente carinho”. E estende o olhar lírico ao conjunto de pessoas simples que, sem ambições de riqueza, vendiam suas mercadorias para sobreviver.

Das muitas vezes em que fui à feira com a minha mãe, guardo a lembrança das barraquinhas de frutas, legumes, doces, e do enfático apelo dos vendedores. Me chamavam a atenção os balaieiros, que corriam em direção aos possíveis clientes com seus enormes cestos na cabeça. Tinham um preço fixo para acompanhar os fregueses e conduzir as compras até as suas casas, mas era possível barganhar e conseguir um valor mais baixo.

Acertado o preço, eles seguiam as patroas por entre as barracas. O peso dos balaios ia aumentando, mas aqueles exímios equilibristas os mantinham na cabeça sem os tocar. Não havia desvio nem tropeço que fizesse as mercadorias caírem. Isso deixava admirada a criança que eu era.

   A feira tinha um quê de circense também pela variedade dos tipos. Nela havia os palhaços – vendeiros que chamavam os clientes com ditos engraçados – e os contorcionistas, que apertados em suas barracas apregoavam a qualidade dos produtos.  

Hoje ainda há feiras, mas não com o prestígio de que desfrutavam antigamente. Elas foram suplantadas pelos supermercados, cuja variedade de ofertas, a assepsia das instalações e a ordem na apresentação das mercadorias trouxeram comodidade ao fastidioso exercício de ir às compras.

É pouco provável que o velho Braga fizesse uma crônica sobre os supermercados. Eles se impuseram pela praticidade e são uma conquista inevitável da vida moderna, mas lhes falta a liberdade que as feiras ao ar livre propiciavam. Se protegem do sol e da chuva, tiram às crianças o prazer de circular por caminhos imprevistos e às vezes se deparar com os tipos mais estranhos.

Sou um adepto da modernidade e considero o supermercado um avanço (nada mais tolo do que ir de encontro ao progresso), mas em nenhum deles encontro o prazer que eu tinha, por exemplo, ao surpreender um vendedor de roletes ou algodão doce e pedir à minha mãe que os comprasse para eu saborear ali mesmo.

A feira, como a praça, é do povo. E se não tem condores, como o céu do poeta, tem passarinhos e outras aves que encantam os meninos. Tem o cheiro das frutas e o vozerio do povo. Tem enfim a diversidade social, que nos faz perceber melhor o pulsar da vida.

domingo, 1 de janeiro de 2023

Estrelas dançarinas

A Copa que o mundo vem acompanhando demonstra o fascínio que o futebol exerce na maior parte das pessoas. Não por acaso, ele é conhecido como o esporte das multidões. A televisão tem sido pródiga em mostrar a euforia (ou o abatimento) das torcidas em países de vários continentes. Não há dúvida de que seus habitantes veem os jogadores como guerreiros a quem se incumbiu a tarefa de representar a pátria.  

Concorre para tal interesse a própria natureza desse esporte. Dizem que o futebol não tem lógica, mas sempre aparece uma razão para um time ganhar ou perder. Logo, se existe uma relação de causa e consequência, há lógica. A crônica esportiva confirma isso. Ela pode enfatizar as qualidades de um time durante a partida, mas se ele perder logo os comentaristas encontrarão uma justificativa para a derrota. Em resumo: a lógica do futebol está no gol. Como na vida, o que importa é o resultado. 

Se o que conta é a meta, o objetivo, o futebol deveria se caracterizar como um esporte pragmático, no qual a fria tática prevalece sobre o improviso. Mas curiosamente não é assim. Nesse esporte conta muito o valor individual, que se mede pela capacidade de o atleta driblar, dar “lençóis”, meter uma “caneta” no adversário.  O drible é o show à parte, a negaça que torna mais atraente a conquista.   

Ninguém encarnou isso melhor do que Garrincha, que fez do drible a sua marca registrada. Muitos iam aos os estádios só para vê-lo entortar os adversários. Com ele o futebol se jogava direito por pernas tortas.

Conta-se que certa vez fintou vários adversários, e ao chegar diante do goleiro recuou alguns metros. Teve então que refazer os dribles até se deparar de novo com o “guardião da meta” e novamente recuar. Só na terceira investida consumou o ato, empurrando a bola para o fundo das redes. Ao final da partida o técnico lhe perguntou por que ele não tinha feito o gol logo da primeira vez, já que podia ter sido desarmado e perdido a oportunidade de empatar o jogo. Mané então lhe respondeu candidamente: “É que o goleiro não queria abrir as pernas.”

 Para ele não bastava o resultado, mesmo sendo isso que decidia a partida. Contava também, ou sobretudo, a forma como se definia o placar. Ou seja: contava o estilo. Associar a prática à beleza, que se revela por um estilo, é a principal característica da arte. Garrincha era por excelência um artista da bola.

Fala-se que o futebol se tornou “científico”, segue esquemas predeterminados por técnicos que ditam o movimento dos jogadores. E que nesse contexto um Garrincha não teria vez. Será isso verdade? Quem acompanhou a atuação de atletas como Vinícius Jr. ou Richarlison, que faziam embaixadinhas com a cabeça ou envolviam em “lençóis” precisos os adversários, viram neles uma reedição do espírito do Mané.

A arte desses dois atletas foi uma vitória de Dioniso sobre o rigor apolíneo inscrito nas regras de bem atuar.  Sem esquecer a eficiência, eles fizeram da bola um brinquedo que diverte e encanta. Como se não bastasse, coroavam a feição dionisíaca do seu desempenho com uma saltitante coreografia, fazendo-se “estrelas dançarinas” na simétrica constelação do futebol. O fato de o Brasil ter sido desclassificado não invalida o espetáculo que eles nos propiciaram.

Visita de aniversário